sexta-feira, 7 de junho de 2013

O realismo cínico de Arnaldo Jabor

O jornalista Arnaldo Jabor


Anteontem eu li uma matéria de Arnaldo Jabor intitulada "O militante imaginário", publicada no Estadão, no qual ele enumera inúmeros problemas da realidade política brasileira, e atribui boa parte deste problemas a uma categorização sociológica que ele intitulou de "militante imaginário". Mais uma vez aqui se tenta solucionar a equação do mal, se tenta racionalizar o mistério da iniquidade. Combatendo a esquerda, este senhor comete o erro da mesma: querer encontrar "a equação do mal", que é mistério. Aqui vemos até onde chega a ideologia do racionalismo.  Segundo ele, o "militante imaginário" seria o conjunto de pessoas "de esquerda" que não se engajam na luta armada. Para além de todas as falsas análises sobre "a esquerda", me marcam na análise deste senhor o cinismo e a desesperança que ele gera.

Outra coisa que me impressiona do cinismo deste senhor, é que ele se traveste de "realismo". Porque existe um pseudo-realismo que torna-se pessimista, cético e cínico. Porque o racionalismo não consegue levar à esperança. Não basta enumerar todos os déficits da realidade, "o deserto do real", como chamou o filósofo esloveno marxista Zizek (parafraseando Eliot). Só se se admite um além, um imprevisto dá para ter esperança, dá para respirar. Me ajudou muito a entender isso quando ouvi a música de Cartola "Alvorada", onde ele canta a beleza do amanhecer no morro da Mangueira. A realidade, por mais dura e difícil que seja, sem negar nenhuma das misérias e dificuldades existentes, sem deixar de denunciar as injustiças, é bela. "É bonita, é bonita e é bonita", como canta Gonzaguinha.

Por que eu digo isso? Porque eu me sinto sufocado, sem ar, quando eu leio Jabor. Depois de enumerar todas as acusações, ele arremata com um "toque de gênio": "Deus os castigará". Aqui ele mata toda a categoria da possibilidade com relação à misericórdia. Aonde está esta sentença de Deus assinada "com firma reconhecida", como diria Vinícius de Morais? Eu acho que quando as coisas entram neste ínterim alguma coisa está errada: quem é este senhor para se julgar no direito de processar, julgar e condenar, sem nenhuma apelação, recurso, e o pior ainda: sem deixar espaço algum à misericórdia? O contrário de Arnaldo Jabor é "O auto da compadecida", de Ariano Suassuna: o juízo final sobre a realidade é a misericórdia, e só "será castigado" quem recusar esta misericórdia até o fim. Ou seja: somos nós mesmos que nos castigamos, Deus mesmo não castiga ninguém, Ele só ratifica nossa decisão, porque não se opõe à nossa liberdade, que Ele mesmo nos deu.

Arnaldo Jabor é cínico e vomita todo o seu cinismo e insatisfação neste artigo, matando a esperança de seus leitores. Existe, repito, um pseudo-realismo, que no fundo, é cético e leva ao cinismo. Não é possível respirar se você mata a esperança. Não é possível respirar se não existe espaço para o imprevisto. Qual é o problema desta análise jaboriana? É que ela esquece que existem mais coisas entre o céu e a terra do que supõe a nossa filosofia vã. É muito fácil enumerar todos os fatores que faltam, todos os déficits, mas isso não faz ninguém respirar. Difícil é reconhecer a positividade, o belo. Existe uma longa luta entre a desolação e a esperança. Mas por fim, seremos salvos pela beleza. O niilismo de Jabor não é a última palavra sobre o real.


Um comentário:

th.alves disse...

Prezado Dimitri Martins ,

Tutens uma transcrição da palestra de Bruno Tolentino Ainvenção da Ideologia(28 de julho de 2004)

Cordialmente,

Thaigo Alves