sábado, 7 de março de 2015

Porque sou contra o impeachment



Estamos na véspera do Dia Internacional da Mulher, que Dilma usará para defender o seu governo. Ao mesmo tempo, estamos a uma semana das manifestações que estão sendo organizadas pelas redes sociais pedindo o impeachment de Dilma Rousseff.

Desde sempre me declarei contra o impeachment. Algumas pessoas ficaram espantadas, outras perplexas, outras felizes, cada uma de acordo com a sua orientação política. Desde as comemorações à minha recusa a participar de tal ato às surpresas, a mim fica claro, patente, evidente e notório que o país está dividido. E dividido de uma forma péssima. Nas redes sociais, quais privadas pós-modernas, destila-se ódio e rancor, que vai parar nas ruas, e vê-se até amizades sendo rompidas por causa da senhora Rousseff. Eu creio que a situação já chegou num limite insuportável e insustentável.

Muitos vêm me alegar a incompetência para empichar a Rousseff do poder! Mas desde quando a Constituição exige que alguém seja "competente" para exercer o poder? A Constituição exige apenas que o candidato seja eleito, e isso a senhora Rousseff o foi! Com 3 milhões e meio de votos a mais que o segundo colocado! Outros vêm me alegar ladroagem, corrupção e coisas do gênero. Acontece que até o momento no qual escrevo estas linhas não há uma prova sequer contra a senhora Rousseff no escândalo do Petrolão.

O que está faltando então?

Falta, antes de tudo, um juízo claro.

Em primeiro lugar, construímos o Brasil não somente nas grandes ocasiões, como nas eleições de outubro de 2014, nas Jornadas de Junho de 2013, ou ainda na Manifestação de 15 de março de 2015, mas o construímos todos os dias, no nosso cotidiano, no "mundo da vida", diria o filósofo Jürgen Habermas.

Em segundo lugar, a divisão que se encontra no país é péssima para a convivência, pois sataniza, demoniza o outro, tornando impossível o diálogo e a construção do bem comum; pois, se o outro é algo completamente negativo que eu tenho que necessariamente destruir, como dialogar, como construir junto?

Dilma Rousseff e o Papa Francisco

Falta a Política com "P" maiúsculo, falta uma oposição real, falta um projeto de país. Os que querem simplesmente tirar a Rousseff, qual projeto têm para o país? Ou tal projeto se limita a achar que "tirando a Dilma ou o PT as coisas naturalmente voltarão para o lugar"? Mas tal coisa já foi pensada pelos militares no tempo do PC do B, e todo mundo já viu o resultado. Tal racionalização do mal é gnóstica e anti-cristã. Não há uma equação para resolver o problema do mal. Tal "solução" não virá de mais violência como tenho visto por aí. Tal solução só podemos encontrar num caminho de paciência e humildade, num caminho de diálogo e reconhecimento da positividade do outro. Só é possível trilhar um caminho assim se nos deixarmos antes vencer por um olhar misericordioso que nos abraça e perdoa, e permite olhar o outro, perdoar, dialogar e construir.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

A radicalidade do mal

O piloto jordaniano Muath al-Kasaesbeh
Eu estou absolutamente chocado com a morte do piloto jordaniano Muath al-Kasaesbeh. Quando a gente pensa que já viu tudo, eis que o Estado Islâmico coloca uma pessoa numa jaula, e a deixa com um rastro de fogo para ser queimada viva e oferecida em holocausto ao mundo em espetáculo. Na sociedade do espetáculo, oferece-se ao público um Big Brother satânico de vítimas sendo decapitadas, e agora queimadas vivas dentro de uma jaula. Isto é uma coisa simplesmente inominável. Tamanho horror midiatizado, espetacularizado, nem Adolph Hitler sonhou. Nem Guy Débord imaginaria que a sociedade chegaria a esse nível grotesco de espetáculo.
O que vi hoje, 3 de fevereiro de 2015, é nada mais do que "o mal absoluto", mal em estado puro, a banalidade do mal, como diria Hannah Arendt.
Boa parte dos jovens que estão hoje no Estado Islâmico saíram da Europa, da Europa que é niilista, como já dizia André Malraux em "A tentação do Ocidente": «Não há ideal a que possamos sacrificar-nos, porque de todos eles conhecemos a mentira, nós os que ignoramos em absoluto o que seja a verdade.»
Estes jovens, de uma forma absurda para nós, saíram do conforto que lhes é garantido pelo Welfare State europeu e se embrenharam no deserto da Mesopotâmia em busca de sangue, lágrimas, dor, horror e desespero... como os nazistas dos anos 1940 com as suas vítimas. Na falta de um ideal, que lhes é negado pelo Ocidente, perverteram completamente os seus desejos de felicidade, beleza, justiça, verdade, e hoje sacrificam-se no anti-ideal satânico da morte, do sangue, da dor, da violência, do choro e do desespero, gozando com a dor das vítimas agonizantes, tais como os carrascos mais bárbaros que a humanidade já teve notícia.
É absurdamente chocante, mas estamos diante da radicalidade do mal, estamos diante de um mal radical. Diante do mal radical, há que se fazer alguma coisa. A Beata Tereza de Calcutá já disse: "do jeito que as coisas estão, o maior pecado é não fazer nada". Me estarrece a inamovibilidade de alguns líderes. No final dos anos 1930, houve um grande homem, chamado Winston Churchill, que num determinado momento, decidiu começar a deter Hitler. Diante do avanço impiedoso de Adolph Hitler, Churchill decretou guerra à Alemanha, e enquanto a França caía, ele segurou as pontas, até que o ataque japonês a Pearl Harbor no dia 7 de dezembro de 1941, fez com que os Estados Unidos entrassem finalmente na guerra, decretando guerra ao Império Japonês, e ajudando a já combalida Inglaterra.
Algo há que se fazer. Estão esperando um novo Pearl Harbor? O que o Ocidente ainda espera para declarar guerra ao Estado Islâmico, e varrê-lo para a lata de lixo da História?