sexta-feira, 20 de abril de 2012

A neomalvinização de Cristina






















Cristina Kirchner e Barack Obama

Ando lendo e acompanhando atentamente a situação na Argentina da presidenta Cristina Kirchner. Para além de todas as análises e nuances, é chocante este anúncio da reestatização da empresa YPC. Apesar de eu pensar que, nesta etapa da nossa história, o termo "empresa pública" seja uma contradição em termos, ainda mais em países que já iniciaram o trilho do desenvolvimento, como a Argentina, o capitalismo global tem as suas mazelas, mas ainda as tem mais o neo-populismo esquerdista que infesta o nosso continente. O que tem dado resultado de verdade, e que no Brasil podemos comprovar, é mesmo a democracia, a defesa das instituições, dos marcos regulatórios e o Estado de Direito. São estas bases que vão, paulatinamente, construir um país. Porque um país se constrói no dia-a-dia, no dia-a-dia das pessoas reais, concretas, de carne, osso, e dramas, de pessoas que pegam ônibus, enfrentam filas e pagam os impostos imbutidos. Não se constrói um país nem a História a golpes de retórica e nem de caneta. Muito menos com atos cênicos disfarçados de "propaganda política" e "defesa dos interesses nacionais".

A esquerda latino-americana estava meio "apagada" há alguns meses. Fidel, seu velho líder e mito histórico, está cada vez mais fraco, cada vez escreve menos no jornal El Granma, com seu irmão Raul fazendo reformas e caminhando cada vez mais em direção ao mercado (ou melhor, ao capitalismo de Estado de inspiração chinesa). Chávez enfrenta um câncer. O séquito de seus seguidores, Morales, Correa e Lugo estão também muito quietos; Lula também está afastado dos holofotes pelo tratamento de um câncer que lhe atingiu a laringe; já Dilma é "gerentona demais" para sobressair no cenário da histriônica esquerda latino-americana, na verdade está mais para uma esquerda à la Hillary Clinton, com todo o bojo que lhe advoga a aplicação da Teoria Feminista nas Relações Internacionais (que o diga as ascensões ao poder máximo da própria Dilma, de Cristina, Hillary, de Angela Merkel, e agora também o retorno de Condoleezza Rice - vulga Condi - na possível candidatura à vice-presidência dos Estados Unidos, somada à emergência da expressão "presidenta" no dicionário político contemporâneo). Cristina Kirchner, emerge, então, no ínterim deste cenário, promovendo uma verdadeira "neomalvinização da economia" (em referência aos trinta anos da guerras das Malvinas).

É mais fácil chamar a atenção da mídia promovendo bravatas e chocando a opinião internacional do que promovendo verdadeiras e necessárias reformas internas e arrumando a economia fragilizada por décadas de má administração. Tudo isso advogando o "nacionalismo". O "nacionalismo" (na verdade, neo-populismo) é a desculpa para tudo; Chávez emergindo como líder inspirador desta nova safra de líderes neo-populistas. A versão feminina de Hugo Chávez promove uma reestatização em seu país em nome dos "interesses nacionais da Argentina". Para o bem do próprio povo argentino, seria mais interessante que a presidenta aprendesse mais com a sua colega de gênero e vizinha geográfica, a presidenta Dilma Rousseff, do que com o coronel bolivariano. 

quinta-feira, 19 de abril de 2012

Você é um número

Extraído do livro Felicidade Clandestina, de Clarice Lispector

Clarice Lispector


Se você não tomar cuidado vira um número até para si mesmo. Porque a partir do instante em que você nasce classificam-no com um número. Sua identidade no Félix Pacheco é um número. O registro civil é um número. Seu título de eleitor é um número. Profissionalmente falando você também é. Para ser motorista, tem carteira com número, e chapa de carro. No Imposto de Renda, o contribuinte é identificado com um número. Seu prédio, seu telefone, seu número de apartamento - Tudo é número.
Se é dos que abrem crediário, para eles você também é um número. Se tem propriedades, também. Se é sócio de um clube tem um número. Se é imortal da Academia Brasileira de Letras tem número da cadeira.
É por isso que vou tomar aulas particulares de Matemática. Preciso saber das coisas. Ou aulas e Física. Não estou brincando: vou mesmo tomar aulas de Matemática, preciso saber alguma coisa sobre cálculo integral.
Se você é comerciante, seu alvará de Localização o classifica também.
Se é contribuinte de qualquer obra de beneficência também é solicitado por um número. Se faz viagem de passeio ou de turismo ou de negócio recebe um número. Para tomar um avião, dão-lhe um número. Se possui ações também recebe um, como acionista de uma companhia. É claro que você é um número no recenseamento. Se é católico recebe um número de batismo. No Registro civil ou religioso você é numerado. Se possui personalidade jurídica tem. E quando a gente morre, no jazigo, tem um número. E a certidão de óbito também.
Nós não somos ninguém? Protesto. Aliás é inútil o protesto. E vai ver meu protesto também é número.
A minha amiga contou que no Alto do Sertão de Pernambuco uma mulher estava com o filho doente, desidratado, foi ao Posto de Saúde. E recebeu a ficha com o número 10. Mas dentro do horário previsto pelo médico a criança não pode ser atendida porque só atenderam até o número 9. A criança morreu por causa de um número. Nós somos culpados.
Se há uma guerra, você é classificado por um número. Numa pulseira com placa metálica, se não me engano. Ou numa corrente de pescoço, metálica.
E Deus não é número.
[...]