sábado, 26 de junho de 2010

Twitter, a vuvuzela da Internet





















Pássaro-símbolo do Twitter

Já faz quase um mês que eu resolvi aderir àquilo que a Veja chamou, com muita razão, de "a vuvuzela da Internet", em virtude da feroz campanha orquestrada contra Galvão Bueno, que aconteceu há alguns dias. A Veja chamou o Twitter de "a vuvuzela da Internet", por se prestar à "amplicação do nada". Eu resolvi escrever este post depois que li no site de um amigo meu que o Twitter está promovendo a campanha "um dia sem Globo". Eu, sinceramente, sou contra tais campanhas. A Globo não oferece muita coisa boa, é verdade, mas penso que podemos gastar o nosso tempo com coisas mais interessantes e produtivas, do que nos engajarmos em campanhas deste tipo. Pois bem: depois de quase um mês no Twitter, resolvi aqui postar algumas primeiras impressões que tenho sobre tão poderoso recurso.

A primeira e talvez a principal, é que o Twitter é a tecnologia-símbolo da pós-modernidade. Não é à toa que o seu símbolo é o pássaro: leveza, agilidade, fluidez. Características da pós-modernidade segundo David Harvey. Mas a coisa é um pouco mais simples: o Twitter, se nós formos prestar atenção, nada mais do que um simples diário virtual, no qual os seus usuários podem postar mensagens curtas (chamadas "twitts"), que possuem até 140 caracteres (menos que as mensagens de celular - as chamadas sms - que podem possuir até 160 caracteres), sobre o que estão fazendo. Postando o que pensam, o que sentem e o que fazem, virtualmente, a cada segundo, as pessoas se iludem de conseguir o que buscam a todo instante: atenção!

O Twitter é como Deus. No hipertexto do espaço virtual, é onisciente, pois todo mundo pode, potencialmente, saber tudo; é tambem onipresente e onipotente (como revelou de forma tão evidente a campanha contra Galvão Bueno). O Twitter é o símbolo perfeito do estilhaçamento dos afetos, da instantaneidade das comunicações, da falsa multiplicação dos vínculos. O Twitter conseguiu e muito superar a barreira dos 5000 seguidores  imposta pelo Orkut. É impressionante observar o avanço do estilhaçamento de vínculos: enquanto no Orkut, as pessoas conectadas são chamadas de "amigos", o Twitter se limita a chamá-los de "seguidores". Enquanto uma pessoa famosa tem no Orkut uma média de 5000 "amigos", no Twitter, a Lady Gaga, por exemplo, tem mais de 4,5 milhões de "seguidores" que acompanham o seu dia-a-dia. Não é à toa que ela é, junto com o Twitter, a personagem símbolo da pós-modernidade.

Mas eu não sou pessimista. Não sou contra o Twitter. Para mim, ele é mais uma possibilidade da expansão de nossas presenças no espaço hipertextual. Mas não consigo deixar de analisar a erosão (cada vez em estágio mais avançado) da humanidade no que se convenciou chamar de pós-modernidade: o derretimento das certezas modernas alcançadas pelo Iluminismo e a sua progressiva, contínua e avançada substituição pelo nada. Por isso, o problema não é o Twitter. Ele é somente a vuvuzela. O amplificador. O problema é este nada crescente que toma proporções gigantescas, e como um câncer terrível, ameaça nos devorar.

Estamos no meio do "inferno dos vivos", como disse Ítalo Calvino, em Cidades Invisíveis, onde aponta também a solução:

"O inferno dos vivos não é uma coisa que virá a existir; se houver um, é o que já está aqui, o inferno que habitamos todos os dias, que nós formamos ao estarmos juntos. Há dois modos para não o sofrermos. O primeiro torna-se fácil para muita gente: aceitar o inferno e fazer parte dele a ponto de já não o vermos. O segundo é arriscado e exige uma atenção e uma aprendizagem contínuas: tentar e saber reconhecer, no meio do inferno, quem e o que não é inferno, e fazê-lo viver, e dar-lhe lugar." 

Anteontem, fui visitar um tio meu, que está com câncer. Depois, fui ao shopping com meu irmão e comecei a conversar. O desafiei perguntando a ele qual  era o sentido de todo aquele sofrimento, inclusive dizendo a ele que se aquilo tudo não tiver sentido, eu era um idiota. Diante do meu irmão, que me dizia "eu não sei", e "eu prefiro não acreditar em nada", percebi o tamanho do desafio que nós, cristãos, temos diante de nós: tornar persuasivo o nosso reconhecimento dAquele que venceu a morte. Eu só pensava assim: "mas aqui, para o meu irmão, eu não posso somente repetir o nome de Jesus! Como ele pode reconhecer Cristo?" Ali eu entendia que a primeira coisa era a minha própria conversão. Eu só consegui ficar diante do meu tio porque no canto do meu olho tinha o padre Aldo com os seus doentes, tinha o abraço que eu recebi da Vicky, em Nova York, há mais de um ano.

E com esse abraço eu consigo enfrentar tudo. É a partir deste abraço que eu olho para o Twitter e para o desafio ao qual ele me lança. Porque esse abraço é a prova da Ressurreição. Como a própria Vicky disse "eu sou a prova da ressurreição". Hoje, eu posso dizer o mesmo de mim. Observando este mundo em ruínas da pós-modernidade, se eu mesmo não afundo com ele, é porque só pode ter uma força que me sustenta. Com certeza. Senão, eu acabaria indo com a voragem terrível do nada, representada de forma tão perfeita pela Lady Gaga! É por isso que eu quero estar no cyberespaço, como o papa nos pede a nós, católicos! Nos pede inclusive entrando no Twitter, no Facebook, e comprando espaço no YouTube. Quero estar  dentro do Twitter, para que dessa forma o Twitter possa ser, ao invés da vuvuzela do nada, a vuvuzela do Infinito!

quarta-feira, 9 de junho de 2010

A coisa mais importante da vida




























Pico das Agulhas Negras, em Itatiaia (RJ)

Há alguns dias ouvi do meu grande amigo, o padre Julián de la Morena, uma daquelas frases que certamente nos acompanharão pela vida inteira. Lembro-me como hoje quando ele olhou para mim e me disse: "A coisa mais importante da vida é um amigo!" Na sexta-feira passada eu vivi uma experiência impressionante que tornou carne de uma forma única esta frase de Julián de la Morena: outro grande amigo meu, Cesco, me chamou para ir com um grupo de amigos escalar o Pico das Agulhas Negras, em Itatiaia, no Estado do Rio de Janeiro.

Esta escalada - uma coisa que eu sempre quis fazer - foi uma das coisas mais difíceis de toda a minha vida, mas foi precisamente ali que eu entendi de uma forma única o valor de um amigo, o valor de uma companhia, e mais ainda o valor de uma companhia guiada. Como não ficar grato pela amizade com o padre Marco, apaixonado pelo montanhismo que a toda se preocupava em saber como eu estava, me ensinar os passos, ou me dar a mão quando eu não conseguia subir? Ou ainda a companhia de Cesco, que várias vezes me disse "levanta e vai!", ou ainda a companhia da Silvana que organizou todo esse passeio?

Foi uma subida íngreme e extremamente difícil, saí com praticamente todos os meus músculos doloridos, mas eu estava contente, porque tinha superado um limite, atravessado as colunas de Hércules, como Ulisses, e aprendido muitas coisas nesta caminhada. Porque a montanha é como a nossa vida. Nossa vida é um caminho difícil, muitas vezes íngreme, áspero e frio, rumo a uma meta que nos dá uma visão maravilhosa. Muita gente pára porque vai só, se perde, ou não tem confiança, ou entra em pânico, como eu vi gente parar por medo ou pânico no meio do caminho. Só chegou até o topo quem estava em companhia e confiava no guia. Só quem arriscou seguir chegou.

Mas outra coisa que me dei conta nos últimos dias foi que, se a amizade é uma graça, é um dom do Mistério, também é fruto de um trabalho. Nestes últimos dias, tenho (por graça) passado para uma postura agressiva. Isso a montanha me ensinou. A procura por trabalho também tem ensinado. Levar em conta o próprio humano, reconhecer a própria pequenez nos leva a uma postura agressiva diante da realidade! Isso é uma coisa impressionante! Porque se eu sou livre, sou também responsável! Responsável diante do cosmos e da História! Não posso simplesmente sofrer as agressões que a realidade porventura pode me fazer, mas devo lutar com ela, ser agressivo, como Jacó que lutou com o Anjo no vau do Jaboque, que disse ao Anjo "não vou te largar enquanto não me abençoares!" Com a realidade minha postura tem se tornado assim e eu tenho pedido isso sempre em minhas orações, a graça de não me deprimir, mas lutar, guerrear! Como me disse Julián de la Morena: "É a guerra!" A guerra me deixa contente! Não é à toa que o que mais me entusiamou no estudo da História foi a Guerra da Reconquista (732-1492),  a partir da qual surgiram os Reinos da Espanha e Portugal, a nossa América Latina, e a minha própria vida. Eu mesmo não existiria se não se fosse a Guerra da Reconquista, por isso eu sou fascinado por ela! Depois da graça, a guerra! O primeiro trabalho é a construção desta amizade! Ter visto a amizade entre a amizade entre Marcos, Cleuza e o padre Aldo tem me animado a isso! Ter almoçado com Cleuza e os associados da Associação dos Trabalhadores Sem Terra de São Paulo (ATST) e ver o milagre, esta amizade impressioanante, que já começa aqui e agora, neste mundo, também! Porque, se a coisa mais importante da vida é um amigo, a vida sem amigos, não é vida, mas somente uma pálida e triste imitação da vida!