sábado, 7 de março de 2015

Porque sou contra o impeachment



Estamos na véspera do Dia Internacional da Mulher, que Dilma usará para defender o seu governo. Ao mesmo tempo, estamos a uma semana das manifestações que estão sendo organizadas pelas redes sociais pedindo o impeachment de Dilma Rousseff.

Desde sempre me declarei contra o impeachment. Algumas pessoas ficaram espantadas, outras perplexas, outras felizes, cada uma de acordo com a sua orientação política. Desde as comemorações à minha recusa a participar de tal ato às surpresas, a mim fica claro, patente, evidente e notório que o país está dividido. E dividido de uma forma péssima. Nas redes sociais, quais privadas pós-modernas, destila-se ódio e rancor, que vai parar nas ruas, e vê-se até amizades sendo rompidas por causa da senhora Rousseff. Eu creio que a situação já chegou num limite insuportável e insustentável.

Muitos vêm me alegar a incompetência para empichar a Rousseff do poder! Mas desde quando a Constituição exige que alguém seja "competente" para exercer o poder? A Constituição exige apenas que o candidato seja eleito, e isso a senhora Rousseff o foi! Com 3 milhões e meio de votos a mais que o segundo colocado! Outros vêm me alegar ladroagem, corrupção e coisas do gênero. Acontece que até o momento no qual escrevo estas linhas não há uma prova sequer contra a senhora Rousseff no escândalo do Petrolão.

O que está faltando então?

Falta, antes de tudo, um juízo claro.

Em primeiro lugar, construímos o Brasil não somente nas grandes ocasiões, como nas eleições de outubro de 2014, nas Jornadas de Junho de 2013, ou ainda na Manifestação de 15 de março de 2015, mas o construímos todos os dias, no nosso cotidiano, no "mundo da vida", diria o filósofo Jürgen Habermas.

Em segundo lugar, a divisão que se encontra no país é péssima para a convivência, pois sataniza, demoniza o outro, tornando impossível o diálogo e a construção do bem comum; pois, se o outro é algo completamente negativo que eu tenho que necessariamente destruir, como dialogar, como construir junto?

Dilma Rousseff e o Papa Francisco

Falta a Política com "P" maiúsculo, falta uma oposição real, falta um projeto de país. Os que querem simplesmente tirar a Rousseff, qual projeto têm para o país? Ou tal projeto se limita a achar que "tirando a Dilma ou o PT as coisas naturalmente voltarão para o lugar"? Mas tal coisa já foi pensada pelos militares no tempo do PC do B, e todo mundo já viu o resultado. Tal racionalização do mal é gnóstica e anti-cristã. Não há uma equação para resolver o problema do mal. Tal "solução" não virá de mais violência como tenho visto por aí. Tal solução só podemos encontrar num caminho de paciência e humildade, num caminho de diálogo e reconhecimento da positividade do outro. Só é possível trilhar um caminho assim se nos deixarmos antes vencer por um olhar misericordioso que nos abraça e perdoa, e permite olhar o outro, perdoar, dialogar e construir.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

A radicalidade do mal

O piloto jordaniano Muath al-Kasaesbeh
Eu estou absolutamente chocado com a morte do piloto jordaniano Muath al-Kasaesbeh. Quando a gente pensa que já viu tudo, eis que o Estado Islâmico coloca uma pessoa numa jaula, e a deixa com um rastro de fogo para ser queimada viva e oferecida em holocausto ao mundo em espetáculo. Na sociedade do espetáculo, oferece-se ao público um Big Brother satânico de vítimas sendo decapitadas, e agora queimadas vivas dentro de uma jaula. Isto é uma coisa simplesmente inominável. Tamanho horror midiatizado, espetacularizado, nem Adolph Hitler sonhou. Nem Guy Débord imaginaria que a sociedade chegaria a esse nível grotesco de espetáculo.
O que vi hoje, 3 de fevereiro de 2015, é nada mais do que "o mal absoluto", mal em estado puro, a banalidade do mal, como diria Hannah Arendt.
Boa parte dos jovens que estão hoje no Estado Islâmico saíram da Europa, da Europa que é niilista, como já dizia André Malraux em "A tentação do Ocidente": «Não há ideal a que possamos sacrificar-nos, porque de todos eles conhecemos a mentira, nós os que ignoramos em absoluto o que seja a verdade.»
Estes jovens, de uma forma absurda para nós, saíram do conforto que lhes é garantido pelo Welfare State europeu e se embrenharam no deserto da Mesopotâmia em busca de sangue, lágrimas, dor, horror e desespero... como os nazistas dos anos 1940 com as suas vítimas. Na falta de um ideal, que lhes é negado pelo Ocidente, perverteram completamente os seus desejos de felicidade, beleza, justiça, verdade, e hoje sacrificam-se no anti-ideal satânico da morte, do sangue, da dor, da violência, do choro e do desespero, gozando com a dor das vítimas agonizantes, tais como os carrascos mais bárbaros que a humanidade já teve notícia.
É absurdamente chocante, mas estamos diante da radicalidade do mal, estamos diante de um mal radical. Diante do mal radical, há que se fazer alguma coisa. A Beata Tereza de Calcutá já disse: "do jeito que as coisas estão, o maior pecado é não fazer nada". Me estarrece a inamovibilidade de alguns líderes. No final dos anos 1930, houve um grande homem, chamado Winston Churchill, que num determinado momento, decidiu começar a deter Hitler. Diante do avanço impiedoso de Adolph Hitler, Churchill decretou guerra à Alemanha, e enquanto a França caía, ele segurou as pontas, até que o ataque japonês a Pearl Harbor no dia 7 de dezembro de 1941, fez com que os Estados Unidos entrassem finalmente na guerra, decretando guerra ao Império Japonês, e ajudando a já combalida Inglaterra.
Algo há que se fazer. Estão esperando um novo Pearl Harbor? O que o Ocidente ainda espera para declarar guerra ao Estado Islâmico, e varrê-lo para a lata de lixo da História?

sábado, 18 de janeiro de 2014

Os rolezinhos e a chacina de Goiânia

A nova moda agora são os "rolezinhos". Começaram em São Paulo, e já se espalharam por várias cidades do Brasil. Os "rolezinhos" evidenciam um profundo apartheid presente na nossa sociedade, e eu não vou me deter neles aqui, até porque a mídia já está cheia de análises e eu não quero completar esta barafunda. Detenho-me aqui num fato que me chocou um pouco (que bom que ainda se fica chocado com a violência): a chacina que houve ontem na boate Insomnia, em Goiânia, onde 4 jovens foram mortos. Isso, às vésperas do aniversário de 1 ano da tragédia na boate Kiss, em Santa Maria (RS). 

Fiquei muito impressionado em como os assassinos eram jovens, e também pelo fato de não se enquadrarem no estereótipo de "marginais", "bandidos", e coisas do gênero. A meu ver, a chacina de Goiânia com seus 4 mortos, e os rolezinhos em São Paulo e no Brasil afora têm uma série de semelhanças e evidenciam uma série de coisas.

  1. A primeira delas é que vivemos numa sociedade profundamente violenta. Aqui no Brasil, damos a violência por óbvio. Fazem sucesso programas como "Cidade Alerta", "Brasil Urgente", e suas variações regionais. Aqui acostuma-se a ver o sem-número infinito de mortos sendo mostrado nos jornais de tal forma que nós nos anestesiamos, e já nada sentimos. Quando vemos os bandidos, a violência e o espírito de vingança vêm à tona. Basta ficar atento aos comentários no dia-a-dia, ou mesmo na Internet observar os comentários das pessoas referentes a bandidos. Para o brasileiro médio "bandido bom é bandido morto". Todo mundo quer o julgamento sumário, execução sem apelação, morte e morte com requinte, em suma, um retrocesso ao atual Estado de Direito, ao qual nem sequer medimos as consequências quando falamos.
  2. A segunda coisa que se evidencia é que há um profundo desconforto presente nos jovens. Seja por meio das manifestações de junho do ano passado, nos rolezinhos deste ano, ou na violência terrível como esta de Goiânia, evidencia-se um mal-estar terrível entre os nossos jovens. Uma das razões é a ausência de hipótese com a qual julgar a vida. Mais do que não transmitir valores, os pais destes jovens não lhes transmitiram uma hipótese pela qual vale a pena viver. Assim, tornam-se vítimas do instinto e do poder.
É evidente que vivemos numa cultura que enaltace o instinto como critério da normatividade, e erige a violência como padrão dos relacionamentos. Um exemplo disso é o Programa Big Brother, que entra na décima quarta edição, roubando dos seus telespectadores horas preciosas que poderiam ser dedicadas à família, ao sono ou à leitura, além do seu dinheiro, e enriquecendo a TV Globo e empresas associadas. O Big Brother é um clássico exemplo da apologia à violência. O Programa em si mesmo é uma violência porque trancafiar pessoas e obrigá-las a eliminar umas às outras por um prêmio de um milhão e meio de reais é uma grande forma de violência. Mais do que isso: é uma forma de tortura, pois dia após dia, durante semanas a fio, um a um os participantes são eliminados dentro de um jogo sórdido e com a conivência de todos.

Um país que se curva a um programa como esse em todo o início de ano há uma década e meia, só pode grassar na violência. Não é o Big Brother o responsável por toda essa onda de violência que assola o país, ela já é atávica, está presente aqui há muitos anos, mas ele a enaltece e a eleva ao patamar de circo que diverte as massas enquanto muitos morrem.

Como podemos reagir a isso? Somente com uma hipótese do porquê vale a pena viver a vida, somente com uma hipótese de positividade, com um juízo bem claro sobre realidades como o Big Brother e tantas outras que o poder coloca goela abaixo das pessoas, ou seja, somente julgando, isto é, comparando cada proposta com as exigências mais profundas do coração: verdade, beleza, bondade, justiça, liberdade, felicidade. Somente comparando cada proposta com estas exigências é que podemos construir uma nova civilização, uma civilização onde os direitos sejam respeitados, onde não haja mais apartheid, onde os jovens nem formem gangues, nem matem-se uns aos outros, porque a vida é bela, vale a pena viver e construir.

sexta-feira, 7 de junho de 2013

O realismo cínico de Arnaldo Jabor

O jornalista Arnaldo Jabor


Anteontem eu li uma matéria de Arnaldo Jabor intitulada "O militante imaginário", publicada no Estadão, no qual ele enumera inúmeros problemas da realidade política brasileira, e atribui boa parte deste problemas a uma categorização sociológica que ele intitulou de "militante imaginário". Mais uma vez aqui se tenta solucionar a equação do mal, se tenta racionalizar o mistério da iniquidade. Combatendo a esquerda, este senhor comete o erro da mesma: querer encontrar "a equação do mal", que é mistério. Aqui vemos até onde chega a ideologia do racionalismo.  Segundo ele, o "militante imaginário" seria o conjunto de pessoas "de esquerda" que não se engajam na luta armada. Para além de todas as falsas análises sobre "a esquerda", me marcam na análise deste senhor o cinismo e a desesperança que ele gera.

Outra coisa que me impressiona do cinismo deste senhor, é que ele se traveste de "realismo". Porque existe um pseudo-realismo que torna-se pessimista, cético e cínico. Porque o racionalismo não consegue levar à esperança. Não basta enumerar todos os déficits da realidade, "o deserto do real", como chamou o filósofo esloveno marxista Zizek (parafraseando Eliot). Só se se admite um além, um imprevisto dá para ter esperança, dá para respirar. Me ajudou muito a entender isso quando ouvi a música de Cartola "Alvorada", onde ele canta a beleza do amanhecer no morro da Mangueira. A realidade, por mais dura e difícil que seja, sem negar nenhuma das misérias e dificuldades existentes, sem deixar de denunciar as injustiças, é bela. "É bonita, é bonita e é bonita", como canta Gonzaguinha.

Por que eu digo isso? Porque eu me sinto sufocado, sem ar, quando eu leio Jabor. Depois de enumerar todas as acusações, ele arremata com um "toque de gênio": "Deus os castigará". Aqui ele mata toda a categoria da possibilidade com relação à misericórdia. Aonde está esta sentença de Deus assinada "com firma reconhecida", como diria Vinícius de Morais? Eu acho que quando as coisas entram neste ínterim alguma coisa está errada: quem é este senhor para se julgar no direito de processar, julgar e condenar, sem nenhuma apelação, recurso, e o pior ainda: sem deixar espaço algum à misericórdia? O contrário de Arnaldo Jabor é "O auto da compadecida", de Ariano Suassuna: o juízo final sobre a realidade é a misericórdia, e só "será castigado" quem recusar esta misericórdia até o fim. Ou seja: somos nós mesmos que nos castigamos, Deus mesmo não castiga ninguém, Ele só ratifica nossa decisão, porque não se opõe à nossa liberdade, que Ele mesmo nos deu.

Arnaldo Jabor é cínico e vomita todo o seu cinismo e insatisfação neste artigo, matando a esperança de seus leitores. Existe, repito, um pseudo-realismo, que no fundo, é cético e leva ao cinismo. Não é possível respirar se você mata a esperança. Não é possível respirar se não existe espaço para o imprevisto. Qual é o problema desta análise jaboriana? É que ela esquece que existem mais coisas entre o céu e a terra do que supõe a nossa filosofia vã. É muito fácil enumerar todos os fatores que faltam, todos os déficits, mas isso não faz ninguém respirar. Difícil é reconhecer a positividade, o belo. Existe uma longa luta entre a desolação e a esperança. Mas por fim, seremos salvos pela beleza. O niilismo de Jabor não é a última palavra sobre o real.


segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

A vertigem de Santa Maria

Fui golpeado pela notícia da tragédia em Santa Maria (RS), a qual fiquei acompanhando as notícias o tempo todo ontem. Hoje, tive dois pesadelos, inclusive nos sonhos eu estava em Porto Alegre. As cenas de horror, de desespero, mães chorando, a presidenta Dilma, "gente jovem reunida", como canta Elis Regina. Tudo isso revirou em minha cabeça, e do profundo de mim emergia um grito: "por quê?", "que significado tem tudo isso?"

É verdade que o grito sobre a última palavra sobre a realidade ecoou também, mas antes deste ecoou o grito: "qual é o significado da nossa vida? Da minha vida?" A vertigem tomou conta de mim. É impressionante o realismo e a concretude da Bíblia:


"Os dias do homem são semelhantes à erva, ele floresce como a flor dos campos.

Apenas sopra o vento, já não existe, e nem se conhece mais o seu lugar."


Salmo 103:15-16

Esta tragédia me introduziu esta vertigem, e me introduziu no mistério que é a realidade. Me ajudou a me dar conta de que estou vivo, existo e esta vida não é óbvia e nem mesmo a mereço. Muita gente agora vai procurar os culpados, saber de quem foram os erros, que leis mais rígidas devem ser editadas para evitar novas tragédias como estas, dentre tantas outras medidas. Tudo isso é muito importante, mas não dá uma resposta específica às vidas daquelas pessoas e nem mesmo às famílias delas. Quem fará justiça às pessoas que morreram intoxicadas por fumaça tóxica vítimas da sucessão de erros de uma série de pessoas? Simplesmente condenar os culpados e editar novas leis é uma justiça que faremos a nós mesmos, e na melhor das hipóteses, às famílias das vítimas. Quem fará justiça a quem perdeu a própria vida, em plena juventude, em pleno florescer? Quem vai fazer justiça à erva ainda cheia de seiva que foi ceifada antes mesmo de secar?

Só a admissão de um além permite respirar numa situação dessas. O próprio Mistério presente disse isso, comentando sobre uma tragédia em Jerusalém:

“Ou cuidais que aqueles dezoito homens, sobre os quais caiu a torre de Siloé e os matou, foram mais culpados do que todos os demais habitantes de Jerusalém? Não, digo-vos.”

 Lucas 13:4-5

Se não existe um além no qual a justiça é possível, e se toda a realidade coincide com aquilo que nós podemos mensurar e medir com a nossa própria medida, a justiça é impossível. A palavra justiça bem que poderia ser riscada do dicionário. Mas também a palavra vida. Porque a vida é exigência de justiça. É impossível viver sem a esperança da justiça. Só é possível respirar num caso desses se antevemos o Mistério, se esta tragédia nos deixa em suspensos. Suspensos, em vertigem, mas não desesperados.

Me marca muito o fato que esta tragédia tenha acontecido na cidade que leva o nome de Maria. Eu pensei nas muitas mães que perderam os seus filhos, e pensei naquela que sabe a dor de ter um filho assassinado injustamente. E eu pedi à Santa Maria, a Mãe de Deus, que rogasse por nós, porque somos pecadores (eu o maior deles, sem dúvida), pecadores, porque duvidamos do seu Filho, achamos, numa hora dessas que Ele tirou um cochilo ou foi descansar, e nos deixou aqui, sozinhos, com o nosso nada. O nome da cidade evoca já a esperança. Pedi à Santa Maria que rogasse por nós, ela, a Injustiçada, a Vítima de todos nós, pecadores, que rogasse por nós, agora e na hora de nossa morte, porque eu também vou morrer, um dia. Santa Maria, a grande Mãe de Deus, é a inimiga mortal do niilismo. Opõe-se a ele ainda hoje. Torna humano tudo aquilo que ela toca. Injustiçada, é a Rainha da Misericórdia, e abraça a todos nós.

Nossa Senhora da Misericórdia. Siena, 1350.

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

Um hino à Lei Natural


Fantástico livro "Do Espírito das Leis", de Montesquieu, do qual posto os dois primeiros capítulos abaixo. São um hino à Lei Natural.

LIVRO PRIMEIRO
Das leis em geral
CAPÍTULO I
Das leis em sua relação com os diversos seres

As leis, em seu significado mais extenso, são as relações necessárias que derivam da natureza das coisas; e, neste sentido, todos os seres têm suas leis; a Divindade possui suas leis, o mundo material possui suas leis, as inteligências superiores ao homem possuem suas leis, os animais possuem suas leis, o homem possui suas leis. Aqueles que afirmaram que uma fatalidade cega produziu todos os efeitos que observamos no mundo proferiram um grande absurdo: pois o que poderia ser mais absurdo do que uma fatalidade cega que teria produzido seres inteligentes? Existe, portanto, uma razão primitiva; e as leis são as relações que se encontram entre ela e os diferentes seres, e as relações destes diferentes seres entre si. Deus possui uma relação com o universo, como criador e como conservador: as leis segundo as quais criou são aquelas segundo as quais conserva. Ele age segundo estas regras porque as conhece; conhece-as porque as fez, e as fez porque elas possuem uma relação com sua sabedoria e sua potência.

Como observamos que o mundo, formado pelo movimento da matéria e privado de inteligência, ainda subsiste, é necessário que seus movimentos possuam leis invariáveis; e se pudéssemos imaginar um mundo diferente deste ele possuiria regras constantes ou seria destruído. Assim, a criação, que parece ser um ato arbitrário, supõe regras tão invariáveis quanto a fatalidade dos ateus. Seria absurdo dizer que o Criador poderia, sem estas regras, governar o mundo, já que o mundo não subsistiria sem elas. Estas regras consistem numa relação constantemente estabelecida. Entre um corpo movido e outro corpo movido, é segundo as relações da massa e da velocidade que todos os movimentos são recebidos, aumentados, diminuídos, perdi-dos; cada diversidade é uniformidade, cada mudança é constância. 

Os seres particulares inteligentes podem ter leis que eles próprios elaboraram; mas possuem também leis que não elaboraram. Antes de existirem seres inteligentes, eles eram possíveis; possuíam, portanto, relações possíveis e, conseqüente-mente, leis possíveis. Antes da existência das leis elaboradas, havia relações de justiça possíveis. Dizer que não há nada de justo ou de injusto além daquilo que as leis positivas ordenam ou proíbem é dizer que antes de se traçar o círculo todos os raios não são iguais. Devem-se então reconhecer relações de equidade anteriores à lei positiva que as estabelece: como, por exemplo, supondo que existissem sociedades de homens, que seria justo conformar-se às suas leis; que, se houvesse seres inteligentes que tivessem recebido algum benefício de outro ser, deve-riam ser reconhecidos para com ele; que, se um ser inteligente tivesse criado outro ser inteligente, o ser criado deveria manter-se na dependência em que esteve desde sua origem; que um ser inteligente que fez algum mal a outro ser inteligente merece padecer do mesmo mal, e assim por diante. Mas falta muito para que o mundo inteligente seja tão hem governado quanto o mundo físico. Pois, embora aquele também possua leis que, por sua natureza, são invariáveis, ele não obedece a elas com a mesma constância com a qual o mundo físico obedece às suas.

A razão disto é que os seres particulares inteligentes são limitados por sua natureza e, por-tanto, sujeitos ao erro; e, por outro lado, é de sua natureza que eles atuem por si mesmos. Eles não obedecem, portanto, constantemente às suas leis primitivas; e aquelas mesmas leis que dão a si mesmos, não obedecem a elas sempre.

Não se sabe se os animais são governados pelas leis ge-rais do movimento ou por uma moção particular. De qual-quer forma, eles não possuem com Deus uma relação mais íntima do que o resto do mundo material; e o sentimento lhes serve apenas na relação que mantêm entre si, ou com outros seres particulares, ou consigo mesmos. Pela atração do prazer, conservam seu ser particular, e, por intermédio da mesma atração, conservam sua espécie. Possuem leis naturais, porque estão unidos pelo sentimento; não possuem leis positivas, porque não estão unidos pelo conhecimento. No entanto, não obedecem invariavelmente às suas leis naturais: as plantas, nas quais não observamos nem conhecimento nem sentimento, obedecem melhor a elas. Os animais não possuem as vantagens supremas que possuímos; possuem outras que não possuímos. Não têm nossas esperanças, mas tampouco têm nossos temores; estão, como nós, sujeitos à morte, mas sem conhecê-la; a maioria deles conserva-se até melhor do que nós, e não faz um tão mau uso de suas paixões.

O homem, enquanto ser físico, é, assim como os outros corpos, governado por leis invariáveis. Como ser inteligente, viola incessantemente as leis que Deus estabeleceu e trans-forma aquelas que ele mesmo estabeleceu. Deve orientar a si mesmo e, no entanto, é um ser limitado; está sujeito à ignorância e ao erro, como todas as inteligências finitas; quanto aos parcos conhecimentos que possui, ainda está sujeito a perdê-los. Como criatura sensível, torna-se sujeito a mil paixões. Tal ser poderia, a todo instante, esquecer-se de seu criador; Deus chamou-o a si com as leis da religião. Tal ser poderia, a todo instante, esquecer a si mesmo; os filósofos advertiram-no com as leis da moral. Feito para viver na sociedade, poderia nela esquecer-se dos outros; os legisladores fizeram-no voltar a seus deveres com as leis políticas e civis.

CAPÍTULO II
Das leis da natureza

Antes de todas estas leis, estão nas leis da natureza, assim chamadas porque derivam unicamente constituição de nosso ser. Para bem conhecê-las, deve-se considerar um homem antes do estabelecimento das sociedades. As leis da natureza serão aquelas que receberia em tal estado. Esta lei que, imprimindo em nós a ideia de um criador, nos leva em sua direção, é a primeira das leis naturais por sua importância, mas não na ordem destas leis. O homem no estado de natureza teria mais a faculdade de conhecer do que conhecimentos. Está claro que suas primeiras idéias não seriam especulativas: pensaria na conservação de seu ser, antes de buscar a origem deste ser. Tal homem sentiria no início apenas sua fraqueza; sua timidez seria extrema: e, se precisássemos sobre este caso de alguma experiência, foram encontrados nas florestas homens selvagens; tudo os faz tremer, tudo os faz fugir. Neste estado todos se sentem inferiores; no limite, cada um se sente igual aos outros. Não se procuraria, então, atacar, e a paz seria a primeira lei natural.

O desejo que Hobbes atribui em primeiro lugar aos homens de subjugarem-se uns aos outros não é razoável. A idéia de império e de dominação é tão composta, e depende de tantas outras idéias, que não seria ela que o homem teria em primeiro lugar. Hobbes pergunta: "por que, se não se encontram naturalmente em estado de guerra, os homens andam sempre armados? E por que têm chaves para fechar suas casas?" Mas não percebe que está atribuindo aos homens, antes do, estabelecimento das sociedades, aquilo que só pode acontecer após este estabelecimento, que fará com que encontrem motivos para atacarem-se e defenderem-se. Ao sentimento de sua fraqueza, o homem acrescentaria o sentimento de suas necessidades. Assim, outra lei natural seria aquela que lhe inspiraria a procura da alimentação.

Eu disse que o temor levaria os homens a fugirem uns dos outros: mas os sinais de um temor recíproco encorajariam-nos a so aproximarem. Aliás, eles seriam levados a isto pelo prazer que um animal experimenta ao sentir a aproximação de outro animal de sua espécie. Além disso, o encanto que os dois sexos inspiram um ao outro devido a sua diferença aumentaria este prazer; e apelo natural que sempre fazem um ao outro seria uma terceira lei. Além do sentimento que os homens têm em primeiro lugar, ainda conseguem possuir conhecimentos; assim, possuem um novo motivo para se unirem; e o desejo de viver em sociedade é uma quarta lei natural.

sábado, 12 de janeiro de 2013

A Ilustração e a desconfiança

Jürgen Habermas, último defensor do Iluminismo com Joseph Ratzinger, em 2004

Uma dos frutos mais impressionantes da Ilustração, mais do que a dúvida, é a desconfiança. Em 1784, quando Immanuel Kant escreveu o panfleto O que é a Ilustração, ele respondeu que a Ilustração era atingir a maioridade, sair da menoridade, libertar-se "da tutela". "Tutela" de quem? Tutela do Papa e da Bíblia. O que o filósofo defendia é que o homem não precisa de "a priori", ou seja, de "premissas", de "pressupostos", neste caso, os "dogmas" "impostos" pelo Papa (para os católicos) ou pela Bíblia (para os protestantes). Kant levou o princípio da dúvida exposto por Renée Descartes às últimas consequências, no afã de tirar o homem, e em seu lugar colocar a razão, o "puro pensamento" no centro do universo. Estava aberto o cenário para a eclosão da modernidade nas décadas seguintes: a razão foi finalmente entronizada como rainha do universo, e aquilo que não se enquadrasse em seus limites seria tido como irracional. Kant demonstra isso em seu "A religião nos limites da simples razão", quando tenta reduzir o fenômeno religioso (especialmente o cristianismo) a mera ética, e portanto, destrui-lo em sua categoria de acontecimento. Aquilo que a razão não consegue compreender é simplesmente descartado como uma "crença irracional", meramente subjetiva.

Essas teses não são meras discussões da filosofia, porque tiveram um forte impacto na política e na sociologia, e até mesmo na psicologia das massas. Em termos de psicologia, a consequência mais impressionante é o espalhar-se de uma desconfiança generalizada em tudo e em todos. Só damos crédito àquilo que entendemos com a nossa própria razão. O homem moderno inteligente não confia, é como um novo São Tomé, quer tocar com a própria mão, tem desconfiança até mesmo do pai e da mãe. Isso é desastroso para os relacionamentos, porque começa-se a entender o outro como uma ameaça, alguém que não se pode confiar, alguém de quem eu necessariamente tenho de me defender. O filósofo Jean-Paul Sartre cunhou a máxima que ficou famosa "O inferno são os outros". Como construir uma sociedade fundada sobre a desconfiança?

Em termos de política, verifica-se a consequência da Ilustração na retirada da fé no espaço público. Se a religião é algo meramente irracional, subjetivo, não merece espaço no espaço público, que seria o espaço da razão. Não nos damos conta, mas isso abre um espaço sem precedentes para a tirania e para o acúmulo de um poder sem precedentes por parte do Estado. Cícero, no seu livro Da República, disse que "a criação do Estado é a maior imitação de Deus que o homem possa fazer". Em A Fenomenologia do Espírito, o filósofo Hegel disse mais ou menos a mesma coisa quando afirma que "a plenitude da razão é o Estado". A sutileza desta posição é que ela, no afã de nos libertar da "tutela da religião" nos torna escravos dos detentores do poder, ou seja, daqueles que manejam o Estado. Se o Estado é a plenitude da razão, e a razão é o centro do Universo, aqueles que detêm o poder do Estado podem ditar livremente aos outros o que podem ou não deixar de fazer, podem moldar por si mesmos como bem entenderem o homem, e contam especialmente com os meios de comunicação nos dias hodiernos para atingir o seu intento.

O Estado sempre esteve em confronto com a religiosidade verdadeira, sempre tentou se imiscuir nos assuntos da religiosidade, sempre tentou perverter a religiosidade (muitas vezes tornando-a idolátrica ou até mesmo satânica), porque no fundo, o poder sabe que a religiosidade verdadeira, ou seja, o reconhecimento do Mistério, e o relacionamento com Ele é, no fundo, a última alternativa à tirania do poder sobre a pessoa humana. O poder sabe que o homem verdadeiramente religioso sabe quem verdadeiramente é a sua consistência, e que justamente por isso, torna-se verdadeiramente livre, mesmo no meio das mais terríveis opressões políticas.