segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

Porque eu gosto do rock


Dolores O'Riordan, do The Cranberries: "A salvação é grátis!"

A muitas pessoas causa surpresa quando eu digo que gosto de rock. A algumas porque sabem que eu sou católico, e para elas, supostamente, rock seria "coisa do diabo"; para outras, porque eu não "tenho perfil", ou seja, não sou depressivo, ou pra baixo, ou calado, ou só, ou que gosto de trevas e escuridão. Em tese, esse é o estereótipo do "roqueiro" para muita gente. Bom, o fato é que muita gente se surpreende quando digo que gosto mesmo de rock (embora também goste de MPB, de música clássica, de canto gregoriano...)
A primeira razão para eu gostar de rock é que eu sou um homem do meu tempo, e o rock "ecoa" nas profundezas dos nossos corações de homens e mulheres pós-modernos. Cada dia que passa eu me dou conta de que quem quer conhecer o espírito de uma época, deve conhecer a arte desta época, incluindo a música. Quem quer conhecer o espírito do nosso tempo, globalizado e pós-moderno, deve conhecer o rock em todas as suas manifestações. E eu não digo apenas nos aspectos técnicos da coisa, que são os que menos me interessam, mas me interessam mesmo os aspectos humanos, me interessa no rock o grande grito que o homem é e que transparece, de modo inexorável, em todas as suas manifestações, e muitas vezes de forma muito aguda, em letras muitas vezes taxadas como superficiais e "revoltadas".
Como toda grande arte é uma profecia, o rock também tem os seus profetas. Equivoca-se totalmente Raul Seixas quando afirma que "o diabo é o pai do rock", eu acho que o pai do rock é o desejo de autenticidade inscrito em nossos corações, desejo que explodiu em 1968 em um mundo revoltado com aquilo que a modernidade criou para nós: um mundo de guerra, desespero e ódio, como vemos acontecer na Palestina agora. 1968, o ano que não terminou foi a revolta contra esse mundo que prometeu o paraíso na Terra, e só trouxe a jaula de ferro de Max Weber.
Eu vejo o rock mesmo como uma profecia e uma oração. Mesmo as letras mais desesperadas, como as de Nirvana (que profetizavam o tiro que Kurt Kobain se daria em 27 de abril de 1994), no fundo é um grito exigente de felicidade: a quem? A quê? Porque esperamos, se ninguém nos prometeu nada? Por que há o grito, se não haveria quem o escutasse?
Isso pra mim só revela aquilo que já intuo: todo o rock é permeado por um desejo daquela plenitude que um dia chamávamos de "Cristo". Isso é tão verdadeiro, que quando um cristão faz o rock, como Dolores O'Riordan, do Cranberries, não apenas porta o grito, mas a resposta: aquilo que nós mais desejamos - felicidade, liberdade, amor, verdade, autentidade, efetivamente existe e pode ser encontrado. Todas as músicas do Cranberries, de forma direta ou indireta demonstram isso.
Eu fiquei muito comovido, quando li no You Tube, nos comentários da música Salvation, uma pessoa que escreveu agradecendo a Dolores e ao grupo, dizendo que aquela música, que passava repetidas vezes na TV, salvou a vida dela, que na época estava com problemas com os pais e prestes a entrar no mundo das drogas. "Esta música salvou a minha vida!", dizia o texto! Eu chorei de comoção lendo! A existência do rock, desse desejo vivo no coração dos homens é a maior prova de que a resposta a esse desejo existe dentro da realidade (ou tudo é como disse Shakespeare, "uma fábula contada por um idiota num acesso de raiva" - Macbeth V, 4). O rock é profecia do Mistério, e por isso eu gosto tanto!

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Sonic, the hedgehog: hoje ele faz 17 anos!

Em tempo: hoje é aniversário de Sonic, the hedgehog (Sonic, o ouriço), da Sega. Sonic completa 17 anos de lançado hoje. Há algum tempo, um amigo me disse que os jovens de hoje são muito influenciados por desenho animado, super-heróis, Pink e cérebro etc., aí eu fiquei pensando: "em quem será que eu me inspirei?", eu pensei "só pode ter sido por Sonic!" Nos anos '90 eu era um verdadeiro viciado em Sonic, mas até hoje eu jogo (o que eu prefiro é o Sonic 3). Sonic é corajoso e aventureiro, luta para libertar os animais da escravidão de Dr. Eggman (Robotinik). O que eu mais gosto, além do espírito de aventura e coragem, que de certa forma, marcam o meu espírito, é o claro delineamento entre bem e mal. Bem é bem: Sonic, mal é mal: Eggman (Robotinik). O bem é a liberdade, o mal é a escravidão. Robotinik usa a tecnologia para destruir e escravizar a natureza. Sonic evidencia que é um mal usar a tecnologia para esse fim, lembrando de Admirável Mundo Novo. Bem, esta foi minha influência. Agradeço à Sega por ter feito esse jogo que deve ter influenciado muitos jovens positivamente pelo mundo afora e à vida por ter me feito encontrar esse jogo e ter gostado dele (em meio a tantos nos quais a fronteira do bem e do mal é desvanecida, como Mortal Kombat, por exemplo).

sábado, 27 de dezembro de 2008

Diante do Terror sem fim

Um dos meus desejos mais fortes quando chegar à Nova Iorque é visitar o Ground Zero, construído em homenagem aos quase três mil mortos no atentado de 11 de setembro de 2001. Quero visitar não por ser "pró-americano" ou coisas do tipo, sabendo que morrem milhões no Oriente Médio ou no Sudão, por exemplo, mas porque ali morreram pessoas que tinham o mesmo desejo de felicidade que eu tenho e sou.
Uma das coisas que mais me impressiona é porque nós gostamos tanto de esportes, não somente no Brasil, mas no mundo. Ontem, eu acho que tive a resposta: assistindo a Retrospectiva 2008, como faço todos os anos, fiquei impressionado como as boas notícias só vinham mesmo do esporte (salvo a solidariedade à Santa Catarina, vi pouquíssima notícias boas). Por isso, gostamos tanto dos esportes, porque nos trazem boas notícias e realizam a exigência de unidade (posso falar a palavra amor?) inscrita no mais profundo do nosso coração.
Outra pergunta que me vem é: como estar diante do Terror sem fim, como o que por exemplo, assola agora a Palestina novamente? Porque diante de tamanha selvageria, tendemos a perder a fé na vida, na positividade do real, e a esperança que vem justamente de existir dentro de toda esta realidade, uma outra coisa, da qual Tereza de Calcutá, por exemplo, é somente um sinal.
Mas como estar diante do terror? Um grande passo de maturidade é saber que não seremos nós a dar as soluções, quem já tentou, às vezes produziu males ainda piores do que aqueles que tentou debelar. Eu penso que o passo, mesmo humilde e humilhante às vezes, é seguir o caminho de Tereza de Calcutá: responder a uma realidade concreta que tenho à minha frente, como diante de alguém que se afoga, não filosofar, culpar o governos, ou os outros, mas pular e salvar esta pessoa. Somente se uma mentalidade desta se espalha, é que o mundo será outro, e diante do terror, não há nada a fazer, a não ser negociar, esperar, calar, rezar, e enxugar as suas feridas e as suas lágrimas ...

quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

O insulto de Veja e o real significado de Darfur


Refugiados em Darfur, Sudão

A revista Veja publicou uma reportagem que eu considero um insulto, não somente aos cristãos, mas a todos os homens de boa vontade. A cereja do bolo foi o artigo de Reinaldo Azevedo "Que Deus é este?", que foi no mínimo uma canalhice.
Sinceramente, eu nunca vi algo mais deplorável, mais cínico, mais mal caráter que o que a Veja fez nesta semana. E com que intuito? Tirar a fé, e com ela a esperança, e o amor das pessoas, e justamente na semana do Natal, que vem nos relembrar o fato mais importante da História: o nascimento de Jesus Cristo!
A fé é justamente o reconhecimento de que existe algo de novo, "a mais" na História, um fator a mais que não o nosso costumeiro ódio, terror, medo e rivalidade. Há 2000 anos, no meio das guerras intermináveis, do ódio, da opressão e da revolta, um homem ousou dizer: "amem-se uns aos outros como eu amei vocês!" É impressionante porque esse homem, Jesus, é a introdução do amor no mundo. Não foi um simples profeta a anunciar o mundo futuro, mas construiu a partir dos apóstolos aquilo que iria mudar a face da Terra: uma amizade universal guiada, que existe até hoje, e nós conhecemos com o nome de "Igreja" (que em grego significa re-união: a Igreja é a re-união da humanidade dividida). Quem tem fé reconhece que Ele só pôde fazer isso porque era o próprio Deus feito homem. O amor é a maior "prova" da divindade de Jesus; é humanamente impossível.
Esta história iniciada por Jesus e marcada por inúmeras contradições (para quem quer me apontar as contradições da Igreja, basta lembrar que o traidor pertencia ao próprio grupo dos preferidos de Jesus), deu frutos cujo "perfume" é visível até hoje: a valorização da mulher, o reconhecimento da sacralidade da vida, a criação das escolas, dos hospitais e das universidades, a salvaguarda do patrimônio cultural da Idade Antiga, a civilização dos bárbaros, entre inúmeras outras coisas, que na maior parte dos casos, damos por óbvio, mas que devemos a Jesus Cristo e à Igreja fundada por Ele. Realmente, a imagem do homem moderno é Barrabás. Barrabás é o homem salvo por Cristo que não se dá conta disso. Fomos e somos salvos por Cristo, ainda nesta vida e não nos damos conta disso!
Uma das coisas mais impressionantes que eu observo é em relação à exigência de justiça. Quase todos os meus amigos que são "de esquerda", marxistas ou coisas do gênero, ou seja, pessoas que têm uma profunda exigência de justiça, tiveram contato com a Igreja! Foi justamente a Igreja, tão repudiada, que despertou neles essa exigência, que depois correm para saciá-la em outro lugar, quando o apóstolo São Paulo diz que a justiça "é a fé", isto é, reconhecer as obras de Deus. A obra de Deus é a pessoa mudada, como Tereza de Calcutá, por exemplo. Que existiu uma mulher como ela é motivo de esperança! Mas ela não é a única, como ela, existem aos milhares, aos milhões, pessoas que doam a própria vida ao outro "por amor a Jesus". Estas são as testemunhas silenciosas de "um outro mundo possível" pautado pela esperança.
Como a Veja pode publicar aquela foto - uma paródia quase satânica - dizendo que Darfur desafia "o simbolismo" do Natal? Ora, o Natal não é "um simbolismo", é um fato, uma criança que nasce; e Darfur desafiaria o Natal se somente ela existisse, se não existissem essas testemunhas anônimas na maior parte dos casos, que são o sinal e o começo do "outro mundo possível", porque fundado no amor, isto é, em Deus, porque Deus é amor.
Pois bem: eu fiquei chocado lendo o artigo de Reinaldo Azevedo porque ele se diz católico, e eu vi ali um atentado à fé, eu vi ali um insulto a todos os cristãos, somado à separação que ele operou entre fé e razão, tão condenada por João Paulo 2º e por Bento 16 (em 1998, na encíclica Fides et Ratio - Fé e Razão, João Paulo 2º afirmou que a fé e a razão são as duas asas pelas quais se eleva o espírito humano e que se falta uma, o espírito não decola). É verdade que precisamos de Cristo para viver com a Razão, mas somente porque Ele nos amou e nos ama. Ele nos ensina a viver com amor, a amar. Ele é a Razão-Amor, e viver com a Razão significa amar. O mundo moderno, que perdeu a fé, o reconhecimento deste fato extraordinário no meio de nós, vive em desespero e ódio. Que é o Mal? Desespero e ódio, em suma, niilismo. E qual a origem de tudo isso? A perda da fé. Sem fé, não há esperança e muito menos amor. Basta olhar para os lados.
E qual o significado verdadeiro de Darfur? Eu sinto muita dor quando eu penso que a dor daquelas pessoas está sendo utilizada pelo poder de uma forma tão mesquinha e ainda mais para tirar a fé das pessoas, sabe-se lá com quais propósitos. Darfur representa o fracasso do sistema internacional. O sistema internacional é impotente para impedir que "um ridículo tirano" - como canta Caetano Veloso - de um rincão da África extermine o seu próprio povo. Isto prova que o sistema internacional é uma piada completa. Quando eu me dou conta do que acontece em Darfur, eu não perco a fé em Cristo, como se Jesus ou a Igreja fossem os responsáveis pelo que acontece ali, eu olho o sistema internacional de forma mais realista e menos idolátrica.
O sistema internacional, tal como nós o conhecemos hoje, remonta aos míticos "Tratados de Westphalia", que aconteceram por volta de 1648. Concretamente, significou que os Estados Nacionais, já formados, regulariam-se uns aos outros, sem a intermediação do Papa. Westphalia significa a ateização da política. Significou dizer que "Deus, o Mistério, Cristo não entra aqui nesses assuntos". Wetphalia foi o início da autonomização que acompanha o homem desde o século XVII até os dias de hoje. O resultado de Westphalia foi a construção do "sistema europeu" de Estados (centrados no Reino Unido, na França e no Império Russo), que garantiu ao Reino Unido ser "o império que não via o sol se pôr", à França dominar boa parte da África e à Rússia expandir-se até às bordas do Japão. Foi este mesmo sistema europeu que engendrou a Tríplice Entente (formada pelos três impérios citados) e por fim, à Tríplice Aliança (Alemanha, Itália e Império Áustro-Húngaro), gerando uma disputa por hegemonia que, para quem não lembra resultou na Primeira e por fim na Segunda Guerra Mundial (o detalhe que ninguém sabe que a Segunda Guerra só acabou quando duas cidades japonesas católicas - Hiroshima e Nagasáki - foram destruídas, sacrificando milhares de católico ao ódio do poder), que liqüidaram juntas a vida de dezenas de milhões de pessoas.
Depois do fim da Segunda Guerra, se organizou a ONU e o sistema europeu, tendo já assimilado a URSS e seus satélites, incorporou as ex-colônias e tornou-se "sistema internacional". A ONU que "lidera" o sistema internacional, já mostrou-se incapaz de conter inúmeras barbáries, crimes e atentados contra os direitos humanos das mais variadas espécies. Nas ex-colônias, triunfam ditadores das mais baixas categorias, muitas vezes impingindo uma opressão ainda maior que no tempo dos impérios absolutistas do despotismo esclarecido.
A situação é terrível: o Ocidente opulento vive, cinicamente, como se nada disso existisse, dezenas de milhões morrem sem que se faça quase nada, e uma revista de grande circulação nacional afirma que o genocídio em Darfur "ofusca" o sentido do Natal... pelo contrário, Darfur evidencia o fracasso da tentativa atéia do homem de dar-se a si mesmo a felicidade, de construir pelas próprias mãos a fraternidade universal sonhada por Immanuel Kant quando escreveu o panfleto Para a paz perpétua em 1795.
Ao contrário do que afirma a Veja e Reinaldo Azevedo, o Natal é a nossa única esperança. Ele é a afirmação mais potente de que - como afirma o poeta francês Péguy - Deus, o Mistério, o Infinito, o Logos, o Verbo, a Idéia, o Totalmente Outro, o Transcendente, o Eterno, Aquele-que-é, não só é a Suprema Razão e Sabedoria - o Logos - mas Amor, comoveu-se com o nosso mal e com a nossa dor, e veio habitar entre nós para reerguer este mundo novamente a si, começando o trabalho aqui mesmo e evidenciando que desde já existe aqui mesmo na Terra uma realidade nova, infinitamente mais verdadeira e que corresponde aos desejos mais profundos do nosso coração. Quem já encontrou a comunidade cristã - pessoas que reconhecem a Cristo e que são amigas entre si por causa dEle - sabe que este novo mundo existe, está à disposição de todos, e é a única esperança para o mundo, para o sistema internacional e para Darfur. Darfur grita: o sistema internacional falhou! Nós gritamos: a esperança para o mundo não é um novo sistema mais bem elaborado, é este Menino que trouxe o amor e a vida a nós e ao mundo.

sábado, 20 de dezembro de 2008

Queime depois de ler: a imitação da vida!


Frances McDormand e Brad Pitty

Ontem à noite vi um dos filmes mais inteligentes que já assisti: Queime depois de ler (EUA, 2008). Há um bom tempo não via uma combinação tão perfeita entre humor, inteligência, sátira, crítica e ironia.
O que é criticado neste filme tão interessante?
A nossa vida pós-moderna, que não é "vida", mas uma mera "imitação" desta; a pós-modernidade "pirateou" a vida. E nós todos embarcamos neste redemoinho infernal, como poetiza Bruno Tolentino sem nem nos darmos conta disso. A vida foi "pirateada", é imitada, porque vivemos no domínio da xerox, como Baudrillard inteligentemente se dá conta. Estamos na época da xerox, da cópia, da paródia. E o filme em si mesmo é uma bela paródia da forma como nós levamos a nossa vida.
Em primeiro lugar, o fim dos grandes ideais. Já que a História "acabou" (e isso é bem representado pela refrência claríssima à CIA e a Embaixada Russa, evocando a Guerra Fria), resta-nos simplesmente tocar a vida. Tudo se reduz a mera burocracia. Mais do que nunca a modernidade (avançada, agora dizem eles) mostra a sua "jaula de ferro".
O presente se reduz a vazio, os relacionamentos são totalmente deteriorados (representados pelas traições constantes e inúmeras), nenhum relacionamento duradouro é possível de ser mantido (mostrado pelas inúmeras mulheres "traçadas" por George Cloney - numa clara referência a Thomas de A Insustentável Leveza do Ser, que transou com praticamente todas as mulheres de Praga).
Além disso, temos a clara e evidentíssima crítica à academia, representada como o ápice da imbecilidade. Por quê? Tendo o homem perdido como meta os grandes ideais, que foram dissolvidos em nada, resta a ele somente o seu "si mesmo". E o seu "si mesmo" reduz-se ao corpo. Diante da ruína ao qual tudo se reduz, o corpo é a única realidade que - mesmo sendo uma massa compacta em eterna decomposição (Foucault) - parece ser eterna, como diz Bauman em Em Busca da Política (2000). Parece ser eterna em relação à fugacidade e obsolescência de todas as outras coisas na modernidade avançada, a começar pelos laços afetivos. A cena patética de Frances McDormand no consultório tentando fazer quatro cirurgias para "se reinventar" e todo o seu papel patético, ingênuo e solitário ao mesmo tempo, somado ao tipo idiota representado por Brad Pitty (ilustrando da melhor forma possível a geração MTV da eterna adolescência e imbecilidade) mostram a academia como o símbolo mais perfeito da estupidez que é o paradigma da sociedade pós-moderna.
O ex-espião da CIA (John Malkovich) é símbolo, junto com a sua mulher (Tilda Swinton) do casal na pós-modernidade: o que os une é o dinheiro e um bom emprego na burocracia estatal. Após essa perda, esta tenta divorciar-se dele "por ser idiota", e por fim, some com todo o seu dinheiro. A pateticidade é que ele descobre que ela lhe trai e mata por engano um cara que não tem nada a ver com a história, dado que estava no lugar errado na hora errada. Ela também representa junto com o gerente da academia, a revolta com a vida e a desesperança em relação a ela.
O "fio" de toda a história são as memórias de Osbourne Cox (John Malkovich), algo totalmente sem importância, dado que ele era do baixo escalão da CIA. Por causa destas memórias, que caem nas mãos de Chad (Brad Pitty) e Linda (Frances McDormand), inicia-se toda uma perseguição que culmina na morte de Ted (Richard Jenkins), morto por Cox (John Malkovich), que termina em coma, e Chad (Brad Pitty), morto por Harry (George Clooney). As "memórias" são devolvidas à CIA e Linda (Frances McDormand) garante não falar nada se a CIA pagar suas quatro cirurgias plásticas.
Esta tragédia pós-moderna é trágica inclusive no seu fim. Todo este drama é como se fosse nada, dado que "do alto do céu" (representado pelo Google Earth) todo o drama some, é como se fôssemos meras formigas, nada, pó, zero! Saí "com um gosto amargo na boca" justamente por isso: o filme sub-repticiamente afirma que "tudo é nada", ou seja, absurdo, a conclusão que todo pensamento non sense chega. É um tudo é nada que é desesperador. Se não há nada, por que há o drama? Por que há grito, se não haveria nada nem ninguém a nos ouvir?
Clarice Lispector disse: "Há o direito ao grito, então eu grito!" Eu penso que esse grito é a única possibilidade de não enlouquecer, é a única possibilidade de fazer a bolha na qual nos encapsulamos explodir, a única chance de romper com as nossas medidas mesquinhas, a única maneira de explodir os nossos limites. Esse grito é a plenitude da humanidade, o grito de que esse "si mesmo", essa adoração dessa "massa compacta que se decompõe sem cessar" é uma loucura, esse grito é o início da liberdade, é o sinal mais vivo de alguém que é realista. Houve um tempo que esse grito foi chamado de oração, e no qual o Natal era visto como a resposta mais potente e ao mesmo tempo imprevista a esse grito: desde estão não estamos sós com os nossos dramas. É a única possibilidade de esperança para a vida!

domingo, 14 de dezembro de 2008

Um juízo sobre o caso Susana Vieira


A atriz Susana Vieira

Anteontem, eu fiquei chocado quando soube das circunstâncias da morte do ex-marido da atriz Susana Vieira, o ex-policial Marcelo Silva.
O caso, que hoje é capa de Época e Veja, é emblemático da nossa situação em plena pós-modernidade, a era "do derretimento dos laços afetivos", como já diria Zygmunt Bauman, e da emergência de todas as loucuras possíveis, em virtude do tornar-se solitário dos sujeitos, que cada vez mais são somente "si mesmos", já dizia Lyotard em 1979.
Não é fácil ter laços afetivos, ter afeição, amar. Em primeiro lugar a si mesmo. Por isso a virtualidade cresce em disparada. Eu mesmo já fiquei - em 2005! - cinco horas no orkut, quando eu vi que alguma coisa estava errada. Fiquei chocado, no início do ano passado, quando um amigo me disse que discutiu com outro acirradamente até o fim da madrugada - pelo messenger!
O fato é que é cada vez mais difícil con-viver! Octavio Ianni diz que "a única coisa que une as pessoas hoje é o projeto!" Eu acho esta nossa época muito triste! Por um lado, graças à Revolução da Telemática, temos um arsenal jamais imaginado de técnicas e ferramentas que podem tornar a nossa vida com uma qualidade jamais imaginada antes, por outro, graças à progressiva perda do significado e do sentido da vida (que é "a mais urgente das questões", diria Albert Camus: quem sou eu? O que faço aqui? Qual a minha tarefa perante o cosmos e a história? Qual o meu destino?) leva as pessoas (pelo medo da vida e do sofrimento sem sentido - não temos medo do sofrimento, temos medo do non sense, pois Vinícius de Morais já disse: "aquele que passou pela vida e não sofreu, apenas passou pela vida, não viveu", viver implica sofrer, para através disto, crescer e chegar à plenitude) a se isolarem e se justaporem umas às outras, como se fôssemos meros tijolos do "edifício social" ao invés de pessoas humanas que desejam nada menos que o Infinito.
É neste ínterim que se insere o caso de Susana Vieira. Desde o início, eu percebi que havia alguma coisa de "mentira" neste caso. Eu acho que é muito importante observar com cuidado e atenção esta história, porque ela revela a mentira da época na qual nós estamos vivendo.
Que mentira é esta? A mentira de que o homem (e a mulher) podem tudo, que não há limites, que não há conseqüência para os atos. Pois bem: é isto que eu vejo desde que este caso de Susana Vieira começou a aparecer na mídia, inclusive o fato da atriz se submeter a lipoaspirações e a cirurgias para disfarçar o fato dela ter 66 anos! Não se trata aqui de moralismos, como se tudo fosse uma condenação pelo que ela fez, eu acho que é algo mais profundo. Por que esta atriz fez isto? Por que tudo isso?


Ícaro, de Henri Matisse (1943): o coração do homem é sede de INFINITO

Antes de mais nada, porque queria ser amada. Ela evidencia que o mundo da arte é cheio de vazio e insatisfação, brigas, invejas e traições, e que toda a fama e dinheiro que ela tem são incapazes de satisfazer às exigências mais profundas do seu coração. Sem poder confiar em ninguém mesmo como amigo ou amiga, numa situação de fragilidade afetiva, não resiste certamente à lábia do ex-policial Marcelo Silva, que também é vítima da nossa sociedade, morto por uma overdose de cocaína há dois dias atrás.
A nossa tentação é a banalidade, reduzir tudo ao banal e ao comum. Daqui a alguns meses, este será mais um caso conhecido e esquecido, ninguém emitirá nenhum juízo e nem questionará os fundamentos de tal tragédia, no máximo emitirão certos "juízos" moralistas que não levarão a lugar nenhhum.
Eu penso que o problema de fundo é um problema afetivo. O problema humano de longe é um problema intelectual. O nosso problema é afetivo. Nós temos uma exigência estrutural infinita de sermos amados, abraçados, acolhidos, incondicionalmente. Todos os problemas que advém em nós vêm daí. Como consertar um país? Uma casa? Uma pessoa? Amando-a! Só o amor é que pode levar alguém a superar a si mesmo! Como o caso de Vicky, uma aidética de Uganda, que mudou totalmente de vida depois que foi "magnetizada" pelo olhar amoroso de Rose, responsável por uma obra que cuida de doentes de Aids, em Kampala. Eu mesmo só sou o que sou por fui alvo também de um olhar amoroso desta forma. É só este olhar que pode despertar todas as potencialidades da pessoa (as famosas "potencialidades" que Amartya Sen tão bem reconheceu!) É só o amor que pode promover o verdadeiro desenvolvimento, das pessoas e dos povos! Fora isso, todo o resto é burocracia asséptica e ineficaz, como tão bem conhecemos, e que no fim, gera mais mal do que bem, porque reduz tudo à mera mecânica!
O que faltou a Susana e a Marcelo foi encontrar um olhar amoroso que os amassem pelo que eles são, e não pelo dinheiro, pela fama ou por favores sexuais. As pessoas hoje se submetem e fazem todas as espécies de loucuras por uma única razão: desejam ser amadas.


Krippenszene (Adoração do Menino), de Gerrit von Honthorst (1620): o Infinito Se fez presença e habita entre nós!

Eu acredito em Cristo! Reconheço que esse amor é impossível a nós e foi introduzido por esta presença nova que os apóstolos trataram de espalhar e que chega até mim através de um povo "sui generis", que é a Igreja. É a sua diminuição, inclusive do seu impacto que gera situações como essa. "O amor em muitos esfriará!", previu São Paulo.
A Igreja não "inventou" o amor, mas é ela que o espalhou e espalha pelo mundo. Não existia a percepção de amor incondicional - charitas, dom de si para o bem do outro - antes da Igreja, isto é um fato. Penso que o melhor que eu posso fazer por Susana Vieira e por seu ex-marido morto, além de rezar por eles, é pertencer a este povo, "comunidade de amor" - diria Bento XVI - no qual somos educados a crescer nessa forma de vida, inclusive na percepção de que o amor é uma coisa pesada, distante da sua comum visão romantizada.
Na Coleta Nacional de Alimentos eu percebi o quanto é difícil o amor gratuito (porque as pessoas são muito grossas, incompreensivas, desconfiadas etc). Participar daquele gesto, durante um dia - e de sua preparação meses antes - para pessoas que eu nunca verei, provavelmente, ou foi pelo fato de ter sido atingido por uma amor anterior, enfim, pelo fato de me reconhecer infinitamente amado, ou simplesmente não aconteceria. A minha simples boa vontade não geraria um gesto como aquele. E é disso que o mundo precisa: de amor, ou seja, de Cristo e da Igreja, deste povo novo, "um mistério de amizade", na qual o Infinito se torna presente, incompreensível para quem não a conhece, e que muda a mim mesmo e o mundo, para melhor.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

Clarice Lispector


Clarice Lispector

Hoje é aniversário de Clarice Lispector. Gosto muito de Clarice Lispector não somente por um gosto estético, literário, ou porque ela é a maior e mais profunda escritora do Brasil, gosto de Clarice porque tenho uma relação pessoal com ela. Eu posso dizer que Clarice Lispector, de uma certa forma, me introduziu no Mistério. Porque ela mesma diz em A paixão segundo G.H. "Se a 'verdade' fosse aquilo que posso entender - terminaria sendo apenas uma verdade pequena, do meu tamanho." Clarice nos introduz na nossa grandeza de homens, que é a aceitação do Mistério.
Quem é Clarice Lispector? Não me alongo em descrições meramente exteriores, onde nasceu (Ucrânia), em que ano (1920 - há alguns que dizem que foi em 1925), em que tipo de família (judia), onde morou (Recife - na colônia judaica, e no Rio), nem o que estudou (Direito), nem com quem casou (um diplomata) e quantos filhos teve (dois).
Quem é esta mulher? Esta é a pergunta que nasce quando se lê seus contos, ou livros, ou crônicas (ela foi jornalista também), quando se assiste a sua última entrevista na TV Cultura (em 1977, ano de sua morte), ou quando se visita uma exposição em sua homenagem (como eu fiz, maio do ano passado, em São Paulo).
Quem é Clarice Lispector? O que marca a sua obra? Qual a sua contribuição? Qual o seu mistério, qual a sua novidade?
A novidade de Clarice Lispector é a simplicidade, é o real, somente o real. Clarice é terrivelmente simples. Numa época na qual a complexidade é o que é valorizada, e com ela, as loucuras, as neuras, os traumas e as depressões; é a simplicidade que resplandece em Clarice.
Ela mesma disse: "as pessoas não me entendem porque eu sou simples". Clarice é de uma simplicidade que dói. Seus contos, novelas e romances são retratos muito enxutos e muito vivos do nosso cotidiano, da nossa vida simples, do nosso dia-a-dia. Mas Clarice tem um diferencial, ela não se limita a ser uma cronista que narra o que acontece no dia-a-dia da nossa existência, ela não torna a nossa existência uma mera clepsidra (clepsidra é um antigo relógio de água que o escritor Camilo Pessanha usa para batizar seu livro de 1926; num livro extremamente triste ele compara os instantes da nossa vida às gotas de água que caem da clepsidra: iguais em consistência e vazios em significado). Para Clarice, "o vazio tem o valor e a semelhança do pleno" e sua busca é pelo significado. Não é à toa que o título do seu primeiro romance é "Perto do Coração Selvagem" (faz lembrar o quadro Ícaro de Matisse, de 1943), que foi seguido por Água viva (clara referência ao Evangelho), A maçã no escuro (que é uma metáfora do drama do pecado - a maçã - e as conseqüências que adviriam deste - o escuro), e A Paixão Segundo o G.H. (que é uma sigla de "A paixão segundo o gênero humano", uma paródia de "a paixão segundo J.C." - Jesus Cristo).
O seu último romance, A hora da estrela, de 1977, começa assim: "Tudo no mundo começou com um sim. Uma molécula disse sim a outra molécula e começou a vida". Este trecho, aparentemente tão simplório, esconde uma verdade profunda: "tudo começa com um 'sim'", o que significa que o começo de tudo é marcado por duas liberdades.
Uma das características das histórias de Clarice são as "revelações" dos significados. As histórias sempre acontecem no cotidiano, e de repente acontece um fato que "revela" a pessoa a si mesma, é a epifania (manifestação de algo). A epifania retira a nulidade do sentido do instante e dá ao instante o seu pleno valor e significado. Assim, o instante que seria vazio e sem sentido, como a clepsidra, adquire densidade e plenitude. Comparando-se Clarice Lispector e Camilo Pessanha, se entende aquilo que diz Luigi Giussani, que "o coração do homem é a encruazilhada entre o eterno (o infinito) e o nada". Estamos no fio da navalha entre o infinito (a plenitude) e o nada. Tudo vem de uma fonte misteriosa, que é viva, e anima tudo criado, ou tudo corre inexoravelmente para a morte, e como entrar em contato com esta fonte misteriosa que anima tudo criado?
O método - segundo Clarice Lispector - é o fato, um fato que suspende a aparente normalidade do cotidiano, o óbvio ao qual nós inexoravelmente nos remetemos. Clarice vem nos dizer que nada é óbvio. As coisas não são óbvias, eu não óbvio, a vida não é óbvia, e vem nos perguntar: o que sou eu? O que é a vida? O que é tudo? (como nos pergunta o belíssimo poema de Drummond A máquina do mundo).
Com esta finalidade ela usa de recursos estilísticos muitas vezes chocantes.
A Paixão segundo G.H. é o caso de uma mulher que chega em casa e ao fechar uma porta, esmaga uma barata, da qual sai a gosma. A mulher olha a gosma, sente uma atração inexorável e come a gosma. Quando ela faz isso, rompe com todos os padrões e tabus da nossa sociedade e entra em contato com o real propriamente dito, e a partir daí começa uma viagem de conhecimento do real que ela faz pelo fato de esmagar a barata e comer da gosma da barata. Pode parecer loucura comer a gosma da barata, mas numa certa época da história, também se acho estranho que um homem dissesse: "Se vocês não comerem a Minha carne e não beberem o Meu sangue não terão a vida em vocês mesmos". A mulher comeu a gosma da barata e chegou até à vida, para além das meras convenções sociais e daquilo que é meramente convenção humana. Por fim, vejam que coisa tremenda ela diz em seu romance maravilhoso que é A paixão segundo G.H.:
"Ah, perdi a timidez: Deus já é. Nós já fomos anunciados, e foi a minha própria vida errada quem me anunciou para a certa. A beatitude é o prazer contínuo da coisa, o processo da coisa é feito de prazer e de contato com aquilo de que se precisa gradualmente mais. Toda a minha luta fraudulenta vinha de eu não querer assumir a promessa que se cumpre: eu não queria a realidade. (...) Pois ser real é assumir a própria promessa: assumir a própria inocência e retomar o gosto do qual nunca se teve consciência: o gosto do vivo."
Mais uma outra coisa grandiosa nos é dita por Clarice ainda neste mesmo romance, evidenciando a sua atração e preferência por aquilo que efetivamente existe, ou seja, pela realidade:
"A realidade é a matéria-prima, a linguagem é o modo como vou buscá-la – e como não acho. Mas é do buscar e não achar que nasce o que eu não conhecia, e que instantaneamente reconheço. A linguagem é o meu esforço humano. Por destino tenho que ir buscar e por destino volto com as mãos vazias. Mas – volto com o indizível. O indizível só me poderá ser dado através do fracasso de minha linguagem. Só quando falha a construção, é que obtenho o que ela não conseguiu."
E por fim, ela nos premia com o êxtase, que é, partindo da realidade, o reconhecimento do Mistério com a revelação da nossa dependência original, que nos coloca numa autêntica posição humana:
"O mundo independia de mim – esta era a confiança a que eu tinha chegado: o mundo independia de mim, e não estou entendendo o que estou dizendo, nunca! Nunca mais compreenderei o que eu disser. Pois como poderei eu dizer sem que a palavra mentisse por mim? Como poderei dizer senão timidamente assim: a vida se me é. A vida se me é, e eu não entendo o que digo. E então adoro!"
Como disse São Paulo: "N'Ele - no Mistério - vivemos, existimos e somos" (At 17), e portanto dependemos, não somos autônomos, embora o queiramos ser.
Clarice Lispector é antídoto para as nossas banalidades, ela é introdução ao Mistério, presente que a grande alma russa (a Grande Mãe Rússia - ela é filha de judeus russos) dá para o Brasil. Sendo judia e membro do povo de Deus, Clarice tem uma percepção não só do Mistério, mas de Cristo e da realidade, como pouquíssimas pessoas. Ela é "a alma feminina de Dostoiévski", despida de todas as complicações e ideologizações, típicas do pensamento masculino. Nela só interessa o real, somente o real, o vivo, a realidade e o Mistério, Mistério que é Vida, vida que anima a realidade criada e é o sentido da mesma.

sábado, 6 de dezembro de 2008

Algumas reflexões antes do Natal

Este e-mail que enviei para um amigo penso que vale a pena ser postado.

Acho que a 1ª e fundamental pergunta a se fazer é: o que fé? E o que é a razão? Porque senão a gente tende a pensar com base em preconceitos sutilissimamente impingidos a nós pelo poder. O que é a razão? Segundo o pensamento católico, razão é a capacidade de dar-se conta da realidade segundo a totalidade dos seus fatores. A mentalidade iluminista reduziu o conceito de razão a medida de todas as coisas (um conceito sofista, anterior a Sócrates, diga-se de passagem), enquanto que Santo Tomás na Suma Teológica define a verdade como a correspondência entre a inteligência e a realidade.
Qual o instrumento que Deus nos dá para o reconhecermos? A realidade! A realidade grita Deus, porque não se faz por si mesma. Diante da realidade, ou fazemos como Sartre, e escolhemos o nada, e portanto, o absurdo, ou reconhecemos que a realidade não se faz por si mesma, que se origina em uma fonte misteriosa. A esta fonte misteriosa, os povos chamaram de o Mistério tremendo e fascinante. Todas as religiões partem deste maravilhamento, de que o real não se faz por si e que vem de uma fonte misteriosa. Todas as religiões são uma tentativa do homem de chegar até o Mistério. Mas como diz Santo Tomás, o homem não consegue chegar à verdade sem grandes erros, e vemos de tudo, em quem conhece minimamente o universo religioso. E mesmo o não-religioso, porque, como diz o teólogo Romano Guardini, todos os movimentos do homem são em busca do "deus", e o que é mais sacrificado na modernidade avançada é a razão. Quanto mais a fé cristã diminui, é o irracionalismo que avança, e não o racionalismo. A tentativa de transformar a fé em mágica, a new age e diversos espiritualismos são a prova mais viva disso.
É necessária uma revelação, afirma Santo Tomás (e Platão no Fédon). Seria impossível o homem conhecer a Deus se Ele não se revelasse. O anúncio cristão é que Deus Se revelou. Ele respondeu ao grito do profeta Isaías: "Ah, Senhor! Se Tu rasgasses os céus e descesses!" (Is 61) E Ele rasgou! O nascimento de Cristo na noite de Natal é isso. Cristo é o Verbo - o Logos, a Razão - feita carne: Verbum caro factum est! (cf. Jo 1,14) O cristianismo é o caminho verdadeiro não tanto porque os outros são falsos, mas porque é o caminho traçado pelo próprio Deus.
Cristo permanece presente na Igreja. O método para conhecer Jesus é conhecer a Igreja. A Igreja é a contemporaneidade de Cristo. Ela é a esposa de Cristo, nela Cristo Se faz presente. Não há outro método para conhecer Cristo senão conhecer a Igreja. por isso, o Concílio Vaticano II a chama de "Sacramento - que significa sinal visível da graça invisível - de Cristo" (a Igreja torna Jesus presente). Como? Através de uma humanidade que seria impensável sem Cristo.
Além dos casos de martírios e santidade extraordinárias, e dos inúmeros milagres registrados na vida da Igreja ao longo de vinte e um séculos - e somente nela - mesmo na vida ordinária, habitual, comum, podemos ter exemplos: pensemos nas pessoas que consagram a sua vida a Cristo, vivendo em pobreza, virgindade e obediência por toda a vida, ou casamentos que duram a vida inteira, homens e mulheres que dedicam a sua vida inteira - muitas vezes com muito sacrifício - à própria família. Estas realidades não existiam antes do cristianismo. E à medida que o cristianismo declina, elas declinam junto com ele.
A fé - como diz o papa Bento XVI - é uma obediência de coração a uma verdade que nos foi revelada. Por quem? Por um outro. A fé é aderir ao que um outro diz. Quem é este outro? Cristo e a Igreja. A fé é aderir ao que Cristo e a Igreja dizem. Como pode ser razoável? Se eu olho a Igreja e vejo um algo a mais, uma humanidade plena e diferente para melhor, jamais observável em nenhuma religião - quando as conhecemos em profundidade reconhecemos especificidades presentes somente no cristianismo (como a palavra "graça" - que significa favor imerecido da parte de Deus para nós), e portanto podemos dizer: aqui tem algo, aqui habita o Mistério. E posso crer no que me dizem Cristo e a Igreja.
Quando Jesus multiplicou os pães e saciou a fome de cinco mil pessoas às margens do mar da Galiléia, eles queriam fazer de Jesus um rei porque pensaram: "agora, meus problemas acabaram com este cara!" Mas Jesus se retirou, e fugiu para a Sinagoga de Cafarnaum. A multidão foi atrás dele e ele disse: "Vocês vieram atrás de mim por causa do pão que eu dei pra vocês! Trabalhem não pela comida que perece, mas pela que dura até a vida eterna! O pão que eu darei é a minha carne, para a vida do mundo, porque se vocês não comerem o Meu corpo e o Meu sangue não terão a vida em vocês mesmos!" Aí todo mundo disse que ele era louco e foi embora. Qual foi a posição mais razoável, a de Pedro, que questionado por Jesus: "Vocês também não querem ir embora?", disse "Senhor, só Tu tens palavra que explicam, que dão significado à vida. Se formos embora, a quem iremos?", ou da multidão que fugiu só porque não entendeu? A fé é justamente dar crédito a esta correspondência que experimentamos. Se um cara faz um milagre, alimenta cinco mil pessoas com cinco pães e dois peixes, e depois diz: "Eu sou Deus! Eu sou o pão da vida! Sem Mim, nada podeis fazer!" É razoável ou não dar crédito a esse cara?
Mas tudo isso precisa da nossa razão, batalha que o papa Bento XVI vem travando desde Regensburg (2006). A nossa razão precisa ser alargada porque está obtusa e acanhada, e é incapaz de reconhecer o Mistério presente porque ele transborda todas as nossa medidas. Mas quem está certo? O Mistério que veio ao meu encontro por meio da Sua Amada Igreja - Jesus - ou os jornalistas, os intelectuais e os professores universitários, que o negam dia a dia? Quem é que me faz mais feliz, mais alegre, mais bom, melhor enfim, que me enche de esperança, de paz, de amor e vida? É razoável ou não dizer "sim" a Jesus? Eu O amo, porque Ele teve piedade do meu nada e salvou e salva a minha vida.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

A prioridade do trabalho sobre o capital


João Paulo 2º, em 30 de janeiro de 2005

Em tempos de crise financeira mundial, e escrevendo a minha dissertação já em ritmo acelerado, descobri que em 2001, em pleno auge da crise mundial, o papa João Paulo 2º tinha protestado contra "o domínio do capital sobre o mundo". Como o arcebispo Celestino Migliore, observador permanente na sede da ONU em Nova York, asseverou que temos que "recuperar (...) a primazia do trabalho sobre o capital, das relações humanas sobre as meras transações financeiras, da ética sobre o critério da eficácia", eu penso que este trecho da Encíclica LABOREM EXERCENS (O trabalho humano), de 14 de setrembro de 1981, pode ser de grande ajuda.


"12. Prioridade do trabalho

Diante da realidade dos dias de hoje, em cuja estrutura se encontram marcas bem profundas de tantos conflitos, causados pelo homem, e na qual os meios técnicos — fruto do trabalho humano — desempenham um papel de primeira importância (pense-se ainda, aqui neste ponto, na perspectiva de um cataclismo mundial na eventualidade de uma guerra nuclear, cujas possibilidades de destruição seriam quase inimagináveis), deve recordar-se, antes de mais nada, um princípio ensinado sempre pela Igreja. É o princípio da prioridade do « trabalho » em confronto com o « capital ». Este princípio diz respeito diretamente ao próprio processo de produção, relativamente ao qual o trabalho é sempre uma causa eficiente primária, enquanto que o « capital », sendo o conjunto dos meios de produção, permanece apenas um instrumento, ou causa instrumental. Este princípio é uma verdade evidente, que resulta de toda a experiência histórica do homem.

Quando lemos no primeiro capítulo da Bíblia que o homem tem o dever de « submeter a terra », nós ficamos a saber que estas palavras se referem a todos os recursos que o mundo visível encerra em si e que estão postos à disposição do homem. Tais recursos, no entanto, não podem servir ao homem senão mediante o trabalho. E com o trabalho permanece igualmente ligado, desde o princípio, o problema da propriedade. Com efeito, para fazer com que sirvam para si e para os demais os recursos escondidos na natureza, o homem tem como único meio o seu trabalho; e para fazer com que frutifiquem tais recursos, mediante o seu trabalho, o homem apossa-se de pequenas porções das variadas riquezas da natureza: do subsolo, do mar, da terra e do espaço. De tudo isso ele se apropria para aí assentar o seu « banco » de trabalho. E apropria-se disso mediante o trabalho e para poder ulteriormente ter trabalho.

O mesmo princípio se aplica, ainda, às fases sucessivas deste processo, no qual a primeira fase continua a ser sempre a relação do homem com os recursos e as riquezas da natureza. Todo o esforço do conhecimento com que se tende a descobrir tais riquezas e a determinar as diversas possibilidades de utilização das mesmas por parte do homem e para o homem, leva-nos a tomar consciência do seguinte: que tudo aquilo que no complexo da actividade econômica provém do homem — tanto o trabalho, como o conjunto dos meios de produção e a técnica a eles ligada (isto é, a capacidade de utilizar tais meios no trabalho) — pressupõe estas riquezas e estes recursos do mundo visível, que o homem encontra, mas não cria. Ele encontra-os, em certo sentido, já prontos e preparados para serem descobertos pelo seu conhecimento e para serem utilizados correctamente no processo de produção. Em qualquer fase do desenvolvimento do seu trabalho, o homem depara com o facto da principal doação da parte da « natureza », o que equivale a dizer, em última análise, da parte do Criador. No princípio do trabalho humano está o mistério da Criação. Esta afirmação, já indicada como ponto de partida, constitui o fio condutor do presente documento e será mais desenvolvida ainda, na parte final das presentes reflexões.

A consideração do mesmo problema, que se fará em seguida, há-de confirmar-nos na convicção quanto à prioridade do trabalho humano no confronto com aquilo que, com o tempo, passou a ser habitual chamar-se « capital ». Com efeito, se no âmbito deste último conceito entram, além dos recursos da natureza postos à disposição do homem, também aquele conjunto de meios pelos quais o homem se apropria dos recursos da natureza, transformando-os à medida das suas necessidades (e deste modo, em algum sentido, « humanizando-os »), então há que fixar desde já a certeza de que tal conjunto de meios é o fruto do patrimônio histórico do trabalho humano. Todos os meios de produção, desde os mais primitivos até aos mais modernos, foi o homem que os elaborou: a experiência e a inteligência do homem. Deste modo foram aparecendo não só os instrumentos mais simples que servem para o cultivo da terra, mas também — graças a um adequado progresso da ciência e da técnica — os mais modernos e os mais complexos: as máquinas, as fábricas, os laboratórios e os computadores. Assim, tudo aquilo que serve para o trabalho, tudo aquilo que, no estado atual da técnica, constitui dele « instrumento » cada dia mais aperfeiçoado, é fruto do mesmo trabalho.

Esse instrumento gigantesco e poderoso — qual é o conjunto dos meios de produção, considerados, até certo ponto, como sinónimo do « capital » — nasceu do trabalho e é portador das marcas do trabalho humano. No presente estágio do avanço da técnica, o homem, que é o sujeito do trabalho, quando quer servir-se deste conjunto de instrumentos modernos, ou seja, dos meios de produção, deve começar por assimilar, no plano do conhecimento, o fruto do trabalho dos homens que descobriram tais instrumentos, que os projectaram, os contruíram e aperfeiçoaram, e que continuam a fazê-lo. A capacidade de trabalho — quer dizer, de participar eficazmente no processo moderno de produção — exige uma preparação cada vez maior e, primeiro que tudo, uma instrução adequada. Obviamente, permanece fora de dúvidas que todos os homens que participam no processo de produção, mesmo no caso de executarem só aquele tipo de trabalho para o qual não são necessárias uma instrução particular e qualificações especiais, todos e cada um deles continuam a ser o verdadeiro sujeito eficiente, enquanto que o conjunto dos instrumentos, ainda os mais perfeitos, são única e exclusivamente instrumentos subordinados ao trabalho do homem.

Esta verdade, que pertence ao patrimônio estável da doutrina da Igreja, deve ser sempre sublinhada, em relação com o problema do sistema de trabalho e igualmente de todo o sistema sócio-econômico. É preciso acentuar e pôr em relevo o primado do homem no processo de produção, o primado do homem em relação às coisas. E tudo aquilo que está contido no conceito de « capital », num sentido restrito do termo, é somente um conjunto de coisas. Ao passo que o homem, como sujeito do trabalho, independentemente do trabalho que faz, o homem, e só ele, é uma pessoa. Esta verdade contém em si consequências importantes e decisivas."
(Encíclica LABOREM EXERCENS - O trabalho humano, n.12)