segunda-feira, 31 de dezembro de 2007

O anarquismo como grandeza do coração

Nos últimos dias, meu anarquismo ficou patente, através de alguns fatos particulares. Por mais que eu queira fugir dessa verdade, existem traços muito fortes do anarquismo em mim. Um deles é o ódio ao comunismo (que consegue ser, ao mesmo tempo, o maior crime do mundo- 100 milhões de mortos- e a maior escravidão da História, levando ao auge a padronização moderna), o outro é o meu cristianismo (basta lembrar que os cinqüenta primeiros papas foram assassinatos por não se subordinar ao jugo romano). De fato, independente desse ou daquele fator, meu ser carrega uma dose forte de anarquismo. Em que sentido? No sentido de reconhecer que o homem, ao perder sua liberdade, perde a sua dignidade de homem, e daí a não-aceitação de nenhuma instrumentalização de qualquer poder que seja, civil ou mesmo eclesiástico. Isso não significa niilismo, nem a ausência de reconhecimento da autoridade. Não acho, como os punks & cia. que tudo está uma merda e tem de ser destruído. Não é verdade, existe muita coisa boa no mundo, e que deve ser afirmada. Também não acho que a abolição em absoluto da autoridade seja um bem, pelo contrário, sempre necessitamos aprender a vida com alguém, alguém tem que ser autoridade para nós, a diferença, é que numa concepção livre, é o próprio sujeito que reconhece uma autoridade verdadeira, dado que esta se impõe, ao invés de se afirmar pela força. Posso ter traços anarquistas em minha pessoa (esse meu desejo de liberdade, por exemplo), mas reconheço que é preciso construir e não destruir. Quero usar todo o desejo que trago em meu coração por uma revolution, como canta a música What's up (1993), para construir, e não para acabar com tudo. Até agora, só uma amizade que eu encontrei, de pessoas que afirmam a positividade do real, me dá essa possibilidade, sendo esperança para mim, e para o mundo todo, neste início de século! Porque o anarquismo é uma grandeza de coração, é um fortíssimo desejo, que se não encontra correspondência, descamba no nada, na destruição e no non sense. E, hoje, só a Igreja afirma a possibilidade de continuar construindo. Como o papa disse, ao início do seu pontificado, em 2005: "Não tenham medo! A História- do mundo, mas a minha, pessoal também- tem um sentido"!

sábado, 29 de dezembro de 2007

Um tiro na democracia

Anteontem, não apenas a ex-primeira ministra do Paquistão, Benazir Bhutto, foi assassinada, mas a democracia recebeu um duríssimo golpe, não apenas nos países islâmicos, mas no mundo inteiro. Eu sou um democrata convicto. Eu acredito na democracia, defendo-a contra todos os seus opositores. Por quê? Churchill, num discurso, disse a economia de mercado era limitada, mas era o melhor que temos. Parafraseando-o, posso dizer que a democracia tem seus limites, mas é, de longe, o melhor sistema político que temos. Fora dele, o que temos, é a ditadura, a morte, a opressão. As ditaduras, na China, na Alemanha, na União Soviética, já mataram centenas de milhões de pessoas, para se afirmarem e continuarem no poder. A democracia significa liberdade. É o sistema mais digno do homem, porque este é livre, como afirmou Sartre, "está condenado a ser livre", portanto nenhum poder, seja ele qual for, tem o direito de se arrogar poder estar sobre ele. A democracia liberal, é a única que se aproxima desse ideal, porque as democracias "participativas" ou mesmo o anarquismo na prática não conseguem funcionar. A democracia liberal consegue de forma satisfatória absorver as limitações humanas, e essa é sua fraqueza frente a outros regimes, mas também é sua força, pois não depende de nenhum super-homem, que se ache superior aos homens, para levá-los "ao bom, ao belo e ao que há de melhor". A democracia é a prevalência do direito sobre a força, da lei sobre a vontade. A democracia é uma conquista da civilização, mudou a vida de bilhões de pessoas para melhor durante todo o século XX, porém é extremamente frágil, pois seus algozes a acusam de não implantar o paraíso na Terra. A democracia tem de ser defendida com todo o vigor, pois se não logrou (nem nunca prometeu, diga-se de passagem) implantar o paraíso na Terra, seus inimigos, o nazi-fascismo e o comunismo, quase transformaram o planeta num inferno e ceifaram a vida de 200 milhões de pessoas, em nome do bom, do belo e do que há de melhor!

sexta-feira, 28 de dezembro de 2007

A pós-modernidade como desejo do Fato

Uma das palavras mais comuns do dicionário pós-moderno é a palavra "acontecimento", evento, happening, événément. Poderíamos dizer também fato. Michel Foucault, no livro A Ordem do Discurso (na verdade, a compilação de sua aula inaugural do Collège de France em 02/12/1970), classificou o acontecimento como a corporificação do imaterial, portanto a emergência dos nossos desejos, das nossas ânsias. A pós-modernidade tem uma verdadeira ânsia de que algo aconteça, de que o novo, como canta Elis Regina, venha. Assistimos, na aurora do século XXI, ao retorno do desejo, o retorno daquilo que a modernidade destruiu. A pós-modernidade, como conta Jean-François Lyotard, é "a descrença em toda e qualquer metanarrativa", em outras palavras, significa o fim da ilusão de que o homem, por sua própria conta, como desejava o projeto de emancipação iluminista, iria realizar os mais altos ideais que carrega em seu coração, como a paz, a liberdade, a justiça, a felicidade. A pós-modernidade significa o fim da ilusão moderna. O desejo, porém, continua. A humanidade vive um momento terrível, de confusão e desespero. A modernidade, o projeto iluminista, lhe tirou Deus, enquanto que os séculos marcados em nome da ação frenética do homem para atingir o "paraíso na Terra", os séculos XIX e XX (junto com o início do século XXI) foram os mais sangrentos da História e retiraram, num olhar realista, qualquer ilusão de auto-emancipação. Mas o desejo continua, persiste, porque é estrutural, constitutivo, não está ligado a nenhuma contingência biológica,psicológica, sociológica ou histórica. O marketing e a propaganda usam e abusam desse desejo, mas não vão poder satisfazê-lo com algo minúsculo, dado que o desejo é de infinito. E este desejo exige o fato, quer, anseia que algo aconteça, e como esse algo não vem, porque no fundo domina um ceticismo generalizado, em Deus e no homem, os pós-modernos "criam" o fato: protestos, manifestações, aglomerações às vezes totalmente sem sentido (como em São Paulo, há dois anos, quando milhares de pessoas tiraram a roupa e posaram para uma foto coletiva). O que urge é a vinda do que o coração espera, que ninguém sabe o que é, e que quer abafar a qualquer custo. O desejo ali permanece, e nossa esperança única, no avanço da pós-modernidade é a correspondência entre esse desejo e a Beleza, que passe diante dele. Como disse Dostoievski: "A Beleza nos salvará", nos tirará dessa situação de confusão, morte e desespero na qual nos metemos. Ou Pasolini: "Mas no deserto de nossos caminhos Ela passa, rompendo o limite finito e enchendo os nossos olhos de desejo infinito". O grande papa Bento XVI, verdadeiro profeta da nossa era, em 2005 fez o seguinte anúncio: "Ao início do ser cristão, não há uma decisão ética ou uma grande ideia, mas o encontro com um acontecimento, com uma Pessoa que dá à vida um novo horizonte e, desta forma, o rumo decisivo." (Deus caritas est, 25/12/2005). Uma pessoa-Cristo- é esse fato, este event (está em inglês mesmo), este acontecimento que as pessoas na pós-modernidade tanto anseiam e desejam. Tanto que a última palavra da Bíblia (no Apocalipse) numa era que afirma que o novo sempre vem é: "Vem, Senhor Jesus!" (cf. Ap 22,20). Ele é o novo, que veio, vem e que virá!

quinta-feira, 27 de dezembro de 2007

Relaxe?

O cantor inglês de origem libanesa Mika, disse numa entrevista, que escreveu a letra da música Relax, take it easy http://www.youtube.com/watch?v=Be6jlCuMvVQ logo após os atentados terroristas em Londres, em julho de 2005. A música e a reciclagem e bricolagem pós-modernas de estilos dos anos oitenta acabaram ficando muito boas, mas cabe se perguntar se uma simples canção vai fazer com que um terrorista "relaxe". Esta música, que infelizmente lembra o terrível "relaxe e goze" de nossa ministra, aponta para um lamentável cinismo: quem vai "relaxar?" "Nós"? Acho perigoso; "eles"? Acho difícil! A música é compreensível, vinda de um jovem cantor na pós-moderníssima Londres e de origem do Oriente Médio numa época na qual terrorista e árabe são quase sinônimos. O problema, penso eu, é de civilização. Nossa civilização, marcada pelo desejo de liberdade, não sabe mais de onde este se origina e muito menos o que verdadeiramente é. Dessa forma, fica difícil valorizar a si mesma. Nossa civilização ocidental, agora pós-moderna agoniza e convive com os bárbaros, aos quais não basta simplesmente mandar relaxar. Aos bárbaros é preciso civilizar, e civilização significa con-vivência: viver juntos. Mas nós ocidentais pós-modernos, adeptos do comunitarismo e do guetismo, não estaríamos nos barbarizando, como mostra o excelente filme As Invasões Bárbaras (2004)? Penso que devemos é agir, e não relaxar. Como disse um editorial europeu recentemente: "A Europa está unida pela passividade frente ao destino". A música de Mika e todo o seu talento evidenciam isso!

quarta-feira, 26 de dezembro de 2007

A pobreza

Estou agora vendo e ouvindo o clip Another Day in Paradise http://www.youtube.com/watch?v=ftlYLcEW_I4 , e pensando na pobreza, não do mundo, mas das pessoas, e falo em pobreza material mesmo! Digo isso porque vi no jornal ontem a quantidade de pessoas para as quais o Natal não é nem de longe o sonho de consumo que a mídia e a mentalidade dominantes passam: são pobres! E é inevitável a mim, no Natal, pensar que Deus Se fez pobre, como diz São Paulo "sendo rico, empobreceu-se a si mesmo". Mas por que Ele Se fez pobre, por que ama e prefere os pobres? Não é por sadomasoquismo, ou por um eventual 'comunismo divino". O Mistério só pode amar a pobreza porque ela é a condição da maioria absoluta dos seres humanos, em todos os tempos e em todos os lugares. Mesmo agora, na época mais próspera de toda a História, existem incalculáveis multidões de "refugados", como conta o sociólogo Zigmunt Bauman no livro Vidas Desperdiçadas (2005). Entendi há pouco tempo, ouvindo da boca de uma pessoa que mora na favela dos Novos Alagados em Salvador (BA), o que significa a expressão "anunciar o Evangelho aos pobres". Não significa prometer um reino messiânico, ou uma eventual revolução socialista que fará justiça com as próprias mãos, mas se dar conta, em primeiro lugar, que o homem é relação exclusiva com o Mistério, independente de qualquer fator biológico, psicológico ou social. É isso que dá uma dignidade extraordinária à pessoa humana, e eu tive a graça de ver e ouvir isso com os meus próprios olhos e ouvidos. Além deste aspecto, existe o fato da riqueza ser uma realidade extremamente artificial e fragilíssima, pois se olharmos a realidade com atenção, veremos que a condição dos ditos ricos, na verdade, é a pobreza. Qual deles poderá estender a própria vida indefinidamente, fazer tudo o que quer ou impedir a morte de um filho ou o próprio sofrimento? Um olhar realista nos faz nos darmos conta de que a pobreza é a verdadeira condição do humano, como dito no Apocalipse: "pobre, cego, miserável e nu", e o amor deste Mistério, que ama a pobreza não por masoquismo, mas para compartilhar a condição humana, que é iniludível e inevitavelmente marcada pela pobreza.

terça-feira, 25 de dezembro de 2007

O que o Natal veio nos dar?

O Natal é só uma festa piegas ou é um fato que tem a ver com a minha vida? Essa pergunta é dramática porque a minha vida pode caminhar em direções diametralmente opostas, a depender da resposta dada a essa pergunta. No primeiro caso, o Natal é como um duende verde, no máximo um enfeite, um ornamento, mas no fundo, algo que não me ajuda. No segundo caso, é o fato mais importante da História, e que posso verificar na minha existência se é verdade ou não. E sendo verdade, o que o Natal veio me dar, veio nos dar?
Como diz Gonzaguinha, "somos nós que fazemos a vida, como der ou puder, ou quiser". O divino não vem nos substituir, mas o Natal vem nos colocar na posição exata, verdadeira, a partir da qual posso partir no confronto com a realidade, todas as manhãs. E a primeira constatação é de um amor imenso, amor pela minha miséria, pela minha necessidade de vida. Como diz o poeta francês Péguy, "a minha necessidade moveu um Deus", que me ama e me acolhe, aqui e agora! Com certeza, viverá 2008 de forma quem se deixar tocar por este anúncio: "sou amado inifinitamente, por Aquele que me quis e me quer, aqui e agora!" O Natal não é uma mensagem para amarmos, mas pelo contrário, existe para dizer que somos amados, somos queridos e desejados por Aquele que faz a realidade e me faz, a tal ponto de nascer num estábulo para dizer: "eu te amo!" Só isto nos coloca numa postura verdadeira diante da realidade!

sábado, 22 de dezembro de 2007

O Natal e a Imitation of Life

Estamos nos estertores de 2007!!! Eu pessoalmente fico muito grato a tudo que recebi neste ano de 2007, realmente, foi um dos melhores (senão o melhor!!!) ano da minha vida. Para quem acredita no Poder que levanta o Sol a cada manhã, é a Ele que eu agradeço tudo isso... bom, e que isso tem a ver com o Natal, e com a música (e o clip) Imitation of Life, do R.E.M.? http://www.youtube.com/watch?v=CEhT2QlRBMo Tem a ver porque hoje eu fui no Shopping Barra à tarde fazer compras, e na praça de alimentação ficava a olhar para cada pessoa, pensando na vida de cada uma, no drama humano, e no destino de cada uma... (Dostoiévski na pasta ajuda!) e irremediavelmente me veio à mente a música Imitation of Life e uns versos de um poeta soviético que eu gosto: as pessoas hoje, nas ruas, nas praças, nas avenidas, nos shoppings, nos estádios, nos cinemas, se justapõem, umas às outras, estão no mesmo espaço, mas não se conhecem, não são amigas, não são nem inimigas, são simplesmente indiferentes, como o poeta disse: "esbarramo-nos no metrô e mal nos conhecemos", vamos ao túmulo sem saber quem somos, e isso não é vida, é imitação da própria, pois a vida mesma é exigência profunda de amor, de amizade, de unidade mesmo. E um Menino nasceu justamente pra isso, pra unir o que estava separado: primeiro nós com Aquele Poder que levanta o Sol de manhã, e depois nós conosco mesmos, veio nos dar a vida verdadeira, porque a vida sem amor e sem amizade não é vida, Ele veio na noite de Natal para tornar nossa vida uma festa, com muita alegria, cem vezes mais vida, se nos deixarmos tocar pela amizade que Ele começou no mundo há mais de 2000 anos!

sexta-feira, 14 de dezembro de 2007

Voltei!

Depois de quatro meses de "jejum" da escrita, voltei, após um período de pausas e reflexões... Tenho conversado com muitas pessoas nesse tempo, e tenho percebido que a futilidade, a superficialidade, o cinismo dominam mesmo a vida das pessoas... O escritor Camus disse que a questão fundamental é acerca do sentido da vida. E quantos se perguntam acerca disso? Ontem, li no jornal A Tarde que um adolescente de quinze anos cortou o pescoço de outro, de treze anos, com uma gilete; conversando com um mulher na rua (Joana Angélica, ontem de manhã), ela dizia "o mundo está muito perverso", "ele não chega aos vinte e cinco, a polícia mata". Pensei "o que estamos fazendo com os nossos jovens? O que estamos fazendo conosco?", conversando com duas colegas na terça-feira, elas simplesmente diziam que o "eu" não existe, tudo é fruto de "influências" do cosmos, da sociedade, das pessoas, da época, isto é, do poder... fico impressionado como tudo isso é fruto da negligência do eu, ninguém está nem aí para si mesmo, todo mundo se preocupa com tudo, menos consigo mesmo: quem sou eu? O que será de mim? O que estou fazendo aqui? A negligência do eu é o desastre da nossa civilização do eu, a destruição do sujeito operada pelos desconstrucionistas e cia. estão na origem da destruição de nossa civilização, acompanhada pelo advento da barbárie. Alain Touraine se pergunta se podemos viver juntos, penso que sim, desde que reconheçamos aquilo que nos une: a nossa humanidade, e suas exigências elementares que a caracterizam. Posso não ter aparentemente nada a ver com um japonês, por exemplo, mas somos todos homens, temos uma humanidade em comum, traduzida nas mais diversas maneiras... fenômenos como o "comunitarismo", "guetismo" e coisas do gênero nada mais são que sintomas de uma tentativa de afirmação do identidade na época da dissolução do "eu". Tudo isso só afirma o "eu", este não pode ser destruído, dado que é estrutural, mas pode ser negligenciado, tratado como se não existisse, e se eu não nem aí para o meu eu, para mim mesmo, para quem eu sou, obviamente, não estarei nem aí para o "eu" do outro, o homem concreto, que vive e sofre. É muito fácil se preocupar com "a humanidade", os "direitos humanos", "os oprimidos" etc, difícil é ajudar uma pessoa que está passando mal na sua frente, emprestar dinheiro para um amigo que precisa, ouvir uma pessoa que precisa de atenção... porque não conseguimos nem dar atenção às exigências mais elementares que são a nossa natureza... e isso explica a negligência completa do governo com a greve de fome do bispo da Barra (BA), dom Luiz Cappio, por exemplo: a negligência do eu, eis o grande o mal da nossa civilização, a destruição do humano.