quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Maria e o Natal


Martinho Lutero (1483-1546)

Por Martinho Lutero

“Deus não recebeu sua divindade de Maria; todavia, não segue que seja conseqüentemente errado afirmar que Deus foi carregado por Maria, que Deus é filho de Maria, e que Maria é a Mãe de Deus. Ela é a Mãe verdadeira de Deus, a portadora de Deus. Maria amamentou o próprio Deus; ele foi embalado para dormir por ela, foi alimentado por ela, etc. Para o Deus e para o Homem, uma só pessoa, um só filho, um só Jesus, e não dois Cristos. Mesmo que tenha duas naturezas.” (Martinho Lutero, “Nos Conselhos e na Igreja”, em 1539)

“Não pode haver nenhuma dúvida que a Virgem Maria está no céu. Como isso aconteceu, nós não sabemos. E já que o Espírito Santo não nos revelou nada sobre isso, não podemos fazer disso um artigo de fé. É suficiente sabermos que ela vive em Cristo [...] Maria é a mulher mais elevada e a pedra preciosa mais nobre no Cristianismo depois de Cristo. Ela é a nobreza, a sabedoria e a santidade personificadas. Nós não poderemos jamais honrá-la o bastante. Contudo, a honra e os louvores devem ser dados de tal forma que não ferem a Cristo nem às Escrituras.” (Martinho Lutero, Sermão na Festa da Visitação em 1537.)

“Devemos honrar Maria como ela mesma desejou e expressou no Magnificat. Louvou a Deus por suas obras. Como, então, podemos nós exaltá-la? A honra verdadeira de Maria é a honra a Deus, louvor à graça de Deus. Maria não é nada para si mesma, mas para a causa de Cristo. Maria não deseja com isso que nós a contemplemos, mas, através dela, Deus.” (Martinho Lutero, Explicação do Magnificat, em 1521.)

“É a consolação e a bondade superabundante de Deus, o homem pode exultar por tal tesouro: Maria é sua verdadeira mãe, Jesus é seu irmão, Deus é seu Pai.” (Martinho Lutero, Sermão de Natal de 1522.)

“Maria é a Mãe de Jesus e a Mãe de todos nós, embora fosse só Cristo quem repousou no colo dela… Se ele é nosso, deveríamos estar na situação dele; lá onde ele está, nós também devemos estar e tudo aquilo que ele tem deveria ser nosso. Portanto, a mãe dele também é nossa mãe..” (Martinho Lutero, Sermão de Natal de 1529.)

“Cristo era o único filho de Maria. Das entranhas de Maria, nenhuma criança além dEle. Os ‘irmãos’ significam realmente ‘primos’ aqui: a Sagrada Escritura e os judeus sempre chamaram os primos de ‘irmãos’.” (Martinho Lutero, Sermões sobre João 1-4, 1534-39)

"Ela nos ensina como devemos amar e louvar a Deus, com alma despojada e de modo verdadeiramente conveniente, sem procurar nele o nosso interesse. Ora, ama e louva a Deus com o coração simples e como convém a quem o louva simplesmente porque é bom. Aqueles que amam com coração impuro e corrompido, aqueles que, de maneira semelhante à dos exploradores, procuram em Deus o seu interesse, não amam e não louvam a sua pura bondade, mas pensam em Si mesmos e só consideram quanto Deus é bom para eles mesmos. A religiosidade verdadeira, portanto, é louvor a Deus incondicionado e desinteressado. Maria não se orgulha da sua dignidade nem da sua indignidade, mas unicamente da consideração divina, que é tão superabundante de bondade e de graça que Deus olhou para uma serva assim tão insignificante e quis considerá-la com tanta magnificência e tanta honra. Ela não exaltou nem a virgindade nem a humildade, mas unicamente o olhar divino repleto de graça". (p.561 do Livro de Martinho Lutero,‘Maria Mãe dos Homens’).

"Ao observar aquilo que se realiza nela, nós podemos contemplar o estilo habitua de Deus. Enquanto os homens são atraídos pelas coisas grandes, Deus olha para baixo, para tirar de um nada, daquilo que é ínfimo, desprezado, mísero e morto, algo de precioso, digno de honra, feliz e vivo". (p.547 do Livro de Martinho Lutero,‘Maria Mãe dos Homens’).

"A Mãe de Jesus, portanto, aparece em Lutero como o puro reflexo do olhar divino. Ela não atrai a nossa atenção sobre si, mas leva-nos a olhar para Deus. Maria não quer ser um ídolo; não é Ela que faz, é Deus que faz todas as coisas. Deve ser invocada para que Deus, por meio da vontade dela, faça aquilo que pedimos". (pp.574-575 do Livro de Martinho Lutero ‘Maria Mãe dos Homens).

A cruz, a árvore da vida


Cruz árvore da vida e Cristo novo Adão. Lioba Munz, Alemanha, 1980

"Cristo foi pregado na cruz de modo a resumir nela, em si, o universo" Santo Irineu

"A Verdade é a Cruz" Luigi Giussani

No Cemitério Campo Santo, onde fui para o enterro da tia de uma amiga minha em novembro, vi a cruz representada como a árvore da vida. Eu fiquei tão emocionado que mal consegui reprimir as lágrimas no meio do cemitério. Porque vivemos numa cultura que nega o sofrimento, que foge dele, que o transforma em non sense, em absurdo e em nada. Mas para nós, cristãos, o sofrimento - a Cruz - é simplesmente o caminho de maturidade, de perfeição, de vida. "Na Cruz, está a vida", diz a Imitação de Cristo. Desde então quis escrever alguma coisa sobre a Cruz, mas sempre fiquei adiando justamente por me sentir incapaz disso. Mas hoje eu achei este belo texto do PIME (Pontifício Instituto para as Missões Estrangeiras), ao qual pertence um grande amigo, o padre Ignazio Lastrico. Segue abaixo o texto.


Na escrita chinesa, desde tempos remotos até hoje, a Cruz forma um sinal-chave para indicar as idéias de ENCONTRO-AMIZADE-RELACIONAMENTO-HARMONIA-CONCÓRDIA-PRESENÇA-PROXIMIDADE-O OUTRO-O IRMÃO-UNIÃO-LIGAÇÃO-SOCORRER O PRÓXIMO-CONSONÂNCIA-RIMA.

Em chinês, a Cruz indica ainda a idéia de UNIVERSALIDADE e PLENITUDE: INTEIRO-PERFEITO-COMPLETO-EXTREMO-LARGO-MIL-TODOS-INFINITO-PERFEIÇÃO. Expressa o SUPERLATIVO: EXTREMAMENTE BONITO-MIL MARAVILHAS-ETERNIDADE SEMPRE.

Os hebreus, à semelhança dos chineses, carregavam esse sinal com toda a força do símbolo: VIZINHANÇA-AMIZADE-SIMPATIA-TOTALIDADE-FARTURA-PERFEIÇÃO. No alfabeto hebreu a CRUZ (TAU) é a última letra. Para o hebreu significa também: TERMO-CHEGADA-META FINAL-ASSINATURA. A CRUZ (TAU) é usada para representar o NÚMERO 400, isto é, a SUPERABUNDÂNCIA. O número 4 é a expressão dos quatro cantos da terra, da universalidade, da RIQUEZA. O 400 é pois o SUPERLATIVO DE UM SUPERLATIVO, a FARTURA INFINITA.

Na matemática, a cruz assumiu desde os babilônios, o sentido de MULTIPLICAÇÃO e SOMA.
No Cristianismo, é o símbolo da REDENÇÃO UNIVERSAL, da RECONCILIAÇÃO e da PAZ (Ef. 2, 14-17 e CL.1, 19-20). É a VITÓRIA DA VIDA. Um HOMEM-DEUS (Jesus) esteve ali de BRAÇOS ABERTOS, num gesto de reconciliação e confraternização.

Homem-Deus uniu em si os DOIS EXTREMOS, como as traves em que esteve pregado. A CRUZ lembra a MORTE, o NADA, o MUNDO PRESENTE (trave HORIZONTAL). Mas também aponta para CIMA, para a ETERNIDADE, para a RESSURREIÇÃO (trave VERTICAL), Ali "tudo está consumado".

Não queremos dizer que o cristão, colocando a cruz em cima de um túmulo, tivesse consciência de toda a riqueza deste sinal. Dizemos apenas que este sinal carregou sempre em si em todas as civilizações antigas, um conteúdo simbólico extraordinário, como se fosse uma PROFECIA DA REDENÇÃO UNIVERSAL, presente em todas as culturas. Num túmulo raso e simples, a cruz enterrada no chão aponta para o nada e aponta para o além.

A âncora, muitas vezes, foi um símbolo dissimulado da cruz.

A forma de cruz atua, também, como um gesto de bênção. O sinal da cruz, usado pelos cristãos em vários ritos como ao entrar na igreja, ao iniciar um trabalho ou no início das refeições, o coloca juntamente com o seu Redentor e, diviniza, plenifica e dá o verdadeiro sentido ao gesto que vai começar, não em seu próprio nome mas em nome d'Aquele que habita no cristão e na comunidade.

A CRUZ É O SÍMBOLO QUE REASSUME, EM SI, TODO O MISTÉRIO DA REDENÇÃO

Para a Bíblia, a Cruz é a ÁRVORE DA VIDA, o centro do Paraíso Terrestre, que por sua vez representa o centro do mundo. Porém, no Paraíso Terrestre não havia só a Árvore da Vida, mas também, uma outra árvore não menos importante: a Árvore da Ciência do Bem e do Mal.

A relação entre as duas árvores não é bem clara, mas a aproximidade dessas, simbolicamente unidas, é tal que se pode pensar sempre nas duas.

Qual é a realidade desta ligação? Dualidade de dois termos opostos para as Árvores da Ciência do Bem e do Mal e Unidade, a Árvore da Vida no eixo do Mundo. A dupla natureza da Árvore do Bem e do Mal aparece a Adão somente no momento da "queda" e, só então, Adão conhece o Bem e o Mal. Depois do Pecado, Adão é distanciado do Centro e assim, o homem desde aquele momento perdeu o sentido da Eternidade e da Unidade: iniciou a angústia.

A Cruz de Cristo ocupa, agora, o lugar central próprio da Árvore da Vida e o mesmo se pode dizer da Cruz colocada entre o sol e a lua, como se vê na maior parte das obras antigas. Portanto, verdadeiramente a Cruz do Cristo é o eixo do mundo.

É da Árvore da Vida no Paraíso Terrestre (segundo o Gênesis e o Apocalipse), dos seus pés, que brotam os quatro rios em direção dos quatro pontos cardeais, desenhando sobre a superfície da Terra a Cruz. É do lado aberto do Cristo na Cruz que jorra sangue e água, nova fonte de vida, imagem da graça e do Espírito Santo. Os dois aspectos da Cruz, dolorosa e gloriosa, formam o centro simbólico para onde convergem os olhares e a atenção dos fiéis.

AS CRUZES NO CRISTIANISMO

A Cruz, na Antiguidade Pré-Cristã, como princípio geométrico, é plena de significado cósmico, metafísico e mágico. O hieróglifo egípcio de cruz suástica significa saúde e vida eterna.

O TAU dos semitas e dos gregos significa saúde, plenitude. Cruzes eram colocadas nos timbres, nas colinas, nas estelas babilônicas. Em cruz se interceptavam as duas principais vias das cidades romanas, a decumena e o cardo.

As mais antigas representações cristãs da Cruz não foram apenas cruzes, mas símbolos da Cruz: Moisés que abre os braços (no rito da Missa, o sacerdote quando abre os braços); a "serpente de bronze" no deserto, segundo o livro dos Números...

A forma de cruz mais antiga do Cristianismo nos vem da época da perseguição de Nero e é um grafismo encontrado recentemente no PAEDAGOGICUM Imperial sobre o monte Palatino, com a inscrição "Alexamenos ora ao seu deus". É uma forte crítica de um aluno pagão ao seu colega cristão. A figura tem corpo humano e cabeça de burro.

Nas catacumbas romanas igualmente temos a figura da orante, o navio com a árvore e a vela, a ancora da feliz chegada. No Oriente, a Cruz era simples, com 4 braços iguais ou inscrita num círculo glorioso, como na Síria e na Frigia, e mais tarde também no Ocidente, nas belíssimas cruzes de pedra irlandesas.

A Cruz escatológica, símbolo do Juízo Final e sinal de Vitória, é muito anterior a Constantino, mas aparece somente depois do triunfo político do Cristianismo.

A Cruz está presente nas plantas das primeiras basílicas em forma de TAU, nos Batistérios e nas igrejas com planta central.

Nas absides das primeiras igrejas romanas, em mosaico, aparece a cruz dourada cravada de pedras preciosas e postas sobre um monte ou sobre um trono de onde jorram os quatro rios da vida.

A Cruz Triunfal está presente em uma série de imagens de incomparável beleza em Ravena, no Mausoléu de Galla Placidia e em Santo Apolinário em Classe. Exprimem Ressurreição!

O culto da Cruz

O culto da Cruz se inicia com a descoberta do madeiro da Cruz pela imperatriz Santa Helena, mãe de Constantino, sempre aconselhada espiritualmente por São Macário de Jerusalém. As relíquias da Cruz se difundiram em todo o mundo e deste culto originaram-se os belíssimos relicários do século 5 e 6. Muitas vezes nos sarcófagos paleocristãos, estão cenas da paixão, porém sem a crucifixão.

Raramente representada antes do século 5, os dois primeiros grandes exemplos são do Portal de madeira da Basílica de Santa Sabina em Roma e de um pequeno cofre de marfim que está no Britsh Museum de Londres.

A primeira representação importante e verdadeira, agora do Crucifixo, encontramos em Santa Maria Antiqua em Roma. O Cristo sobre a Cruz está vivo, com grandes olhos bem abertos e vestido como sacerdote.

Antes de tudo é Deus. O crucifixo com Cristo morto, olhos fechados, aparece só depois do século 9.A liturgia da Cruz é sobretudo uma liturgia de Glória. A cruz sempre foi nobre troféu, dourado: é o estandarte do Rei, o cetro com o qual o Salvador triunfou.

Hoje, após o Concílio Vaticano II, se insiste nas "cruzes processionais" levadas até o Altar e não grandes crucifixos nas paredes.Na sexta feira santa, se acompanhava a procissão de adoração da Cruz com cânticos de Triunfo.

Do século 12 em diante, se perde o sentido da glorificação e se prende ao sofrimento de Cristo. Inicia-se assim o "dolorismo" de São Bernardo, cheio de devocionismos para com a humanidade do Cristo.

Porém, o sofrimento aceito é já a segurança da glória e fonte de alegria. Daqui prá frente, todos os crucifixos refletirão espiritualidades individualistas, tanto para os católicos como para jansenistas, luteranos...

Os crucifixos, após o século 17, atingem tão somente o centro nervoso humano e o Mistério da Cruz desaparece do seu centro, isto é, o Mistério Pascal. Refletem o desespero do "abandono na cruz" ou a angústia da morte.

Neste século 20, os movimentos litúrgicos que prepararam o Concílio, com o desejo de volta às fontes, nos apresentaram o Cristo Glorioso na Cruz, muito embora o Cristo ensangüentado e de mau gosto pareceu predominar, não pelo reflexo da pobreza e sofrimento de um povo, mas por ignorância, dada a pouca cultura religiosa desse final de século.

Hoje, é atual e necessário testemunhar a Ressurreição de Cristo com a Cruz Gloriosa. Sem dúvida, a verdadeira Cruz que nos vem do Mistério Pascal contribui dando luz, paz, alegria à humanidade angustiada: Ela se insere na nossa vida com a atração irresistível proclamada por João no seu Evangelho "quando serei levantado, atrairei todos a mim" e com a visão cósmica de Teilhard de Chardin "eu vejo a vossa carne, Senhor, prolongar-se no universo inteiro..."

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Marxismo e cristianismo


O Apóstolo Paulo, escrevendo as epístolas

Minha priomeira forte oposição ao marxismo é porque este declara-se ateu, pondo a religião como ópio do povo, e apresentando o homem como "construindo-se a sim mesmo por meio do trabalho" (o contrário da fé cristã).

Veja o que Lenin diz: “O marxismo é o materialismo. Por este título ele é tão implacavelmente hostil à religião, quanto o materialismo dos enciclopedistas do século XVIII ou o materialismo de Feuerbach. (...) Devemos combater a religião. Isto é o a-b-c de todo o materialismo e, portanto, do marxismo. (...) Nossa propaganda compreende necessariamente a do ateísmo”.

Lenin assim se manifestou também, em 1905: “A religião é uma espécie de má vodka espiritual no qual os escravos do Capital afogam seu ser humano e suas reivindicações para com uma existência ainda pouco digna do homem”.

Deste ponto de vista, compreende-se que o marxismo como pensamento é completamente incompatível com o cristianismo ou mesmo com o reconhecimento do Mistério criador.

Enquanto isso, o Apóstolo Paulo disse, no Areópago de Atenas, o centro mundial da cultura naquela época:

"Paulo, em pé no meio do Areópago, disse: Homens de Atenas, em tudo vos vejo muitíssimo religiosos. Percorrendo a cidade e considerando os monumentos do vosso culto, encontrei também um altar com esta inscrição: A um Deus desconhecido. O que adorais sem o conhecer, eu vo-lo anuncio! O Deus, que fez o mundo e tudo o que nele há, é o Senhor do céu e da terra, e não habita em templos feitos por mãos humanas. Nem é servido por mãos de homens, como se necessitasse de alguma coisa, porque é ele quem dá a todos a vida, a respiração e todas as coisas. Ele fez nascer de um só homem todo o gênero humano, para que habitasse sobre toda a face da terra. Fixou aos povos os tempos e os limites da sua habitação. Tudo isso para que procurem a Deus e se esforcem por encontrá-lo como que às apalpadelas, pois na verdade ele não está longe de cada um de nós. Porque é nele que temos a vida, o movimento e o ser, como até alguns dos vossos poetas disseram: Nós somos também de sua raça... Se, pois, somos da raça de Deus, não devemos pensar que a divindade é semelhante ao ouro, à prata ou à pedra lavrada por arte e gênio dos homens. Deus, porém, não levando em conta os tempos da ignorância, convida agora a todos os homens de todos os lugares a se arrependerem. Porquanto fixou o dia em que há de julgar o mundo com justiça, pelo ministério de um homem que para isso destinou. Para todos deu como garantia disso o fato de tê-lo ressuscitado dentre os mortos." (Atos 17, 22-31)

Sobre o que é o homem, veja o que diz Marx:

"Um ser se considera independente somente quando é dono de si, e é dono de si somente quando é devedor a si mesmo da própria existência. Um homem que vive da graça alheia considera-se como um ser dependente. Mas eu vivo completamente da graça alheia quando sou devedor para com o outro, não somente do sustento de minha vida, mas também quando este, além disso, criou a minha vida, é a fonte da minha vida; e a minha vida tem necessariamente um tal fundamento fora de si, quando não é a minha própria criação (...) Sendo que para o homem socialista toda a assim chamada história do mundo nada mais é se não a geração do homem por meio do trabalho humano, nada mais que o porvir da natureza do homem, ele tem a prova evidente, irresistível, do seu nascimento através de si mesmo, do processo de sua origem" (MARX, 1968, Manuscritos econômico-filosóficos, pp.122-125).

Isto vai de encontro ao que diz a Revelação, em Gênesis 1, 27-29:

"Deus criou o homem à sua imagem; criou-o à imagem de Deus, criou o homem e a mulher. Deus os abençoou: Frutificai, disse ele, e multiplicai-vos, enchei a terra e submetei-a. Dominai sobre os peixes do mar, sobre as aves dos céus e sobre todos os animais que se arrastam sobre a terra. Deus disse: Eis que eu vos dou toda a erva que dá semente sobre a terra, e todas as árvores frutíferas que contêm em si mesmas a sua semente, para que vos sirvam de alimento".

E também em Gênesis 2, 7:

"O Senhor Deus formou, pois, o homem do barro da terra, e inspirou-lhe nas narinas um sopro de vida e o homem se tornou um ser vivente".

Para a Revelação o homem é criado por Deus e dependente dEle, ou retomando São Paulo "porque é nele que temos a vida, o movimento e o ser" (Atos 17, 28).

A oposição entre marxismo e cristianismo não é apenas ideológica ou uma mera questão de opiniões, ela é ontológica. Ambos são radical e profundamente antípodas um do outro, como tentei mostrar.

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Olha a Estrela, invoca Maria!


Ícone de Maria, Stella Maris (Estrela do Mar)


Exortação a invocar Maria, a Estrela do mar (*)


(São Bernardo 1090-1153)

"'E o nome da Virgem era Maria' (Lc. 1,27). Falemos um pouco deste nome que significa, segundo se diz, Estrela do mar, e que convém maravilhosamente à Virgem Mãe. … Ela é verdadeiramente esta esplêndida estrela que devia se levantar sobre a imensidade do mar, toda brilhante por seus méritos, radiante por seus exemplos.

Ó tu, quem quer que sejas, que te sentes longe da terra firme, arrastado pelas ondas deste mundo, no meio das borrascas e tempestades, se não queres soçobrar, não tires os olhos da luz desta estrela.

Se o vento das tentações se levanta, se o escolho das tribulações se interpõe em teu caminho, olha a estrela, invoca Maria.

Se és balouçado pelas vagas do orgulho, da ambição, da maledicência, da inveja, olha a estrela, invoca Maria.

Se a cólera, a avareza, os desejos impuros sacodem a frágil embarcação de tua alma, levanta os olhos para Maria.

Se, perturbado pela lembrança da enormidade de teus crimes, confuso à vista das torpezas de tua consciência, aterrorizado pelo medo do Juízo, começas a te deixar arrastar pelo turbilhão da tristeza, a despenhar no abismo do desespero, pensa em Maria.

Nos perigos, nas angústias, nas dúvidas, pensa em Maria, invoca Maria. Que seu nome nunca se afaste de teus lábios, jamais abandone teu coração; e para alcançar o socorro da intercessão dEla, não negligencies os exemplos de sua vida.

Seguindo-A, não te transviarás; rezando a Ela, não desesperarás; pensando nEla, evitarás todo erro. Se Ela te sustenta, não cairás; se Ela te protege, nadas terás a temer; se Ela te conduz, não te cansarás, se Ela te é favorável, alcançarás o fim.

E assim verificarás, por tua própria experiência, com quanta razão foi dito: 'E o nome da Virgem era Maria'".

†São Bernardo

(*) Louvores da Virgem Maria, Super missus, 2ª homília, 17 - apud Pierre Aubron SJ, L’oeuvre mariale de Saint Bernard, Editions du Cerf, Paris, Les Cahiers de la Vierge, nº 13-14, março de 1936, pp. 68-69

domingo, 8 de novembro de 2009

Diante da imponência dos fatos

Os últimos dias têm sido extremamente impressionantes para mim porque o Mistério, ou melhor dizendo, Cristo, tem se mostrado tão evidente, que a fé tem se tornado de fato o que ela é: não uma sugestão, nem uma vontade, mas um reconhecimento, o reconhecimento de um Outro que faz tudo, que está no meio de nós, a nosso favor, e mais ainda, tendo piedade do nosso mal, da nossa traição, da nossa mesquinhez, nos escolheu!
O que tem me deixado mais fascinado por Cristo nos últimos dias é isto: que nada pode detê-lO, nenhum mal meu ou de quem quer que seja pode deter a Sua iniciativa a meu favor. Um grande amigo meu, o poeta Bruno Tolentino (1940-2007) me disse uma vez que, quando Deus pega alguém pelo cabelo, Ele não solta jamais. Porque pra mim, esses últimos dias têm sido isto: estar sendo pego "de jeito" pelo Mistério. Minha vida tem se transformado num redemoinho, talvez pela minha teimosia, e pela minha desobediência, ou, melhor, pelo Seu amor, pela Sua misericórdia infinita, Ele tem me pego pela mão, me posto num vórtice, num redemoinho e me diz: "Coragem! Sou Eu! Não tenha medo!"
Ele me mostra isto pelos encontros que eu fiz em Belo Horizonte, pela acolhida de Camila e de seus pais que acolheram a mim e a mais cinco amigos. Também agradeço a estes amigos a amizade e peço que o Senhor faça dela um bem para toda a Igreja e toda a humanidade. Sou nada, sou pó e sou mesquinho, mas o desejo do meu coração é infinito. Se esta amizade não for para toda a humanidade, para que serve? É burguesismo puro!...
Também me provocou muito o casamento de Marcelo e Ariane, ali se vê o que se quer dizer quando se compara o matrimônio com a união de Cristo e da Igreja... a amizade com todos, a felicidade estampada, juntamente com as presenças de Dom João Carlos e do padre Nascélio, somada à carta enviada por Bento XVI nos evidenciam a excepcionalidade deste acontecimento.
Para completar o quadro, ontem aconteceu a Coleta Nacional de Alimentos, pontuada por toda a sorte de graças e milagres, sendo que para mim o maior é a proximidade e a amizade com grandes amigos de Aracaju.
Contemplando todo este espetáculo, eu só me perguntava: "quem sou eu, Senhor, para que Tu me ames tanto? Quem sou eu, Senhor, para que Tu te estreites tanto a mim? Quem sou eu, Senhor, para que Tu me ames com tanta ternura?"
Diante da imponência destes fatos, só posso dizer como os apóstolos, quando estavam na barca diante da praia, diante do Senhor, que com tanta ternura, preparava peixe assado para os seus amigos: "É o Senhor!"
Diante de tanto amor, só se ergue um grito no meu coração: "Maranatha! Vem, Senhor!"

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Taz ... em extinção!

Quem foi criança nos anos 1990, não pode esquecer o famoso Taz, da série Taz Mania, que também logo virou game do Master Sistem e do Mega Drive. Pois é... o demônio-da-tasmânia (maior marsupial do mundo, que vive na ilha da Tasmânia- Austrália), está agora ameaçado de extinção por um câncer facial que já atingiu 50% da população.
Segue abaixo Taz em, versão animada (Taz Mania) e seu original (o demônio-da-tasmânia)


Taz, da série animada...


... e o original demônio-da-tasmânia, agora ameaçado de extinção

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Conhecimento e Ignorância


São Bernardo de Claraval (1090-1153)

SERMÃO SOBRE O CONHECIMENTO
E A IGNORÂNCIA

(Sermão 36 sobre o Cântico dos Cânticos)

Bernardo de Claraval

(trad. Jean Lauand)

O CONHECIMENTO DAS LETRAS É BOM PARA A INSTRUÇÃO, MAS O CONHECIMENTO DA PRÓPRIA FRAQUEZA É MAIS ÚTIL PARA A SALVAÇÃO ( [1] ).

I

Aqui estou para cumprir o que vos prometi; aqui estou para satisfazer vosso desejo; aqui estou, também, obrigado pela dívida que tenho para com Deus, a Quem sirvo.
Como vedes, três são as razões que me impelem a pregar: o compromisso assumido, o amor fraterno e o temor a Deus.
Se me abstivesse de falar, pela minha boca condenar-me-ia. Mas o que acontece se eu falar? Também neste caso, corro o mesmo risco, o de ser condenado pela minha própria boca: por pregar e não praticar o que prego. Ajudai-me, pois, com vossas orações, para que eu possa sempre falar o que é necessário e, com minha conduta, praticar o que prego.
Tinha vos anunciado o tema do sermão de hoje: a ignorância, ou melhor, as ignorâncias, porque, como lembrais, há duas ignorâncias: a de nós próprios e a de Deus. E vos aconselhava a evitar uma e outra, pois ambas são perdição.
Hoje, procuraremos esclarecer melhor esse assunto. Antes, porém, discutiremos se toda ignorância é condenável. Parece-me que não, pois nem toda ignorância produz perdição: há muitas e mesmo inúmeras coisas que se podem ignorar sem problema algum para a salvação.
Se alguém, por exemplo, desconhece artes mecânicas, como a carpintaria, a arte de edificação e outras que são exercidas para a utilidade da vida neste mundo, acaso tal ignorância constitui obstáculo para a salvação?
Também são muitos são os que se salvaram e agradaram a Deus pela sua conduta e com seus atos sem as artes liberais (e, certamente, são úteis e moralmente bons esses estudos). Quantos não enumera a Epístola aos Hebreus (cap. XI), que se tornaram agradáveis a Deus não com erudição, "mas com consciência pura e fé sincera" (I Tim 1,5) ( [2] ). E agradaram a Deus com os méritos de sua vida e não com os de seu saber. Cristo não foi buscar Pedro, André, os filhos de Zebedeu e todos os outros discípulos, entre filósofos; nem em escola de retórica e, no entanto, valeu-se deles para realizar a salvação na terra.
Não é porque fossem mais sábios do que todos os homens - como diz de si mesmo o Eclesiastes (1, 16) -, mas, por causa de sua fé e de sua benignidade, o Senhor os salvou e fez deles santos e mestres. Pois os Apóstolos mostraram ao mundo o caminho da vida, não com sublimidade de discurso, nem com palavras eloqüentes de sabedoria humana, mas pelo modo como aprouve a Deus: pela estultícia de sua pregação, aprouve a Deus salvar os que crêem, porquanto o mundo com sua sabedoria não O conheceu (I Cor 2, 1; 1, 17-21).

II

Posso estar dando a impressão de querer lançar em descrédito o saber, de repreender os doutos, de proibir o estudo das letras. Longe de mim, tal atitude! Conheço muito bem o inestimável serviço que os homens doutos têm prestado à Igreja: seja refutando os adversários dela, seja na instrução dos simples.
Com efeito, o que li na Sagrada Escritura foi: "Como rejeitaste o saber, também Eu te rejeitarei, para que não exerças Meu sacerdócio" (Os 4, 6). E mais: "Os doutos resplandecerão com o brilho do firmamento, e os que tiverem ensinado a muitos a justiça, brilharão como estrelas em perpétuo resplendor" (Dn 12, 3).
Mas, por outro lado, li também: "O saber incha" (I Cor 8, 1) ( [3] ).
E, finalmente: "No acúmulo de saber, acumula-se a dor" (Ecl 1, 18).
Vede que há saberes e saberes: há um saber que produz o inchaço e há um saber que contrista. Quero que sejais capazes de distinguir qual deles é útil e necessário para a salvação: o que incha ou o que dói? E não duvido que prefiras o que aflige ao que incha, porque, se a saúde pela inchação é aparentada, pela aflição é procurada ( [4] ).
Ora, quem procura, acaba encontrando, pois "quem pede, recebe" (Lc 11,10). E é certo que Aquele que cura os que têm o coração contrito abomina o inchaço dos orgulhosos, pois a Sabedoria diz: "Deus resiste aos soberbos e dá Sua graça aos humildes" (Tg 4,6) ( [5] ). E o Apóstolo diz: "Exorto-vos, em virtude do ministério que pela graça me foi dado, a não pretender saber mais do que convém, mas saber com sobriedade" (Rom 12,3).
O Apóstolo não proíbe saber, mas sim saber mais do que convém. E o que é saber com sobriedade? É cuidar de aplicar-se prioritariamente ao que mais interessa saber, pois o tempo é breve ( [6] ). Ora, ainda que todo saber, desde que submetido à verdade, seja bom, tu, que buscas com temor e tremor ( [7] ) a salvação e a buscas apressadamente, dada a brevidade do tempo, deves aplicar-te a saber, antes e acima de tudo, o que conduz mais diretamente à salvação.
Acaso não dizem os médicos do corpo que parte da medicina é precisamente determinar a ordem dos alimentos: qual deve ser ingerido antes, qual depois e o modo de os ingerir? Ora, mesmo sendo bons os alimentos que Deus criou, tu os tornas nocivos se não observas o modo e a ordem ao ingeri-los. Aplica, pois, aos saberes, o que dissemos dos alimentos.

III

Mas o melhor é encaminhar-vos ao Mestre. Não é nossa esta sentença, mas dEle; ou antes, é nossa porque a aprendemos dAquele que é a Verdade. E diz: "Se alguém pensa que sabe alguma coisa, ainda não sabe como deveria saber" (ICor 8,2).
Vede como não é aprovado o saber muitas coisas se se ignora o modo de saber. Vede como o fruto e a utilidade do saber consiste no modo de saber.
Mas o que é este modo de saber? O que, senão saber segundo a ordem, o amor e o fim devidos?
Segundo a ordem, isto é, priorizando o que é mais necessário para a salvação; segundo o amor ( [8] ), isto é, voltando-nos mais ardentemente para o que mais nos impele a amar; segundo o fim: não por vaidade ou curiosidade ou objetivos semelhantes, mas somente pela tua própria edificação e pela de teu próximo.
Há quem busque o saber por si mesmo, conhecer por conhecer: é uma indigna curiosidade.
Há quem busque o saber só para poder exibir-se: é uma indigna vaidade. Estes não escapam à mordaz sátira que diz: "Teu saber nada é, se não há outro que saiba que sabes" (Persius, Satyra 1, 27).
Há quem busque o saber para vendê-lo por dinheiro ou por honras: é um indigno tráfico.
Mas há quem busque o saber para edificar, e isto é amor. E há quem busque o saber para se edificar, e isto é prudência.

IV

De todos estes que buscam o conhecimento, só os dois últimos não incorrem em abuso do saber, já que o buscam para praticar o bem. Deles é que fala o salmo: "O saber é bom para quem o põe em prática" (Sl 111, 10). Os demais devem ouvir a Escritura: "Quem conhece o bem e não o pratica, comete pecado" (Tg 4, 17).
É como se, numa comparação, disséssemos: tomar alimento e não digeri-lo faz mal. Um alimento indigesto, mal cozinhado, produz maus humores e, em vez de nutrir o corpo, corrompe-o. Assim também pode dar-se o caso de o estômago da alma, que é a memória, ingerir muitos conhecimentos que não foram cozinhados pelo fogo do amor e nem passaram para ser elaborados pelo aparelho digestivo da alma (no caso, os atos e costumes), a fim de que a alma se torne boa pelo bom conhecimento (o que pode ser atestado pela vida e pelos costumes). E acaso um tal saber indigesto não deve ser considerado pecado, tal como um alimento que se transforma em humores maus e nocivos? E os maus humores do corpo não equivalem aos maus costumes da alma? E não virá a sofrer de inchaços e cólicas de consciência quem conhece o bem e não o pratica?
Acaso não se lhe aplicará a sentença de morte e condenação, toda vez que lhe vier à mente a palavra de Deus: "O servo, que conhece a vontade de seu senhor e não a pratica, torna-se digno de muitos açoites" (Lc 12,47) ?
E não será em nome desta alma, o pranto do profeta (Jer 4,19): "Doem-me as entranhas, doem-me as entranhas"? Gemidos geminados ( [9] ) que - salvo outra interpretação - apontam para o que dizíamos: o profeta fala de si mesmo, pois estava pleno de saber, inflamado de amor e, desejando intensamente transmitir esse saber, não encontrou quem se interessasse por ouvir e teve de arcar sozinho com o peso de um saber que não pôde comunicar. Chorou, pois, o zeloso doutor da Igreja, tanto por aqueles que menosprezam a busca do saber que dirige o bem viver, como pelos que, embora sabendo, no entanto, vivem mal. E, por isso, o profeta repete seu lamento.

V

Compreendes agora quão verdadeira é a sentença do Apóstolo: "O saber incha"? Por isso, convém que a alma antes se conheça a si mesma, coisa que é requerida pela ordem e pela utilidade.
Pela ordem, porque, para nós, o primeiro conhecimento deve ser o do que somos; pela utilidade, porque tal conhecimento não incha, mas humilha e serve de fundação para a edificação. Pois o edifício espiritual que não tem seu fundamento na humildade, não se agüenta em pé.
E para aprender a humildade, a alma não encontra nada mais convincente do que descobrir-se a si mesma na verdade. Deve-se, portanto, evitar a dissimulação, o auto-engano doloso, deve o homem encarar-se de frente, evitando fugir de si mesmo.
Pois, defrontando-se a alma com a límpida luz da verdade, encontrar-se-á muito diferente do que julgava ser e, suspirando em sua miséria - uma miséria que já não pode esconder porque é verdadeira e manifesta -, clamará com o salmista ao Senhor: "Em Tua verdade me humilhaste" (Sl 119, 75). Como não se humilhará neste verdadeiro conhecimento de si, ao dar-se conta da carga de seus pecados, sob o peso deste corpo mortal, ao ver-se imersa em preocupações terrenas, infectada pelos desejos carnais, cega, curvada, fraca, envolta em mil pavores, angustiada ante mil dificuldades, sufocada ante mil dúvidas, indigente de mil necessidades, inclinada ao vício, impotente para as virtudes?
Onde está agora o olhar arrogante? Onde, a cabeça orgulhosamente erguida? Não será ela ainda mais arremessada em sua desolação, trespassada por espinhos? (Sl 32, 4). Que ela - diz o salmista - derrame lágrimas, que chore e gema, que se volte para o Senhor e clame em sua humildade: "Cura, Senhor, minha alma, pois pequei contra Ti" (Sl 41,5).
Se ela se voltar para o Senhor, encontrará consolo, pois Ele é o Pai das misericórdias e o Deus de toda consolação.

VI

Eu, quando olho para mim mesmo, fico imerso em amargura; logo, porém, que alço a vista para o auxílio da misericórdia divina, suaviza-se meu amargor com a alegria da visão de Deus e Lhe digo: "Minha alma está conturbada interiormente, por isso me lembro de Ti" (Sl 42,7).
Basta um pouco de conhecimento de Deus para experimentar que Ele é piedoso e solícito, pois, na verdade, Ele é um Deus de bondade e misericórdia, que perdoa a maldade (Joel 2,13); Sua natureza é a bondade e é próprio dEle perdoar e ter misericórdia sempre.
Deus se dá a conhecer nesta experiência e desta maneira salutar, a partir do momento em que o homem se reconheça indigente e clame ao Senhor; e Ele o ouvirá e dir-lhe-á: "Eu te libertarei e tu Me glorificarás" (Sl 50,15).
Assim, o conhecimento próprio é um passo para o conhecimento de Deus. Vê-lO-ás em Sua imagem, que em ti se forma, na medida em que tu, desarmado pela humildade, com confiança, irás refletindo a glória do Senhor e, levado pelo Espírito de Deus, de claridade em claridade, irás te transformando nessa imagem.

VII

Reparai, pois, como ambos conhecimentos são necessários para a salvação, de tal modo que não pode faltar nenhum dos dois. Pois, se desconheces a ti mesmo, não terás temor de Deus em ti, nem humildade. Por acaso pensas que podes alcançar a salvação sem temor de Deus e sem humildade?
(Neste momento, o auditório murmura: "Não, não!").
Fizestes bem de indicar-me o "não" absoluto de vosso juízo, ou antes, que não estais desprovidos de juízo... Nem vale a pena continuar falando sobre o óbvio.
Mas, prestai atenção a um outro ponto...
Ou será melhor parar, por causa dos que já estão pestanejando? Eu pretendia, em um só sermão, dar conta do que tinha prometido: falar da dupla ignorância, e fá-lo-ia se não me parecesse que este discurso já está demasiadamente longo para os que o acham cansativo. E vejo alguns bocejando e outros dormitando. E não é de admirar, pois a longuíssima vigília de oração que tivemos hoje os desculpa.
O que direi, porém, daqueles que dormem agora, mas dormiram também enquanto rezávamos os ofícios? Não quero, porém, levar isto adiante e envergonhá-los, baste ter mencionado o fato... Penso que de hoje em diante cuidarão de estar atentos, advertidos que foram pela nossa correção.
Com esta esperança e em atenção a eles, em vez de continuar, partamos, suspendendo por clemência o discurso, e dêmos-lhe fim, embora não tenha atingido seu fim. Eles, por sua vez, tendo sido objeto de nossa compreensão, associem-se a nós em glorificar o Esposo da Igreja, Nosso Senhor Jesus Cristo, que está acima de todas as coisas, Deus bendito pelos séculos. Amém.


________________________________________
( [1] ) A palavra latina salus significa tanto saúde como salvação; acumulação semântica especialmente incômoda para o tradutor, pois Bernardo freqüentemente compara a saúde da vida presente à salvação eterna...
( [2] ) Migne erradamente anota Hbr 11.
( [3] ) Scientia inflat diz o Apóstolo. Ao longo de todo o texto, estamos traduzindo a palavra scientia por saber, pois nosso termo ciência, mais do que um conhecimento pessoal, indica o saber objetivo: o das diversas ciências. E Bernardo fala do saber (scientia) como algo subjetivo, o saber de cada um. Traduzimos inflat por incha, que também dá a idéia do vazio da vaidade e, além disso, ajusta-se à comparação que Bernardo estabelecerá entre o inchaço do saber e o inchaço do corpo.
( [4] ) Procuramos manter algo da rima e do ritmo destas últimas palavras: Bernardo, como Agostinho, destaca momentos importantes do sermão, marcando-os com jogos de palavras, no caso: ...sanitatem, quam tumor simulat, dolor postulat.
( [5] ) E também I Pe 5, 5 e Pr 3, 34.
( [6] ) Tempus enim breve est é ICor 7,29.
( [7] ) Esta expressão "temor e tremor" aparece em IICor 7,15 e Fil 2,12.
( [8] ) Studio, no original. Como se sabe, a palavra latina studium significa também diligência, amor que move a agir.
( [9] ) Bernardo interpreta alegoricamente (!) a repetição do lamento do profeta e marca esta passagem por mais um jogo de palavras: ingeminatio geminum.

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Conversa de Hegel e Kant

O dia em que Hegel comentou com Kant as notícias que ele leu na revista de ufologia:

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

O que torna os pobres pobres?


O filósofo Adam Smith (1723-1790)

Hoje eu decidi recomeçar a pôr aqui posts de cunho mais intelectual (estou preparando até um sobre Hegel - fruto de uma discussão que tive em Aracaju, recentemente, porque, qual não foi a minha surpresa encontrei em Fenomenologia do Espírito conceitos tão caros a Giussani e a Carrón como experiência, razão e correspondência, porém, totalmente abstratizados e subjetivizados, descolados com o real, em guerra com ele! - mas isso é outra história), e começo a partir de um contragolpe que tive hoje no Lobato, quando fui à creche Monsenhor Luigi Giussani.

Hoje pela manhã fui fazer uma entrevista no Lobato para o Programa de Pós-Graduação em Família da Universidade Católica do Salvador, e entrevistei um casal que morava com nada menos que 14 pessoas na sua casa! O "insight" veio logo em seguida: o que torna os pobres pobres de fato?

Logo percebi que, no fundo, era uma pergunta imbecil, até porque um amigo meu, do qual sou hoje padrinho de casamento, já respondeu em pesquisa que fez sobre a pobreza há alguns anos: "Os pobres são pobres porque não têm dinheiro!"

Mas a pergunta não calou por aí, porque nessas visitas aos bairros de Novos Alagados, Lobato, Liberdade e Cabula, venho me deparando com casas que têm pelo menos duas características em comum:

1º São casas que têm, a maioria, vários eletrodomésticos caros, como televisão, DVD, microondas, e em pelo menos uma, até carro;
2º Ao mesmo tempo, porém, são casas muito bagunçadas, com raras exceções, sujas e bagunçadas.

Então eu me perguntei: "o que é a pobreza?" Porque o Papa Bento XVI na encíclica Caritas in Veritate diz que é preciso alargar o conceito de pobreza (como o sociólogo Bauman nos ajuda quando fala do estilhaçamento dos vínculos).

Uma pista me vem por outro afilhado meu, desta vez de crisma, que é médico e trablha no interior, às vezes. Ele disse: "o que falta a essas pessoas não é Bolsa Família, nem dinheiro, nem camisinha, o que falta a elas é alguém que diga a elas que elas têm valor, que elas valem, que elas têm um valor em si mesmas, que a vida delas é importante". Só daí pode nascer uma verdadeira afeição a si mesmo.

Aí eu descobri que a primeira pobreza é a não-afeição a si, o ódio a si mesmo que Nietzsche expressa em A Gaia Ciência: "esse pendor para o belo, para o verdadeiro, para o real [que ele encontrava nele mesmo], como o odeio!". A não-afeição é típica do homem moderno, cantada com maestria pela banda inglesa punk rock Green Day na música 21st Century Breakdown:

"A minha geração é zero.
Eu nunca cheguei a ser um herói da classe
trabalhadora

Colapso do Século 21
Uma vez eu estava perdido, mas nunca fui encontrado.
Acho que estou perdendo o que resta da minha mente
Para o prazo final do século 20

Eu era feito de veneno e sangue
Condenação é o que eu entendia
Jogos para a queda das torres
[A] segurança da terra natal poderia matar todos nós

[...]

Nós somos os gritos da classe dos treze.
Nascidos na era da humildade
Nós somos os desesperados em declínio
Criados pelos bastardos de 1969"

A verdadeira pobreza é a não-afeição a si e ao real. Como falou Chesterton em Ortodoxia "para consertar uma casa, a primeira coisa a fazer é amá-la. Ame o seu quintal, e em breve, você terá o quintal mais arrumado do mundo".

Por isso, como fala com genialidade Bento XVI, o anúncio de Cristo, este que nos amou antes, quando ainda éramos pecadores, é, de fato, o primeiro motor do desenvolvimento. Só o amor pode nos retirar do envelope, do invólucro no qual nos envolvemos, e poderá proporcionar o verdadeiro des-envolvimento. Não apenas a liberdade, como diz Amartya Sen, deve favorecer a vinda à tona destas potencialidades humanas já existentes no nosso eu - este é o erro da ideologia liberal - mas o amor. O homem só é redimido, salvo, livre e vivo pelo amor, diz o Papa Bento XVI.

Percebendo que tinha feito uma pergunta idiota (o que torna os pobres pobres?), me perguntei: "e quem fez uma pergunta inteligente?" Me veio à mente logo o nome de um dos maiores filósofos de todos os tempos, ao qual se atribui a fundação da moderna ciência econômica, Adam Smith: "o que torna os ricos ricos?", ou na linguagem de Smith, da economia política internacional: "o que faz ricas as nações?" Esta é a pergunta certa, porque de mesma forma que a treva é ausência da luz, e o mal é a ausência do bem, a pobreza é a ausência da riqueza.

Então, ao invés de ficarmos nos atolando para tentar identificar as causas da pobreza, muito mais razoável é tentar identificar as causas da riqueza, não para produzir o ódio como o marxismo (disfarçado de "luta de classes"), mas para produzir a imitação. Como disse Julián Carrón, podemos nos deliciar fazendo análises sobre a escuridão. Marx e seus seguidores se especializam nisso. Sentem uma atração mórbida pelas trevas. Mas podemos, ao invés disso, acender um fósforo, que dissipa sozinho, de per si, toda a densidade da treva obscura. Adam Smith fez isso quando publicou A Riqueza das Nações, em 1776, e até hoje ilumina o nosso mundo. Coincidência ou não, estava em curso neste mesmo ano a Revolução Americana, que trouxe ao mundo uma nação erigida sob o hino à liberdade e à busca pela felicidade.

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

A escola da esperança


Cardeal Nguyen Van Thuan (1928-2002)

por Bento XVI (excertos da Spe Salvi)

Resolvi postar este trecho da Spe salvi por estarmos no mês do Rosário.

32. Primeiro e essencial lugar de aprendizagem da esperança é a oração. Quando já ninguém me escuta, Deus ainda me ouve. Quando já não posso falar com ninguém, nem invocar mais ninguém, a Deus sempre posso falar. Se não há mais ninguém que me possa ajudar – por tratar-se de uma necessidade ou de uma expectativa que supera a capacidade humana de esperar – Ele pode ajudar-me.[25] Se me encontro confinado numa extrema solidão...o orante jamais está totalmente só. Dos seus 13 anos de prisão, 9 dos quais em isolamento, o inesquecível Cardeal Nguyen Van Thuan deixou-nos um livrinho precioso: Orações de esperança. Durante 13 anos de prisão, numa situação de desespero aparentemente total, a escuta de Deus, o poder falar-Lhe, tornou-se para ele uma força crescente de esperança, que, depois da sua libertação, lhe permitiu ser para os homens em todo o mundo uma testemunha da esperança, daquela grande esperança que não declina, mesmo nas noites da solidão.

33. De forma muito bela Agostinho ilustrou a relação íntima entre oração e esperança, numa homilia sobre a Primeira Carta de João. Ele define a oração como um exercício do desejo. O homem foi criado para uma realidade grande ou seja, para o próprio Deus, para ser preenchido por Ele. Mas, o seu coração é demasiado estreito para a grande realidade que lhe está destinada. Tem de ser dilatado. « Assim procede Deus: diferindo a sua promessa, faz aumentar o desejo; e com o desejo, dilata a alma, tornando-a mais apta a receber os seus dons ». Aqui Agostinho pensa em S. Paulo que, de si mesmo, afirma viver inclinado para as coisas que hão-de vir (Fil 3,13). Depois usa uma imagem muito bela para descrever este processo de dilatação e preparação do coração humano. « Supõe que Deus queira encher-te de mel (símbolo da ternura de Deus e da sua bondade). Se tu, porém, estás cheio de vinagre, onde vais pôr o mel? » O vaso, ou seja o coração, deve primeiro ser dilatado e depois limpo: livre do vinagre e do seu sabor. Isto requer trabalho, faz sofrer, mas só assim se realiza o ajustamento àquilo para que somos destinados.[26] Apesar de Agostinho falar directamente só da receptividade para Deus, resulta claro, no entanto, que o homem neste esforço, com que se livra do vinagre e do seu sabor amargo, não se torna livre só para Deus, mas abre-se também para os outros. De facto, só tornando-nos filhos de Deus é que podemos estar com o nosso Pai comum. Orar não significa sair da história e retirar-se para o canto privado da própria felicidade. O modo correcto de rezar é um processo de purificação interior que nos torna aptos para Deus e, precisamente desta forma, aptos também para os homens. Na oração, o homem deve aprender o que verdadeiramente pode pedir a Deus, o que é digno de Deus. Deve aprender que não pode rezar contra o outro. Deve aprender que não pode pedir as coisas superficiais e cómodas que de momento deseja – a pequena esperança equivocada que o leva para longe de Deus. Deve purificar os seus desejos e as suas esperanças. Deve livrar-se das mentiras secretas com que se engana a si próprio: Deus perscruta-as, e o contacto com Deus obriga o homem a reconhecê-las também. « Quem poderá discernir todos os erros? Purificai-me das faltas escondidas », reza o Salmista (19/18,13). O não reconhecimento da culpa, a ilusão de inocência não me justifica nem me salva, porque o entorpecimento da consciência, a incapacidade de reconhecer em mim o mal enquanto tal é culpa minha. Se Deus não existe, talvez me deva refugiar em tais mentiras, porque não há ninguém que me possa perdoar, ninguém que seja a medida verdadeira. Pelo contrário, o encontro com Deus desperta a minha consciência, para que deixe de fornecer-me uma autojustificação, cesse de ser um reflexo de mim mesmo e dos contemporâneos que me condicionam, mas se torne capacidade de escuta do mesmo Bem.

34. Para que a oração desenvolva esta força purificadora, deve, por um lado, ser muito pessoal, um confronto do meu eu com Deus, com o Deus vivo; mas, por outro, deve ser incessantemente guiada e iluminada pelas grandes orações da Igreja e dos santos, pela oração litúrgica, na qual o Senhor nos ensina continuamente a rezar de modo justo. O Cardeal Nyugen Van Thuan, contou no seu livro de Exercícios Espirituais, como na sua vida tinha havido longos períodos de incapacidade para rezar, e como ele se tinha agarrado às palavras de oração da Igreja: ao Pai Nosso, à Ave Maria e às orações da Liturgia.[27] Na oração, deve haver sempre este entrelaçamento de oração pública e oração pessoal. Assim podemos falar a Deus, assim Deus fala a nós. Deste modo, realizam-se em nós as purificações, mediante as quais nos tornamos capazes de Deus e idóneos ao serviço dos homens. Assim tornamo-nos capazes da grande esperança e ministros da esperança para os outros: a esperança em sentido cristão é sempre esperança também para os outros. E é esperança activa, que nos faz lutar para que as coisas não caminhem para o « fim perverso ». É esperança activa precisamente também no sentido de mantermos o mundo aberto a Deus. Somente assim, ela permanece também uma esperança verdadeiramente humana.

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

O Padre Pio e eu


Padre Pio

A minha amizade com o Padre Pio começou no ano passado quando um amigo meu, André, disse que fez novena para vários santos, e não teve seu pedido atendido, até que fez... para o Padre Pio. Pensei comigo mesmo "este Padre Pio deve ser poderoso mesmo". Comecei a rezar, e vendo que fui atendido, continuei. Depois de "fazer uma aposta", resolvi continuar com o que estava dando certo.

O Padre Pio entrou com mais força em minha vida quando descobri que um dos meus grandes amigos e hoje afilhado de crisma, Ramon, nasceu no dia dedicado ao santo Padre Pio: 23 de setembro.

Desde então, a minha proximidade com o santo de Pietrelcina só tem aumentado. Eu e outra grande amiga, Milena, rezamos para o Padre Pio, pedimos pela cura e recuperação do pai de outra grande amiga nossa, Francesca.

Quando fui visitar o filósofo Olavo de Carvalho, na Virgínia (EUA), lá estava o bendito padre representado em uma imagem, e eu soube que a conversão de Olavo ao catolicismo se deveu muito à intercessão do santo de Pietrelcina, tanto é que o filósofo sempre invoca o santo Padre Pio antes de começar os seus programas.

Durante todo este ano tenho invocado o Padre Pio, por várias coisas, inclusive pedindo pelo pai de outro grande amigo, que teve câncer na próstata. Para completar o quadro, ainda soube que a mãe de outro grande amigo, o padre Ignazio, se confessou com o Padre Pio: está explicada a alegria deste cara! A mãe dele recebeu uma graça especial! O Padre Pio tem sido uma presença constante nestes últimos meses e eu espero que continue assim por toda a minha vida!


Padre Pio e Nossa Senhora de Fátima

A graça que eu peço ao Padre Pio é a graça de que o meu amor à Nossa Senhora se eleve ao infinito. Porque ela é que vai salvar o mundo! Como diz Julián Carrón: "Aconteça o que acontecer, Nossa Senhora existe! É um fato!" Por isso se opõe, ainda hoje, com a sua simples presença a qualquer espécie de niilismo! O Padre Pio, que morreu chamando o nome de Maria é a prova viva disso!

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

8 anos depois


Ground Zero, Nova York

Não é possível expressar o sentimento que tive quando entrei na Saint Paul Chapel (Capela São Paulo), pequena capela anglicana, situada nas vizinhanças do Ground Zero, em Nova York, onde há oito anos aconteceram os ataques às Torres Gêmeas, e para onde acorreram as pessoas desesperadas me busca de socorro naquela manhã de terça-feira.
Quando eu estive lá, eu senti todo o desespero que deve ter ocorrido. Porque as ruas do centro financeiro de Nova York são muito estreitas! Wall Street é mesmo um corredor! Foi uma grande dor que eu senti quando entrei lá e de lá da capela, vi o Ground Zero, e o buraco gigantesco, como ainda está lá.
Por outro lado, me senti privilegiado pelo fato de estar "na cena do fato", no local exato onde começou um século e terminou outro. O século XXI começava precisamente ali, oito anos atrás!
Fiz minha oração pelas pessoas que faleceram e pelas famílias e pela cidade, diante de um altar anglicano, porque este atentado me marcou muito na época, como ainda hoje. Me marcou pelo fato dos comunistas terem comemorado ao ataque, mostrando a sua real face, e me marcou também porque Nova York é a Nova Roma, a nova capital do mundo (não é à toa que a sede da ONU está lá), é uma nova Babilônia, mas uma Babilônia cristã, de onde a fé tem tudo para explodir. Não é à toa que na capela da sua principal universidade (Columbia) está escrito "Para a glória de Deus!"
Me uno à dor desta cidade tão abençoada e grande, nestes oito anos do maior atentado terrorista da História, acontecido justamente contra a nação construída em nome da liberdade!
Veni Sancte Spiritus, veni per Mariam!

sábado, 5 de setembro de 2009

José Alencar, apóstolo da vida!


José Alencar e Dom Freire Falcão

Hoje eu recebi duas notícias, uma terrível, e outra, muito boa. A terrível é que o assassino da médica Rita cometeu o pior dos crimes, a maior das covardias, o maior dos insultos contra o universo, segundo Chesterton: o suicídio. É necessária covardia, ódio, traição, enfim, mal, para acabar consigo próprio, de uma forma tão vil e torpe.
Apesar disso, me vem uma outra notícia que eu considero excelente: o vice-presidente José Alencar pensa em se candidatar ao Senado. O bom não é o Senado, mas é a vida, a luta pela vida.
Como escreveu o Senador Demóstenes Torres(DEM-GO), em relação ao vice-presidente: " a veneração à sua figura nos faz esquecer de que é bem-sucedido nos negócios e até de que é vice-presidente da República. Aquele ali que está na TV esbravejando contra o mal não é um político ou um empresário. Aquele ali é uma demonstração de que a espécie humana ainda tem jeito, de que nem tudo no governo é Sodoma e Gomorra. Veja-o distribuindo esperança". Afirma ainda que ele é um homem submetido "aos desígnios de Deus". E mais: "Ali está o apóstolo de uma causa, a maior delas, a vida. Vida é a boa notícia que José Alencar Gomes da Silva está espalhando na terra fértil de seu exemplo".
A mim o exemplo de José Alencar é o de que vale a pena lutar pela vida, pois como disse o Papa Bento XVI: "viver é um bem, é bom ser um homem, uma mulher, a vida é boa".
E Carrón consegue ser ainda mais profundo: "Vive-se por algo que está acontecendo agora!" O que está acontecendo agora é Cristo vivo, Ressuscitado! Ele vence Tanathos, e por isso vale a pena viver! Ele está presente, e Se mostra de mil formas! "A vida é boa!", disse Machado de Assis, e eu agradeço a José Alencar, por testemunhar a todos nós a positividade da vida e a sua luta valente e corajosa, viril, por ela!
Veni Sancte Spiritus, veni per Mariam!

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

A morte de Black e Maria Rainha


Virgem Negra de Czestochowa, Mãe e Rainha da Polônia e do Universo

Ontem recebi com grande dor uma notícia. Meu cão, de 14 anos, faleceu. Imediatamente, levanta-se um grito, uma dor, um vazio, e um porquê. Lembrei-me de uma amiga minha, que há poucos dias, taxou a morte de "incompreensível". E ela o é. Mas em mim se abre um buraco e uma dor imensa. E eu sei que este cão foi - e de certa forma ainda o é - objeto da Providência Divina. Porque foi graças a este cão, precisamente, que se abriu em mim o desejo gigantesco de amizade que eu tenho hoje.

O meu consolo, como sempre, só pode vir dela. Há quatro dias, 22 de agosto, comemoramos o dia de Maria, Rainha do Universo, e se ela é rainha de todo o universo, de toda a criação, também é rainha de Black, criado pelo Espírito para a maior glória de Deus. Hoje também é um dia especial, 26 de agosto, porque se comemora o dia da Virgem Negra de Czestochowa, coroada como a Rainha da Polônia, e bastião na luta contra o comunismo ateu, niilista e non sense, que quis escravizar a Polônia no século XX. Maria é símbolo de resistência! Ela é a inimiga mais mortal do niilismo, opõe-se a ele ainda hoje!

Eu não sei de qual forma e não tenho medo de parecer ridículo, mas tudo isso me ajuda a recordar que este mundo não é o definitivo, é passageiro, e também toda a criação aguarda com ânsia a vitória que já se realiza em Maria.

Olhar para esta mulher é que me tira da ruína, ela sobe e reina, como diz o Cântico dos Cânticos: "Quem é Essa que se surge como a aurora, bela como a lua, resplandecente como o sol, temível como exército em ordem de batalha?” (Ct, 6,10). "Quem é Essa que sobe do deserto, apoiada no bem-amado?" (Ct 8,5). Nela, toda a criação é resgatada, nada é sem valor e sem sentido, e tudo, até o meu pobre cão, falecido, encontra a salvação. Porque, como disse Luigi Giussani: "Até as sardinhas serão salvas!" Veni Sancte Spiritus, veni per Mariam!

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

A voz do coração


O professor Mathieu, de "A voz do coração"

Ontem, eu revi um dos filmes mais belos que já vi tem toda a minha existência. Ele nos ensina sobre a essência da educação.
O filme é a história de um internato para crianças problemáticas intitulado "No fundo do poço" após o ingresso do professor Mathieu, que graças à sua humanidade viva consegue trnasformar aquele ambiente e nos dar uma lição do que é a educação, a vida e o homem.
O que é educar?
Duas coisas são fundamentais.
Uma delas é despertar a voz do coração que cada um traz em si, as suas exigências elementares de verdade, justiça e amor, que são inextirpáveis, e por isso presentes em todo ser humano.
A segunda é uma comunicação de si, a coimunicação de uma experiência.
Além disso, o filme mostra que a verdadeira educação é uma amizade, pois ser amigo - como nos conta Dom Giussani - é verter a própria existência na existência do outro, é a comunicação de uma experiência.
O filme ainda passa duas ideias: a necessidade de um mestre, uma presença, e o fato de que uma simples pessoa pode mudar não só um ambiente, mas a vida de muitas pessoas.
Como não lembrar de Dom Giussani? Ou de Carrón?
A esperança para este mundo é que nos deixemos educar pelos mestres que o Senhor nos dá, pelas testemunhas de uma humanidade nova, como Carrón, Cleuza, Vicky, o padre Aldo e Camilo. O filme deixa isso muito evidente!

sábado, 15 de agosto de 2009

A médica morta Rita e a Assunção de Maria


Cúpula da Basílica da Dormição, Monte Sião, Jerusalém, Israel


Uma amiga me pediu, durante esta semana, um juízo sobre a morte da pediatra Rita de Cássia Tavares Giacon Martinez, de 39 anos. Ela me perguntava: "onde está o positivo dessa situação? Como é que eu posso reconhecer Cristo nesta situação?"
Eu me lembrei de dois grandes amigos. Um deles está do outro lado da vida: Bruno Tolentino, e o outro está do outro lado do mar, Luca. O primeiro me disse que a realidade é inexoravelmente positiva, o outro que a realidade é positiva porque Cristo existe.
Hoje é o dia da Assunção da Virgem Maria, em corpo e alma, ao céu. Um outro amigo me disse que "até as rugas da Senhora nossa estão no céu". De fato, a Assunção é a afirmação de que nada do que é nosso se perderá. Nada, nem o fio o de cabelo mais fino, nem a ação mais simples, nem o pensamento mais recôndito será perdido. E a vida da médica? Era isso que eu pensava. Ou existe uma justiça que será dada a ela - não a nós, mas a ela, não no nosso parco e limitado Estado liberal, mas somente no Mistério transcendente - ou a palavra justiça pode muito bem ser riscada do dicionário.
Depois da pergunta desta amiga, pus-me a reler a nona sinfonia de Bento XVI, a encíclica Spe salvi (Salvos na esperança), e ali o papa Bento XVI, como verdadeiro astro que arde neste mundo de trevas, confusão e desespero, aponta o Juízo Final como a escola da esperança. De fato, se tudo acabar no túmulo, a vida será como mencionou Sartre - um absurdo!
Mas não! A outra vida, a vida eterna, em continuidade à vida temporal é escola da esperança, pois, se não há Juízo, como falar em justiça, se tudo acaba no túmulo, no nada, na morte, como poder falar em justiça? O papa Bento XVI bem o afirma na Spe salvi: para ele, o argumento da justiça é o mais forte em relação à vida eterna. É necessária a vida eterna para que se possa falar em justiça, para salvar a injustiça que vem se acumulando por toda a História. E a Assunção de Maria é o resgate de toda a História. Em Maria, toda a História é como que "assumida" por Deus e resgatada de uma vez por todas.
Quem vai fazer justiça à Rita de Cássia? Somente aquele que é o Justo por excelência. O positivo da realidade é que Ele existe, ressuscitou, está vivo! A última palavra sobre a realidade não é o nada, mas é Cristo. Até as rugas da Senhora nossa estão no Paraíso! E a Rita de Cássia será feita justiça, porque o Justo venceu! Esta é a nossa esperança, animada pela elevação de Maria ao céu!

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

Uma simples médica mãe de família

Eu gosto muito desta santa! Nestes tempos nos quais a vida é tida como infeliz e destituída de valor, o papa João Paulo 2º aponta-nos esta mulher, uma simples médica e mãe de família, para ser olhada, declarando-a como a patrona da vida! Um sinal de que a santidade é acesível a todos e de que é justo viver, porque viver é o meio para chegarmos à felicidade!


Santa Gianna Beretta Molla (1922-1962), declarada por João Paulo 2º a padroeira da vida!


Santa Gianna

sexta-feira, 10 de julho de 2009

A força da caridade


Giorgio Vittadini

Entrevista realizada por Davide Perillo com Giorgio Vittadini, quarta-feira, 8 de julho de 2009, publicada em Tracce.it.

O vínculo incindível com a verdade. O anúncio de Cristo como “primeiro fator de desenvolvimento”. E ainda a subsidiariedade, o mercado, a liberdade... Assim, Giorgio Vittadini lê para Tracce a nova Encíclica de Bento XVI

A espera foi longa: dois abundantes anos, desde aquele 2007 quando se começou a falar da “próxima encíclica social de Bento XVI” (deveria ter saído para comemorar os 40 anos da Populorum progressio, de Paulo VI). Aí, no vai-e-vem dos esboços, estourou a crise global. E, então, a necessidade de corrigir, aprofundar, rever. Resultado: o texto foi assinado no dia 29 de junho, festa dos Santos Pedro e Paulo, e saiu uma semana depois.
Espera concluída, portanto. Inicia-se a leitura. Densa, visto que se trata de 79 parágrafos nos quais se move livremente do trabalho à finança, das organizações internacionais para o desenvolvimento, passando pela técnica, pelo consumo, o ambiente... “Mas, o primeiro dado que impressiona é um outro”, disse Giorgio Vittadini, presidente da Fundação para a Subsidiariedade: “o vínculo com a primeira encíclica deste Pontífice, a Deus caritas est. Também ali, se olharmos bem, se falava da caridade ligando-a com a verdade. Aqui, o Papa faz a mesma coisa desde o princípio do texto”.


Podemos dizer que a Encíclica afirma que o problema social e dos relacionamentos entre os homens é, antes de mais nada, uma questão ontológica, não ética... um problema de conhecimento. O que você pensa disso?
Definindo a caridade como verdade, o Papa elimina da caridade toda possível redução de tipo moralista. Neste sentido, é verdade, a liga exatamente ao conhecimento. Vem-me à mente um velho cartaz dos anos 80 que retomava uma intervenção de João Paulo II: “A verdade é a força da paz”. É isso! Fundar a caridade sobre a verdade quer dizer reportá-la ao aspecto próprio das virtudes teologais: fé, esperança e caridade. Enquanto que, muitas vezes, a palavra “caridade” pode ser percebida de modo redutivo.

“Sem verdade, a caridade escorrega em sentimentalismo”, disse o Papa...
Pois é. Aqui, pelo contrário, se fala de amor, mas como amor ao destino do homem. E ele está ligado ao aspecto ontológico e de conhecimento. O conhecimento como ponto de partida do amor, do desenvolvimento. Segundo penso, é muito importante: deste modo, no clima de confusão em que vivemos – e no qual estes valores foram, muitas vezes, desligados de uma experiência humana e histórica – tudo é reportado a uma objetividade.

E a uma afirmação potente: “O anúncio de Cristo é o primeiro e principal fator de desenvolvimento”.
Porque é Cristo que realiza o destino do homem. Este é um tema que emerge praticamente em toda a Encíclica. O Papa fala disso já no início, quando retoma a Populorum progressio e a revê de um modo não redutivo. Bento XVI sublinha que Paulo VI apresentava de modo claro a relação entre o anúncio de Cristo, a pessoa e a sociedade. Mas fala disso também na sequência do texto, quando várias vezes afirma que a Igreja é o verdadeiro ponto de referência para o progresso do homem. De fato, ao colocar o tema da caridade na verdade ele afirma que “em Cristo a caridade na verdade se torna o Rosto da Sua Pessoa” e que a Igreja custodia esta concepção da realidade. O Papa fala da doutrina social, mas lembra que mesmo ela nasce do acontecimento cristão.

Fala também do desenvolvimento como “vocação” e não apenas como “incremento do ter”. Por quê?
Ele explica assim: “No desígnio de Deus, cada homem é chamado a um desenvolvimento, porque cada vida é vocação”. Nas páginas da Encíclica existe um contraponto contínuo sobre o fato de que o desenvolvimento do homem tem que ver com o “sentido do seu caminhar na história”. Pense, por exemplo, em como ele fala de pobreza, no início do quinto capítulo: ele a coloca em relação com a falta de sentido, porque nasce da “solidão” e da “renúncia ao amor de Deus”. É como se o Papa enfrentasse continuamente o fato de que qualquer problema social não é tratado de modo completo e equilibrado se se prescinde do relacionamento com Deus. Fator importantíssimo, sobretudo se pensamos em como o tema “evangelização e promoção humana” foi tratado ao longo dos anos, mesmo nos ambientes eclesiásticos, como se fosse dois aspectos distintos. “Não basta a caridade, é preciso a justiça”. Quantas vezes escutamos essas coisas? Como se a caridade pudesse ser injusta e a justiça fosse algo que o homem pudesse fazer por si mesmo!

Não lhe parece notável a atualidade de Paulo VI?
Sim. Mas impressiona também que Bento XVI leia exatamente a Populorum progressio, que foi uma das encíclicas mais forçadas na interpretação. Se a Humanae vitae, outra famosa encíclica de Montini, foi lida como fechamento, a Populorum progressio foi interpretada como concessão ao mundo. Mas, pelo contrário, o Papa a relê na sua acepção verdadeira: a tentativa de mostrar como a fé em Deus e a experiência cristã são os fatores mais determinantes para o desenvolvimento integral do homem.

Mas, é impressionante também a atualidade daquela intuição de dom Giussani, de 1976. “Evangelização e promoção humana” era o título do simpósio da Igreja italiana daquele ano, todo baseado na distinção. Dom Giussani àquele “e” quis colocar um acento: anunciar Cristo é promover o humano...
Olha, lendo a Encíclica não pude deixar de pensar, em várias momentos, no tríptico O eu, o poder e as obras, o livro de dom Giussani. É o radicar-se do eu dotado de um desejo de verdade, justiça e beleza que funda uma ação social. E, de fato, mais à frente, a Encíclica fala literalmente de “obra”. Não confinando-a a um aspecto marginal da vida econômica e social, o Terceiro Setor visto como algo ao lado do liberalismo e do comunismo. É o mercado que, para Bento XVI, deve ser marcado pela gratuidade, por empresas nas quais o proveito é um instrumento, mas o objetivo é maior.

A expressão exata é “obras que tragam impresso o espírito do dom”...
Exatamente. Portanto, se fala de obras que nascem da experiência cristã, de associações empreendedoras que nascem com este objetivo. Aqui, se lê o mercado, e mesmo a vida econômica, como algo que não se deixa levar pelas ideologias opostas, mas como um instrumento de algo maior. “Não se trata apenas do terceiro setor”, diz no parágrafo 46, “mas de uma nova, ampla realidade composta que envolva o privado e o público e não exclui o proveito, mas o considera como instrumento para realizar finalidades humanas e sociais”. E, em seguida: “parece que a distinção até agora usada entre empresas com objetivo de proveito (profit) e organizações não objetivadas ao proveito (non profit) não seja mais adequada para entender a realidade, nem para orientar eficazmente o futuro”. É como se relesse a história econômica, não apenas a italiana mas a européia, desde 1850 até hoje: o movimento católico, o movimento operário, o desenvolvimento de uma empresa operativa, movida pelo desejo de melhorar as condições de vida do homem.

E o que emerge dessa releitura?
Nós, católicos, tivemos por anos um complexo de inferioridade. Existia a ideia de que a sociedade é aquilo que é, com as suas leis, e nós devemos dar-lhe os valores éticos e nos ocuparmos dos pobres. Ponto final! Bem, o Papa rebate esta posição. E mostra que o mercado é algo de muito mais complexo e variado do que aquele monte de coisas abstratas descrito por certos jornalistas. Assim, ele lê também a crise financeira, não apenas como o êxito de mecanismos errados, mas como o êxito da ação de homens que se moveram com uma humanidade reduzida. Um dos exemplos mais graves disso é a crise de confiança recíproca que foi ampliada com crise financeira. A crise de confiança não é uma crise que nasce de mecanismos econômicos, mas nasce da crise do homem em relação com outros homens. Neste sentido, o verdadeiro tema da Encíclica é o sujeito humano que está por trás da atividade econômica e a determina.

É por isso que o outro fio condutor do texto é a liberdade? É uma palavra que aparece 38 vezes...
Porque o Papa convida a superar uma concepção de economia ligada a mecanismos nos quais o homem não diz respeito. Se olharmos para o debate posterior à crise, em alguns jornais, se verá como a vias de escape não previam uma autocrítica a respeito da concepção de homem que guia a atividade econômica. Parece que é necessário apenas consertar as máquinas que se desgastaram... e, porém, tudo estraga de novo. Quem, como o Papa, se pergunta quem seja e o que deseja o homem que guia a economia, mostra, por isso mesmo, uma visão absolutamente inovadora da economia e da sociedade, que coloca no centro a responsabilidade do indivíduo e das agregações, dos grupos intermédios, nos quais se colocam juntos a outros homens, em nome de ideais comuns. De fato, não é por acaso, a outra palavra da Encíclica é “subsidiariedade”. Bento XVI fala dela sempre como de um método ligado à responsabilidade: “a subsidiariedade é uma ajuda à pessoa através da autonomia dos grupos intermédios”. Quer dizer que é o instrumento que permite que o eu, nos grupos intermédios, possa desenvolver as suas potencialidades. A subsidiariedade “favorece a liberdade e a participação enquanto assumir de responsabilidade”.

Como você lê essa definição?
De maneira dinâmica. Digamos que a subsidiariedade põe as condições pelas quais a pessoa se torna capaz de desenvolver toda a sua capacidade criativa, e através dos grupos intermédios aos quais pertence, se torna capaz de dar respostas às necessidades da sociedade. Do eu à obra. O desejo se torna obra, construção de uma resposta orgânica às necessidades. É uma concepção de homem e uma experiência em ato que sustenta a definição de subsidiariedade.

E, aqui, voltamos ao conceito inicial de desenvolvimento como “vocação”...
Mas, a coisa bonita é que o Papa o diz tanto no nível do eu, como das obras e da globalização mesma. E esta é uma tese muito audaz, sobretudo se a pensarmos em nível internacional. Os vários G8 e similiares nos fizeram ficar habituados com o fato de que o mundo vai para frente graças aos vértices de chefes de Estado. Estamos, nesse sentido, nas antípodas da subsidiariedade. O Papa, pelo contrário, diz que mesmo uma autoridade mundial deverá “ater-se coerentemente aos princípios de subsidiariedade e de solidariedade”. Pense no que quer dizer, por exemplo, para uma União Européia, sufocada pelo estatalismo, pelos interesses nacionais, pelas burocracias...

O Papa liga a subsidiariedade à solidariedade. Por que ele insiste tanto em sublinhar isso?
Antes de mais nada devemos pensar que, no mundo, não existe a universalidade do welfare como na Europa. O mundo americano, por exemplo, não o concebe mais assim. E também a Europa, na medida em que perdeu o escopo dos sistemas de welfare que é o serviço à pessoa, acaba frequentemente defendendo um Estado entendido como única garantia do bem da pessoa e uma iniciativa privada sem ideais, como única expressão da liberdade. Sublinhar o nexo entre solidariedade e subsidiariedade quer dizer que o primeiro modo para defender e ajudar a desenvolver o eu e o povo significa favorecer o nascimento e o crescimento de realidade que, exatamente por serem movidas por critérios ideais, lutam pelo bem comum e para responder às necessidades dos mais pobres e mais necessitados. Deste ponto de vista, a solidariedade que se conjuga com a subsidiariedade encontra sua raiz naquela caridade entendida como “dom de si comovido”, segundo a definição de dom Giussani.

Paradoxalmente, neste sentido, não existe nada de mais subsidiário do que a própria Igreja: nasce e vive intencionalmente para permitir ao eu encontrar a resposta à sua necessidade.
De fato, em um certo momento, “estranhamente” para uma encíclica social, existe um parágrafo inteiro sobre a libertas Ecclesiae e sobre a liberdade religiosa. Porque, se não existe um sujeito que sublinha a ideia do eu único e irrepetível, do valor da pessoa (mais do que nas suas expressões operativas, na sua concepção), eu não posso construir uma realidade que seja subsidiária. Diferentemente daquilo que dizem os seus opositores, a Igreja tem como objetivo a educação para o senso religioso da pessoa, para o seu relacionamento com o Mistério e, portanto, para o crescimento da sua liberdade. Neste sentido, é interessante como, na Encíclica, se afirma que somente um homem que viva integralmente este relacionamento com o Mistério pode, de verdade, defender a vida, o ambiente, usar de modo equilibrado as técnicas. Deste ponto de vista, se repropõe, de modo original, uma velha doutrina católica da qual falamos muito nesses anos: onde não há liberdade para a Igreja não pode haver liberdade pessoal e social.

É por isso que aparece também muito frequentemente a palavra “educação”?
Certo. Não é por acaso que a educação é pensada em seu nexo estreito com a subsidiariedade. Se é verdade que o problema é permitir o desenvolvimento do eu, o desejo deve ser educado. E não é educado apenas do ponto de vista funcional, não é educado também só porque digo “dou-lhes a possibilidade de gerir as escolas e fazer hospitais”. É educado ao belo, é educado ao verdadeiro, é educado à caridade na verdade. É educado a abrir-se, porque, como dizia Romano Guardini (e dom Giussani repetia o mesmo), “tudo se torna acontecimento no âmbito da experiência de um grande amor”. Então, ele se torna capaz de construir, de colocar-se junto aos outros, de se empenhar e se sacrificar pelo bem comum.

Enquanto que, sem esta dimensão, tudo se torna confuso: “Sem Deus, o homem não sabe para onde ir”, conclui o Papa.
E se poderia ainda acrescentar, parafraseando um famoso filme, que “Deus tem necessidade dos homens”. É um desafio aberto a cada um de nós, no concreto de todos os dias.


* Traduzido por Paulo R. A. Pacheco.

quarta-feira, 1 de julho de 2009

Para quem quer ir à guerra


Nossa Senhora do Rosário. Andaluzia (Espanha)

Um amigo me escreveu hoje me contando acerca de mais uma pequena batalha que houve em sua casa. Uma batalha pela clareza, pela luz, pela verdade. Uma batalha contra o relativismo, enfim, contra o mal, contra a confusão que paira em nosso meio. Mas, se alguém vier me perguntar o que é a vida, eu logo respondo: "é uma guerra". A vida não é outra coisa senão uma guerra, uma guerra pela vida, pelo bem, pela verdade. Por isso, Jesus diz no Evangelho que veio trazer a espada, e não a paz, porque a vida é guerra: uma guerra pelo bem e pela vida, pela verdade. Uma guerra para a qual para assumir é preciso ter coragem. É covardia fugir da vida, mas também é estupidez viver sem as "armas" necessárias para tanto.

Uma das maiores armas que possam existir e que a tradição cristã, tão esquecida por nós ocidentais, aponta, é o Rosário da Virgem Maria (também carinhosamente conhecido como "terço" por nós, brasileiros).

O Rosário, tal como o conhecemos, em sua origem, foi uma oração de batalhas. Não foi uma oração originalmente de "velhas", como muita gente erroneamente pensa hoje. É uma oração viril, e da virilidade. O Rosário, tal como nós o conhecemos, nasceu na militar Espanha, que formou-se como país na famosa Guerra da Reconquista, que durou de 732 a 1492, quando os muçulmanos foram definitivamente expulsos da Europa. É preciso ser muito homem para rezar o Rosário e guerrear neste mundo com ele. Porque o Rosário é um dos maiores instrumentos de contemplação que a tradição cristã possui. Ele nada mais é do que o compêndio, a síntese do Evangelho, como nos diz o Papa João Paulo II na belíssima Carta Apostólica Rosarium Virginis Mariae (O Rosário da Virgem Maria), de 2002.

O Rosário é para ser recitado em ritmo de marcha, pois é uma oração de guerra. Todos os santos, desde o século XVI, até hoje, sem exceção, a recitaram. O próprio Papa João Paulo II dizia que o Rosário era a sua oração predileta. Pois então: quem quiser um conselho para enfrentar a própria vida e todos os seus desafios com coragem, fortaleza e tenacidade, não deixe de pegar o Rosário em suas mãos. Pois São Paulo fala que devemos enfrentar a vida com "a armadura de Deus". E São Luís Maria Grignon de Montfort (1673-1716) compara o Rosário com nada menos que a funda com a qual o pequeno Davi destruiu ao gigante Golias (cf. 1 Sm 17, 40-54). Cada "Ave-Maria" é como que uma pedrada lançada contra o "Golias" que visa destruir a nossa vida e ao mundo inteiro: esta mentalidade relativista.

Cada "Ave-Maria" é a afirmação da Encarnação do Verbo, de que Deus se fez homem, nasceu de uma mulher como diz São Paulo (cf. Gl 4,4) e está presente. A Ave-Maria abre uma fenda na mentalidade relativista, porque Maria é a maior inimiga dessa mentalidade para a qual tudo caminha para o nada, para a destruição, para o absurdo e o non sense. A recitação meditativa da Ave-Maria é o maior inimigo que o relativismo possa encontrar.

Por fim, segue abaixo o que o Beato Bártolo Longo (1841-1926), que construiu o famoso Santuário de Nossa Senhora do Rosário de Pompeia, em 1887, falou a respeito do Rosário:

"Ó Rosário bendito de Maria, doce cadeia que nos prende a Deus, vínculo de amor que nos une aos Anjos, torre de salvação contra os assaltos do inferno, porto seguro no naufrágio geral, não te deixaremos nunca mais. Serás o nosso conforto na hora da agonia. Seja para ti o último beijo da vida que se apaga. E a última palavra dos nossos lábios há-de ser o vosso nome suave, ó Rainha do Rosário de Pompeia, ó nossa Mãe querida, ó Refúgio dos pecadores, ó Soberana consoladora dos tristes. Sede bendita em todo o lado, hoje e sempre, na terra e no céu".

sexta-feira, 26 de junho de 2009

Michael Jackson e a destruição do humano


Michael Jackson

Ontem, por volta das nove da noite, eu acordei. Dormei a partir das oito porque acordei às cinco e meia da manhã enquanto fui dormir às uma e meia do dia anterior. Vi que uma amiga minha tinha me ligado e retornei a ligação. Além do convite para uma festa, ela me contou que Michael Jackson tinha morrido. Eu tomei um susto. Imediatamente fiquei abalado, e depois me surpreendi chorando à meia-noite vendo no Jornal da Globo a morte de Michael Jackson. Logo depois rezei uma Ave-Maria pela sua alma, que ela encontre a paz que tanto anelava nesta terra.
A morte de Michael Jackson é a morte do homem plenamente moderno. É o sinal mais do que evidente de falência da mentalidade que nos circunda. A morte de Michael Jackson é verdadeiramente a morte do homem. Porque Michael Jackson é mais do que o símbolo, mas é a evidência mais perfeita da nossa época, a era mais tenebrosa e gélida de toda a História. A vida (e a morte) - se quisermos ser sábios - de Michael Jackson têm muito a nos ensinar, porque Michael Jackson é "a mais fina flor da época moderna". Michael Jackson, plenamente moderno, colheu todos os frutos das promessas da nossa época: fama e sucesso, mas também solidão e abandono. Um dos homens mais famosos do mundo morreu triste, solitário e endividado.
Ontem eu vi no jornal que "Michael Jackson não soube lidar com a fama". Isto não é verdade! A mídia simplesmente o destruiu, tão-somente porque ela precisa disso, precisa erigir seus ídolos e depois destrui-los, como por exemplo faz agora com Amy Winehouse, dá lucro para a grande mídia os escândalos e as bizarrices desses grandes famosos.
Mas o que está em jogo aqui é muito mais profundo do que tudo isso. O que está em jogo é a concepção de homem.
O que é o homem? O que pode torná-lo feliz?
Será mesmo que o homem não tem uma natureza e é completamente maleável, como ensina a mentalidade dominante? Será que podemos impor à realidade os nossos caprichos sem ter que pagar nada por isso? Será que o caminho da felicidade não é um dado objetivo, mas é definido pelos nossos caprichos e infantilidades? O que está em jogo aqui é isso, e Michael Jackson foi a pessoa que mais levou a longe (ou melhor a sério) os preceitos modernos. Porque, por mais que nos afirmemos "modernos", somos muito tradicionais, objetivos, por mais que defendamos certas coisas nos discursos - graças ao fenômeno da paralaxe cognitiva (que é a separação entre a razão e a experiência, a vida e o pensamento) - somos muito mais objetivos e aderentes ao real do que imaginamos.
A morte prematura de Michael Jackson é a morte prematura do humano. E o humano morre prematuramente porque vem sendo agredido, vem sendo destruído, dilacerado por ideologias burguieso-radicais, como a sociologia do conhecimento, que em nome de um relativismo absoluto (o que é uma contradição em termos, ou seja, um absurdo), afirmam que não há natureza humana e que tudo não passa de uma mera construção social. Michael Jackson é mais fina flor de tudo isso.
Ontem, eu fiquei observando o famoso clip "Thriller". Aqueles zumbis que aparecem ali não surgem à toa. Porque a arte não é algo aleatório. A arte é a expressão do humano, e a expressão do humano que vive agora, ou seja, expressão da época e do meio no qual vivemos. Trocando em miúdos, isto significa que aqueles zumbis são a expressão perfeita do estado humano das pessoas da nossa época: zumbis, qeu servem a um poder, sem pensar, como admiravelmsnte os Cranberries cantam em Zombie (1994): http://www.youtube.com/watch?v=HJEySrDerj0.
Sem sombra de dúvida, Michael Jackson foi um grande artista, e não é sem razão de ser que ele encarnou perfeitamente o espírito da época e lhe deu vazão e expressão, consciente ou inconscientemente. Mas Michael confirma aquilo que outro grande artista, o poeta Bruno Tolentino (1940-2007) já disse: "o artista é aquele que tem uma fome e sede de verdade, de beleza, de felicidade, de liberdade muito grandes, que o incomodam instante após instante, e que entram em decadência se não encontram a resposta".
Michael Jackson inconscientemente é um profeta. Sua vida é um grito. Ela é a prova mais evidente de que algo está muito errado em nossa época, em nossa culturas, no modo de conceber a nós mesmos e aos outros. Algo está muito errado na era mais gélida e terrível da História, esta era de solidão e desamor. Que este apelo não seja ignorado. E que possamos reconstruir o novo nos escombros do velho.

terça-feira, 9 de junho de 2009

A razão da vida


Fra. Angélico. Visitação de Maria à sua prima Isabel.

Em abril, um amigo me fez a seguinte pergunta que cravou-se em mim, de alto a baixo: "Por que você vive?"
Ali foi uma verdadeira palavra de Deus. Porque São Paulo fala que a palavra de Deus é viva e eficaz, rasga de alto a baixo, separando juntas e medulas.
Por que vale a pena viver? Por que vale a pena trabalhar, acordar cada dia, enfrentar as circunstâncias alegres ou dolorosas?
"Por que você vive?"
Essa pergunta tornou-se minha: "por que eu vivo?"
Essa pergunta profundíssima é o que Heidegger chama de a exigência de autenticidade. É a pergunta do homem verdadeiro, do homem que inicia o caminho da santidade.
Hoje é o mundo do "se", diz Heidegger: come-se, trabalha-se, veste-se, diverte-se. Hoje vivemos no mundo da inautenticidade. O "eu" é dissolvido na turba e na multidão, na moda, na ideologia e na alienação. Então esta é a pergunta de quem deseja a vida-vida, e não o mundo do "se", é a pergunta de quem deseja ser verdadeiramente "si mesmo". Pois, que dará o homem em troca de si? - diz Jesus no Evangelho.
"Por que eu vivo?", poderia ser trocada pela frase: "o que me move? O que me põe em movimento?"A resposta só pode ser uma: foi e é um olhar, um abraço, um amor! Fui e sou amado, perdoado, acolhido, abraçado e resgatado por um olhar que chegou ao profundo da minha pessoa, e que transborda! Antes eu me movia querendo ser amado, hoje me movo porque eu fui e sou amado, e, portanto, a partir disso, me movo porque eu amo! Os meus movimentos, certos ou não que estejam, no fundo, são movimentos de amor, porque eu fui e continuamente sou amado, e que é objeto de amor, não pode deixar de ser sujeito do verbo amar. A imagem de Fra. Angélico acima é impressionante: Maria foi amada e abraçada por Deus de tal forma, que imediatamente partiu e foi visitar a sua prima Isabel, e passou três meses com ela, sendo a imagem viva da caridade ardente e viva!
Experimentei isso quando abracei Vicky em Nova York. Ela abraçou a mim, a minha pessoa - e não um abraço formal qualquer - porque ela mesma foi abraçada. Ela ama, porque foi e é amada, vive por um olhar, por um amor, e ela mesma ama agora. Vivo porque amo.
Vi uma história parecida com a de Vicky com uma senhora chamada Zaira, de Londrina, no Paraná, durante os Exercícios Espirituais da Fraternidade de Comunhão e Libertação. Ela era uma pessoa que se considerava falida: divorciada, com problemas de relacionamentos com os filhos e por fim, teve a própria empresa destruída por um incêndio. Acabou se deprimindo. Mas, uma moça de São Paulo, Gislaine, que tem família por lá, a encontrou e confiou em seu potencial. Depois de muita insistência, esta senhora recuperou a confiança em si mesma, reconheceu que tinha um valor precioso e que não era definida pelas circunstâncias que passou, e desde então resolveu - confiando em Gislaine - apostar em vender bijuterias em São Paulo. O sucesso foi tanto que ela foi expor no Meeting de Rímini pela Amizade entre os Povos, e além de realizar o seu sonho de ir à Itália, não só conheceu, como conversou com Vicky. Depois ela disse: "assim como a Vicky foi salva pelo olhar da Rose, eu fui salva pelo olhar da Gislaine". Ela retomou o trabalho, e o mais bonito é que agora diz que contratou uma senhora que está com dificuldades financeiras para ajudá-la. Ela olhou para esta senhora como ela foi olhada antes. Por isso, todo o segredo está mesmo no "algo que vem antes". O amor gera amor, o protagonista gera protagonistas! Eu fico oomovido ouvindo histórias como estas! E o mais bonito de tudo é o sorriso de dona Zaira! Como diz Santo Irineu: "A glória de Deus é o homem vivo!"
Isso é como as obras de Cleuza. Quem faz uma obra como aquela? É de verdade quem foi amado até a medula. É de verdade quem ama Aquele que o amou primeiro. Por isso, os santos foram e são, antes de tudo, empreendedores, são homens e mulheres, que diante das necessidades do outro não souberam se contentar com as meias-medidas ou com a inautenticidade deste mundo, marcado pela indiferença e pelo egoísmo. Por isso, Giussani diz que o santo é o homem verdadeiro, é o homem autêntico, em é o homem-homem que vive a vida-vida, é aquele que transcende a inautenticidade que a maioria vive, e salva a História! O santo salva a História porque salva o homem! A razão da vida é o amor, é aceitar ser amado e amar! O amor a Cristo, o Divino Mendigo, que pede de joelhos para entrar na nossa vida, é a razão pela qual vale a pena viver! Porque "viver" só pode ser sinônimo de "amar".

terça-feira, 2 de junho de 2009

Bruno Tolentino e a universidade brasileira


Bruno Tolentino (1940-2007)

Versão completa em http://www.plataforma.paraapoesia.nom.br/2005btentrevista.htm

CR.: Nestes tempos em que cada vez mais se reivindica uma universidade pragmática e aliada ao desenvolvimento tecnológico, é bom lembrar o que disse Otto Maria Carpeau, em seu livro A Cinza do Purgatório: "As velhas universidades são de utilidade muito reduzida. Elas não formam homens práticos; formam o tipo ideal de nação: o lettré, o gentleman, o gebildeter". Para ele, estas forjaram " a história espirirual das nações". Entre os dois tipos, com qual se identifica a universidade brasileira? Com qual deles você se identifica?

BT.: O homem moderno está infelicíssimo com o cadáver de um rei inchado na barriga... É o cadáver do humanismo prometéico que há cinco séculos vem "nascendo" aos pedaços: o racionalismo, o ateísmo, o espiritismo, o positivismo, o cientificismo, o darwinismo, o marxismo, o impressionismo, o expressionismo, o dadaísmo, o surrealismo, o cubismo, o vanguardismo, o dodecafonismo, o comunismo, o fascismo, o stalinismo, o terceiro-mundismo, o existencialismo, o satanismo, o sadhanismo, o bushismo, o budismo, o pacifismo, o peronismo, o cheguevarismo, o fidelcastrismo, o modernismo, o pós-modernismo, o nudismo, o pós-nudismo, o versolibrismo, o desconstrucionismo, a Marxilenaxuxauí, o Santo Daime e o Doutor Enéas, sem falar da USP e do pós-uspianismo... Tudo isso por aqui deu no Gianotti, no Fernandinho Beira Mar, no Elias Maluco, no casal Garotinho e no Piscinão de Ramos, enquanto por lá deu na arte do genoma e da clonagem, ou seja, no bebê de proveta com a Líbia do Doutor Gadhafi de guardiã dos direitos humanos segundo a ONU... Em meio a um tão animado bundalelê, meus amigos, eu não prefiro esta ou aquela universidade, prefiro ler Dante e aguardar a Paurosia, afinal, que os mutantes se divirtam, eu creio no Divino Espírito Santo, na Santa Igreja Católica Apostólica, na remissão dos pecados, na comunhão dos santos, na ressurreição da carne e na vida eterna, Amém.