sábado, 12 de janeiro de 2013

A Ilustração e a desconfiança

Jürgen Habermas, último defensor do Iluminismo com Joseph Ratzinger, em 2004

Uma dos frutos mais impressionantes da Ilustração, mais do que a dúvida, é a desconfiança. Em 1784, quando Immanuel Kant escreveu o panfleto O que é a Ilustração, ele respondeu que a Ilustração era atingir a maioridade, sair da menoridade, libertar-se "da tutela". "Tutela" de quem? Tutela do Papa e da Bíblia. O que o filósofo defendia é que o homem não precisa de "a priori", ou seja, de "premissas", de "pressupostos", neste caso, os "dogmas" "impostos" pelo Papa (para os católicos) ou pela Bíblia (para os protestantes). Kant levou o princípio da dúvida exposto por Renée Descartes às últimas consequências, no afã de tirar o homem, e em seu lugar colocar a razão, o "puro pensamento" no centro do universo. Estava aberto o cenário para a eclosão da modernidade nas décadas seguintes: a razão foi finalmente entronizada como rainha do universo, e aquilo que não se enquadrasse em seus limites seria tido como irracional. Kant demonstra isso em seu "A religião nos limites da simples razão", quando tenta reduzir o fenômeno religioso (especialmente o cristianismo) a mera ética, e portanto, destrui-lo em sua categoria de acontecimento. Aquilo que a razão não consegue compreender é simplesmente descartado como uma "crença irracional", meramente subjetiva.

Essas teses não são meras discussões da filosofia, porque tiveram um forte impacto na política e na sociologia, e até mesmo na psicologia das massas. Em termos de psicologia, a consequência mais impressionante é o espalhar-se de uma desconfiança generalizada em tudo e em todos. Só damos crédito àquilo que entendemos com a nossa própria razão. O homem moderno inteligente não confia, é como um novo São Tomé, quer tocar com a própria mão, tem desconfiança até mesmo do pai e da mãe. Isso é desastroso para os relacionamentos, porque começa-se a entender o outro como uma ameaça, alguém que não se pode confiar, alguém de quem eu necessariamente tenho de me defender. O filósofo Jean-Paul Sartre cunhou a máxima que ficou famosa "O inferno são os outros". Como construir uma sociedade fundada sobre a desconfiança?

Em termos de política, verifica-se a consequência da Ilustração na retirada da fé no espaço público. Se a religião é algo meramente irracional, subjetivo, não merece espaço no espaço público, que seria o espaço da razão. Não nos damos conta, mas isso abre um espaço sem precedentes para a tirania e para o acúmulo de um poder sem precedentes por parte do Estado. Cícero, no seu livro Da República, disse que "a criação do Estado é a maior imitação de Deus que o homem possa fazer". Em A Fenomenologia do Espírito, o filósofo Hegel disse mais ou menos a mesma coisa quando afirma que "a plenitude da razão é o Estado". A sutileza desta posição é que ela, no afã de nos libertar da "tutela da religião" nos torna escravos dos detentores do poder, ou seja, daqueles que manejam o Estado. Se o Estado é a plenitude da razão, e a razão é o centro do Universo, aqueles que detêm o poder do Estado podem ditar livremente aos outros o que podem ou não deixar de fazer, podem moldar por si mesmos como bem entenderem o homem, e contam especialmente com os meios de comunicação nos dias hodiernos para atingir o seu intento.

O Estado sempre esteve em confronto com a religiosidade verdadeira, sempre tentou se imiscuir nos assuntos da religiosidade, sempre tentou perverter a religiosidade (muitas vezes tornando-a idolátrica ou até mesmo satânica), porque no fundo, o poder sabe que a religiosidade verdadeira, ou seja, o reconhecimento do Mistério, e o relacionamento com Ele é, no fundo, a última alternativa à tirania do poder sobre a pessoa humana. O poder sabe que o homem verdadeiramente religioso sabe quem verdadeiramente é a sua consistência, e que justamente por isso, torna-se verdadeiramente livre, mesmo no meio das mais terríveis opressões políticas.


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