segunda-feira, 31 de dezembro de 2007

O anarquismo como grandeza do coração

Nos últimos dias, meu anarquismo ficou patente, através de alguns fatos particulares. Por mais que eu queira fugir dessa verdade, existem traços muito fortes do anarquismo em mim. Um deles é o ódio ao comunismo (que consegue ser, ao mesmo tempo, o maior crime do mundo- 100 milhões de mortos- e a maior escravidão da História, levando ao auge a padronização moderna), o outro é o meu cristianismo (basta lembrar que os cinqüenta primeiros papas foram assassinatos por não se subordinar ao jugo romano). De fato, independente desse ou daquele fator, meu ser carrega uma dose forte de anarquismo. Em que sentido? No sentido de reconhecer que o homem, ao perder sua liberdade, perde a sua dignidade de homem, e daí a não-aceitação de nenhuma instrumentalização de qualquer poder que seja, civil ou mesmo eclesiástico. Isso não significa niilismo, nem a ausência de reconhecimento da autoridade. Não acho, como os punks & cia. que tudo está uma merda e tem de ser destruído. Não é verdade, existe muita coisa boa no mundo, e que deve ser afirmada. Também não acho que a abolição em absoluto da autoridade seja um bem, pelo contrário, sempre necessitamos aprender a vida com alguém, alguém tem que ser autoridade para nós, a diferença, é que numa concepção livre, é o próprio sujeito que reconhece uma autoridade verdadeira, dado que esta se impõe, ao invés de se afirmar pela força. Posso ter traços anarquistas em minha pessoa (esse meu desejo de liberdade, por exemplo), mas reconheço que é preciso construir e não destruir. Quero usar todo o desejo que trago em meu coração por uma revolution, como canta a música What's up (1993), para construir, e não para acabar com tudo. Até agora, só uma amizade que eu encontrei, de pessoas que afirmam a positividade do real, me dá essa possibilidade, sendo esperança para mim, e para o mundo todo, neste início de século! Porque o anarquismo é uma grandeza de coração, é um fortíssimo desejo, que se não encontra correspondência, descamba no nada, na destruição e no non sense. E, hoje, só a Igreja afirma a possibilidade de continuar construindo. Como o papa disse, ao início do seu pontificado, em 2005: "Não tenham medo! A História- do mundo, mas a minha, pessoal também- tem um sentido"!

sábado, 29 de dezembro de 2007

Um tiro na democracia

Anteontem, não apenas a ex-primeira ministra do Paquistão, Benazir Bhutto, foi assassinada, mas a democracia recebeu um duríssimo golpe, não apenas nos países islâmicos, mas no mundo inteiro. Eu sou um democrata convicto. Eu acredito na democracia, defendo-a contra todos os seus opositores. Por quê? Churchill, num discurso, disse a economia de mercado era limitada, mas era o melhor que temos. Parafraseando-o, posso dizer que a democracia tem seus limites, mas é, de longe, o melhor sistema político que temos. Fora dele, o que temos, é a ditadura, a morte, a opressão. As ditaduras, na China, na Alemanha, na União Soviética, já mataram centenas de milhões de pessoas, para se afirmarem e continuarem no poder. A democracia significa liberdade. É o sistema mais digno do homem, porque este é livre, como afirmou Sartre, "está condenado a ser livre", portanto nenhum poder, seja ele qual for, tem o direito de se arrogar poder estar sobre ele. A democracia liberal, é a única que se aproxima desse ideal, porque as democracias "participativas" ou mesmo o anarquismo na prática não conseguem funcionar. A democracia liberal consegue de forma satisfatória absorver as limitações humanas, e essa é sua fraqueza frente a outros regimes, mas também é sua força, pois não depende de nenhum super-homem, que se ache superior aos homens, para levá-los "ao bom, ao belo e ao que há de melhor". A democracia é a prevalência do direito sobre a força, da lei sobre a vontade. A democracia é uma conquista da civilização, mudou a vida de bilhões de pessoas para melhor durante todo o século XX, porém é extremamente frágil, pois seus algozes a acusam de não implantar o paraíso na Terra. A democracia tem de ser defendida com todo o vigor, pois se não logrou (nem nunca prometeu, diga-se de passagem) implantar o paraíso na Terra, seus inimigos, o nazi-fascismo e o comunismo, quase transformaram o planeta num inferno e ceifaram a vida de 200 milhões de pessoas, em nome do bom, do belo e do que há de melhor!

sexta-feira, 28 de dezembro de 2007

A pós-modernidade como desejo do Fato

Uma das palavras mais comuns do dicionário pós-moderno é a palavra "acontecimento", evento, happening, événément. Poderíamos dizer também fato. Michel Foucault, no livro A Ordem do Discurso (na verdade, a compilação de sua aula inaugural do Collège de France em 02/12/1970), classificou o acontecimento como a corporificação do imaterial, portanto a emergência dos nossos desejos, das nossas ânsias. A pós-modernidade tem uma verdadeira ânsia de que algo aconteça, de que o novo, como canta Elis Regina, venha. Assistimos, na aurora do século XXI, ao retorno do desejo, o retorno daquilo que a modernidade destruiu. A pós-modernidade, como conta Jean-François Lyotard, é "a descrença em toda e qualquer metanarrativa", em outras palavras, significa o fim da ilusão de que o homem, por sua própria conta, como desejava o projeto de emancipação iluminista, iria realizar os mais altos ideais que carrega em seu coração, como a paz, a liberdade, a justiça, a felicidade. A pós-modernidade significa o fim da ilusão moderna. O desejo, porém, continua. A humanidade vive um momento terrível, de confusão e desespero. A modernidade, o projeto iluminista, lhe tirou Deus, enquanto que os séculos marcados em nome da ação frenética do homem para atingir o "paraíso na Terra", os séculos XIX e XX (junto com o início do século XXI) foram os mais sangrentos da História e retiraram, num olhar realista, qualquer ilusão de auto-emancipação. Mas o desejo continua, persiste, porque é estrutural, constitutivo, não está ligado a nenhuma contingência biológica,psicológica, sociológica ou histórica. O marketing e a propaganda usam e abusam desse desejo, mas não vão poder satisfazê-lo com algo minúsculo, dado que o desejo é de infinito. E este desejo exige o fato, quer, anseia que algo aconteça, e como esse algo não vem, porque no fundo domina um ceticismo generalizado, em Deus e no homem, os pós-modernos "criam" o fato: protestos, manifestações, aglomerações às vezes totalmente sem sentido (como em São Paulo, há dois anos, quando milhares de pessoas tiraram a roupa e posaram para uma foto coletiva). O que urge é a vinda do que o coração espera, que ninguém sabe o que é, e que quer abafar a qualquer custo. O desejo ali permanece, e nossa esperança única, no avanço da pós-modernidade é a correspondência entre esse desejo e a Beleza, que passe diante dele. Como disse Dostoievski: "A Beleza nos salvará", nos tirará dessa situação de confusão, morte e desespero na qual nos metemos. Ou Pasolini: "Mas no deserto de nossos caminhos Ela passa, rompendo o limite finito e enchendo os nossos olhos de desejo infinito". O grande papa Bento XVI, verdadeiro profeta da nossa era, em 2005 fez o seguinte anúncio: "Ao início do ser cristão, não há uma decisão ética ou uma grande ideia, mas o encontro com um acontecimento, com uma Pessoa que dá à vida um novo horizonte e, desta forma, o rumo decisivo." (Deus caritas est, 25/12/2005). Uma pessoa-Cristo- é esse fato, este event (está em inglês mesmo), este acontecimento que as pessoas na pós-modernidade tanto anseiam e desejam. Tanto que a última palavra da Bíblia (no Apocalipse) numa era que afirma que o novo sempre vem é: "Vem, Senhor Jesus!" (cf. Ap 22,20). Ele é o novo, que veio, vem e que virá!

quinta-feira, 27 de dezembro de 2007

Relaxe?

O cantor inglês de origem libanesa Mika, disse numa entrevista, que escreveu a letra da música Relax, take it easy http://www.youtube.com/watch?v=Be6jlCuMvVQ logo após os atentados terroristas em Londres, em julho de 2005. A música e a reciclagem e bricolagem pós-modernas de estilos dos anos oitenta acabaram ficando muito boas, mas cabe se perguntar se uma simples canção vai fazer com que um terrorista "relaxe". Esta música, que infelizmente lembra o terrível "relaxe e goze" de nossa ministra, aponta para um lamentável cinismo: quem vai "relaxar?" "Nós"? Acho perigoso; "eles"? Acho difícil! A música é compreensível, vinda de um jovem cantor na pós-moderníssima Londres e de origem do Oriente Médio numa época na qual terrorista e árabe são quase sinônimos. O problema, penso eu, é de civilização. Nossa civilização, marcada pelo desejo de liberdade, não sabe mais de onde este se origina e muito menos o que verdadeiramente é. Dessa forma, fica difícil valorizar a si mesma. Nossa civilização ocidental, agora pós-moderna agoniza e convive com os bárbaros, aos quais não basta simplesmente mandar relaxar. Aos bárbaros é preciso civilizar, e civilização significa con-vivência: viver juntos. Mas nós ocidentais pós-modernos, adeptos do comunitarismo e do guetismo, não estaríamos nos barbarizando, como mostra o excelente filme As Invasões Bárbaras (2004)? Penso que devemos é agir, e não relaxar. Como disse um editorial europeu recentemente: "A Europa está unida pela passividade frente ao destino". A música de Mika e todo o seu talento evidenciam isso!

quarta-feira, 26 de dezembro de 2007

A pobreza

Estou agora vendo e ouvindo o clip Another Day in Paradise http://www.youtube.com/watch?v=ftlYLcEW_I4 , e pensando na pobreza, não do mundo, mas das pessoas, e falo em pobreza material mesmo! Digo isso porque vi no jornal ontem a quantidade de pessoas para as quais o Natal não é nem de longe o sonho de consumo que a mídia e a mentalidade dominantes passam: são pobres! E é inevitável a mim, no Natal, pensar que Deus Se fez pobre, como diz São Paulo "sendo rico, empobreceu-se a si mesmo". Mas por que Ele Se fez pobre, por que ama e prefere os pobres? Não é por sadomasoquismo, ou por um eventual 'comunismo divino". O Mistério só pode amar a pobreza porque ela é a condição da maioria absoluta dos seres humanos, em todos os tempos e em todos os lugares. Mesmo agora, na época mais próspera de toda a História, existem incalculáveis multidões de "refugados", como conta o sociólogo Zigmunt Bauman no livro Vidas Desperdiçadas (2005). Entendi há pouco tempo, ouvindo da boca de uma pessoa que mora na favela dos Novos Alagados em Salvador (BA), o que significa a expressão "anunciar o Evangelho aos pobres". Não significa prometer um reino messiânico, ou uma eventual revolução socialista que fará justiça com as próprias mãos, mas se dar conta, em primeiro lugar, que o homem é relação exclusiva com o Mistério, independente de qualquer fator biológico, psicológico ou social. É isso que dá uma dignidade extraordinária à pessoa humana, e eu tive a graça de ver e ouvir isso com os meus próprios olhos e ouvidos. Além deste aspecto, existe o fato da riqueza ser uma realidade extremamente artificial e fragilíssima, pois se olharmos a realidade com atenção, veremos que a condição dos ditos ricos, na verdade, é a pobreza. Qual deles poderá estender a própria vida indefinidamente, fazer tudo o que quer ou impedir a morte de um filho ou o próprio sofrimento? Um olhar realista nos faz nos darmos conta de que a pobreza é a verdadeira condição do humano, como dito no Apocalipse: "pobre, cego, miserável e nu", e o amor deste Mistério, que ama a pobreza não por masoquismo, mas para compartilhar a condição humana, que é iniludível e inevitavelmente marcada pela pobreza.

terça-feira, 25 de dezembro de 2007

O que o Natal veio nos dar?

O Natal é só uma festa piegas ou é um fato que tem a ver com a minha vida? Essa pergunta é dramática porque a minha vida pode caminhar em direções diametralmente opostas, a depender da resposta dada a essa pergunta. No primeiro caso, o Natal é como um duende verde, no máximo um enfeite, um ornamento, mas no fundo, algo que não me ajuda. No segundo caso, é o fato mais importante da História, e que posso verificar na minha existência se é verdade ou não. E sendo verdade, o que o Natal veio me dar, veio nos dar?
Como diz Gonzaguinha, "somos nós que fazemos a vida, como der ou puder, ou quiser". O divino não vem nos substituir, mas o Natal vem nos colocar na posição exata, verdadeira, a partir da qual posso partir no confronto com a realidade, todas as manhãs. E a primeira constatação é de um amor imenso, amor pela minha miséria, pela minha necessidade de vida. Como diz o poeta francês Péguy, "a minha necessidade moveu um Deus", que me ama e me acolhe, aqui e agora! Com certeza, viverá 2008 de forma quem se deixar tocar por este anúncio: "sou amado inifinitamente, por Aquele que me quis e me quer, aqui e agora!" O Natal não é uma mensagem para amarmos, mas pelo contrário, existe para dizer que somos amados, somos queridos e desejados por Aquele que faz a realidade e me faz, a tal ponto de nascer num estábulo para dizer: "eu te amo!" Só isto nos coloca numa postura verdadeira diante da realidade!

sábado, 22 de dezembro de 2007

O Natal e a Imitation of Life

Estamos nos estertores de 2007!!! Eu pessoalmente fico muito grato a tudo que recebi neste ano de 2007, realmente, foi um dos melhores (senão o melhor!!!) ano da minha vida. Para quem acredita no Poder que levanta o Sol a cada manhã, é a Ele que eu agradeço tudo isso... bom, e que isso tem a ver com o Natal, e com a música (e o clip) Imitation of Life, do R.E.M.? http://www.youtube.com/watch?v=CEhT2QlRBMo Tem a ver porque hoje eu fui no Shopping Barra à tarde fazer compras, e na praça de alimentação ficava a olhar para cada pessoa, pensando na vida de cada uma, no drama humano, e no destino de cada uma... (Dostoiévski na pasta ajuda!) e irremediavelmente me veio à mente a música Imitation of Life e uns versos de um poeta soviético que eu gosto: as pessoas hoje, nas ruas, nas praças, nas avenidas, nos shoppings, nos estádios, nos cinemas, se justapõem, umas às outras, estão no mesmo espaço, mas não se conhecem, não são amigas, não são nem inimigas, são simplesmente indiferentes, como o poeta disse: "esbarramo-nos no metrô e mal nos conhecemos", vamos ao túmulo sem saber quem somos, e isso não é vida, é imitação da própria, pois a vida mesma é exigência profunda de amor, de amizade, de unidade mesmo. E um Menino nasceu justamente pra isso, pra unir o que estava separado: primeiro nós com Aquele Poder que levanta o Sol de manhã, e depois nós conosco mesmos, veio nos dar a vida verdadeira, porque a vida sem amor e sem amizade não é vida, Ele veio na noite de Natal para tornar nossa vida uma festa, com muita alegria, cem vezes mais vida, se nos deixarmos tocar pela amizade que Ele começou no mundo há mais de 2000 anos!

sexta-feira, 14 de dezembro de 2007

Voltei!

Depois de quatro meses de "jejum" da escrita, voltei, após um período de pausas e reflexões... Tenho conversado com muitas pessoas nesse tempo, e tenho percebido que a futilidade, a superficialidade, o cinismo dominam mesmo a vida das pessoas... O escritor Camus disse que a questão fundamental é acerca do sentido da vida. E quantos se perguntam acerca disso? Ontem, li no jornal A Tarde que um adolescente de quinze anos cortou o pescoço de outro, de treze anos, com uma gilete; conversando com um mulher na rua (Joana Angélica, ontem de manhã), ela dizia "o mundo está muito perverso", "ele não chega aos vinte e cinco, a polícia mata". Pensei "o que estamos fazendo com os nossos jovens? O que estamos fazendo conosco?", conversando com duas colegas na terça-feira, elas simplesmente diziam que o "eu" não existe, tudo é fruto de "influências" do cosmos, da sociedade, das pessoas, da época, isto é, do poder... fico impressionado como tudo isso é fruto da negligência do eu, ninguém está nem aí para si mesmo, todo mundo se preocupa com tudo, menos consigo mesmo: quem sou eu? O que será de mim? O que estou fazendo aqui? A negligência do eu é o desastre da nossa civilização do eu, a destruição do sujeito operada pelos desconstrucionistas e cia. estão na origem da destruição de nossa civilização, acompanhada pelo advento da barbárie. Alain Touraine se pergunta se podemos viver juntos, penso que sim, desde que reconheçamos aquilo que nos une: a nossa humanidade, e suas exigências elementares que a caracterizam. Posso não ter aparentemente nada a ver com um japonês, por exemplo, mas somos todos homens, temos uma humanidade em comum, traduzida nas mais diversas maneiras... fenômenos como o "comunitarismo", "guetismo" e coisas do gênero nada mais são que sintomas de uma tentativa de afirmação do identidade na época da dissolução do "eu". Tudo isso só afirma o "eu", este não pode ser destruído, dado que é estrutural, mas pode ser negligenciado, tratado como se não existisse, e se eu não nem aí para o meu eu, para mim mesmo, para quem eu sou, obviamente, não estarei nem aí para o "eu" do outro, o homem concreto, que vive e sofre. É muito fácil se preocupar com "a humanidade", os "direitos humanos", "os oprimidos" etc, difícil é ajudar uma pessoa que está passando mal na sua frente, emprestar dinheiro para um amigo que precisa, ouvir uma pessoa que precisa de atenção... porque não conseguimos nem dar atenção às exigências mais elementares que são a nossa natureza... e isso explica a negligência completa do governo com a greve de fome do bispo da Barra (BA), dom Luiz Cappio, por exemplo: a negligência do eu, eis o grande o mal da nossa civilização, a destruição do humano.

sexta-feira, 17 de agosto de 2007

Mais um fato que grita por significado

Imagens do Peru, após o terremoto: a singeleza de um cão, e a imagem do Cristo, aquele que "tomou sobre si as nossas enfermidades, e assumiu as nossas dores" (cf. Is 53)
Cão farejador busca vítimas entre escombros em Pisco

Crucifixo entre escombros em Ica

quinta-feira, 2 de agosto de 2007

Save me (Magnolia)


Um dos filmes mais inteligentes, mais geniais, mais perfeitos que assisti em toda a minha vida é Magnolia (1999). O gênio é aquele que consegue captar e expressar como poucos o desejo humano, a humana espera. É impressionante como estamos com a nossa razão tão reduzida, que quando não entendemos algo, logo o descartamos. E assim é com muitas pessoas em relação a Magnolia. Este é o tipo de filme que deveríamos assistir pelo mil vezes até conseguirmos captar toda a sua expressão. E do que é que Magnolia fala? Por que é que Magnolia me interessa tanto? Porque Magnolia fala de mim, fala de nós, fala do ser humano. Magnolia, com genialidade impressionante (inclusive com a supreendente chuva de sapos no meio do filme- uma das dez pragas lançadas por Deus sobre o Egito para salvar Israel, o povo escolhido), rompendo com todos os esquemas da medíocre Hollywood, mostra o homem tal como ele é, evidencia a mediocridade e o vazio da civilização pós-moderna e neo-bárbara, mas revela que o homem, mesmo nesta civilização neo-bárbara continua sendo o que sempre foi: um ser necessitado de alguém que o salve de sua solidão, de sua miséria, de sua ignorância, de sua angústia, de seu desespero. A música-tema Save me http://www.aimee-mann.save-me.buscaletras.com.br/é de uma simplicidade e de uma beleza impressionante. O clip da música http://www.youtube.com/watch?v=lidIqRtm8V8 também é algo único. Magnolia é daquelas obras-primas eternas que já entraram para a História. Que a crueza proposital aliada com sua simplicidade nos ajude a reconhecermos nossa humana necessidade: "Save me"... o grito mais belo que o homem já emitiu...

quinta-feira, 26 de julho de 2007

Acidente da TAM: Qual é, enfim, o sentido último da realidade?

Juízos dos universitários de Comunhão e Libertação sobre o acidente da TAM. Segue abaixo:

Acidente da TAM: Qual é, enfim, o sentido último da realidade?


1) O acidente com o avião da TAM é um fato que grita por significado. O desastre desperta em nós uma exigência de resposta total que abranja todo o horizonte da razão. Qual é, enfim, o sentido último da realidade?

2) Quanto mais a pessoa avança na tentativa de responder a tais perguntas, tanto mais lhes percebe a potência e tanto mais descobre a própria desproporção em relação à resposta total. O silêncio no final dos telejornais e o grito de dor dos familiares só evidenciam e agudizam essa necessidade.

3) A revolta vazia, o conformismo ou a banalidade (a “festa” do Pan logo após cada notícia dos mortos na tragédia) são respostas inadequadas e insuficientes, reflexos da passividade em que vivemos. Se não encontramos Algo que responda a essa necessidade nos resta apenas o desespero.

4) Tal pergunta inevitável está em cada indivíduo e dentro do seu olhar para todas as coisas. No acidente com o avião da TAM, isto se torna gritante. Somente a existência do mistério é adequada à estrutura de pedido que o homem é. Ele é insaciável mendicância e aquilo que lhe corresponde é algo que não é ele mesmo, que não pode dar a si mesmo. Somente a hipótese de Deus corresponde à estrutura original do homem. Cristo é o único capaz de responder à nossa necessidade.

5) Todas as circunstâncias levam a Cristo, mesmo as mais dolorosas, porque nelas é Ele que diz: “Vejam, sou eu que falto, sou eu que faço nova todas as coisas, e não seus esforços ou pensamentos”. Assim, toda a realidade é positiva. Sei disso pois faço a experiência de ser salvo agora, e por isso tenho uma base sólida para dizer: também essa realidade pode ser salva.

6) Esta realidade o tempo todo me revela que eu não estou sozinho. Não estou sozinho porque tenho amigos que me ajudam a dar um juízo de que Cristo é presença, e até esta tragédia serve para afirmar isto. Nossa amizade abraça o mundo.


COMUNHÃO E LIBERTAÇÃO – UNIVERSITÁRIOS
19 de julho de 2007

terça-feira, 24 de julho de 2007

Oremos!

Diante do que se tornou o nosso país, e em virtude da inominável reação do ministro Marco Aurélio "top, top, top" Garcia, não é preciso dizer nada, precisamos é erguer as nossas mãos aos céus e orar, implorar ao Senhor que não permita a nossa destruição por meio de um governo corrupto, inepto, grotesco, horrível... "Não nos abandone, Senhor, somos chamados com o Teu Nome"...

segunda-feira, 16 de julho de 2007

As vaias de Lula

Na sexta-feira 13 (os supersticiosos o que dirão?), o presidente Lula foi vaiado nada menos que seis, SEIS vezes na abertura do Pan do Brasil. Pode parecer algo pequeno, mas a importância desse gesto é única. Alguns, através da paralaxe cognitiva*, como diz o filósofo Olavo de Carvalho, podem racionalizar e dizer: "ah, isso é coisa da Zona Sul do Rio de Janeiro, que não representa o Brasil". As vaias que Lula sofreu no dia 13 não é nada disso que intelectuais da esquerda adoram teorizar, fugindo da realidade, buscando encaixá-la dentro de seus esquemas conceituais. As vaias foram fruto:
1º Do "relaxa e goza" da ministra Marta Suplicy
2º So superfaturamento do Pan, que custou nada menos que 10 vezes o que foi orçado
3º Toda a mobilização do governo para fabricar a pizza do caso Renan
4º A piora-óbvia- da corrupção no Brasil em relatório do Banco Mundial.
Por essas e outras, é vaiado Lula seis, SEIS vezes no Rio de Janeiro. Não adianta chorar, Lula. Quem chora de verdade é o Brasil. Que tristeza, e que vergonha!!!
* nome que designa separação entre a experiência de vida e o pensamento de um intelectual

sexta-feira, 13 de julho de 2007

As guerras e a indicação do amor

Ontem vi um filme de 1965, A Batalha de Árgel, e fiquei impressionado com a atualidade. Atualidade da medíocre civilização burguesa, de um lado, e atualidade do terrorismo brutal (de ambos os lado, diga-se de passagem), de outro. Agora estou ouvindo Zombie do Cranberries, protesto contra a guerra na Irlanda do Norte, pensando no Iraque e nas tantas guerras e no enorme sangue derramado e do qual se pergunta, em nome de quê? De liberdade, e de poder. As guerras existem somente por causa disso. Uns querem ser livres, outros querem subjugar. Desde o princípio. É estupidez acusar o capitalismo pelas guerras. Elas existem desde que o homem habita a Terra. Parecem inscritas no nosso próprio DNA, apesar da repulsa e do asco que nos causam. A guerra, o ódio, a dor, a morte, ferem profundamente o desejo do nosso coração de justiça, de paz, de beleza... a guerra é morte, é destruição, é barbárie... nesse ínterim, surge urgente e atualíssima a indicação que Cristo trouxe do Pai, "amem uns aos outros, como eu vos amei", "amai uns aos outros como a si mesmos", "amem os vossos inimigos, rezai pelos que vos perseguem, abençoai os que vos maldizem". Está aí caminho para a verdadeira civilização, para a unidade tão sonhada da humanidade. E podemos fazer isso porque Ele nos amou primeiro, veio até nós, verteu todo o seu sangue na Cruz, para que as guerras pudessem acabar e a humanidade pudesse ser uma só. "Mas porventura, haverá fé sobre a Terra quando o Filho do Homem retornar?"

quarta-feira, 11 de julho de 2007

O avanço do descaramento

O Banco Mundial (Bird) publicou hoje relatório http://www1.folha.uol.com.br/folha/brasil/ult96u310945.shtmlafirmando o óbvio: que a corrupção no Brasil é a maior em 10 anos. Depois da nossa excelentíssima ministra fazer a sua grandiosa declaração (uma pequena homenagem pode ser vista em http://charges.uol.com.br/2007/06/14/extra-marta-gozar-a-vida/), e das tristes espetáculos protagonizado por Renan ontem na tribuna do senado, é visível como a corrupção, o cinismo, o mau-caratismo, o descaramento se alastram no Brasil de forma absurda. Agora há pouco eu estava tomando um café com uma amiga na LDM (livraria da UFBA- Universidade Federal da Bahia) e fui aboraddo por um sujeito perguntando se éramos estudantes da área de educação. Respondemos que não, mas como faço mestrado e ensinei até junho (apliquei uma prova para omeu orientador esta manhã), me dispus a ajudá-lo pensando que fosse sua tese de doutorado. Para meu pasmo e surpresa, o sujeito me disse que eram provas de uma menina imaginária (provavelmente ele mesmo) que fazia curso à distância no interior sobre novas tecnologias educacionais. O sujeito que se disse professor de educação artística da rede municipal de Salvador queria que eu e minha amiga respondéssemos as provas para ele, e ainda perguntou o quanto cobraríamos para tanto. Respondi que não, afirmando não ter competência e muito menos tempo para tanto. O que me impressionou não foi a safadeza ou o descaramento, coisas comuns no ser humano, e não sou hipócrita, Polyana ou criança de primeira-comunhão. O que me impressionou foi o cara fazer isso às claras, às abertas, em plena luz do dia, fazendo a corrupção como se fosse a coisa certa, o normal ou a regra. Pode parecer besteira, mas isso já é reflexo daquilo que o Planalto passa como a regra. Corromper-se e corromper não é mais a exceção, mas a norma e o comum, que devem ser imitados e seguidos. Quando muito, diz-se um "eu não sabia", "relaxa e goza", e tudo fica no mesmo. O Banco Mundial provavelmente gastou milhões então, para descobrir a água morna, o óbvio.

terça-feira, 10 de julho de 2007

Ode to my family

Um dos clipes mais bonitos que vi no You Tube, minha nova paixão, é Ode to my family, da banda Cranberries http://br.youtube.com/watch?v=ap9hiJjEr5Q.
Desde que a ouvi, em 1995, fiquei impressionado com a sua beleza. Ela é uma daquelas músicas que realmente tocam nas cordas mais profundas do nosso coração. É o tipo de música que mostra a universalidade da música, a universalidade do gênero humano, tão dilacerado em guerras e confusões. Existe alguma coisa que une a mim e aquelas pessoas, mesmo separados pela língua (que estou aprendendo) e cultura. O clip é de uma beleza indescritível. Mostra uma família, extensa (que vai além da chamada família nuclear- pai, mãe e filhos), aparentemente pobre, para os nossos padrões, mas com uma riqueza, com uma humanidade impressionantemente transbordante. Na minha parca compreensão, é o contrário do filme Beleza Americana, e é uma celebração ao cotidiano, àquilo que nos é dado para viver, aqui e agora, celebração à nossa vida simples e comum, à família, célula-máter da sociedade. Numa época dominada por niilismos e escapismos, negação da vida e fuga do presente através de utopias, drogas e ideologias, é tremendo uma coisa como essa. A nossa vida é bela, e cheia de sentido, mesmo que não o entendamos imediatamente!!! Numa época triste e trágica como a nossa, de destruição do humano, é esse tipo de coisa que me enche de esperança!

sábado, 7 de julho de 2007

Paris e a condição humana

Saí de Paris, te amo (Paris, je t'aime) um pouco decepcionado... Decepcionado porque esperava que mostrasse mais a cidade, mas o filme, que pecou por mostrar 18 histórias desconexas (unidas somente por Paris), mostrou a condição humana, a miséria humana, a tragédia humana, como diria o poeta Bruno Tolentino, junto com o amor e o desejo humano, que o homem é sempre homem, seja europeu, africano ou árabe, esteja em Salvador ou em Paris... saí um pouco triste, mas depois pensei, com Machado de Assis... a vida é triste, não podemos ficar como bobos alegres diante da vida, e é uma tristeza, eu diria... santa, porque me lembra o transcendente, Cristo, o Mistério... e eu não a troco por nenhuma alegria que me faça esquecer dEle...

quarta-feira, 27 de junho de 2007

Bruno Tolentino

Fonte: http://veja.abril.com.br/blogs/reinaldo/

Bruno Tolentino

Morreu hoje de manhã, aos 66 anos, no Hospital Emílio Ribas, em São Paulo, o poeta Bruno Tolentino. Pior para todos nós. Pior para o Brasil. Anteontem, lembrei aqui uma das muitas falsetas que a impostura lhe aprontou: em 1994, ele desancou uma tradução de um poema de Hart Crane feita por Augusto de Campos. Em resposta, fizeram um abaixo-assinado. Até a Gal Costa e a Marilena Chaui assinaram. Não convidaram o Chacrinha porque ele já havia morrido. Falarei mais de Bruno ao longo do dia e da importância de sua obra. Havia muito, desde a morte de Mário Faustino (1962), de quem era amigo, era um poeta solitário, vivendo de e em muitos exílios, sem ninguém que pudesse com ele emular, nem mesmo ombrear.Há exatamente um ano, num 27 de junho como este, Bruno lançou aquela que é, no que respeita à produção poética, a sua maior obra: A Imitação do Amanhecer, um conjunto de 537 sonetos alexandrinos, que podem ser lidos individualmente. No conjunto, formam uma narrativa, um romance. Bruno me convidou para um bate-papo na livraria Fnac: também em prosa, era douto, divertido, original. Posso estar enganado, mas acho que os jornais não registraram uma linha. Ou o fizeram com tal discrição, que é impossível lembrar. Ele fora banido também da academia. Bruno podia ser um pouco humilhante — e até intimidador às vezes — em várias línguas. Menos para quem era capaz de ser generoso consigo mesmo para aprender. E então ele era de uma gentileza extrema.Eu era seu amigo. Trabalhamos juntos. Ele sempre teve comigo uma lhaneza que talvez eu nem merecesse. Num tom entre amistoso e galhofeiro, chamava-me, às vezes, como a outros mais jovens do que ele, “filhinho”. Vivi dias felizes tendo-o como colega de redação nas revistas BRAVO! e República. Em tudo, um homem invulgar. Era a única pessoa que eu permitia postar-se ao lado do micro enquanto eu escrevia um texto. Com olhos de uma agilidade infantil, antecipava-se, às vezes, às palavras. E lá vinha: “Filhinho, por que a gente (sic) não escreve tal coisa?”. A gente? Bruno vivia dentro de muitos textos. Eles eram de todos e de ninguém.Estou triste, devastado por sua morte, com a sensação, comum nesses casos, mas incomum quando se trata de Bruno Tolentino, de que eu poderia ter aprendido ainda mais, de que talvez eu tenha falado demais e ouvido de menos. Bruno era genial, contraditório, fabuloso, no sentido mesmo da palavra. Sou, como sabem, aborrecidamente lógico, o que vale para os amigos, que acatam o defeito, e para os inimigos, que, às vezes, se enfurecem. Muitas vezes, eu o flagrei no que, para mim, era uma contradição inelutável. Apontava-a, como é do meu temperamento: “Não, não, filhinho, você não entendeu”. E a sua resposta saía então da literatura, da sua cultura imensa, de uma certa realidade mágica onde vivia o poeta Bruno Tolentino. Eu, terreno demais, dava-me então por vencido.Bruno fez um bem enorme à literatura e a seus amigos e, no pouco de mal que pode ter praticado, não atingiu ninguém, a não ser a si mesmo. E até isso era parte de sua obra. Foi, a meu ver, o último representante de um país que poderia ter sido. E que não foi e não será porque a política — também as políticas culturais — se amesquinha no populismo rasteiro, na apologia da ignorância, da pequenez. Bruno, ao lado de Faustino, morto tantos anos antes, tinha sede do épico.O velório está sendo realizado no Cemitério Santíssimo Sacramento — Av. Dr. Arnaldo, 1.200, em São Paulo. Seu corpo será enterrado amanhã, às 9h. Os que vão morrer o saúdam, Bruno Tolentino.
Por Reinaldo Azevedo 15:38 comentários (10)

quarta-feira, 13 de junho de 2007

A pior e a melhor invenção do mundo


A pior invenção:


O cartão de crédito


A melhor:


O cartão de débito

Etapas do parentesco ideológico ou fisiológico

A seguinte postagem é do blog http://vejaonline.abril.com.br/notitia/servlet/newstorm.ns.presentation.NavigationServlet?publicationCode=1&pageCode=1290

A SANTA PACIÊNCIA

Etapas do parentesco ideológico ou fisiológico 05:34




Charles Robert Darwin por Werner Horvath, óleo sobre tela 70x50 cm.


1. Na América Latina discute-se o socialismo do coronel Hugo Chavez.


2. Na França discute-se a evolução do Partido Socialista para social-democracia.


3. Alhures discute-se qual é o sentido da social-democracia.

quarta-feira, 6 de junho de 2007

A novidade de Bento 16


O papa Bento 16


É verdade que o meu mestrado tem me consumido muito tempo e energia, e tenho deixado meu blog um pouco desativado, mas agora pretendo voltar a postar sempre. A minha própria experiência de ida a São Paulo para ver este grande homem do nosso tempo, o papa Bento 16, estará aqui em breve. Por ora, deixo esta reportagem provocativa, sobre a novidade que este homem que é o Vigário de Jesus na Terra, supostamente retrógrado e reacionário carrega, a despeito de todo poder midiático, que quer fazer, no dizer do filósofo Olavo de Carvalho, um verdadeiro "genocídio cultural do cristianismo". A matéria segue abaixo.

São Paulo, sexta-feira, 18 de maio de 2007- pag. 3


A novidade de Bento 16


por FRANCISCO BORBA RIBEIRO NETO
A condenação do aborto e a defesa da vida foram temas pouco citados pelo papa. Por que reduzir o seu discurso a questões de moral sexual? BENTO 16 tem sido lido a partir de um dualismo que vê na igreja, após o Concílio Vaticano 2º, apenas a contraposição entre progressistas, abertos à modernidade e à mudança, e conservadores, reativos à mudança e fechados à modernidade. Porém, seria mais adequado pensar em duas tendências que buscam a mudança em oposição a uma terceira, realmente reacionária. As duas tendências que preconizam a mudança surgiram da idéia, básica no Vaticano 2º, de que a igreja, ao se atualizar ("aggiornamento"), deveria também retornar a suas fontes originais. Alguns valorizaram mais a imagem da adaptação aos tempos, criando um pensamento que tendia a moldar o catolicismo às várias correntes e tendências da modernidade. Outros valorizaram mais o retorno às raízes, das quais o cristianismo se distanciara, trabalhando numa linha crítica, discutindo os desencantos do homem atual diante da modernidade. Atualização e crítica estão presentes nas duas tendências, mas ênfases diferentes levaram a atitudes diversas. Bento 16 e a maioria dos movimentos e novas comunidades eclesiais se alinham na segunda tendência, mas isso não quer dizer uma identificação ao tradicionalismo pré-conciliar. O retorno às raízes e a crítica à cultura moderna se distinguem do tradicionalismo por recusar o formalismo e identificar o catolicismo a uma experiência pessoal. Por isso, esses movimentos se tornaram, entre os católicos, a parcela mais dinâmica e a que mais cresce nas cidades. Variados e atuantes nos ambientes leigos, adequaram-se a uma sociedade plural e desvincularam- se do peso da instituição. Nasceram a partir de uma intuição -o carisma, geralmente associado a um fundador-, e seguir esse carisma gera uma conversão pessoal, criando o ímpeto e a seriedade típica dos novos conversos entre pessoas de tradição católica. A expansão dos movimentos (em certo aspecto também as comunidades eclesiais de base formam movimentos) permite entender por que Bento 16 não se preocupa com a questão quantidade X qualidade. Já há, a seu ver, realidades eclesiais que crescem em quantidade e qualidade, e seu papel é fortalecê-las na fé. Esse fortalecimento não se baseia numa insistência moralista ou na condenação reacionária ao mundo moderno. Fiel a Santo Agostinho, o papa trabalha a partir "do coração do homem que anseia por Deus". No caminho catequético de Bento 16, o discurso no Pacaembu não é uma afirmação da moral sexual conservadora, mas a retomada do tema da busca por um sentido pleno para a vida. Ao falar a jovens em Colônia (onde os comparou a reis magos peregrinos em busca da construção de um novo mundo) e São Paulo (onde os comparou ao jovem rico que pergunta pela vida plena), orienta seu discurso como resposta a essa busca. A moralidade é instrumento, e não objetivo ou êxito. Também os pobres estão em busca desse sentido. A dureza da vida não elimina essa necessidade, pelo contrário, torna-a mais aguda. Por isso, a ação pastoral deve se orientar em torno da resposta a ela também aí. Porém, sua pregação se volta ininterruptamente ao amor vivido como doação ao próximo e que se torna compromisso social, pois o testemunho do amor seria a ponte entre Deus e o homem e dos homens entre si. Bento 16 deu um vigoroso apoio ao trabalho social da igreja latino-americana. Mas o referencial para esse trabalho passa a ser a doutrina social da igreja, que cresceu no confronto com as modernas democracias pluralistas, e não a mediação marxista, que orientou a Teologia da Libertação no contexto das ditaduras latino-americanas. A mudança não é um sinal dos tempos: acompanha a passagem que vem ocorrendo de um discurso de transformação social, com sentido revolucionário, para outro, de inclusão social, com sentido reformista. A "defesa da vida" e a condenação do aborto foram temas pouco citados pelo papa. Mas esse pouco desencadeou uma intensa reação contrária. Por quê? E por que essa insistência dos críticos em reduzir o seu discurso a questões de moral sexual? A igreja é vista, entre nós, como a fonte das repressões. Mas o caráter repressivo está nas várias sociedades, não é invenção de uma religião. O catolicismo atual tem caminhado no sentido da valorização plena da sexualidade. Ao mesmo tempo, as pessoas tendem a considerar intromissão no Estado laico a condenação do aborto, mas apóiam que a igreja condene, a partir das mesmas bases morais, um Estado que pratique tortura. Nossa sociedade tem dificuldade para estabelecer o lugar da ética (e da ética religiosa) na vida pública. Superar essa dificuldade é condição para o "sadio laicismo" defendido por Bento 16. Principalmente, é condição para um diálogo em torno das questões essenciais: será que só nos realizamos no amor que é doação ao outro? Será possível, como diz o papa, que a energia primeira, da qual surgiu o Big Bang, se revele como amor por nós?

FRANCISCO BORBA RIBEIRO NETO, sociólogo e biólogo, é coordenador de projetos do Núcleo Fé e Cultura da PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo).

A volta da família careta

A seguinte postagem está no site http://veja.abril.com.br/060607/ponto_de_vista.shtml

Ponto de vista: Lya Luft

A volta da família careta

"Perdoem-me os pais que se queixam de que os filhos são um fardo, de que faltam tempo, dinheiro, paciência. Receio que o fardo, o obstáculo e o estorvo a um crescimento saudável dos filhos sejam eles"
Foi tão grande e variado o número de e-mails, telefonemas e abordagens pessoais que recebi depois de escrever que família deveria ser careta, que resolvi voltar ao assunto, para alegria dos que gostaram e náusea dos que não concordaram ou não entenderam (ai da unanimidade, mãe dos medíocres). Atenção: na minha coluna não usei "careta" como quadrado, estreito, alienado, fiscalizador e moralista, mas humano, aberto, atento, cuidadoso. Obviamente empreguei esse esse termo de propósito, para enfatizar o que desejava.
Houve quem dissesse que minha posição naquele artigo é politicamente conservadora demais. Pensei em responder que minha opinião sobre família nada tem a ver com postura política, eu que me considero um animal apolítico no sentido de partido ou de conceitos superados, como "a esquerda é inteligente e boa, a direita é grossa e arrogante". Mas, na verdade, tudo o que fazemos, até a forma como nos vestimos e moramos, é altamente político, no sentido amplo de interesse no justo e no bom, e coerência com isso.
E assim, sem me pensar de direita ou de esquerda, por ser interessada na minha comunidade, no meu país, no outro em geral, em tudo o que faço e escrevo (também na ficção), mostro que sou pelos desvalidos. Não apenas no sentido econômico, mas emocional e psíquico: os sem auto-estima, sem amor, sem sentido de vida, sem esperança e sem projetos.
O que tem isso a ver com minha idéia de família? Tem a ver, porque é nela que tudo começa, embora não seja restrito a ela. Pois muito se confunde família frouxa (o que significa sem atenção), descuidada (o que significa sem amor), desorganizada (o que significa aflição estéril) com o politicamente correto. Diga-se de passagem que acho o politicamente correto burro e fascista.
Voltando à família: acredito profundamente que ter filho é ser responsável, que educar filho é observar, apoiar, dar colo de mãe e ombro de pai, quando preciso. E é também deixar aquele ser humano crescer e desabrochar. Não solto, não desorientado e desamparado, mas amado com verdade e sensatez. Respeitado e cuidado, num equilíbrio amoroso dessas duas coisas. Vão me perguntar o que é esse equilíbrio, e terei de responder que cada um sabe o que é, ou sabe qual é seu equilíbrio possível. Quem não souber que não tenha filhos.
Também me perguntaram se nunca se justifica revirar gavetas e mexer em bolsos de adolescentes. Eventualmente, quando há suspeita séria de perigos como drogas, a relação familiar pode virar um campo de graves conflitos, e muita coisa antes impensável passa a se justificar. Deixar inteiramente à vontade um filho com problema de drogas é trágica omissão.
Assim como não considero bons pais ou mães os cobradores ou policialescos, também não acho que os do tipo "amiguinho" sejam muito bons pais. Repito: pais que não sabem onde estão seus filhos de 12 ou 14 anos, que nunca se interessaram pelo que acontece nas festinhas (mesmo infantis), que não conhecem nomes de amigos ou da família com quem seus filhos passam fins de semana (não me refiro a nomes importantes, mas a seres humanos confiáveis), que nada sabem de sua vida escolar, estão sendo tragicamente irresponsáveis. Pais que não arranjam tempo para estar com os filhos, para saber deles, para conversar com eles... não tenham filhos. Pois, na hora da angústia, não são os amiguinhos que vão orientá-los e ampará-los, mas o pai e a mãe – se tiverem cacife. O que inclui risco, perplexidade, medo, consciência de não sermos infalíveis nem onipotentes. Perdoem-me os pais que se queixam (são tantos!) de que os filhos são um fardo, de que falta tempo, falta dinheiro, falta paciência e falta entendimento do que se passa – receio que o fardo, o obstáculo e o estorvo a um crescimento saudável dos filhos sejam eles.
Mães que se orgulham de vestir a roupeta da filha adolescente, de freqüentar os mesmos lugares e até de conquistar os colegas delas são patéticas. Pais que se consideram parceiros apenas porque bancam os garotões, idem. Nada melhor do que uma casa onde se escutam risadas e se curte estar junto, onde reina a liberdade possível. Nada pior do que a falta de uma autoridade amorosa e firme.
O tema é controverso, mas o bom senso, meio fora de moda, é mais importante do que livros e revistas com receitas de como criar filho (como agarrar seu homem, como enlouquecer sua amante...). É no velhíssimo instinto, na observação atenta e na escuta interessada que resta a esperança. Se não podemos evitar desgraças – porque não somos deuses –, é possível preparar melhor esses que amamos para enfrentar seus naturais conflitos, fazendo melhores escolhas vida afora.

Lya Luft é escritora

domingo, 27 de maio de 2007

Entre o nada e o infinito






Uma coisa vem me preocupando nestes últimos dias. Vim conversando com amigos meus, especialmente na faculdade, e expressei, de uma forma meio irônica, o meu desejo de chegar até o ano 2110. Pode parecer muito, mas estaria eu com 127 anos nesta data, o que não seria impossível, dados os avanços na biologia e na engenharia. Me espantou e muito as reações das pessoas! Cheguei a escutar alguém dizer que queria morrer automaticamente aos 80 anos, tudo com a desculpa de "não querer dar trabalho a ninguém". Outro amigo mais sincero disse "a vida é chata", e "fazemos tudo para matar o tempo". Por trás de tudo isto, está o ódio que inconscientemente temos à vida, e a nós mesmos, ao nosso coração, ao nosso desejo infinito, dado que ele não encontra resposta em nada. Já dizia Nietzsche no livro A gaia ciência: "este pendor para o verdadeiro, para a realidade, para o inaparente, para a certeza: como me dá raiva!" Outra amiga, seguindo Heidegger, dizia "o que dá sentido à nossa vida é justamente a morte", enquanto eu dizia "ninguém quer morrer! É mentira o que se diz! Até o mendigo que cata lixo na rua, o faz para sobreviver!" Mais coerente estava Sartre no seu livro O Ser e o Nada, que ateiamente concluía "a vida é uma paixão inútil, uma nadificação total dos nossos projetos".


Após a série de atentados que aconteceram nos Estados Unidos, na Espanha e na Inglaterra, terroristas islâmicos soltaram uma frase que me arrepiaram "Nós amamos mais a morte do que vocês a vida", e puseram João Paulo 2º de joelhos diante do Santíssimo Sacramento pedindo pelo Ocidente, pedindo pelo Ocidente que está entrando numa cultura da morte, de ódio à vida, enxergando na morte nada mais do que a solução de problemas (daí podemos entender o grande apelo supostamente humanístico da legalização do aborto e da eutanásia, por exemplo). O que está acontecendo é fruto do grande não que o Ocidente vem dando ao homem que se disse ser o caminho, a verdade e a vida, e na tentativa de chegar ao paraíso de forma autônoma e rebelde, desde o Iluminismo. Abandonando-o e de forma paradoxal, voltando-se contra si mesmo (pois o Ocidente nasce com os filósofos gregos, "sementes do Evangelho", segundo Santo Agostinho), o Ocidente não tem escolha, dessa maneira, a não ser o nada, a morte, o niilismo, o absurdo e o non-sense. É como disse o grande poeta Bruno Tolentino: "não há alternativa cultural ao cristianismo". Nosso coração se encontra numa encruzilhada: entre o infinito e o nada. O segredo é a recomendação de Ítalo Calvino: "olhar no inferno o que não é inferno", e estar atento à beleza, como dizia Pasolini: "Mas no deserto de nossos caminhos Ela passa, rompendo o limite finito e enchendo os nossos olhos de desejo infinito". Como disse Dostoiévski: "A Beleza nos salvará". E ainda Bento 16: "ela é promessa de infinito". É ela, a beleza, que nos revela o que verdadeiramente somos: ânsia, tensão, desejo infinito de vida, do belo, do que é bom e melhor, o que uma cultura da morte quer inegavelmente abafar, querendo nos afogar no nada e no desespero. É ela que nos revela nossa aspiração, nosso desejo, e que o nosso destino não é a putrefação horrorosa da morte, mas uma vida cem vezes mais interessante, já aqui mesmo, nesta vida.

terça-feira, 24 de abril de 2007

Morre Boris Yeltzin


Morreu ontem Boris Yeltzin, que liderou o fim da URSS e de 70 anos de opressão comunista.



Líderes mundiais saúdam Yeltsin como uma figura corajosa, embora falha


Seg, 23 Abr, 06h08
PARIS (AFP) - Líderes mundiais prestaram tributo, nesta segunda-feira, ao ex-presidente russo, Boris Yeltsin, por seu papel corajoso na defesa da democracia depois do colapso traumático da União Soviética.

Yeltsin, que faleceu nesta segunda-feira de ataque cardíaco aos 76 anos, foi lembrado como um reformista histórico, apesar de seu conturbado legado final e de seu estilo que vida pouco ortodoxo, que teria contribuído para debilitar sua saúde e, finalmente, levá-lo à morte.
O último presidente soviético, Mikhail Gorbachev, esteve entre os primeiros a expressar condolências pela morte daquele que foi seu adversário político.
"Apresento minhas profundas condolências à família de um homem em cujos ombros repousaram muitas grandes obras para o bem do país e erros sérios: um trágico destino", disse o ex-líder soviético, citado pela agência Interfax.
Para o presidente russo Vladimir Putin, herdeiro político de Yeltsin, uma "nova Rússia democrática, um Estado livre aberto ao mundo" nasceram graças a seu antecessor.
"Boris Nikolaievich Yeltsin, o primeiro presidente da Rússia, morreu. É como este título que ele entra para sempre na História da Rússia. Morreu um homem, graças ao qual toda uma época pôde ver a luz", disse o presidente russo em declarações transmitidas pela agência de notícias Interfax.
Nos Estados Unidos, o presidente George W. Bush qualificou Boris Yelstin de "figura histórica", destacando que ele ajudou a ancorar a democracia em seu país, além de criar laços calorosos com os Estados Unidos.
"Laura e eu estamos profundamente entristecidos com a morte do ex-presidente russo, um personagem histórico que serviu a seu país num período de mudança fundamental", disse Bush em um comunicado.
Yeltsin "desempenhou um papel importante quando a União Soviética foi dissolvida, ajudou a lançar as bases da liberdade, tendo sido o primeiro a ser eleito democraticamente na história do país. Aprecio os esforços que fez para construir uma relação muito forte entre a Rússia e os Estados Unidos", acrescentou.
"Enviamos nossos pêsames sinceros à família de Yelstin e ao povo russo", afirmou. "Dirigimos nossos pensamentos e nossas orações a sua família e ao povo russo", concluiu.
Na Grã-Bretanha, o primeiro-ministro, Tony Blair, liderou o triunvirato de chefes de governo, que prestaram tributos ao ex-presidente russo, enaltecendo sua contribuição em um momento chave da história de seu país.
"Foi com tristeza que recebi a notícia da morte do ex-presidente Yeltsin", disse Blair em um comunicado, divulgado por seu gabinete.
"Ele foi um homem notável, que viu a necessidade da democracia e da reforma econômica e da defesa de que a reforma que ele conduziu teve um papel vital em um momento crucial da historia da Rússia", disse Blair.
Os ex-primeiros-ministros britânicos conservadores Margaret Thatcher e John Major, que chefiaram o país entre 1979 e 1997, lembraram do declínio e da queda da União Soviética, bem como a emergência de uma nova Rússia.
"Sem Boris Yeltsin, a Rússia teria ficado sob domínio do Comunismo e os Estados bálticos não seriam livres. Ele merece ser homenageado como um patriota e um libertador", disse Thatcher.
O sucessor da "dama-de-ferro", John Major, primeiro-ministro na época em que Yeltsin desafiou e frustrou a tentativa de golpe de Estado contra Gorbachev, em 1991, se referiu a Yeltsin como "um homem de grande coragem e convicção".
"Ele foi o primeiro presidente eleito da Rússia, tentou introduzir uma economia de mercado na Rússia nas mais desfavoráveis circunstâncias. Só um homem de grande coragem e convicção teria tentado fazê-lo", disse o ex-premier à emissora Sky News.
Major lembrou do telefonema que fez a Yeltsin no dia do golpe: "Eu liguei para ele e ele me disse que estava cercado por comunistas da linha-dura. Ele achou que só tinha cerca de 20 minutos e me perguntou se iria para a frente da Downing Street e contar ao mundo o que estava acontecendo", lembrou.
"Assim o fiz e aquele foi o começo de uma forte amizade que durou por todo o período em que estive no cargo e que se manteve desde então", acrescentou.
Na Alemanha, a chanceler alemã Angela Merkel destacou em uma carta de condolências pela morte de Yeltsin que "sua contribuição para desenvolvimento das relações entre nossos dois países não será esquecida".
Helmut Kohl, chanceler da Alemanha entre 1982 e 1998 e que supervisionou a reunificação alemã, descreveu o ex-presidente russo como um amigo pessoal, bem como um "amigo leal do povo alemão".
"Seus méritos nos termos das relações entre a Alemanha e a Rússia, e a paz mundial não podem ser subestimados", disse Kohl, de 77 anos, afirmando que Yeltsin liderou a Rússia "com coragem, paixão e sábia determinação".
Em Luxemburgo, representantes da União Européia enalteceram o papel desempenhado por Yeltsin ao estabelecer a democracia e a economia de mercado na Rússia.
"Ele deu uma contribuição decisiva ao estabelecer a democracia e a economia de mercado na Rússia, o que merece o nosso respeito. Ele se voltou para a Europa e deu uma grande contribuição para as relações entre a União Européia e a Rússia", disse à margem de um encontro de ministros europeus das Relações Exteriores o chefe da diplomacia alemã, Frank-Walter Steinmeier, cujo país ocupa a presidência rotativa do bloco.
No mesmo sentido, o chefe da política externa da UE, Javier Solana, falou de seu "grande respeito pela vida e pelos feitos" de Yeltsin, que contribuiu para "o bem estar no fim do século XX", afirmou.
Para o presidente da Comissão Européia, José Manuel Barroso, Yeltsin demonstrou "grande coragem pessoal" na defesa da liberdade.
"Como presidente, ele enfrentou enormes desafios e mandados difíceis, mas certamente aproximou o Ocidente do Oriente e ajudou a substituir o confronto por cooperação", disse Barroso.
O mesmo legado foi lembrado pelo secretário-geral da Otan, Jaap de Hoop Scheffer, segundo quem Yeltsin esteve na linha de frente dos esforços do pós-Guerra Fria para criar uma nova relação entre a Rússia e a Aliança Atlântica.
"Seu esforço histórico para deixar de lado os temores e estereótipos do passado a favor da cooperação para enfrentar os desafios do futuro se reflete até hoje", disse Scheffer.
Líderes políticos da Letônia, Lituânia e da Estônia também homenagearam Yeltsin, ressaltando a coragem que teve ao auxiliar os três países a conquistarem sua independência da União Soviética.
"Yeltsin foi um chefe de estado que preparou o terreno para que a Lituânia recuperasse sua independência", disse à AFP o primeiro-ministro lituano Gediminas Kirkilas, logo depois de saber da morte do ex-presidente russo.
"Os acordos assinados por Yeltsin, que retirou o exército russo da Lituânia, foram os mais importante para nós com a Rússia", acrescentou Kirkilas.
Dias após a tentativa de golpe contra Moscou em agosto de 1991, Boris Yeltsin, que era então o presidente russo, assinou um documento reconhecendo a independência dos três estados bálticos.
A Estônia, a Letônia e a Lituânia haviam sido incorporadas à força à União Soviética de Joseph Stalin ao final da Segunda Guerra Mundial.
A iniciativa Yeltsin e de outros líderes, como Gorbatchev em nome da União Soviética, fizeram reconhecer publicamente a soberania dos países bálticos.
Ainda em 1991, quando dezenas de lituanos que manifestavam pela independência em Vilnius foram mortos pelos soviéticos, Yeltsin expressou publicamente seu apoio à soberania dos países bálticos.
"Ele ajudou a acelerar a marcha pela libertade da Lituânia e contribuiu para a independência dos países bálticos. Foi uma grande honra tê-lo como amigo e parceiro", declarou o presidente da Lituânia, Valdas Adamkus.
"Yeltsin teve um papel essencial para o fim do regime totalitário da URSS e no nascimento de uma nova Rússia", escreveu o presidente da Estônia, Toomas Hendrik Ilves, em carta de pêsames.
A presidente da Letônia, Vaira Vike-Freiberga, enfatizou "a capacidade de Yeltsin em tomar decisões em momentos cruciais".
"Boris Yeltsin teve uma função determinante não apenas na história russa, mas também na história do leste europeu, acrescentou Vike-Freiberga.
Na Ucrânia, outro país que integrava a cortina de ferro, o presidente Viktor Yushchenko apresentou condolências à família de Yeltsin, a quem chamou de um "homem político épico".
Era "um grande democrata que tem o nome ligado a toda a uma época da História mundial", declarou Yushchenko em mensagem enviada ao colega russo, Vladimir Putin.
"A contribuição dele à renovação do Estado russo, à afirmação dos princípios de liberdade, igualdade dos direitos e soberania no espaço pós-soviético (...) é única", acrescentou o presidente ucraniano.

Quando começa a vida?

Segue abaixo entrevista com o Professor Dr. Dalton Luiz de Paula Ramos acerca do início da vida humana.

«A vida humana começa na fecundação»

Entrevista com o Professor Dr. Dalton Luiz de Paula Ramos

SÃO PAULO, domingo, 22 de abril de 2007 (ZENIT.org).-

«A vida humana começa no instante exato da fecundação». Este foi o foco de inúmeros especialistas pró-vida que participaram da primeira audiência pública promovido pelo Supremo Tribunal Federal, sexta-feira passada, dia 20 de abril, num evento inédito na história do país, que reuniu especialistas de renome no campo científico no Brasil, num debate bioético de grande repercussão, refletindo o tema sobre o início da vida humana. Em entrevista a Zenit, o Professor Dr. Dalton Luiz Paula Ramos – Livre Docente, professor de Bioética da Faculdade de Odontologia da Universidade de São Paulo, um dos especialistas participantes da audiência pública no STF, aborda algumas questões debatidas no encontro ocorrido na Suprema Corte do país. O Prof. Dr. Dalton Ramos atualmente é membro do Núcleo Fé e Cultura da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, membro da equipe de assessores da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil) e membro da Comissão Nacional de Ética em Pesquisa, do Ministério da Saúde. Desde 2003 é membro correspondente da Pontifícia Academia para a Vida. --O Supremo Tribunal Federal promoveu sexta-feira, dia 20 de abril, uma audiência pública inédita na história do país, em que o Sr. foi um dos especialistas convidados a participar da reflexão do tema “Quando a vida começa?”, a questão mais importante do debate bioético da atualidade. Esse tema é permanente na história da filosofia e da teologia, sobre a origem e a finalidade da vida. Com a discussão desse tema no STF, a corte máxima do País parece buscar um consenso entre especialistas sobre o início da vida humana, para servir de referência para legitimar a pesquisa científica com embriões humanos. Como o Sr. avaliou esse debate e que desdobramentos poderão ter na sociedade brasileira, a partir desse momento? --Prof. Dr. Dalton Ramos: Essa é a primeira de duas audiências que o STF se propõe a realizar, o que é muito válido, pois possibilita o aprofundamento da reflexão de questões relevantes do nosso tempo, que permita a aplicação do conhecimento científico com os critérios éticos que assegurem a dignidade da pessoa humana, em todos os aspectos. A primeira audiência foi pública, onde os ministros do Supremo ouviram argumentos pró e contra de especialistas da comunidade científica brasileira; a segunda, restrita aos advogados e Ministros, será de julgamento. O contexto atual dessa discussão (o que motivou a realização desta importante audiência pública) convocada pelo Ministro Carlos Ayres Brito, relator da Ação Direta de Inconstitucionalida de (ADIn), movida pelo então Procurador-Geral da República, Cláudio Fontelles, quando foi aprovada a Lei de Biossegurança (em março de 2005), diz respeito ao artigo que autoriza o uso de embriões humanos congelados em clínicas de reprodução assistida para fins de pesquisa científica. A questão levantada pela ADIn foi “Quando começa a vida humana ?” A mídia, e alguns setores da comunidade científica, distorceram a questão focando o debate no potencial uso terapêutico das células-tronco. Assim, apelam para uma questão que aflige a todos: a necessidade de cura para muitas doenças. E aí muitos, entorpecidos pela dor da doença e da deficiência e ainda iludidos por falsas ou parciais informações “científicas” acabam tendo muita dificuldade de entender e até de ouvir. Nesse cenário o STF, enquanto a suprema instância judiciária do Brasil, propôs o debate sobre o início da vida humana, antes de tomar posição definitiva sobre o assunto. Foi um fato inédito na história do Brasil pois foi a primeira vez que este Tribunal abriu as suas portas para uma audiência como esta. Frente a esse desafio, articulados pelo hoje Subprocurador da República, Dr. Cláudio Fonteles e pela CNBB, foram reunidos 12 especialistas que entendem que a utilização e a destruição de embriões humanos é um assassinato, portanto, um crime, e procuramos defender esse posicionamento nos revezando nas 3 horas e meia de apresentações orais frente aos Ministros do Supremo. Os contrários a nossa tese, representando o Governo Brasileiro, também em número de 12 especialistas, tiveram o mesmo tempo. Particularmente defendi em minha colocação frente ao Supremo que a vida começa no exato momento da fecundação e que uma decisão em contrário contraria o dado biológico, que caracteriza o “humano” por seus atributos genéticos e por sua expressão orgânica e ainda traz o perigo do casuísmo e da própria negação da vida como direito universal. Esse tema – de quando se dá início de uma nova vida humana - é de bastante relevância, e estratégico até, porque a partir do momento em que consolidamos o conceito (que nos parece fazer um uso adequado da razão) de que a vida humana começa no exato instante da fecundação, todos os atos que seguem a esse momento, e que possam interromper o processo dessa nova vida humana, é a destruição de um ser humano, portanto um assassinato. Se aceitarmos a falsa lógica de que a vida não começa com a fecundação, estaremos justificando o descarte e destruição dos embriões, mais tarde dos deficientes, dos excluídos da sociedade, enfim, a vida passará a não ter mais valor. Tudo isso pode e deve ser evitado, se prevalecer o consenso de que a vida humana começa no exato momento da fecundação, daí a importância do debate no STF. --A Declaração do Conselho Permanente dos Bispos da França sobre o Estatuto do Embrião – “O embrião humano não é uma coisa” (de 2001), afirma que “é essencial considerar-se todo embrião como pertencente à humanidade. O que define o estado embrionário é representar o começo de uma vida cuja expansão, se não for travada, traduzir-se-á pelo nascimento de uma criança. Não há existência humana que não tenha começado por esse estágio. Todo ser humano é precedido: ele chega a humanidade que o precede. Sua existência aí se inscreve, pois é dela que recebe a vida. Todo embrião já é um ser humano. Logo, não é um objeto disponível para o homem. Ele não está à mercê do modo de ver nem da opção dos outros. Juntamente com eles, pertence à mesma e única comunidade de existência”. Esse posicionamento ficou claro no debate do STF, de que esta é uma evidência científica? --Prof. Dr. Dalton Ramos: Essa é uma conclusão a que chegamos, não só com base do conhecimento científico atual, que só a faz confirmar, a partir da própria evolução de que a vida começa no exato momento da fecundação. Como a ciência confirma isso? O que estão fazendo as ciências experimentais? Elas estão demonstrando que cada nova descoberta vem comprovar a complexidade do processo da vida humana. A cada nova descoberta científica, que diz respeito à embriologia e à genética, fica evidente que o processo da vida humana é muito mais complexo do que dos outros animais, e que a complexidade daquilo que se chama embrião, não pode reduzi-lo a uma categoria de apenas uma célula ou a um aglomerado de células. As pesquisas científicas mostram cada vez mais a complexidade do momento da fecundação. A ciência só faz apontar para momentos cada vez mais precoces o início da vida humana, reconhecendo a vida como um processo contínuo, coordenado e progressivo. O que significa isso? Quer dizer que a vida humana tem um ponto de início e um ponto de fim; o início entendemos que coincide com o exato instante da fecundação onde inaugura-se uma nova vida humana, o fim corresponde a um episódio de morte. Processo esse contínuo, e, ao mesmo tempo coordenado, isto é, auto-suficiente no próprio projeto. É o que a genética, em sua evolução, e nos seus novos conhecimentos, vem confirmando. E, além de contínuo e coordenado é um processo progressivo, porque as etapas vão naturalmente se sucedendo. Vai assim compor uma biografia, uma história de vida que pode durar de uma semana, no caso de embriões destruídos ou descartados, até 100 ou mais anos de vida para aqueles que puderam se desenvolver, crescer e viver toda uma longa vida. O embrião humano, portanto, tendo o acolhimento e a alimentação necessária, vai se expandindo e se desenvolvendo num processo natural. --Desde que tenha as condições propícias... --Prof. Dr. Dalton Ramos: Sim, desde que tenha as condições propícias, o embrião humano vai se desenvolvendo em suas diferentes etapas: de duas células até o organismo adulto, com tantos tipos diferentes de células, com as funções e capacidades específicas, integradas num todo. E o que estamos vivendo hoje é uma tragédia. Embriões são produzidos em laboratórios e a muitos deles não lhes é permitido serem implantados num útero materno. Alguns desses são descartados, isto é, destruídos, mortos; outros são congelados. Agora a estes congelados querem dar uma “finalidade” que não é digna: a sua destruição para a obtenção de células que serão empregadas em pesquisas científicas de resultados duvidosos. Para se desenvolver pesquisas com células-tronco não precisamos sacrificar vidas humanas destruindo embriões, uma vez que tais células também podem ser obtidas de outros tecidos “adultos”, como da medula e do cordão umbilical, técnicas essas, essas sim, que já apresentam resultados científicos promissores. Queremos e devemos nos empenhar em buscar a cura para as doenças pois também nós estamos aflitos com os males que afligem nossos irmãos doentes. Mas quando se trata de células-tronco e seu uso terapêutico é importante destacar que esta é uma tecnologia nova que necessita ainda ser muito bem pesquisada para que possamos oferecer aos nossos irmãos doentes opções terapêutica eficazes e seguras. Além disso, não devemos desperdiçar os nossos já limitados recursos financeiros em linhas de pesquisas que são duvidosas. Devemos empregá-los em pesquisas que são seguras e promissoras, como é o caso das pesquisas em que se empregam células-tronco retiradas de tecidos adultos que além de serem facilmente obtidas, como atestam inúmeros trabalhos científicos, são mais seguras. E um outro ponto que necessita ser destacado é que os embriões humanos que encontram-se congelados PERMANECEM VIVOS, alguns deles viáveis. Recentemente a imprensa publicou um episódio no Brasil de uma criança sadia que nasceu de um embrião que esteve congelado por seis anos. Nem todos eles, infelizmente, terão esse feliz destino, mas se existe a possibilidade de que essa vida possa se desenvolver, então isso não pode nunca ser a justificativa para sua destruição ou manipulação, como se fosse “lixo”. --Há no contexto cultural de hoje, um plural de bioéticas, uma espécie de “estranhos morais”, posicionamentos diferenciados, prevalecendo na opinião pública conceitos de uma bioética relativista e reducionista da integridade da pessoa humana. Como o Sr. vê isso? --Prof. Dr. Dalton Ramos: No cenário que temos hoje, existe uma forte tendência relativista e reducionista, que também se manifesta em alguns modelos bioéticos. O que significa isso? Como nos lembrou muito bem o então Cardeal Ratzinger, agora Bento XVI, trata-se de uma “ditadura do relativismo”, em que não se reconhece mais nada como definitivo, imperando uma subjetividade, diluída nos interesses particulares de cada pessoa. Isso “isola as pessoas e as lança, ao mesmo tempo, para uma solidão radical”, porque as isolam do essencial. O papa empregou esse termo “ditadura do relativismo”, para chamar a atenção de que trata-se de uma mentalidade, de uma força e um poder que se impõe a todos. O desafio está no discernimento, pois a verdade e o bem da pessoa humana são universais e se sobrepõem a todas essas ameaças. --Percebemos claramente que estamos diante de um impasse provocado pela “ditadura do relativismo”, porque a cultura do cientificismo (de índole agnóstica, porque não transcendente e não confessional) , não respeita e não considera muitas vezes os contributos da filosofia e da teologia e de todas as grandes inteligências humanas, que no processo deram as suas contribuições. O relativismo reflete então uma espécie de fundamentalismo do cientificismo. É isso? --Prof. Dr. Dalton Ramos: É o se pode chamar de “dogma do racionalismo cientificista” , que se fecha em si mesmo, reduzindo o leque de possibilidades do conhecimento humano. Quer dizer: o que a ciência não prova que existe, é como se não existisse. O que a ciência não consegue levar para os seus laboratórios e examinar, simplesmente não existe. É um absurdo essa lógica, pois despreza outras fontes de conhecimento. As ciências experimentais fazem uso do método científico, que tem uma metodologia própria de como examinar e ver a realidade. Mas o conhecimento não advém só daí. Ele também advém da nossa experiência humana, que é muito marcada pela experiência do EU e do transcendente. Não se faz uma ciência honesta se ela excluir um aspecto da realidade. O cientista que assim procede, não é um cientista inteiro, completo. Ora, a ciência não pode prescindir a dimensão da própria experiência humana e, dentro desta, do transcendente, pois trata-se de um componente importante da realidade, que deve ser considerado. --Tomemos o caso do feto, que é vida humana nascente, pessoa potente em sua fase mais indefesa, que requer cuidados especiais para sua formação e precisa do acolhimento e proteção. O âmago da questão está na busca do consenso sobre o início da vida humana. Há duas hipóteses: uma positiva (que afirma a vida começar no instante da fecundação) e a negativa (que contraria essa afirmação e é o posicionamento de uma maioria de especialistas que querem influenciar a opinião pública). Diante disso, da possibilidade do sim e do não, quando paira a dúvida e não se chega ao consenso, a legislação deve refletir o direito natural, que, nesse caso, favorece a hipótese positiva. O Sr. concorda em que a legislação brasileira, com lastro no direito natural, faça valer a hipótese positiva, como se requer em situações de impasse como essa em que estamos vivendo? --Prof. Dr. Dalton Ramos: Creio que sim. Parto daquela máxima que o Direito é o mínimo de moralidade que a sociedade exige. Assim sendo, é função do sistema jurídico defender a vida, como aliás reza a Constituição brasileira. Penso não ser uma hipótese razoável a de considerar que a vida não começa no exato momento da concepção, mas mesmo que eventualmente alguém julgue que isso possa não acontecer dessa forma, deve prevalecer o princípio da prudência, porque estando em jogo a possibilidade de estarmos lidando com vidas humanas, nós não podemos correr riscos. Então, nesse sentido, com base no princípio da prudência não se deve aprovar nem se autorizar a destruição de embriões humanos. --Ao insistir em aprovar legislações anti-vida, o Estado não contraria, digamos assim, sua finalidade social de ser guardião da família? --Prof. Dr. Dalton Ramos: Da mesma forma que é a ciência que está a serviço da pessoa e não a pessoa que está a serviço da ciência (então por isso é que não vamos sacrificar vidas humanas em prol de possíveis ganhos terapêuticos) , o Estado também está a serviço da pessoa; deve, portanto, oferecer todos os subsídios necessários para que esta pessoa possa se desenvolver. Por sua vez, a pessoa tem uma experiência da família, que é o espaço natural onde ela pode desenvolver e manifestar de forma mais plena a sua identidade, a oportunidade de expressar a sua humanidade. Assim também o Estado deve favorecer para que a família possa se desenvolver e crescer. Por Hermes Rodrigues Nery, professor e jornalista, coordenador da Comissão Diocesana em Defesa da Vida e do Movimento Legislação e Vida, da Diocese de Taubaté (São Paulo) ZP07042247

sexta-feira, 30 de março de 2007

2 anos sem João Paulo 2º, o Grande



Nesta segunda se completam 2 anos da morte do papa João Paulo 2º, o Grande, sem dúvida o maior homem dos séculos XX e XXI. Para homenageá-lo, segue abaixo um texto de uma monja budista sobre ele. Talvez dessa forma tenhamos idéia do alcance que foi a vida de João Paulo 2º, o Grande. A fonte é o site http://www.monjacoen.com.br/papa.htm


Papa João Paulo II


O sino toca anunciando a morte do Papa.
A estátua de Pedro com as chaves na mão é a lembrança em pedra da contínua sucessão apostólica.
Fiéis, monjas, monges, padres, freiras, irmãos, irmãs, a família católica reza o terço. O terço que Sua Santidade pedira a todos que rezassem diariamente pela Paz na Terra.
Por essa Paz viajou o mundo todo, reuniu pessoas de todas as etnias e todas as religiões, abraçou culturas diferentes, beijou o solo, visitou aquele que o tentou matar, pediu perdão por todas as omissões dos Papas anteriores, abriu de par em par as portas para o Ecumenismo, a Inter religiosidade. Chorou a dor do mundo. Orou pela justiça e pela Paz. Deixa saudades, deixa um rastro de luz, de trabalho contínuo e conservador das tradições da Igreja.
É preciso orar com fé transformando a nós mesmos na oração pura, na meditação que nos transforma e assim transforma tudo que é.
Houve vigílias por toda a Terra. Lamparinas e velas. Preces, orações, lágrimas e tristeza acompanhando sua partida.
Queriam sua presença, sua vida, sua mente, sua benevolência, sua inteligência, seus conselhos, suas bênçãos. A sua voz já não é mais ouvida. Sua face em dor, fotografada e por nós sentida, invade nossos olhos e leva à reflexão de que sofrer não é pagar pecado, é parte da vida.
Despediu-se pouco a pouco. Como que nos dando tempo de compreender a morte e dar a ela as boas vindas. Pudemos acompanhar sua Via Crucis, seu martírio e o vimos humano, sofrendo sem esconder a dor. Nem poderia.
Queríamos que morresse tranqüilo, sem sofrer, talvez dormindo, talvez sentado em prece e sua alma subindo ao céu num arco-íris deslumbrante?
No sussurro de seus aposentos particulares só os mais íntimos adentraram. Respeitando o momento sagrado da partida. Resoluções médicas e espirituais, políticas internas e internacionais.
O corpo cansado, que suportou tiros, insultos, viagens, transtornos, doenças, tristezas de ver o mundo revolto, de tanto rezar pelos pobres, excluídos, pela dignidade, pela justiça, pela paz e pela vida, foi se desligando dos problemas, das questões deste mundo e todos fomos acompanhando.
Mãos suaves e macias, de abençoar. Sua face rosada, a coluna que ficou arqueada. Nascimento, velhice, doença e morte, sem rancores.
Penetra Santo Papa na suave tranqüilidade merecida do silêncio de Nirvana.
Quando foi visto em sofrimento há poucos dias, houve quem pedisse o milagre de uma recuperação, sem perceber que sempre esteve são. Sempre esteve em santidade, na pureza da verdade. Limitações, com certeza, todos temos nesta Idade.
Na hora da morte que não é hora é átimo de segundo, abrem-se para nós os mundos resultantes de nossas ações, pensamentos, palavras. Que mundo se abriu, Sua Santidade?
Imaginamos a luz, Jesus, o vindo buscar. Imaginamos sua mãe com ramos a o saudar. Imaginamos a escada dourada que leva aos céus cercada de anjos lindos tocando música suave e doce.
O mundo o acompanha, João Paulo II, agradecendo e chorando. Há os que se lamentem, há os que compreendem, há os que em alegria o recebem no merecido repouso.
Missão cumprida.
E a Santa Sé se prepara para conclaves e escolhas, decisões que não se tomam à toa. Grupos e pensamentos, políticas e estratégias. A Igreja continua. E haverá um novo Papa, a sentar em sua cadeira, a usar o seu cajado, a abençoar da janela e a orar no Vaticano. E mais uma vez nos lembramos que nada pertence ao ser. Tudo passa, tudo surge e desaparece. Nessa transitoriedade há também uma reciprocidade, uma interligação. Nada existe por si só. Intersomos. Na vida e na morte. Sem medo de viver, sem medo de morrer. Instante após instante apenas o Inter Ser - a constante transformação.
Que os Budas e Bodhisatvas, Seres Iluminados e Benfazejos de norte a sul, leste a oeste, sudeste a sudoeste, nordeste a noroeste, de cima e de baixo, do presente, do passado e do futuro o acompanhem nesta jornada para o Grande Nirvana, a Grande Paz.
Que Suas bênçãos sagradas recaiam sobre todos nós e que a Terra se cure para que possamos viver respeitosamente irmanados, compartilhando e cuidando ternamente de cada pequena forma de vida e de todas as diversas maneiras de ser e de pensar, que formam a Vida.
“Na Casa de Buda, vida e morte são os móveis.”
Além da vida e da morte, repousa Santo Papa. Repousa. Com nossa gratidão, respeito e saudades.
Que a Sabedoria Suprema ilumine as mentes dos Cardeais reunidos a portas fechadas para a decisão que beneficiará todos os seres. Mãos em prece.
Monja Coen

quarta-feira, 7 de março de 2007

Lula e FHC: iguais demais

A seguinte postagem foi tirada do blog http://www1.folha.uol.com.br/folha/pensata/ult1470u21.shtml

Lula e FHC: iguais demais

2,6%. Essa foi a média de crescimento do PIB brasileiro no primeiro mandato do presidente Lula. Igual à do primeiro de FHC. E não muito diferente dos 2,3%, em média, de FHC 2.São dois governos distintos, com problemas e agendas diferentes. Mas ambos foram fundamentalmente iguais no principal vetor que hoje emperra o crescimento brasileiro: o inchaço do Estado e o aumento de seu peso sobre o setor produtivo e os trabalhadores --via carga tributária.Nisso, FHC e Lula são irmãos siameses, apesar de toda a ladainha dos tucanos de que os petistas são "estatizantes" e atrasados, diferentes deles. Lula de fato é distinto em vários outros aspectos, mas não difere do que foi FHC no fundamental: quando se trata de tirar o peso do Estado de cima da gente.Sob Lula, muitas das iniciativas de modernização do Estado promovidas por FHC foram abandonadas. A ênfase que o PT dá às agências reguladoras (Aneel, Anatel etc.) e às concessões (de rodovias, por exemplo), fundamentais para atrair investimentos privados, é próxima de zero.FHC, por sua vez, foi muito mais tímido que Lula na chamada agenda social. O tucano também foi menos responsável, do ponto de vista fiscal, que Lula. Só economizou nos superávits primários (para tentar reduzir a dívida pública) a partir de 1999, quando o FMI exigiu ao emprestar dinheiro ao Brasil.Mesmo assim, o superávit do governo central promovido por FHC foi de 2% do PIB, em média, no segundo mandato (0,3% no primeiro). O de Lula alcançou 2,7%.O ponto central, no entanto, é que, apesar de orientações diferentes, ambos governaram jogando o ônus de suas políticas para a sociedade, arrochando empresas e pessoas físicas com mais e novos impostos, contribuições e taxas.

Gráfico mostra a evolução da carga tributária durante os governos Lula e FHC












No início do primeiro mandato de FHC, a carga tributária total era equivalente a 28,9% do PIB. Ele entregou o país a Lula com 35,8%. O aumento foi de 6,9 pontos percentuais. Lula seguiu aumentando a arrecadação e os impostos, até bater nos 38,8% anunciados na semana passada. Em seu governo, o aumento foi de 3,3 pontos. Ou seja, manteve praticamente o mesmo ritmo de FHC.O resumo é que o país não cresce, e a carga tributária não pára de subir, alimentando um Estado gigantesco e perdulário que não usa o dinheiro que arrecada para cumprir seu papel fundamental: proporcionar educação, saúde e segurança adequadas e um ambiente econômico que favoreça o desenvolvimento.Não existe nada, absolutamente nada, que indique uma mudança nessa situação.

quarta-feira, 21 de fevereiro de 2007

O meu choro e o cinismo de Lula

Na semana passada, lendo como o menino João Hélio morreu, eu chorei. Chorei por ele, por sua mãe, e pelo Brasil. Na mesma noite, o nosso presidente, numa tirada de cinismo sem igual, comentando sobre a redução da maioridade penal, disse que, "daqui a pouco estarão querendo punir até os fetos." O cinismo é tão grande que ele se esquece que foi seu próprio partido que autorizou o aborto, isto sim, assassinato de pessoas inocentes, em nome do bom, do belo e do que há de melhor. Cinismo monumental! É como o famoso massacre de Cartago, quando 300 crianças foram queimadas vivas em honra ao deus Moloc. É a barbárie: o horror, o horror!

De volta à vida normal...

O Carnaval acabou, estamos de volta à vida normal, e o Brasil começa a funcionar... tomara!

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2007

Alameda dos sonhos partidos

Gosto muito da música Boulevard Of Broken Dreams, do Green Day (foto), não apenas por que foi sucesso na mídia, mas porque é um retrato claro dos nossos tempos modernos. Para muitos, a vida é uma alameda de sonhos partidos, quebrados, que não se concretizam, um acúmulo de frustrações e decepções, uma verdadeira boulevard of broken dreams. Machado de Assis, com a mesma genialidade escreveu isso em Memórias Póstumas de Brás Cubas: a biografia do pecado original, o relato de que nós não conseguimos, sozinhos, nos dar a intensidade de vida e a felicidade que tanto desejamos. O ápice da música é o refrão "I walk alone, I walk alone, I walk..." (Eu caminho só, eu caminho só, eu caminho...). Para mim, é o retrato mais fiel do ateísmo moderno, da civilização que deu um grande "não" àquele Deus que veio não para resolver os problemas da humanidade, mas para ser companhia para ela, para saciar já aqui na Terra, a grande exigência do homem, que é a exigência do amor.

domingo, 18 de fevereiro de 2007

Família tem de ser careta

A escritora Lya Luft (foto abaixo) escreveu um excelente ensaio sobre a Família. Vale a pena conferir abaixo!












Família tem de ser careta

Fonte: revista Veja nº 1995 e blog http://dilsondrunn.blogger.com.br/

"Quem não estiver disposto a dizer 'não' na hora certa e se fizer de vítima dos filhos, que por favor não finja que é mãe ou pai" Esperando uma reação de espanto ou contrariedade ao título acima, tento explicar: acho, sim, que família deve ser careta, e que isso há de ser um bem incomparável neste mundo tantas vezes fascinante e tantas vezes cruel. Dizendo isso não falo em rigidez, que os deuses nos livrem dela. Nem em pais sacrificiais, que nos encherão de culpa e impedirão que a gente cresça e floresça. Não penso em frieza e omissão, que nos farão órfãos desde sempre, nem em controle doentio que o destino não nos reserve esse mal dos males. Nem de longe aceito moralismo e preconceito, mesmo (ou sobretudo) disfarçado de religião, qualquer que seja ela, pois isso seria a diversão maior do demônio. Falo em carinho, não castração. Penso em cuidados, não suspeita. Imagino presença e escuta, camaradagem e delicadeza, sobretudo senso de proteção. Não revirar gavetas, esvaziar bolsos, ler e-mails, escutar no telefone, indignidades legítimas em casos extremos, de drogas ou outras desgraças, mas que em situação normal combinam com velhos internatos, não com família amorosa. Falo em respeito com a criança ou o adolescente, porque são pessoas, em entendimento entre pai e mãe também depois de uma separação, pois naturalmente pessoas dignas preservam a elegância e não querem se vingar ou continuar controlando o outro através dos filhos. Ilustração Atomica Studio Interesse não é fiscalizar ou intrometer-se, bater ou insultar, mas acompanhar, observar, dialogar, saber. Vejo crianças de 10, 11 anos freqüentando festas noturnas com a aquiescência de pais irresponsáveis, ou porque os pais nem ao menos sabem onde elas andam. Vejo adolescentes e pré-adolescentes embriagados fazendo rachas alta noite ou cambaleando pela calçada ao amanhecer, jogando garrafas em carros que passam, insultando transeuntes onde estão os pais? Como não saber que sites da internet as crianças e os jovenzinhos freqüentam, com quem saem, onde passam o fim de semana e com quem? Como não saber o que se passa com eles? Sei de meninas, quase crianças, parindo sozinhas no banheiro, e ninguém em casa sabia que estavam grávidas, nem mãe nem pai. Elas simplesmente não existiam, a não ser como eventual motivo de irritação. Não entendo a maior parte das coisas solitárias e tristes que vicejam onde deveria haver acolhimento, alguma segurança e paz, na família. Talvez tenhamos perdido o bom senso. Não escutamos a voz arcaica que nos faria atender as crias indefesas e não me digam que crianças de 11 anos ou adolescentes de 15 (a não ser os monstros morais de que falei na crônica anterior) dispensam pai e mãe. Também não me digam que não têm tempo para a família porque trabalham demais para sustentá-la. Andamos aflitos e confusos por teorias insensatas, trabalhando além do necessário, mas dizendo que é para dar melhor nível de vida aos meninos. Com essa desculpa não os preparamos para este mundo difícil. Se acham que filho é tormento e chateação, mais uma carga do que uma felicidade, não deviam ter tido família. Pois quem tem filho é, sim, gravemente responsável. Paternidade é função para a qual não há férias, 13º, aposentadoria. Não é cargo para um fiscal tirano nem para um amiguinho a mais: é para ser pai, é para ser mãe. É preciso ser amorosamente atento, amorosamente envolvido, amorosamente interessado. Difícil, muito difícil, pois os tempos trabalham contra isso. Mas quem não estiver disposto, quem não conseguir dizer "não" na hora certa e procurar se informar para saber quando é a hora certa, quem se fizer de vítima dos filhos, quem se sentir sacrificado, aturdido, incomodado, que por favor não finja que é mãe ou pai. Descarte esse papel de uma vez, encare a educação como função da escola, diga que hoje é todo mundo desse jeito, que não existe mais amor nem autoridade... e deixe os filhos entregues à própria sorte. Pois, se você se sentir assim, já não terá mais família nem filhos nem aconchego num lugar para onde você e eles gostem de voltar, onde gostem de estar. Você vive uma ilusão de família. Fundou um círculo infernal onde se alimentam rancores e reina o desamparo, onde todos se evitam, não se compreendem, muito menos se respeitam. Por tudo isso e muito mais, à família moderninha, com filhos nas mãos de uma gatinha vagamente idiotizada e um gatão irresponsável, eu prefiro a família dita careta: em que existe alguma ordem, responsabilidade, autoridade, mas também carinho e compreensão, bom humor, sentimento de pertença, nunca sujeição. É bom começar a tentar, ou parar de brincar de casinha: a vida é dura e os meninos não pediram para nascer."

Lya Luft é escritora

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2007

A biografia do pecado original

Para quem acredita que o pecado original é mais uma lenda inventada pela Igreja, aconselho a ler o clássico de Machado de Assis: Memórias Póstumas de Brás Cubas, que acabei de ler ontem. É uma verdadeira biografia, documentação do pecado original. E o que é o pecado original? É o simples fato, a simples constatação de que nós não podemos nos dar a felicidade que tanto desejamos (e que por isso precisamos de alguém que nos salve). Quem olhar para a própria experiência sem preconceito, se dará conta facilmente disso. E Machado registra isso de forma magistral. Vale a pena ler!

Filme de terror

O governo Lula está cada vez mais parecendo um filme de terror, com o adicional de que, quase sempre, a 2ª versão é pior do que a primeira. A vitória de Arlindo Canalha à presidência de Câmara, o retorno do Campo Majoritário ao poder (facção do PT controlada por José Dirceu), o juramento de fidelidade canina de Collor a Lula, o chilique de Clodovil e o elogio do mesmo por Maluf, além das promessas de anistia de Dirceu e Jefferson... isso me parece um filme de terror trash: Mensalão 2- a Missão.

***

Em tempo: não só no Brasil o terror avança. A Bushlândia já quer quase US$ 300 bilhões para financiar a guerra. Numa única semana, morreram mil pessoas. Aonde vamos parar, sr. Bush?

segunda-feira, 5 de fevereiro de 2007

Machado contra o aborto

Machado de Assis é realmente um gênio, e hoje me veio com essa tirada: "verdadeiramente, há só uma desgraça: é não nascer." (in: Memórias Póstumas de Brás Cubas, cap. CXVII, pg. 202. Rio de Janeiro: Edições de Ouro, 1971)