quinta-feira, 1 de novembro de 2012

O desafio do Milênio

File:Frans Hals - Portret van René Descartes.jpg
René Descartes, o pai da Modernidade

Ao convocar o Ano da Fé, o Papa Ratzinger entra numa verdadeira batalha gnoseológica contra uma cultura que vem se assentando há cinco séculos, pelo menos. O marco dessa cultura é o Discurso do Método, de René Descartes, onde o autor propõe o princípio da dúvida sistemática como ponto de partida. Já que não é possível ter certeza a priori sobre as coisas, então devemos partir do princípio da dúvida sistemática para construirmos então as nossas certezas.

Todo esse movimento cartesiano foi uma busca da emancipação do homem da Igreja, o homem deveria "aprender a pensar por si mesmo", chegar à "maioridade". Tudo o que nós chamamos de "modernidade" foi a longa luta que o homem desenvolveu, ao longo de cinco séculos para libertar-se da tutela do Papa e da Bíblia.

A tragédia da nossa época é que filosofias como essas deixaram os círculos filosóficos e chegaram ao senso comum do povo, das pessoas. Ou seja, vivemos imersos numa cultura segundo a qual não é possível chegar a ter certezas e a maior evidência disso é a incerteza nos relacionamentos. Uma incerteza que gera a fragmentação e a liquidez pós-moderna, segundo a qual é impossível chegar a certezas.

No ínterim dessa cultura que hoje é hegemônica, o Papa lança o "Ano da Fé", e faz o desafio a todos sobre a certeza, e como chegar verdadeiramente a um conhecimento. A mim a coisa que mais me marca no acontecimento cristão é perceber a quantidade de pessoas que deram (e continuam dando) a vida por causa desse acontecimento. Me marca o tipo de certeza que essas pessoas têm acerca da realidade e do que aconteceu com elas.

Vivemos numa época em que para muitos a fé é uma palhaçada, uma superstição, ou um consolo para aguentar as durezas da vida. O Papa lança o desafio afirmando o contrário: a fé na verdade é um método de conhecimento, um método que se apoia numa testemunha. Apoiar-se na testemunha não é como pensou "Descartes" estar sob uma tutela, ou como pensou Kant, estar ainda na menoridade, mas é na verdade, tornar-se adulto, pois um homem torna-se adulto não por seus próprios esforços, mas apoiado no testemunho de outros homens adultos de que a vida vale a pena ser vivida. A crise atual de tanta gente é essa: faltam testemunhas que testemunhem a positividade da vida, de que esta é grande, bela e de que vale a pena ser vivida. Apoiar-se na testemunha é apoiar-me com todo o meu eu, inteligência e afeto, pois preciso reconhecer que a testemunha é digna de confiança. Isso não é estar sob tutela ou na menoridade, mas é humildade, a humildade que nasce da verdade, é reconhecer-se anão nas costas de gigantes, e sobre estas costas olhar a vastidão da realidade, do mundo e da História.