segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

Porque eu gosto do rock


Dolores O'Riordan, do The Cranberries: "A salvação é grátis!"

A muitas pessoas causa surpresa quando eu digo que gosto de rock. A algumas porque sabem que eu sou católico, e para elas, supostamente, rock seria "coisa do diabo"; para outras, porque eu não "tenho perfil", ou seja, não sou depressivo, ou pra baixo, ou calado, ou só, ou que gosto de trevas e escuridão. Em tese, esse é o estereótipo do "roqueiro" para muita gente. Bom, o fato é que muita gente se surpreende quando digo que gosto mesmo de rock (embora também goste de MPB, de música clássica, de canto gregoriano...)
A primeira razão para eu gostar de rock é que eu sou um homem do meu tempo, e o rock "ecoa" nas profundezas dos nossos corações de homens e mulheres pós-modernos. Cada dia que passa eu me dou conta de que quem quer conhecer o espírito de uma época, deve conhecer a arte desta época, incluindo a música. Quem quer conhecer o espírito do nosso tempo, globalizado e pós-moderno, deve conhecer o rock em todas as suas manifestações. E eu não digo apenas nos aspectos técnicos da coisa, que são os que menos me interessam, mas me interessam mesmo os aspectos humanos, me interessa no rock o grande grito que o homem é e que transparece, de modo inexorável, em todas as suas manifestações, e muitas vezes de forma muito aguda, em letras muitas vezes taxadas como superficiais e "revoltadas".
Como toda grande arte é uma profecia, o rock também tem os seus profetas. Equivoca-se totalmente Raul Seixas quando afirma que "o diabo é o pai do rock", eu acho que o pai do rock é o desejo de autenticidade inscrito em nossos corações, desejo que explodiu em 1968 em um mundo revoltado com aquilo que a modernidade criou para nós: um mundo de guerra, desespero e ódio, como vemos acontecer na Palestina agora. 1968, o ano que não terminou foi a revolta contra esse mundo que prometeu o paraíso na Terra, e só trouxe a jaula de ferro de Max Weber.
Eu vejo o rock mesmo como uma profecia e uma oração. Mesmo as letras mais desesperadas, como as de Nirvana (que profetizavam o tiro que Kurt Kobain se daria em 27 de abril de 1994), no fundo é um grito exigente de felicidade: a quem? A quê? Porque esperamos, se ninguém nos prometeu nada? Por que há o grito, se não haveria quem o escutasse?
Isso pra mim só revela aquilo que já intuo: todo o rock é permeado por um desejo daquela plenitude que um dia chamávamos de "Cristo". Isso é tão verdadeiro, que quando um cristão faz o rock, como Dolores O'Riordan, do Cranberries, não apenas porta o grito, mas a resposta: aquilo que nós mais desejamos - felicidade, liberdade, amor, verdade, autentidade, efetivamente existe e pode ser encontrado. Todas as músicas do Cranberries, de forma direta ou indireta demonstram isso.
Eu fiquei muito comovido, quando li no You Tube, nos comentários da música Salvation, uma pessoa que escreveu agradecendo a Dolores e ao grupo, dizendo que aquela música, que passava repetidas vezes na TV, salvou a vida dela, que na época estava com problemas com os pais e prestes a entrar no mundo das drogas. "Esta música salvou a minha vida!", dizia o texto! Eu chorei de comoção lendo! A existência do rock, desse desejo vivo no coração dos homens é a maior prova de que a resposta a esse desejo existe dentro da realidade (ou tudo é como disse Shakespeare, "uma fábula contada por um idiota num acesso de raiva" - Macbeth V, 4). O rock é profecia do Mistério, e por isso eu gosto tanto!

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Sonic, the hedgehog: hoje ele faz 17 anos!

Em tempo: hoje é aniversário de Sonic, the hedgehog (Sonic, o ouriço), da Sega. Sonic completa 17 anos de lançado hoje. Há algum tempo, um amigo me disse que os jovens de hoje são muito influenciados por desenho animado, super-heróis, Pink e cérebro etc., aí eu fiquei pensando: "em quem será que eu me inspirei?", eu pensei "só pode ter sido por Sonic!" Nos anos '90 eu era um verdadeiro viciado em Sonic, mas até hoje eu jogo (o que eu prefiro é o Sonic 3). Sonic é corajoso e aventureiro, luta para libertar os animais da escravidão de Dr. Eggman (Robotinik). O que eu mais gosto, além do espírito de aventura e coragem, que de certa forma, marcam o meu espírito, é o claro delineamento entre bem e mal. Bem é bem: Sonic, mal é mal: Eggman (Robotinik). O bem é a liberdade, o mal é a escravidão. Robotinik usa a tecnologia para destruir e escravizar a natureza. Sonic evidencia que é um mal usar a tecnologia para esse fim, lembrando de Admirável Mundo Novo. Bem, esta foi minha influência. Agradeço à Sega por ter feito esse jogo que deve ter influenciado muitos jovens positivamente pelo mundo afora e à vida por ter me feito encontrar esse jogo e ter gostado dele (em meio a tantos nos quais a fronteira do bem e do mal é desvanecida, como Mortal Kombat, por exemplo).

sábado, 27 de dezembro de 2008

Diante do Terror sem fim

Um dos meus desejos mais fortes quando chegar à Nova Iorque é visitar o Ground Zero, construído em homenagem aos quase três mil mortos no atentado de 11 de setembro de 2001. Quero visitar não por ser "pró-americano" ou coisas do tipo, sabendo que morrem milhões no Oriente Médio ou no Sudão, por exemplo, mas porque ali morreram pessoas que tinham o mesmo desejo de felicidade que eu tenho e sou.
Uma das coisas que mais me impressiona é porque nós gostamos tanto de esportes, não somente no Brasil, mas no mundo. Ontem, eu acho que tive a resposta: assistindo a Retrospectiva 2008, como faço todos os anos, fiquei impressionado como as boas notícias só vinham mesmo do esporte (salvo a solidariedade à Santa Catarina, vi pouquíssima notícias boas). Por isso, gostamos tanto dos esportes, porque nos trazem boas notícias e realizam a exigência de unidade (posso falar a palavra amor?) inscrita no mais profundo do nosso coração.
Outra pergunta que me vem é: como estar diante do Terror sem fim, como o que por exemplo, assola agora a Palestina novamente? Porque diante de tamanha selvageria, tendemos a perder a fé na vida, na positividade do real, e a esperança que vem justamente de existir dentro de toda esta realidade, uma outra coisa, da qual Tereza de Calcutá, por exemplo, é somente um sinal.
Mas como estar diante do terror? Um grande passo de maturidade é saber que não seremos nós a dar as soluções, quem já tentou, às vezes produziu males ainda piores do que aqueles que tentou debelar. Eu penso que o passo, mesmo humilde e humilhante às vezes, é seguir o caminho de Tereza de Calcutá: responder a uma realidade concreta que tenho à minha frente, como diante de alguém que se afoga, não filosofar, culpar o governos, ou os outros, mas pular e salvar esta pessoa. Somente se uma mentalidade desta se espalha, é que o mundo será outro, e diante do terror, não há nada a fazer, a não ser negociar, esperar, calar, rezar, e enxugar as suas feridas e as suas lágrimas ...

quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

O insulto de Veja e o real significado de Darfur


Refugiados em Darfur, Sudão

A revista Veja publicou uma reportagem que eu considero um insulto, não somente aos cristãos, mas a todos os homens de boa vontade. A cereja do bolo foi o artigo de Reinaldo Azevedo "Que Deus é este?", que foi no mínimo uma canalhice.
Sinceramente, eu nunca vi algo mais deplorável, mais cínico, mais mal caráter que o que a Veja fez nesta semana. E com que intuito? Tirar a fé, e com ela a esperança, e o amor das pessoas, e justamente na semana do Natal, que vem nos relembrar o fato mais importante da História: o nascimento de Jesus Cristo!
A fé é justamente o reconhecimento de que existe algo de novo, "a mais" na História, um fator a mais que não o nosso costumeiro ódio, terror, medo e rivalidade. Há 2000 anos, no meio das guerras intermináveis, do ódio, da opressão e da revolta, um homem ousou dizer: "amem-se uns aos outros como eu amei vocês!" É impressionante porque esse homem, Jesus, é a introdução do amor no mundo. Não foi um simples profeta a anunciar o mundo futuro, mas construiu a partir dos apóstolos aquilo que iria mudar a face da Terra: uma amizade universal guiada, que existe até hoje, e nós conhecemos com o nome de "Igreja" (que em grego significa re-união: a Igreja é a re-união da humanidade dividida). Quem tem fé reconhece que Ele só pôde fazer isso porque era o próprio Deus feito homem. O amor é a maior "prova" da divindade de Jesus; é humanamente impossível.
Esta história iniciada por Jesus e marcada por inúmeras contradições (para quem quer me apontar as contradições da Igreja, basta lembrar que o traidor pertencia ao próprio grupo dos preferidos de Jesus), deu frutos cujo "perfume" é visível até hoje: a valorização da mulher, o reconhecimento da sacralidade da vida, a criação das escolas, dos hospitais e das universidades, a salvaguarda do patrimônio cultural da Idade Antiga, a civilização dos bárbaros, entre inúmeras outras coisas, que na maior parte dos casos, damos por óbvio, mas que devemos a Jesus Cristo e à Igreja fundada por Ele. Realmente, a imagem do homem moderno é Barrabás. Barrabás é o homem salvo por Cristo que não se dá conta disso. Fomos e somos salvos por Cristo, ainda nesta vida e não nos damos conta disso!
Uma das coisas mais impressionantes que eu observo é em relação à exigência de justiça. Quase todos os meus amigos que são "de esquerda", marxistas ou coisas do gênero, ou seja, pessoas que têm uma profunda exigência de justiça, tiveram contato com a Igreja! Foi justamente a Igreja, tão repudiada, que despertou neles essa exigência, que depois correm para saciá-la em outro lugar, quando o apóstolo São Paulo diz que a justiça "é a fé", isto é, reconhecer as obras de Deus. A obra de Deus é a pessoa mudada, como Tereza de Calcutá, por exemplo. Que existiu uma mulher como ela é motivo de esperança! Mas ela não é a única, como ela, existem aos milhares, aos milhões, pessoas que doam a própria vida ao outro "por amor a Jesus". Estas são as testemunhas silenciosas de "um outro mundo possível" pautado pela esperança.
Como a Veja pode publicar aquela foto - uma paródia quase satânica - dizendo que Darfur desafia "o simbolismo" do Natal? Ora, o Natal não é "um simbolismo", é um fato, uma criança que nasce; e Darfur desafiaria o Natal se somente ela existisse, se não existissem essas testemunhas anônimas na maior parte dos casos, que são o sinal e o começo do "outro mundo possível", porque fundado no amor, isto é, em Deus, porque Deus é amor.
Pois bem: eu fiquei chocado lendo o artigo de Reinaldo Azevedo porque ele se diz católico, e eu vi ali um atentado à fé, eu vi ali um insulto a todos os cristãos, somado à separação que ele operou entre fé e razão, tão condenada por João Paulo 2º e por Bento 16 (em 1998, na encíclica Fides et Ratio - Fé e Razão, João Paulo 2º afirmou que a fé e a razão são as duas asas pelas quais se eleva o espírito humano e que se falta uma, o espírito não decola). É verdade que precisamos de Cristo para viver com a Razão, mas somente porque Ele nos amou e nos ama. Ele nos ensina a viver com amor, a amar. Ele é a Razão-Amor, e viver com a Razão significa amar. O mundo moderno, que perdeu a fé, o reconhecimento deste fato extraordinário no meio de nós, vive em desespero e ódio. Que é o Mal? Desespero e ódio, em suma, niilismo. E qual a origem de tudo isso? A perda da fé. Sem fé, não há esperança e muito menos amor. Basta olhar para os lados.
E qual o significado verdadeiro de Darfur? Eu sinto muita dor quando eu penso que a dor daquelas pessoas está sendo utilizada pelo poder de uma forma tão mesquinha e ainda mais para tirar a fé das pessoas, sabe-se lá com quais propósitos. Darfur representa o fracasso do sistema internacional. O sistema internacional é impotente para impedir que "um ridículo tirano" - como canta Caetano Veloso - de um rincão da África extermine o seu próprio povo. Isto prova que o sistema internacional é uma piada completa. Quando eu me dou conta do que acontece em Darfur, eu não perco a fé em Cristo, como se Jesus ou a Igreja fossem os responsáveis pelo que acontece ali, eu olho o sistema internacional de forma mais realista e menos idolátrica.
O sistema internacional, tal como nós o conhecemos hoje, remonta aos míticos "Tratados de Westphalia", que aconteceram por volta de 1648. Concretamente, significou que os Estados Nacionais, já formados, regulariam-se uns aos outros, sem a intermediação do Papa. Westphalia significa a ateização da política. Significou dizer que "Deus, o Mistério, Cristo não entra aqui nesses assuntos". Wetphalia foi o início da autonomização que acompanha o homem desde o século XVII até os dias de hoje. O resultado de Westphalia foi a construção do "sistema europeu" de Estados (centrados no Reino Unido, na França e no Império Russo), que garantiu ao Reino Unido ser "o império que não via o sol se pôr", à França dominar boa parte da África e à Rússia expandir-se até às bordas do Japão. Foi este mesmo sistema europeu que engendrou a Tríplice Entente (formada pelos três impérios citados) e por fim, à Tríplice Aliança (Alemanha, Itália e Império Áustro-Húngaro), gerando uma disputa por hegemonia que, para quem não lembra resultou na Primeira e por fim na Segunda Guerra Mundial (o detalhe que ninguém sabe que a Segunda Guerra só acabou quando duas cidades japonesas católicas - Hiroshima e Nagasáki - foram destruídas, sacrificando milhares de católico ao ódio do poder), que liqüidaram juntas a vida de dezenas de milhões de pessoas.
Depois do fim da Segunda Guerra, se organizou a ONU e o sistema europeu, tendo já assimilado a URSS e seus satélites, incorporou as ex-colônias e tornou-se "sistema internacional". A ONU que "lidera" o sistema internacional, já mostrou-se incapaz de conter inúmeras barbáries, crimes e atentados contra os direitos humanos das mais variadas espécies. Nas ex-colônias, triunfam ditadores das mais baixas categorias, muitas vezes impingindo uma opressão ainda maior que no tempo dos impérios absolutistas do despotismo esclarecido.
A situação é terrível: o Ocidente opulento vive, cinicamente, como se nada disso existisse, dezenas de milhões morrem sem que se faça quase nada, e uma revista de grande circulação nacional afirma que o genocídio em Darfur "ofusca" o sentido do Natal... pelo contrário, Darfur evidencia o fracasso da tentativa atéia do homem de dar-se a si mesmo a felicidade, de construir pelas próprias mãos a fraternidade universal sonhada por Immanuel Kant quando escreveu o panfleto Para a paz perpétua em 1795.
Ao contrário do que afirma a Veja e Reinaldo Azevedo, o Natal é a nossa única esperança. Ele é a afirmação mais potente de que - como afirma o poeta francês Péguy - Deus, o Mistério, o Infinito, o Logos, o Verbo, a Idéia, o Totalmente Outro, o Transcendente, o Eterno, Aquele-que-é, não só é a Suprema Razão e Sabedoria - o Logos - mas Amor, comoveu-se com o nosso mal e com a nossa dor, e veio habitar entre nós para reerguer este mundo novamente a si, começando o trabalho aqui mesmo e evidenciando que desde já existe aqui mesmo na Terra uma realidade nova, infinitamente mais verdadeira e que corresponde aos desejos mais profundos do nosso coração. Quem já encontrou a comunidade cristã - pessoas que reconhecem a Cristo e que são amigas entre si por causa dEle - sabe que este novo mundo existe, está à disposição de todos, e é a única esperança para o mundo, para o sistema internacional e para Darfur. Darfur grita: o sistema internacional falhou! Nós gritamos: a esperança para o mundo não é um novo sistema mais bem elaborado, é este Menino que trouxe o amor e a vida a nós e ao mundo.

sábado, 20 de dezembro de 2008

Queime depois de ler: a imitação da vida!


Frances McDormand e Brad Pitty

Ontem à noite vi um dos filmes mais inteligentes que já assisti: Queime depois de ler (EUA, 2008). Há um bom tempo não via uma combinação tão perfeita entre humor, inteligência, sátira, crítica e ironia.
O que é criticado neste filme tão interessante?
A nossa vida pós-moderna, que não é "vida", mas uma mera "imitação" desta; a pós-modernidade "pirateou" a vida. E nós todos embarcamos neste redemoinho infernal, como poetiza Bruno Tolentino sem nem nos darmos conta disso. A vida foi "pirateada", é imitada, porque vivemos no domínio da xerox, como Baudrillard inteligentemente se dá conta. Estamos na época da xerox, da cópia, da paródia. E o filme em si mesmo é uma bela paródia da forma como nós levamos a nossa vida.
Em primeiro lugar, o fim dos grandes ideais. Já que a História "acabou" (e isso é bem representado pela refrência claríssima à CIA e a Embaixada Russa, evocando a Guerra Fria), resta-nos simplesmente tocar a vida. Tudo se reduz a mera burocracia. Mais do que nunca a modernidade (avançada, agora dizem eles) mostra a sua "jaula de ferro".
O presente se reduz a vazio, os relacionamentos são totalmente deteriorados (representados pelas traições constantes e inúmeras), nenhum relacionamento duradouro é possível de ser mantido (mostrado pelas inúmeras mulheres "traçadas" por George Cloney - numa clara referência a Thomas de A Insustentável Leveza do Ser, que transou com praticamente todas as mulheres de Praga).
Além disso, temos a clara e evidentíssima crítica à academia, representada como o ápice da imbecilidade. Por quê? Tendo o homem perdido como meta os grandes ideais, que foram dissolvidos em nada, resta a ele somente o seu "si mesmo". E o seu "si mesmo" reduz-se ao corpo. Diante da ruína ao qual tudo se reduz, o corpo é a única realidade que - mesmo sendo uma massa compacta em eterna decomposição (Foucault) - parece ser eterna, como diz Bauman em Em Busca da Política (2000). Parece ser eterna em relação à fugacidade e obsolescência de todas as outras coisas na modernidade avançada, a começar pelos laços afetivos. A cena patética de Frances McDormand no consultório tentando fazer quatro cirurgias para "se reinventar" e todo o seu papel patético, ingênuo e solitário ao mesmo tempo, somado ao tipo idiota representado por Brad Pitty (ilustrando da melhor forma possível a geração MTV da eterna adolescência e imbecilidade) mostram a academia como o símbolo mais perfeito da estupidez que é o paradigma da sociedade pós-moderna.
O ex-espião da CIA (John Malkovich) é símbolo, junto com a sua mulher (Tilda Swinton) do casal na pós-modernidade: o que os une é o dinheiro e um bom emprego na burocracia estatal. Após essa perda, esta tenta divorciar-se dele "por ser idiota", e por fim, some com todo o seu dinheiro. A pateticidade é que ele descobre que ela lhe trai e mata por engano um cara que não tem nada a ver com a história, dado que estava no lugar errado na hora errada. Ela também representa junto com o gerente da academia, a revolta com a vida e a desesperança em relação a ela.
O "fio" de toda a história são as memórias de Osbourne Cox (John Malkovich), algo totalmente sem importância, dado que ele era do baixo escalão da CIA. Por causa destas memórias, que caem nas mãos de Chad (Brad Pitty) e Linda (Frances McDormand), inicia-se toda uma perseguição que culmina na morte de Ted (Richard Jenkins), morto por Cox (John Malkovich), que termina em coma, e Chad (Brad Pitty), morto por Harry (George Clooney). As "memórias" são devolvidas à CIA e Linda (Frances McDormand) garante não falar nada se a CIA pagar suas quatro cirurgias plásticas.
Esta tragédia pós-moderna é trágica inclusive no seu fim. Todo este drama é como se fosse nada, dado que "do alto do céu" (representado pelo Google Earth) todo o drama some, é como se fôssemos meras formigas, nada, pó, zero! Saí "com um gosto amargo na boca" justamente por isso: o filme sub-repticiamente afirma que "tudo é nada", ou seja, absurdo, a conclusão que todo pensamento non sense chega. É um tudo é nada que é desesperador. Se não há nada, por que há o drama? Por que há grito, se não haveria nada nem ninguém a nos ouvir?
Clarice Lispector disse: "Há o direito ao grito, então eu grito!" Eu penso que esse grito é a única possibilidade de não enlouquecer, é a única possibilidade de fazer a bolha na qual nos encapsulamos explodir, a única chance de romper com as nossas medidas mesquinhas, a única maneira de explodir os nossos limites. Esse grito é a plenitude da humanidade, o grito de que esse "si mesmo", essa adoração dessa "massa compacta que se decompõe sem cessar" é uma loucura, esse grito é o início da liberdade, é o sinal mais vivo de alguém que é realista. Houve um tempo que esse grito foi chamado de oração, e no qual o Natal era visto como a resposta mais potente e ao mesmo tempo imprevista a esse grito: desde estão não estamos sós com os nossos dramas. É a única possibilidade de esperança para a vida!

domingo, 14 de dezembro de 2008

Um juízo sobre o caso Susana Vieira


A atriz Susana Vieira

Anteontem, eu fiquei chocado quando soube das circunstâncias da morte do ex-marido da atriz Susana Vieira, o ex-policial Marcelo Silva.
O caso, que hoje é capa de Época e Veja, é emblemático da nossa situação em plena pós-modernidade, a era "do derretimento dos laços afetivos", como já diria Zygmunt Bauman, e da emergência de todas as loucuras possíveis, em virtude do tornar-se solitário dos sujeitos, que cada vez mais são somente "si mesmos", já dizia Lyotard em 1979.
Não é fácil ter laços afetivos, ter afeição, amar. Em primeiro lugar a si mesmo. Por isso a virtualidade cresce em disparada. Eu mesmo já fiquei - em 2005! - cinco horas no orkut, quando eu vi que alguma coisa estava errada. Fiquei chocado, no início do ano passado, quando um amigo me disse que discutiu com outro acirradamente até o fim da madrugada - pelo messenger!
O fato é que é cada vez mais difícil con-viver! Octavio Ianni diz que "a única coisa que une as pessoas hoje é o projeto!" Eu acho esta nossa época muito triste! Por um lado, graças à Revolução da Telemática, temos um arsenal jamais imaginado de técnicas e ferramentas que podem tornar a nossa vida com uma qualidade jamais imaginada antes, por outro, graças à progressiva perda do significado e do sentido da vida (que é "a mais urgente das questões", diria Albert Camus: quem sou eu? O que faço aqui? Qual a minha tarefa perante o cosmos e a história? Qual o meu destino?) leva as pessoas (pelo medo da vida e do sofrimento sem sentido - não temos medo do sofrimento, temos medo do non sense, pois Vinícius de Morais já disse: "aquele que passou pela vida e não sofreu, apenas passou pela vida, não viveu", viver implica sofrer, para através disto, crescer e chegar à plenitude) a se isolarem e se justaporem umas às outras, como se fôssemos meros tijolos do "edifício social" ao invés de pessoas humanas que desejam nada menos que o Infinito.
É neste ínterim que se insere o caso de Susana Vieira. Desde o início, eu percebi que havia alguma coisa de "mentira" neste caso. Eu acho que é muito importante observar com cuidado e atenção esta história, porque ela revela a mentira da época na qual nós estamos vivendo.
Que mentira é esta? A mentira de que o homem (e a mulher) podem tudo, que não há limites, que não há conseqüência para os atos. Pois bem: é isto que eu vejo desde que este caso de Susana Vieira começou a aparecer na mídia, inclusive o fato da atriz se submeter a lipoaspirações e a cirurgias para disfarçar o fato dela ter 66 anos! Não se trata aqui de moralismos, como se tudo fosse uma condenação pelo que ela fez, eu acho que é algo mais profundo. Por que esta atriz fez isto? Por que tudo isso?


Ícaro, de Henri Matisse (1943): o coração do homem é sede de INFINITO

Antes de mais nada, porque queria ser amada. Ela evidencia que o mundo da arte é cheio de vazio e insatisfação, brigas, invejas e traições, e que toda a fama e dinheiro que ela tem são incapazes de satisfazer às exigências mais profundas do seu coração. Sem poder confiar em ninguém mesmo como amigo ou amiga, numa situação de fragilidade afetiva, não resiste certamente à lábia do ex-policial Marcelo Silva, que também é vítima da nossa sociedade, morto por uma overdose de cocaína há dois dias atrás.
A nossa tentação é a banalidade, reduzir tudo ao banal e ao comum. Daqui a alguns meses, este será mais um caso conhecido e esquecido, ninguém emitirá nenhum juízo e nem questionará os fundamentos de tal tragédia, no máximo emitirão certos "juízos" moralistas que não levarão a lugar nenhhum.
Eu penso que o problema de fundo é um problema afetivo. O problema humano de longe é um problema intelectual. O nosso problema é afetivo. Nós temos uma exigência estrutural infinita de sermos amados, abraçados, acolhidos, incondicionalmente. Todos os problemas que advém em nós vêm daí. Como consertar um país? Uma casa? Uma pessoa? Amando-a! Só o amor é que pode levar alguém a superar a si mesmo! Como o caso de Vicky, uma aidética de Uganda, que mudou totalmente de vida depois que foi "magnetizada" pelo olhar amoroso de Rose, responsável por uma obra que cuida de doentes de Aids, em Kampala. Eu mesmo só sou o que sou por fui alvo também de um olhar amoroso desta forma. É só este olhar que pode despertar todas as potencialidades da pessoa (as famosas "potencialidades" que Amartya Sen tão bem reconheceu!) É só o amor que pode promover o verdadeiro desenvolvimento, das pessoas e dos povos! Fora isso, todo o resto é burocracia asséptica e ineficaz, como tão bem conhecemos, e que no fim, gera mais mal do que bem, porque reduz tudo à mera mecânica!
O que faltou a Susana e a Marcelo foi encontrar um olhar amoroso que os amassem pelo que eles são, e não pelo dinheiro, pela fama ou por favores sexuais. As pessoas hoje se submetem e fazem todas as espécies de loucuras por uma única razão: desejam ser amadas.


Krippenszene (Adoração do Menino), de Gerrit von Honthorst (1620): o Infinito Se fez presença e habita entre nós!

Eu acredito em Cristo! Reconheço que esse amor é impossível a nós e foi introduzido por esta presença nova que os apóstolos trataram de espalhar e que chega até mim através de um povo "sui generis", que é a Igreja. É a sua diminuição, inclusive do seu impacto que gera situações como essa. "O amor em muitos esfriará!", previu São Paulo.
A Igreja não "inventou" o amor, mas é ela que o espalhou e espalha pelo mundo. Não existia a percepção de amor incondicional - charitas, dom de si para o bem do outro - antes da Igreja, isto é um fato. Penso que o melhor que eu posso fazer por Susana Vieira e por seu ex-marido morto, além de rezar por eles, é pertencer a este povo, "comunidade de amor" - diria Bento XVI - no qual somos educados a crescer nessa forma de vida, inclusive na percepção de que o amor é uma coisa pesada, distante da sua comum visão romantizada.
Na Coleta Nacional de Alimentos eu percebi o quanto é difícil o amor gratuito (porque as pessoas são muito grossas, incompreensivas, desconfiadas etc). Participar daquele gesto, durante um dia - e de sua preparação meses antes - para pessoas que eu nunca verei, provavelmente, ou foi pelo fato de ter sido atingido por uma amor anterior, enfim, pelo fato de me reconhecer infinitamente amado, ou simplesmente não aconteceria. A minha simples boa vontade não geraria um gesto como aquele. E é disso que o mundo precisa: de amor, ou seja, de Cristo e da Igreja, deste povo novo, "um mistério de amizade", na qual o Infinito se torna presente, incompreensível para quem não a conhece, e que muda a mim mesmo e o mundo, para melhor.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

Clarice Lispector


Clarice Lispector

Hoje é aniversário de Clarice Lispector. Gosto muito de Clarice Lispector não somente por um gosto estético, literário, ou porque ela é a maior e mais profunda escritora do Brasil, gosto de Clarice porque tenho uma relação pessoal com ela. Eu posso dizer que Clarice Lispector, de uma certa forma, me introduziu no Mistério. Porque ela mesma diz em A paixão segundo G.H. "Se a 'verdade' fosse aquilo que posso entender - terminaria sendo apenas uma verdade pequena, do meu tamanho." Clarice nos introduz na nossa grandeza de homens, que é a aceitação do Mistério.
Quem é Clarice Lispector? Não me alongo em descrições meramente exteriores, onde nasceu (Ucrânia), em que ano (1920 - há alguns que dizem que foi em 1925), em que tipo de família (judia), onde morou (Recife - na colônia judaica, e no Rio), nem o que estudou (Direito), nem com quem casou (um diplomata) e quantos filhos teve (dois).
Quem é esta mulher? Esta é a pergunta que nasce quando se lê seus contos, ou livros, ou crônicas (ela foi jornalista também), quando se assiste a sua última entrevista na TV Cultura (em 1977, ano de sua morte), ou quando se visita uma exposição em sua homenagem (como eu fiz, maio do ano passado, em São Paulo).
Quem é Clarice Lispector? O que marca a sua obra? Qual a sua contribuição? Qual o seu mistério, qual a sua novidade?
A novidade de Clarice Lispector é a simplicidade, é o real, somente o real. Clarice é terrivelmente simples. Numa época na qual a complexidade é o que é valorizada, e com ela, as loucuras, as neuras, os traumas e as depressões; é a simplicidade que resplandece em Clarice.
Ela mesma disse: "as pessoas não me entendem porque eu sou simples". Clarice é de uma simplicidade que dói. Seus contos, novelas e romances são retratos muito enxutos e muito vivos do nosso cotidiano, da nossa vida simples, do nosso dia-a-dia. Mas Clarice tem um diferencial, ela não se limita a ser uma cronista que narra o que acontece no dia-a-dia da nossa existência, ela não torna a nossa existência uma mera clepsidra (clepsidra é um antigo relógio de água que o escritor Camilo Pessanha usa para batizar seu livro de 1926; num livro extremamente triste ele compara os instantes da nossa vida às gotas de água que caem da clepsidra: iguais em consistência e vazios em significado). Para Clarice, "o vazio tem o valor e a semelhança do pleno" e sua busca é pelo significado. Não é à toa que o título do seu primeiro romance é "Perto do Coração Selvagem" (faz lembrar o quadro Ícaro de Matisse, de 1943), que foi seguido por Água viva (clara referência ao Evangelho), A maçã no escuro (que é uma metáfora do drama do pecado - a maçã - e as conseqüências que adviriam deste - o escuro), e A Paixão Segundo o G.H. (que é uma sigla de "A paixão segundo o gênero humano", uma paródia de "a paixão segundo J.C." - Jesus Cristo).
O seu último romance, A hora da estrela, de 1977, começa assim: "Tudo no mundo começou com um sim. Uma molécula disse sim a outra molécula e começou a vida". Este trecho, aparentemente tão simplório, esconde uma verdade profunda: "tudo começa com um 'sim'", o que significa que o começo de tudo é marcado por duas liberdades.
Uma das características das histórias de Clarice são as "revelações" dos significados. As histórias sempre acontecem no cotidiano, e de repente acontece um fato que "revela" a pessoa a si mesma, é a epifania (manifestação de algo). A epifania retira a nulidade do sentido do instante e dá ao instante o seu pleno valor e significado. Assim, o instante que seria vazio e sem sentido, como a clepsidra, adquire densidade e plenitude. Comparando-se Clarice Lispector e Camilo Pessanha, se entende aquilo que diz Luigi Giussani, que "o coração do homem é a encruazilhada entre o eterno (o infinito) e o nada". Estamos no fio da navalha entre o infinito (a plenitude) e o nada. Tudo vem de uma fonte misteriosa, que é viva, e anima tudo criado, ou tudo corre inexoravelmente para a morte, e como entrar em contato com esta fonte misteriosa que anima tudo criado?
O método - segundo Clarice Lispector - é o fato, um fato que suspende a aparente normalidade do cotidiano, o óbvio ao qual nós inexoravelmente nos remetemos. Clarice vem nos dizer que nada é óbvio. As coisas não são óbvias, eu não óbvio, a vida não é óbvia, e vem nos perguntar: o que sou eu? O que é a vida? O que é tudo? (como nos pergunta o belíssimo poema de Drummond A máquina do mundo).
Com esta finalidade ela usa de recursos estilísticos muitas vezes chocantes.
A Paixão segundo G.H. é o caso de uma mulher que chega em casa e ao fechar uma porta, esmaga uma barata, da qual sai a gosma. A mulher olha a gosma, sente uma atração inexorável e come a gosma. Quando ela faz isso, rompe com todos os padrões e tabus da nossa sociedade e entra em contato com o real propriamente dito, e a partir daí começa uma viagem de conhecimento do real que ela faz pelo fato de esmagar a barata e comer da gosma da barata. Pode parecer loucura comer a gosma da barata, mas numa certa época da história, também se acho estranho que um homem dissesse: "Se vocês não comerem a Minha carne e não beberem o Meu sangue não terão a vida em vocês mesmos". A mulher comeu a gosma da barata e chegou até à vida, para além das meras convenções sociais e daquilo que é meramente convenção humana. Por fim, vejam que coisa tremenda ela diz em seu romance maravilhoso que é A paixão segundo G.H.:
"Ah, perdi a timidez: Deus já é. Nós já fomos anunciados, e foi a minha própria vida errada quem me anunciou para a certa. A beatitude é o prazer contínuo da coisa, o processo da coisa é feito de prazer e de contato com aquilo de que se precisa gradualmente mais. Toda a minha luta fraudulenta vinha de eu não querer assumir a promessa que se cumpre: eu não queria a realidade. (...) Pois ser real é assumir a própria promessa: assumir a própria inocência e retomar o gosto do qual nunca se teve consciência: o gosto do vivo."
Mais uma outra coisa grandiosa nos é dita por Clarice ainda neste mesmo romance, evidenciando a sua atração e preferência por aquilo que efetivamente existe, ou seja, pela realidade:
"A realidade é a matéria-prima, a linguagem é o modo como vou buscá-la – e como não acho. Mas é do buscar e não achar que nasce o que eu não conhecia, e que instantaneamente reconheço. A linguagem é o meu esforço humano. Por destino tenho que ir buscar e por destino volto com as mãos vazias. Mas – volto com o indizível. O indizível só me poderá ser dado através do fracasso de minha linguagem. Só quando falha a construção, é que obtenho o que ela não conseguiu."
E por fim, ela nos premia com o êxtase, que é, partindo da realidade, o reconhecimento do Mistério com a revelação da nossa dependência original, que nos coloca numa autêntica posição humana:
"O mundo independia de mim – esta era a confiança a que eu tinha chegado: o mundo independia de mim, e não estou entendendo o que estou dizendo, nunca! Nunca mais compreenderei o que eu disser. Pois como poderei eu dizer sem que a palavra mentisse por mim? Como poderei dizer senão timidamente assim: a vida se me é. A vida se me é, e eu não entendo o que digo. E então adoro!"
Como disse São Paulo: "N'Ele - no Mistério - vivemos, existimos e somos" (At 17), e portanto dependemos, não somos autônomos, embora o queiramos ser.
Clarice Lispector é antídoto para as nossas banalidades, ela é introdução ao Mistério, presente que a grande alma russa (a Grande Mãe Rússia - ela é filha de judeus russos) dá para o Brasil. Sendo judia e membro do povo de Deus, Clarice tem uma percepção não só do Mistério, mas de Cristo e da realidade, como pouquíssimas pessoas. Ela é "a alma feminina de Dostoiévski", despida de todas as complicações e ideologizações, típicas do pensamento masculino. Nela só interessa o real, somente o real, o vivo, a realidade e o Mistério, Mistério que é Vida, vida que anima a realidade criada e é o sentido da mesma.

sábado, 6 de dezembro de 2008

Algumas reflexões antes do Natal

Este e-mail que enviei para um amigo penso que vale a pena ser postado.

Acho que a 1ª e fundamental pergunta a se fazer é: o que fé? E o que é a razão? Porque senão a gente tende a pensar com base em preconceitos sutilissimamente impingidos a nós pelo poder. O que é a razão? Segundo o pensamento católico, razão é a capacidade de dar-se conta da realidade segundo a totalidade dos seus fatores. A mentalidade iluminista reduziu o conceito de razão a medida de todas as coisas (um conceito sofista, anterior a Sócrates, diga-se de passagem), enquanto que Santo Tomás na Suma Teológica define a verdade como a correspondência entre a inteligência e a realidade.
Qual o instrumento que Deus nos dá para o reconhecermos? A realidade! A realidade grita Deus, porque não se faz por si mesma. Diante da realidade, ou fazemos como Sartre, e escolhemos o nada, e portanto, o absurdo, ou reconhecemos que a realidade não se faz por si mesma, que se origina em uma fonte misteriosa. A esta fonte misteriosa, os povos chamaram de o Mistério tremendo e fascinante. Todas as religiões partem deste maravilhamento, de que o real não se faz por si e que vem de uma fonte misteriosa. Todas as religiões são uma tentativa do homem de chegar até o Mistério. Mas como diz Santo Tomás, o homem não consegue chegar à verdade sem grandes erros, e vemos de tudo, em quem conhece minimamente o universo religioso. E mesmo o não-religioso, porque, como diz o teólogo Romano Guardini, todos os movimentos do homem são em busca do "deus", e o que é mais sacrificado na modernidade avançada é a razão. Quanto mais a fé cristã diminui, é o irracionalismo que avança, e não o racionalismo. A tentativa de transformar a fé em mágica, a new age e diversos espiritualismos são a prova mais viva disso.
É necessária uma revelação, afirma Santo Tomás (e Platão no Fédon). Seria impossível o homem conhecer a Deus se Ele não se revelasse. O anúncio cristão é que Deus Se revelou. Ele respondeu ao grito do profeta Isaías: "Ah, Senhor! Se Tu rasgasses os céus e descesses!" (Is 61) E Ele rasgou! O nascimento de Cristo na noite de Natal é isso. Cristo é o Verbo - o Logos, a Razão - feita carne: Verbum caro factum est! (cf. Jo 1,14) O cristianismo é o caminho verdadeiro não tanto porque os outros são falsos, mas porque é o caminho traçado pelo próprio Deus.
Cristo permanece presente na Igreja. O método para conhecer Jesus é conhecer a Igreja. A Igreja é a contemporaneidade de Cristo. Ela é a esposa de Cristo, nela Cristo Se faz presente. Não há outro método para conhecer Cristo senão conhecer a Igreja. por isso, o Concílio Vaticano II a chama de "Sacramento - que significa sinal visível da graça invisível - de Cristo" (a Igreja torna Jesus presente). Como? Através de uma humanidade que seria impensável sem Cristo.
Além dos casos de martírios e santidade extraordinárias, e dos inúmeros milagres registrados na vida da Igreja ao longo de vinte e um séculos - e somente nela - mesmo na vida ordinária, habitual, comum, podemos ter exemplos: pensemos nas pessoas que consagram a sua vida a Cristo, vivendo em pobreza, virgindade e obediência por toda a vida, ou casamentos que duram a vida inteira, homens e mulheres que dedicam a sua vida inteira - muitas vezes com muito sacrifício - à própria família. Estas realidades não existiam antes do cristianismo. E à medida que o cristianismo declina, elas declinam junto com ele.
A fé - como diz o papa Bento XVI - é uma obediência de coração a uma verdade que nos foi revelada. Por quem? Por um outro. A fé é aderir ao que um outro diz. Quem é este outro? Cristo e a Igreja. A fé é aderir ao que Cristo e a Igreja dizem. Como pode ser razoável? Se eu olho a Igreja e vejo um algo a mais, uma humanidade plena e diferente para melhor, jamais observável em nenhuma religião - quando as conhecemos em profundidade reconhecemos especificidades presentes somente no cristianismo (como a palavra "graça" - que significa favor imerecido da parte de Deus para nós), e portanto podemos dizer: aqui tem algo, aqui habita o Mistério. E posso crer no que me dizem Cristo e a Igreja.
Quando Jesus multiplicou os pães e saciou a fome de cinco mil pessoas às margens do mar da Galiléia, eles queriam fazer de Jesus um rei porque pensaram: "agora, meus problemas acabaram com este cara!" Mas Jesus se retirou, e fugiu para a Sinagoga de Cafarnaum. A multidão foi atrás dele e ele disse: "Vocês vieram atrás de mim por causa do pão que eu dei pra vocês! Trabalhem não pela comida que perece, mas pela que dura até a vida eterna! O pão que eu darei é a minha carne, para a vida do mundo, porque se vocês não comerem o Meu corpo e o Meu sangue não terão a vida em vocês mesmos!" Aí todo mundo disse que ele era louco e foi embora. Qual foi a posição mais razoável, a de Pedro, que questionado por Jesus: "Vocês também não querem ir embora?", disse "Senhor, só Tu tens palavra que explicam, que dão significado à vida. Se formos embora, a quem iremos?", ou da multidão que fugiu só porque não entendeu? A fé é justamente dar crédito a esta correspondência que experimentamos. Se um cara faz um milagre, alimenta cinco mil pessoas com cinco pães e dois peixes, e depois diz: "Eu sou Deus! Eu sou o pão da vida! Sem Mim, nada podeis fazer!" É razoável ou não dar crédito a esse cara?
Mas tudo isso precisa da nossa razão, batalha que o papa Bento XVI vem travando desde Regensburg (2006). A nossa razão precisa ser alargada porque está obtusa e acanhada, e é incapaz de reconhecer o Mistério presente porque ele transborda todas as nossa medidas. Mas quem está certo? O Mistério que veio ao meu encontro por meio da Sua Amada Igreja - Jesus - ou os jornalistas, os intelectuais e os professores universitários, que o negam dia a dia? Quem é que me faz mais feliz, mais alegre, mais bom, melhor enfim, que me enche de esperança, de paz, de amor e vida? É razoável ou não dizer "sim" a Jesus? Eu O amo, porque Ele teve piedade do meu nada e salvou e salva a minha vida.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

A prioridade do trabalho sobre o capital


João Paulo 2º, em 30 de janeiro de 2005

Em tempos de crise financeira mundial, e escrevendo a minha dissertação já em ritmo acelerado, descobri que em 2001, em pleno auge da crise mundial, o papa João Paulo 2º tinha protestado contra "o domínio do capital sobre o mundo". Como o arcebispo Celestino Migliore, observador permanente na sede da ONU em Nova York, asseverou que temos que "recuperar (...) a primazia do trabalho sobre o capital, das relações humanas sobre as meras transações financeiras, da ética sobre o critério da eficácia", eu penso que este trecho da Encíclica LABOREM EXERCENS (O trabalho humano), de 14 de setrembro de 1981, pode ser de grande ajuda.


"12. Prioridade do trabalho

Diante da realidade dos dias de hoje, em cuja estrutura se encontram marcas bem profundas de tantos conflitos, causados pelo homem, e na qual os meios técnicos — fruto do trabalho humano — desempenham um papel de primeira importância (pense-se ainda, aqui neste ponto, na perspectiva de um cataclismo mundial na eventualidade de uma guerra nuclear, cujas possibilidades de destruição seriam quase inimagináveis), deve recordar-se, antes de mais nada, um princípio ensinado sempre pela Igreja. É o princípio da prioridade do « trabalho » em confronto com o « capital ». Este princípio diz respeito diretamente ao próprio processo de produção, relativamente ao qual o trabalho é sempre uma causa eficiente primária, enquanto que o « capital », sendo o conjunto dos meios de produção, permanece apenas um instrumento, ou causa instrumental. Este princípio é uma verdade evidente, que resulta de toda a experiência histórica do homem.

Quando lemos no primeiro capítulo da Bíblia que o homem tem o dever de « submeter a terra », nós ficamos a saber que estas palavras se referem a todos os recursos que o mundo visível encerra em si e que estão postos à disposição do homem. Tais recursos, no entanto, não podem servir ao homem senão mediante o trabalho. E com o trabalho permanece igualmente ligado, desde o princípio, o problema da propriedade. Com efeito, para fazer com que sirvam para si e para os demais os recursos escondidos na natureza, o homem tem como único meio o seu trabalho; e para fazer com que frutifiquem tais recursos, mediante o seu trabalho, o homem apossa-se de pequenas porções das variadas riquezas da natureza: do subsolo, do mar, da terra e do espaço. De tudo isso ele se apropria para aí assentar o seu « banco » de trabalho. E apropria-se disso mediante o trabalho e para poder ulteriormente ter trabalho.

O mesmo princípio se aplica, ainda, às fases sucessivas deste processo, no qual a primeira fase continua a ser sempre a relação do homem com os recursos e as riquezas da natureza. Todo o esforço do conhecimento com que se tende a descobrir tais riquezas e a determinar as diversas possibilidades de utilização das mesmas por parte do homem e para o homem, leva-nos a tomar consciência do seguinte: que tudo aquilo que no complexo da actividade econômica provém do homem — tanto o trabalho, como o conjunto dos meios de produção e a técnica a eles ligada (isto é, a capacidade de utilizar tais meios no trabalho) — pressupõe estas riquezas e estes recursos do mundo visível, que o homem encontra, mas não cria. Ele encontra-os, em certo sentido, já prontos e preparados para serem descobertos pelo seu conhecimento e para serem utilizados correctamente no processo de produção. Em qualquer fase do desenvolvimento do seu trabalho, o homem depara com o facto da principal doação da parte da « natureza », o que equivale a dizer, em última análise, da parte do Criador. No princípio do trabalho humano está o mistério da Criação. Esta afirmação, já indicada como ponto de partida, constitui o fio condutor do presente documento e será mais desenvolvida ainda, na parte final das presentes reflexões.

A consideração do mesmo problema, que se fará em seguida, há-de confirmar-nos na convicção quanto à prioridade do trabalho humano no confronto com aquilo que, com o tempo, passou a ser habitual chamar-se « capital ». Com efeito, se no âmbito deste último conceito entram, além dos recursos da natureza postos à disposição do homem, também aquele conjunto de meios pelos quais o homem se apropria dos recursos da natureza, transformando-os à medida das suas necessidades (e deste modo, em algum sentido, « humanizando-os »), então há que fixar desde já a certeza de que tal conjunto de meios é o fruto do patrimônio histórico do trabalho humano. Todos os meios de produção, desde os mais primitivos até aos mais modernos, foi o homem que os elaborou: a experiência e a inteligência do homem. Deste modo foram aparecendo não só os instrumentos mais simples que servem para o cultivo da terra, mas também — graças a um adequado progresso da ciência e da técnica — os mais modernos e os mais complexos: as máquinas, as fábricas, os laboratórios e os computadores. Assim, tudo aquilo que serve para o trabalho, tudo aquilo que, no estado atual da técnica, constitui dele « instrumento » cada dia mais aperfeiçoado, é fruto do mesmo trabalho.

Esse instrumento gigantesco e poderoso — qual é o conjunto dos meios de produção, considerados, até certo ponto, como sinónimo do « capital » — nasceu do trabalho e é portador das marcas do trabalho humano. No presente estágio do avanço da técnica, o homem, que é o sujeito do trabalho, quando quer servir-se deste conjunto de instrumentos modernos, ou seja, dos meios de produção, deve começar por assimilar, no plano do conhecimento, o fruto do trabalho dos homens que descobriram tais instrumentos, que os projectaram, os contruíram e aperfeiçoaram, e que continuam a fazê-lo. A capacidade de trabalho — quer dizer, de participar eficazmente no processo moderno de produção — exige uma preparação cada vez maior e, primeiro que tudo, uma instrução adequada. Obviamente, permanece fora de dúvidas que todos os homens que participam no processo de produção, mesmo no caso de executarem só aquele tipo de trabalho para o qual não são necessárias uma instrução particular e qualificações especiais, todos e cada um deles continuam a ser o verdadeiro sujeito eficiente, enquanto que o conjunto dos instrumentos, ainda os mais perfeitos, são única e exclusivamente instrumentos subordinados ao trabalho do homem.

Esta verdade, que pertence ao patrimônio estável da doutrina da Igreja, deve ser sempre sublinhada, em relação com o problema do sistema de trabalho e igualmente de todo o sistema sócio-econômico. É preciso acentuar e pôr em relevo o primado do homem no processo de produção, o primado do homem em relação às coisas. E tudo aquilo que está contido no conceito de « capital », num sentido restrito do termo, é somente um conjunto de coisas. Ao passo que o homem, como sujeito do trabalho, independentemente do trabalho que faz, o homem, e só ele, é uma pessoa. Esta verdade contém em si consequências importantes e decisivas."
(Encíclica LABOREM EXERCENS - O trabalho humano, n.12)

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

Match Point: versão pós-moderna de Crime e Castigo


Scarlett Johnansson e Woody Allen

Em 2006, ouvi Bruno Tolentino dizer que Match Point, de Woody Allen(EUA, 2005) era um bom filme que estava passando no cinema. Por diversas razões, acabei não vendo o filme na época, e, como estava passando na Globo, acabei vendo ontem.
Match Point é um filme cult, cabeça, intelectual. Portanto, a primeira coisa que subverte é a lógica hollywoodiana de filme de entretenimento. Match Point não é um filme que agrada à primeira vista - a trama se desenvolve de forma lenta no princípio do filme e o filme, em si, só se revela no final.
Match Point é a versão woodyalleniana de Crime e Castigo (1866, Dostoiévski). Uma versão triste, diga-se de passagem. Triste porque é uma versão pós-cristã de Crime e Castigo.
Para começar, mostra um jovem que vem da catolicíssima Irlanda (até pouco tempo atrás) para a pós-moderníssima e ateíssima Londres (Londres é a capital da pós-modernidade, a cidade mais globalizada e menos cristã da Europa). Ao contrário do protagonista de Crime e Castigo, o protagonista de Match Point se dá bem: começa ensinando tênis numa família rica, torna-se amigo do filho do patriarca, namora e casa com a irmã deste, logo conseguindo posição de destaque na empresa do sogro. Ou seja, se dá bem, ao contrário de Raskolnikov de Crime e Castigo, que permanece pobre e miserável.
O inesperado - nos dois casos, o do romance e o do filme - vem em forma de mulher. Em Crime e Castigo, a prostituta apresenta ao assassino o caminho do Evangelho. Em Match Point - no qual a fé é assunto do qual não se fala - aquela que foi a sua cunhada é o "imprevisto" que subverte a sua meta de chegar ao topo: envolve-se num caso com ela, até que ela engravida, e ele, para não perder a sua conquista, mata-a e em paralelo com Crime e Castigo mata a vizinha.
Como no romance de Dostoiévski, o assassino rouba as jóias da velha vizinha e joga no Tâmisa, e o delegado - como no romance - descobre por dedução quem foi o assassino, que é salvo pela coincidência - propositalmente patética - de um drogado ter sido preso com o anel da velha, o que inocentou o assassino que, longe de arrepender, voltou para a sua mulher e a sua nova família rica.
Match Point é uma versão pós-moderna e triste de Crime e Castigo. E Woody Allen é a versão pós-moderna e pós-cristã de Dostoiévski. Quando vi Match Point, me perguntei: "por que Chris não se arrependeu? Por que simplesmente deu o "Match Point" e simplesmente venceu (aparentemente)"? A resposta que entendi foi a seguinte: faltou o povo; e além disso, o Fato não é mais perceptível. Raskolnikov arrependeu-se por encontrar Sonia, a prostituta "pura", que lhe falou do Evangelho, de arrependimento e de perdão, e que disse que estaria com ele onde quer que ele estivesse, e que era necessário confessar o crime e aceitar o castigo, para renascer e tornar-se homem. Na sociedade pós-moderna, não há mais "povo". Só há o "si mesmo", como afirma o filósofo Jean-François Lyotard na sua obra clássica A condição pós-moderna (1979). Ninguém se dá mais a ninguém, e ninguém ama mais ninguém, todas as relações são fruto de interesse e cálculo. Todo mundo só pensa em andar na sua própria highway solitária em busca do sucesso e do "se dar bem" a qualquer custo. Na época do niilismo mais profundo, este drama que acontece na cidade que melhor o representa - Londres - demonstra o que é a sociedade hodierna: o reino do nada, onde tudo se reduz a pura dança sobre o vazio, como bem profetizou Nietzsche, onde todos são guiados não por uma presença amorosa, mas somente pelo instinto e pelo poder. Exatamente como era há 2000 anos atrás, antes do anúncio do Evangelho.

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

A confissão de Picasso


Pablo Picasso

"Na arte, o povo não procura mais consolação e exaltação, mas os refinados, os ricos, os ociosos, os destiladores de quintessências buscam o que é novo, estranho, extravagante, escandaloso. E eu mesmo, desde o cubismo e além dele, eu contentei esses mestres e esses críticos com todas as bizarrices mutáveis que me passaram pela cabeça, e quanto menos eles me compreendiam, mais eles me admiravam.

A força de me divertir com todas essas brincadeiras, com todos esses quebra-cabeças, enigmas,e arabescos, eu fiquei célebre, e muito rapidamente. E a celebridade para um pintor significa vendas, lucros, fortuna,riqueza. E hoje, como o senhor sabe, eu sou famoso, eu sou rico. Mas, quando estou sozinho comigo mesmo, não tenha a coragem de me considerar um artista no sentido antigo e grande da palavra.

Giotto, Ticiano, Rembrandt e Goya foram garndes pintores : eu sou apenas um divertidor do público que compreendeu o seu tempo eexplorou o melhor que pôde a imbecilidade, a vaidade, a avidez de seus contemporâneos. É uma amarga confissão a minha, mais dolorosa do que ela parece. Mas, ela tem o mérito de ser sincera"

(Pablo Picasso, carta a Giovanni Papini, publicada em 1952. Citada in "Découvertes" n°90, 1972, editorial "Picasso pintado por si mesmo." Citado in "Cahiers de Chiré" n°4, 1989, p.354)

domingo, 16 de novembro de 2008

Pensamentos Ridículos

Escrevo esse post pensando na música do Cranberries, Ridiculous Thoughts, e inspirado na quarta-feira, onde fui debatedor no V SepAdm. Ali eu entendi o que são os pensamentos ridículos.
Pensamento ridículo é todo pensamento descolado da realidade, porque quando isso acontece, eu me torno prisioneiro da minha mente, eu me torno prisioneiro de mim mesmo. O cristianismo tem um nome muito preciso a isso. É o que a tradição cristã chama de "inferno".
Inferno é um grande não à vida, ao ser, às coisas, ou seja, à realidade, ao outro. O Inferno é a suprema alienação. Porque o homem não existe per-si (em outras palavras, não é Deus), o homem existe como uma relação, uma relação que lhe é vital, constitutiva. A realidade é para nós como o ventre da mãe para o feto, vital, constitutiva. Isso é tão verdadeiro que os santos chamavam os que negam a Deus como "escravos constrangidos de Deus", porque eu dependo de uma realidade, que é feita por um Outro. Eu não me dou a minha mãe, por exemplo. Sou constrangido a ser filho dela. Não posso não ser mais filho de minha mãe, isto é algo de definitivo, de eterno, para o qual não há mais escolha.
Para ter clareza dessas coisas, a grande e única coisa pedida é olhar a realidade. Nós somos salvos somente pela realidade e dentro da realidade. Por isso que S. Paulo dizia que a realidade é Cristo (Cf. Cl 1,17). O Mistério é a suprema realidade, como "R" maiúsculo.
Infelizmente, o que vi num dos artigos do SepAdm sobre a diversidade foi um monte de blá-blá-blás sem observação da realidade. O cientista Alexis Carrel dizia que muito raciocínio e pouca observação conduz ao erro, muita observação e pouco raciocínio conduz à verdade. Porque a verdade é uma evidência, é um fato na História, diz o Papa. A Bíblia é ainda mais simples, no Antigo Testamento diz: "A verdade é!", no Novo ela fala: "A verdade é a realidade!" Ou seja, são as coisas! É aquilo que existe, e que está na nossa frente, e à qual todos podem ter acesso! O cristianismo é o grande anúncio disto, ou como eu gosto de dizer, é a democratização do Mistério, e é uma educação do espírito a estar diante da realidade tal como ela é. O contrário disso é o que chamamos de pecado, sendo que o maior de todos é o orgulho!
A pessoa que falava em diversidade repetia visivelmente um monte de fórmulas esquemáticas, no meu entender vazias, porque não comparava o que dizia com as aspirações profundas do próprio coração - amor, beleza, bondade, justiça, paz, liberdade, felicidade.
Eu não gosto da palavra tolerância. Porque eu não quero tolerar ninguém, eu não quero suportar! Eu quero conviver, eu quero amar, quero ser amigo daqueles que eu encontrar no caminho da minha vida! Porque não me corresponde me justapôr às pessoas, como se fôssemos meros tijolos do edifício social, somos pessoas com exigência de Infinito! E a grande novidade da fé cristã é que o Infinito se fez homem, encarnou-se, é um homem que come e bebe! E por isso, ligou-se de modo indestrutível a todo e qualquer homem, que graças a isso é sinal e presença do Infinito! Cada pessoa que eu encontro é uma estrada para o Infinito! Como posso apenas me justapôr àqueles que são a estrada que o Infinito, que o Mistério me dá para chegar até Ele? Apenas me justapôr é muito pouco para mim, porque eu desejo o infinito!
O contrário da tolerância é o amor, e amor não é uma coisa romântica, implica muita dor e sacrifício! Sacrifício pelo próprio mal e erros, principalmente; mas também sacrifício pelas incompreensões alheias, para os quais a mera justaposição é a coisa mais cômoda!
Nós estamos diante do fio da navalha. A tolerância anda colada com o niilismo e é a ante-sala da barbárie e da guerra. A convivência, a amizade anda junto com a esperança, e é ante-sala da paz e da civilização!
Mas quem vai nos educar a isso? A realidade! O primeiro passo é explodir a prisão dos próprios pensamentos "ridículos", e adentrar o fascinante mundo do real!

terça-feira, 11 de novembro de 2008

A suprema exigência

Da minha viagem ao Recife me impressionaram várias coisas: a beleza da Veneza brasileira (que de fato ela é!), especialmente a Igreja de Nossa Senhora da Boa Viagem. Mas o que mais me impressionou foi o albergue que eu fiquei, chamado de "Piratas da Praia". Nesse albergue, pelas paredes, e nos livros que tinha lá, em cadernos, sempre se falava em "felicidade". Era evidente que todos buscavam a felicidade, que é de fato, a suprema exigência humana.
E por que fui ao Recife? E por que - se Deus quiser - vou à Nova York em fevereiro? Por que fiz o que fiz e faço o que faço? É porque quero ser feliz! Eu sou exigência de felicidade, o meu coração bate, o meu sangue ferve por dentro das minhas veias exigindo a felicidade. E felicidade quer dizer infinito, porque eu sou exigência do Infinito. Que sou eu? Um nada que exige o infinito. Só isto já é a suprema prova que este infinito existe, como bem o reconheceu Shakespeare em Macbeth (ato V, cena 4): "um mundo sem Deus é uma fábula (uma mentira completa) contada por um idiota (irrazoável, pois sem Deus as "contas" do universo não batem) num acesso de raiva (ou seja, é pura violência)".


A Ressurreição: a resposta do Infinito à suprema exigência humana

Acabo de voltar do Hospital Aliança. Uma grande amiga minha, Silvana, está com a mãe na UTI em estado gravíssimo, no limiar da morte. Ali eu entendi o que é a Ressurreição. É impressionante enxergar o olhar e o rosto de Silvana. Há alguma coisa ali - naquela ante-sala de UTI - que é diferente do normal, uma paz, uma serenidade, e até uma alegria. Lá torna-se visível algo não apenas meramente humano, que possibilita isto: este "Algo" dentro de "algo" é o próprio Infinito. É o Infinito que se faz presente.
Na França, o Papa disse em setembro que a verdade é um fato dentro da História. Maria Zambrano disse que a verdade é o alimento da vida! A verdade que é este fato é Jesus! E Jesus ressuscitou na manhã da Páscoa, destruindo a morte, isto é, a finitude, para sempre! Jesus ressuscitou para dizer que nada do que somos se perderá! É isso que se chama "salvação". Sem a Ressurreição, resta-nos sermos engolidos pela voragem inexorável do nada! Mas não! Jesus ressuscitou! Silvana me deu testemunho disso hoje, 11 de novembro! É a realidade que grita: Ele está vivo!

sábado, 1 de novembro de 2008

A Rebelde


Maria

"Dela será dito:
todo homem ali nasceu
e foi o Altíssimo que a firmou
(...)
tanto os príncipes como os filhos
todos têm sua morada em ti" (Sl 87, 5.7)

Em hebraico seu nome significa "Rebelião" ou "A Rebelde", em grego "A Senhora da Luz". Os trechos em negrito bem exemplificam a rebelião, a tensão, a luta que ela veio introduzir no mundo, a nossa amada rebelde.

"E Maria disse:
Minha alma glorifica ao Senhor,
meu espírito exulta de alegria
em Deus, meu Salvador,
porque olhou para a humildade da sua serva.
Por isto, desde agora,
me proclamarão bem-aventurada todas as gerações,
porque realizou em mim maravilhas
aquele que é poderoso e cujo nome é Santo.
Sua misericórdia se estende,
de geração em geração,
sobre os que o temem.
Manifestou o poder do seu braço:
desconcertou os corações dos soberbos.
Derrubou do trono os poderosos
e exaltou os humildes.
Saciou de bens os indigentes
e despediu de mãos vazias os ricos.

Acolheu a Israel, seu servo, lembrado da sua misericórdia,
conforme prometera a nossos pais,
em favor de Abraão e sua posteridade, para sempre."
Lc 1,46-55)

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

Eloá instrumentalizada


O mar, símbolo do caos e do paganismo, e por autonomásia, deste mundo

O que eu mais acho impressionante nas ideologias é o quanto elas aproveitam da realidade para justificarem a si mesmas. O movimento do homem sadio, do homem são é deixar-se corrigir pela realidade, seja ela qual for, enquanto que o homem ideológico perverte a realidade para justificar as suas teorias. A teoria, necessariamente é algo parcial, é uma sintetização da realidade que sempre precisa de uma correção. Quem é cientista sabe muito bem que a ciência corrige-se a si mesma, junto com a filosofia, rumando à verdade, àquilo que é. Verdade, veritas, aletheia é a correspondência entre a minha inteligência (nous) e a realidade, as coisas (rei). Por isso, devemos sempre deixar nossas teorias serem constantemente corrigidas pela realidade. Quando nós, numa pretensão de "dar lições à realidade", temos a pretensão de substitui-la por uma teoria que a explique de uma vez por todas, temos o fenômeno da ideologia. Ideologia é um sistema de pensamento, uma teoria sistematizada que pretende dar ao homem uma explicação total da realidade. O homem não consegue viver numa tensão diante do real. A primeira coisa que a ideologia mata é o conhecimento. Porque o conhecimento vem do choque entre a minha consciência e a realidade. Se eu já tenho a explicação total da realidade, eu me nego a receber o impacto do real, e deixo de conhecer, empobreço-me enquanto pessoa e enquanto homem de ciência. O progresso da ciência depende sempre desse choque, desse impacto com o desconhecido que vai tornando-se conhecido. A tentação da torre de marfim da ideologia é muito grande. Não é à toa que o Livro da Sabedoria, na Bíblia apresenta a idolatria, que é a pretensão de tomar a parte como o todo, como a origem de todo o mal, porque fecha o homem à realidade e à "Realidade" (com "R" maiúscula) suprema, que é o mistério de Deus.

Este é o motivo porque também os ídolos das nações serão julgados,
porque, na criação de Deus, eles se tornaram uma abominação, objetos
de escândalo para os homens, e laços para os pés dos insensatos.
É pela idealização dos ídolos que começou a apostasia, e sua
invenção foi a perda dos humanos.
Eles não existiam no princípio e não durarão para sempre;
a vaidade dos homens os introduziu no mundo. E, por causa disso,
Deus decidiu a sua destruição para breve.
(...)
Como se não bastasse terem errado acerca do conhecimento de
Deus, embora passando a vida numa longa luta de ignorância, eles dão
o nome de paz a um estado tão infeliz.
Com efeito, sacrificando seus filhos, celebrando mistérios ocultos, ou
entregando-se a orgias desenfreadas de religiões exóticas,
eles já não guardam a honestidade nem na vida nem no casamento,
mas um faz desaparecer o outro pelo ardil, ou o ultraja pelo adultério.
Tudo está numa confusão completa - sangue, homicídio, furto,
fraude, corrupção, deslealdade, revolta, perjúrio,
perseguição dos bons, esquecimento dos benefícios, contaminação
das almas, perversão dos sexos, instabilidade das uniões, adultérios e
impudicícias -
porque o culto de inomináveis ídolos é o começo, a causa e o fim de
todo o mal.
(Sb 14,12-14.22-27)

Toda essa conversa foi pra falar de Eloá. Recebi o e-mail de um amigo dizendo que as feministas estão taxando o fato de "feminicídio". Pra mim, se trata sim, da morte de uma mulher, de uma menina, mas antes de tudo, da morte de uma pessoa humana. De uma pessoa que tem um valor infinito justamente pelo fato de ser uma "cópia" desse mesmo infinito, da mesma forma que os embriões e fetos que as feministas advogam a morte. A ideologia feminista é exemplo do que falei acima: não se olha a realidade, o fato de uma pessoa estar viva e aspirar à vida, e não à morte. O homem naturalmente aspira à vida e não à morte, tanto é que já vejo muitos defensores do aborto dizerem que fazem isso em "defesa da vida" e que não têm prazer na morte do feto, mas que isso é algo "necessário" em virtude da "saúde pública". Pelo menos já é uma posição mais humana. Mas a vida é um fato, existe, não se reduz a ideologias ou a sistemas de pensamento ou a engenharias sociais. Diante da vida, não se pode mover-se tendo uma receita (que é a ideologia, ideologia é uma receita). Diante da vida, só se pode mover-se com comoção, como alguém se move quando outro está se afogando, ela não teoriza sobre ou vai buscar uma receita para salvar o outro, simplesmente pula no mar e salva quem está morrendo. Por isso, o Servo de Deus João Paulo 2º disse que não será uma fórmula, ou seja, uma ideologia a nos salvar, mas uma pessoa, alguém que pule no mar e nos salve de nos afogarmos. Para os pagãos, o mar é símbolo do caos e da desordem, por isso, o mar virou símbolo do paganismo, e por autonomásia, deste mundo. Nós, cristãos, temos "a" novidade por excelência. No mar das nossas vidas, e do nosso mundo, no qual estávamos nos afogando, alguém - o Verbo divino, a Razão-Amor - já "pulou" para nos salvar, entrando dentro da História na noite de Natal, para instaurar uma nova cultura, da vida e de amor à realidade, e portanto às pessoas. Será que nos nós estamos dispostos a abandonar os nossos ídolos, as nossas criações mentais e nos aventurarmos na aventura iniciada pelo próprio Infinito, quando por puro amor, resolveu descer a esta Terra, para salvar-nos?
Esta é a pergunta: queremos as trevas da idolatria, nas quais a morte de Eloá é instrumentalizada politicamente, ou a novidade do amor, na qual a morte de Eloá se torna perdão e vida, como para as sete pessoas que receberam os órgãos dela? A escolha está em nossas mãos.

sexta-feira, 24 de outubro de 2008

Agnósia (Ensaio sobre a cegueira)


Juliane Moore

Anteontem assisti o filme "Ensaio sobre a cegueira", baseado na obra de Saramago (1995). O filme é algo excepcional; fidelíssimo ao livro homônimo ele consegue ao mesmo tempo subverter os cânones hollywoodianos e os do cinema "cult" (que eu, particularmente, gosto).
Ensaio sobre a cegueira parte de uma situação insólita: de repente todos os habitantes de uma cidade começam a ficar cegos, de uma cegueira "branca", leitosa (onde o doente vê não a escuridão, mas uma névoa branca em sua frente), de uma doença, que depois é diagnosticada como agnósia.
Agnósia remonta claramente a agnosticismo, é uma metáfora muito clara do agnosticismo, que é um método de pensamento através do qual as pessoas, observando a realidade, são incapazes de reconhecer o Mistério, e dessa forma, reconhecer a si mesmas (pois o homem só tem consistência em si mesmo, ontologia, no Mistério, fora disso ele é nada e pó, como nos atesta a sociologia do conhecimento e o marxismo).
As pessoas começam a ficar cegas e os seus instintos começam a aflorar, como se o fato delas não mais poderem ver as desinibisse da moral. Na verdade, o que o filme passa é que o homem, sem os grandes ideais, nada mais é do que um animal, do que uma mera formiga, escrava dos instintos ou do poder. É interessante ainda o fato de uma pessoa permanecer vendo: a esposa do médico. Ela, vendo toda aquela situação, se torna serviço. Subvertendo o ditado que diz que em terra de cego, quem tem um olho é rei, ela, tendo um olho, vendo, se torna serva, indicando o caminho para o controle e o possível fim da barbárie.
Eu achei também muito interessante a referência a São Paulo. Ele foi convertido sendo cego por uma luz, porque vendo os cristãos, foi incapaz de reconhecer o Senhor Jesus, precisando se tornar cego para converter-se e voltar a enxergar. Há uma clara referência ao Evangelho: os homens estão incapazes de ver, e por isso ficaram cegos, porque vêem, mas na verdade não enxergam. o filme claramente nos diz: somos cegos com olhos!
Eu achei também muito interessante uma coisa que foi dita sobre os relacionamentos: antes da epidemia de cegueira, as pessoas não se relacionavam porque tinham medo de se perder, tinham medo de perder a sua individualidade e pessoalidade, e também pelo fato da auto-suficiência: achando que bastavam-se a si próprias (o que é um engodo terrível), se iludiam pensando que não precisavam de ninguém. A cegueira os mostrou o que de fato eram: dependentes uns dos outros e revelou a eles que não se perderiam se se tornassem amigos, mas que esse era o caminho para "se ganharem uns aos outros".
Vi muita gente falar mal do filme: me disseram que é chocante, que tem muita miséria, que não tem beleza etc. O que querem? Desconhecem o homem e o seu mal? Eu acho que este é um filme para nos sacudir e para nos forçar a pensar, para nos ferir, porque nós estamos acostumados a ver casos como o de Eloá e já se torna algo que nem mais nos sensibliza e muito menos comove e mobiliza. Penso que Ensaio sobre a cegueira cumpriu sua missão. Espero que ele abra os nossos olhos para o seguinte fato: ou pomos diante de nós grandes ideais ou nos reduziremos a formigas, fazendo emergir a barbárie neste mundo e aumentar ainda mais a injustiça, a tristeza e o cinismo.

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

Eloá


Eloá

Escrevo esse post ouvindo Zombie e pensando nesse mundo no qual habita a injustiça, e também a tristeza, mas acima de tudo, o cinismo. Enquanto uma vida - uma vida! - foi perdida, as pessoas se metem em investigações cínicas para saber quem foi o culpado, ou pior ainda falando sobre o fato do pai da menina ser um foragido da polícia. Eu ouvi até gente dizer "aqui se faz, aqui se paga, matou tantos, e agora a filha foi morta" ... um absurdo completo!
Não consegui reprimir as lágrimas assistindo pela TV o enterro de Eloá e vendo como este mundo, como bem diz o Evangelho jaz no maligno, no mal, na mentira, no ódio. Porque as pessoas se odeiam umas às outras, se ignoram e se repelem umas às outras, e querem pôr toda a culpa num jovem de 22 anos como o ex-namorado de Eloá, Lindembergue. Não gosto de teorias que vitimizam, mas digo com certeza que ele nada mais é do que fruto desta sociedade que vive a época mais terrível da História, época na qual a depressão se tornará em breve, a segunda causa de morte no mundo. A depressão é algo terrível, eu já vi uma pessoa morrer de depressão, em 2004, e tenho amigos que sofrem com este, que é o mal do século XXI, a era mais gélida de todos os tempos. Dante, no canto XXXIV da Divina Comédia, afirma que "o coração, o centro do inferno é feito de gelo":

À parte era chegado, onde imergida
Cada alma em gelo está (tremo escrevendo),
Bem como aresta no cristal contida.
(...)
Do aflito reino o imperador eu via:
Do gelo acima o seio levantava.
A um gigante igualar eu poderia,

(Divina Comédia, Inferno, Canto XXXIV, vv. 10-12; 28-30)

O inferno ser de gelo significa que lá não há movimento, tudo é parado, é morte, é frio e desolação. Tudo isso porque o inferno nada mais é que um grande "não" ao ser e à vida, que podemos dar individualmente, mas que pela primeira vez na História, estamos dando coletivamente como sociedade: como é que um homem permite que a menina Nayara voltasse a estar com o seqüestrador se ele olhasse minimamente que fosse para o valor - infinito - da vida dela? Essas são questões que a desvalorização da vida, a cultura da morte nos impõe ... a vida não vale mais nada, e acabamos sendo, como afirmou Sartre, "formigas". Encontrei uma mulher revoltada no domingo com esta situação: "hoje em dia ninguém mais se preocupa com ninguém! O ser humano não é disso! Formiga é que é assim! Você pisa em uma, a outra cheira, e depois vai embora!" Os gatos também são assim, se dois gatos irmãos estão num telhado, um deles cai e morre, o que o outro faz? Vai cheirar, e depois sai, como se nada tivesse acontecido. Mas nós não somos assim, embora estejamos vivendo assim. É essa indiferença que tem gerado a depressão, o desespero e o desequilíbrio, porque o homem é exigência de infinito, de ser amado, acolhido e abraçado, o homem é espera do infinito, é espera do amor, e quando não encontra, murcha, fenece e morre.
Outra coisa que pouquíssima gente se deu conta. Pelo menos a mãe e o irmão de Eloá são evangélicos. "Eloá" em hebraico significa "Deus". É tremendo como uma metáfora profundíssima. Nossa sociedade está assim, porque Deus mesmo está sendo assassinado. Nietzsche disse: "Deus está morto - e completa - e fomos nós que o matamos". A morte de Eloá é poderosíssima para demonstrar que a sociedade está assim porque nós, nós assassinamos Deus, e portanto a própria Eloá. João Paulo 2º disse, na mensagem para o Dia Mundial da Paz de 1985, que quando nós assassinamos Deus, é o homem que morre a seguir. Porque o homem só tem valor, só tem o ser se o reconhecemos como relação direta com o Mistério, com o infinito, e portanto mais do que meras formigas.
A saída nos é dada pela própria mãe, que segue o que a grande filósofa Hannah Arendt reconheceu como a grandeza do cristianismo: o perdão. A mãe de Eloá perdoou o assassino. Eu chorei ontem vendo aquilo! Que mulher grandiosa! Dava pra ver que era verdade, que não era só encenação! E por que ela conseguiu perdoar? Porque já se reconhecia perdoada! A grandeza do cristianismo é que ele não é uma doutrina, uma teoria, é um fato, é Alguém que te diz: "Eu te amo, eu te perdôo!", que introduz o amor no mundo, pois para o homem, ser amado significa ser perdoado. Fiquei muito comovido com o irmão de Eloá que disse que aquilo se tratava de um desígnio de Deus para salvar a vida de sete pessoas, e que tinha ficado feliz com o fato de Eloá viver em sete pessoas! Meu Deus, como estou comovido! A solução para o mundo é mesmo o amor, que só pode vir da fé, como tantos têm nos testemunhado: Cleuza e Marcos Zerbini, Rose e Vicky de Uganda, e agora a mãe e o irmão de Eloá. De fato, um outro mundo é possível: esta é a vitoria que venceu o mundo, o inferno, a depressão e o nada: a nossa fé!

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

A perfeição (Clarice Lispector)


Clarice Lispector

O que me tranqüiliza
é que tudo o que existe,
existe com uma precisão absoluta.

O que for do tamanho de uma cabeça de alfinete
não transborda nem uma fração de milímetro
além do tamanho de uma cabeça de alfinete.

Tudo o que existe é de uma grande exatidão.
Pena é que a maior parte do que existe
com essa exatidão
nos é tecnicamente invisível.

O bom é que a verdade chega a nós
como um sentido secreto das coisas.

Nós terminamos adivinhando, confusos,
a perfeição.

In: A Descoberta do Mundo, Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1984, p. 226

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

Hegel e o Belo

"Ora, a unidade entre o homem no tempo e o homem na idéia de dois modos se pode realizar: de um lado, o Estado, como representaçao genérica do que é moral, conforme ao direito e a inteligência, pode suprimir todas as suas encarnações individuais; de outro lado, o indivíduo pode elevar-se ao genérico, e o homem no tempo adquire títulos de nobreza tornando-se homem na idéia. A razão exige a unidade como tal, isto é, o genérico, enquanto a natureza suscita a variedade e a individualidade, e assim cada uma delas procura chamar a si o homem. Perante o conflito entre as duas forças, cumpre a educação estética impor-se como mediadora, porque o seu fim consiste, segundo Schiller, em conferir às inclinações, tendências, sentimentos e impulsos, uma formação que as leve a participar na razão, de tal modo que a razão e a espiritualidade ficam despojadas do caráter abstrato para se unirem à natureza como tal, e da sua carne e do seu sangue se enriquecerem. Assim é o belo considerado como resultante da fusão racional e do sensível". Hegel

Pensamentos econômicos: a crise de 2008!

Qualquer pessoa que estudou um pouco de finanças globais já sabia que o craque está acontecendo agora, iria acontecer, mais cedo ou mais tarde. O sistema das finanças mundializadas, como o chama François Chesnais é simplesmente "insustentável", por basear-se na dívida e no capital fictício, em dinheiro simplesmente inexistente. Quem me conhece, sabe que eu não sou nem um pouco comunista, abomino este sistema horroroso que liqüidou a vida de mais de cem milhões, mas isso não me autoriza a ser um adorador do bezerro de ouro capitalista.
Em primeiro lugar, é preciso dizer que o capitalismo é um sistema anárquico. Ele floresceu na medida em que se desagregavam os laços sociais que dominaram toda a Idade Média. Ele nasceu e floresceu nos interstícios do medievalismo. É um sistema essencialmente anti-comunitário, anti-associativismo, porque nasceu exatamente onde a rede de laços sociais decaía, no humanismo tardio, no século XIV, em Veneza, Itália, graças a abertura do Mar Mediterrâneo conseguida pelas Cruzadas e pela Guerra de Reconquista (732-1492). Capitalismo nunca combinou e jamais combinará com Estados, porque o capitalismo é o contrário dos Estados. O ideal capitalista é que não aja Estado nenhum, mas paradoxalmente, sem o Estado o capitalismo desmorona, porque o Estado é funcional (haja vista o pacote de 1 trilhão de dólares que o governo americano - a meca do neoliberalismo - está dando para sanar a crise) ao capitalismo. Sem Estado, bye-bye capitalismo, bye-bye Terra. É triste, mas é verdadeiro.
Pra mim, a verdadeira alternativa ao capitalismo não é o comunismo, que lhe é um sistema primo (tanto é que verdade que nos países onde o comunismo triunfou, vigorou muito mais um "capitalismo de Estado" - chamado também de "socialismo real" - do que qualquer outra coisa), mas aquele contra o qual o capitalismo nasceu: o cristianismo!
É claro que "capitalismos" sempre existiram, como afirma Max Weber em A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo, mas algo como o capitalismo global, é algo que só se organizou a partir do início do declínio do cristianismo, na Veneza do século XIV: Braudel venha nos socorrer! http://www.braudel.org.br/
A crise é fruto de uma mentalidade: farinha pouca, meu pirão primeiro, quero ganhar a qualquer custo, quero ser oportunista! Pra isso se inventaram os derivativos, as securitizações, as opções futuras, e uma série de instrumentos financeiros para administrar a rolagem de dívidas e gernciar os riscos. Quando todo mundo resolve jogar com os riscos alheios, se preparem porque o circo está pronto! A loucura com método é esta, e é isto que se chama de neoliberalismo, que somado a péssimas administrações e corrupções, quase destruiu a economia do México, do Leste Asiático, da Rússia, do Brasil e da Argentina na década passada, levando milhões de pessoas para baixo da linha da pobreza.
Comunismo resolve? Duvido muito! Comunismo é a pregação do ódio, é ódio ideologizado, pra mim só a gratuidade, o amor e a responsabilidade na gestão destes imensos ativos financeiros que pairam sobre as nossas cabeças é que pode resolver alguma coisa. E Estado e democracia no seu justo lugar. Bem certo disse o Papa Bento XVI no Sínodo dos Bispos sobre a Palavra de Deus, sobre a crise: "não devemos pôr a nossa esperança no dinheiro, porque também ele desaparece, e vira pó; mas somente na Palavra de Deus!" Eu acho a mesma coisa: só isto vai criar uma nova sociedade, fundada na gratuidade, e não na ganância e na esperteza, representado pelo touro de Wall Street.

Moby Dick: um evangelho em forma de romance!

O poeta Bruno Tolentino disse em artigo de abril do ano passado que "não há alternativa cultural ao cristianismo". E isso é verdade porque o cristianismo se pretende como a resposta total às esperas e anseios de todos os homens e mulheres. Não é à toa que a palavra católico, em grego katolikoi significa total. Igreja "católica" significa Igreja "total". Catolicidade é sinônimo de "totalidade". A Igreja pode pretender-se uma e "a" totalidade porque não carrega uma doutrina, mas uma pessoa e a sua pretensão nada mais que propagar a amizade com ela. Toda a missão da Igreja católica e do Papa nada mais é do que tornar Jesus Cristo conhecido. A missão do Papa é a mais crucial de todos os homens: tornar Jesus Cristo conhecido à totalidade dos homens, porque para nós Jesus Cristo é a salvação, do corpo e da alma, do aquém e do além, da minha vida e da sociedade, da história e do cosmos. É dramática essa missão, para nós, que temos essa consciência. E nessa missão, o instrumento que temos é o diálogo. Pode-se usar de tudo e de todas as formas. Uma delas é o romance Moby Dick, uma metáfora do Evangelho. Moby Dick é um sinal poderosíssimo de Cristo e um sinal de que a nossa cultura está totalmente imbricada nEle. E como é impossível, para nós, ocidentais, não "tropeçarmos" em Jesus e nem nos desvencilharmos dEle, por mais que queiramos. Quem quiser negar Jesus Cristo no Ocidente é bom começar arrancando os próprios olhos, ouvidos e o cérebro, para completar. O homem moderno se parece muito com o Capaneu de Dante. Capaneu é um gigante preso no Inferno por correntes. Ele diz: "Deus me prendeu aqui [foi Deus que nos pôs nessa vida, nós não a pedimos, e por mais que queiramos não conseguimos mudar muita coisa, em certa forma somos prisioneiros do tempo, do espaço e das circunstâncias], e eu não posso me livrar dessas correntes [quem pode livrar-se de si?], mas eu posso blasfemá-lO [a liberdade foi nos dada e podemos dizer um "grande não" ao Infinito e isso é o que se chama de "inferno"]". Mas não é muito maior amar o Infinito? Não é muito maior aproveitar para se perguntar "quem é este?" que há 2000 anos atravessa a história e chega à nossa vida? Para ajudar nisso, segue abaixo o artigo de Nivaldo Cordeiro sobre Moby Dick. Se alguém fala melhor que eu, é melhor pô-lo para falar, e escutar.


Moby Dick

por Nivaldo Cordeiro
Vice-Presidente do Conselho Fiscal do CIEEP (Centro Interdisciplinar de Ética e Economia Personalista)

Faço aqui um breve comentário, mais no intuito de divulgar a obra entre aqueles que não leram, ou leram na juventude e deixaram de sorver o vinho armazenado em velhos odres, o melhor de todos. Ler o livro de Herman Melville (1819-1891), “Moby Dick”, depois de tantos anos, é uma grande aventura para a alma. Sim, o livro fala mesmo é de iniciação mística, da morte e ressurreição pensadas nos termos cristãos. É atualíssimo, não obstante a sua narrativa ser um tanto antiquada. Todo o texto fala de uma única pessoa, o próprio autor, e para compreender a epopéia é preciso lê-lo de trás para frente, mas isso não é possível numa primeira vez. É obra para os espíritos velhos, de todas as idades, sobretudo para quem já passou do meio-dia da vida.

Os personagens principais não coincidentemente recebem nomes bíblicos. Ismael, o filho de Abraão com a serva de Sara, Agar, dá nome ao personagem principal e narrador, o único que sobrevive à aventura heróica. Acab, personagem casado com Jezabel, “o que era mal aos olhos do Senhor, mais do que todos os que foram antes dele” (1Reis 16,30), dá nome ao segundo personagem em hierarquia de importância. Jezabel era aquela que matava os profetas do Senhor. Elias, diante de Acab e de todo o povo, pergunta: “até quando coxeareis entre dois pensamentos?” (1Reis 18,21), Acab, o personagem, era coxo, pois o Leviatã havia lhe devorado uma das pernas.

É evidente, para quem conclui a leitura, que Acab é a velha personalidade de Ismael que precisava morrer para renascer, sendo Ismael o único que poderia sobreviver à louca aventura da alma. O título do Epílogo não deixa margem à dúvida: “E só eu escapei para contar-te”, citação extraída no Livro de Jó. Em “Moby Dick” podemos ler: “Considerai tudo isso, e voltai-vos depois para essa verde, suave e docílima terra; considerai os dois, o mar e a terra: não descobris estranha analogia com algo dentro de vós? Pois assim como esse pavoroso oceano rodeia a terra verdejante, assim também na alma do homem jaz uma Taiti insular, cheia de paz e alegria, mas cercada de todos os horrores da existência semi-conhecida. Deus te guarde! Não desatraques dessa ilha, não podes voltar jamais”. Claro que Melville refere-se à dialética entre o Eu e o Inconsciente, para usar a terminologia junguiana.

Em outra parte podemos ler: “Oh! Meus amigos, mas isso é matar o homem! E, todavia, isso é vida. Pois nem bem nós, mortais, com longas labutas extraímos do vasto corpo desse mundo seu escasso, mas valioso espermacete; nem bem, com fatigada paciência, nos limpamos das sujeiras desse mundo e aprendemos a viver aqui, nos puros tabernáculos da alma; nem bem fazemos isso, quando – ‘Lá esguicha ela’ – jorra a alma, e lá velejamos para combater outro mundo e atravessar de novo a velha rotina da vida jovem”. Esse trecho deixa claro que a pesca da baleia é uma metáfora para o crescimento espiritual e que a baleia pode ela mesma ser identificada com a própria alma, posto que é um símbolo da transformação do inconsciente.

Outro personagem que precisamos sublinhar é Quiqueb, a sombra primitiva e canibal de um cristão civilizado, o canibal caçador de cabeças que as vendia empalhadas, chegando a dar uma delas para Ismael. Cabeças cortadas e empalhadas por um canibal primitivo são apenas uma maneira que o autor encontrou para mostrar o quando vale a função pensamento e mesmo o intelecto, desgrudado de sua plenitude com as demais funções psicológicas, como vemos no mundo moderno. Em outra parte do “Moby Dick”, duas cabeças de baleia são penduradas no navio, quais esfinges. Ainda uma vez notamos a preocupação de Melville em denunciar a unilateralidade do intelecto no mundo ocidental. Quiqueb é a Sombra de Ismael porque com ele divide o leito, fato estranhíssimo para um homem viril se não for considerado um recurso narrativo, para mostrar o conteúdo psicológico do mesmo. Dormimos com a nossa sombra agarrada às nossas costas, para o nosso desconforto e a nossa redenção. Em outra parte, Quiqueb e Ismael são amarados com cordas para cumprir tarefas arriscadas, de tal sorte que um só poderia viver se o outro também vivesse, formando uma unidade. Um dos capítulos dá ênfase a Quiqueb, que é chamado de forma sintomática de “Um amigo íntimo”.

O início da narrativa começa em uma noite escura e fantasmagórica, recurso também usado por Dante Alighieri (1265-1321) para iniciar o seu grande poema de iniciação – “A Divina Comédia” – para relatar os fatos da alma. Os tempos também são bíblicos: três anos de viagem, três dias de caçada, tempo que se liga diretamente a terceiro dia da paixão e morte de Cristo, quando ocorre a sua ressurreição. O autor, por esse recurso, também faz da sua aventura a máxima aventura do Cristianismo. Ele é salvo no final por um salva-vidas na forma de ataúde. A morte é seguida por ressurreição. Ismael é resgatado pelo veleiro “Raquel”, alusão àquela que não queria ser consolada, pois que seus filhos já não viviam, personagem do livro de Jeremias.

E o paralelo com o livro de Jonas mais do que salta aos olhos. Esse livro profético mantém interesse especial por dois motivos. O primeiro é que é uma narrativa estranhíssima e, a rigor, não é exatamente profético. Jonas foge de uma missão dada por Deus, mas dela não consegue se livrar. O segundo porque é o primeiro instante na história da Revelação que a Justiça divina é suplantada por sua Misericórdia. Por isso é um dos livros capitais da Bíblia. A metáfora do homem que por três dias entra no ventre da baleia e depois é devolvido a terra é uma prefiguração da história de Cristo, de sua morte e ressurreição.

A pesca da baleia e seus navios foram magistralmente utilizados por Melville como metáfora. O baleeiro, por exemplo, tem um forno, que pode ser considerado uma espécie de inferno das profundezas, onde ardem as almas penadas.

É notável a ausência de personagens femininos, que aparecem apenas em esposas, mães e filhas ausentes, e também nos nomes de outras embarcações (“Raquel”, “A Virgem”). Mas o elemento feminino é, sobretudo, sublinhado pelo oceano, as profundezas da função sentimento tão pouco desenvolvida nas pessoas do tipo pensamento. As cabeças empalhadas de Quiqueb mostram a compensação da consciência unilateral do autor, assim como o mar profundo a grandeza exaltada da função feminina por excelência, a sentimento. É uma epopéia masculina.

É óbvio que a leitura do livro pressupõe certo conhecimento da Bíblia, sem o qual muitas passagens não terão sentido e muito da sutileza psicológica não poderá ser percebida. “Moby Dick” é um evangelho escrito na forma de romance.

terça-feira, 7 de outubro de 2008

A Carta a Diogneto

Esta belíssima carta do século II d.C. (escrita entre 120 e 150 d.C.) testemunha bem o que era e continua sendo o evento cristão:

Carta a Diogneto

"Os cristãos não se distinguem dos demais homens, nem pela terra, nem pela língua, nem pelos costumes. Nem, em parte alguma, habitam cidades peculiares, nem usam alguma língua distinta, nem vivem uma vida de natureza singular. Nem uma doutrina desta natureza deve a sua descoberta à invenção ou conjectura de homens de espírito irrequieto, nem defendem, como alguns, uma doutrina humana. Habitando cidades Gregas e Bárbaras, conforme coube em sorte a cada um, e seguindo os usos e costumes das regiões, no vestuário, no regime alimentar e no resto da vida, revelam unanimemente uma maravilhosa e paradoxal constituição no seu regime de vida político-social. Habitam pátrias próprias, mas como peregrinos: participam de tudo, como cidadãos, e tudo sofrem como estrangeiros. Toda a terra estrangeira é para eles uma pátria e toda a pátria uma terra estrangeira. Casam como todos e geram filhos, mas não abandonam à violência os recém-nascidos. Servem-se da mesma mesa, mas não do mesmo leito. Encontram-se na carne, mas não vivem segundo a carne. Moram na terra e são regidos pelo céu. Obedecem às leis estabelecidas e superam as leis com as próprias vidas. Amam todos e por todos são perseguidos. Não são reconhecidos, mas são condenados à morte; são condenados à morte e ganham a vida. São pobres, mas enriquecem muita gente; de tudo carecem, mas em tudo abundam. São desonrados, e nas desonras são glorificados; injuriados, são também justificados. Insultados, bendizem; ultrajados, prestam as devidas honras. Fazendo o bem, são punidos como maus; fustigados, alegram-se, como se recebessem a vida. São hostilizados pelos Judeus como estrangeiros; são perseguidos pelos Gregos, e os que os odeiam não sabem dizer a causa do ódio. Numa palavra, o que a alma é no corpo, isso são os cristãos no mundo. A alma está em todos os membros do corpo e os cristãos em todas as cidades do mundo. A alma habita no corpo, não é, contudo, do corpo; também os cristãos, se habitam no mundo, não são do mundo. A alma invisível vela no corpo visível; Também os cristãos sabe-se que estão neste mundo, mas a sua religião permanece invisível. A carne odeia a alma, e, apesar de não a ter ofendido em nada, faz-lhe guerra, só porque se lhe opõe a que se entregue aos prazeres; da mesma forma, o mundo odeia os cristãos que não lhe fazem nenhum mal, porque se opõem aos seus prazeres. A alma ama a carne, que a odeia, e os seus membros; Também os cristãos amam os que os odeiam. A alma está encerrada no corpo, é todavia ela que sustém o corpo; Também os cristãos se encontram retidos no mundo como em cárcere, mas são eles que sustêm o mundo. A alma imortal habita numa tenda mortal; Também os cristãos habitam em tendas mortais, esperando a incorrupção nos céus. Provada pela fome e pela sede, a alma vai-se melhorando; também os cristãos, fustigados dia-a-dia, mais se vão multiplicando. Deus pô-los numa tal situação, que lhes não é permitido evadir-se."