quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

Hugo Chávez e a verdade do homem



Fiquei muito impressionado quando assisti o pronunciamento do presidente Hugo Chávez anunciando à nação venezuelana sobre a gravidade da sua doença e da possibilidade de ter um sucessor, seja por morte ou pela incapacidade de governar. Me marcou muito tanto a sua postura, quanto o fato de a certo ponto ele beijar o crucifixo.

Isso me provocou muito, porque há alguns anos atrás, quando mudou a Constituição, Chávez criou um mecanismo de reeleição infinita, e disse que "para o bem da revolução bolivariana, para o bem do socialismo do século XXI" (seja lá o que isso venha a significar), ele ficaria no poder até 2031. A situação agora é muito diferente, e para além das metanarrativas, vem agora à tona a verdade do homem, o seu destino, e quem é o verdadeiro Senhor da História. Chávez tem o grande mérito da dignidade nesta etapa dramática da sua vida.

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Tragédia americana



Estamos num deserto. Tiros são disparados contra crianças inocentes numa cidade americana, 28 pessoas morrem. Por alguns instantes somos tirados de nosso torpor habitual, até voltarmos a ele novamente. Me surpreende que alguém atribua o acontecido a um "maluco", como se a simples loucura pudesse explicar o fato. A loucura poderia ser uma explicação se este fato fosse isolado, mas chacinas em escolas americanas perpetradas por jovens têm sido uma constante nos últimos anos, o que é sinal de uma coisa mais do que o mero acaso da loucura.

Buscar explicações a nível sociológico como fez Michael Moore, no filme Tiros em Columbine, no qual ele atribui essa violência à excessiva exposição dos americanos à propaganda sobre armas não basta. A meu ver, a única explicação para esta tragédia é uma explicação a nível civilizacional. Nossa crise é uma crise de civilização. É a nossa civilização ocidental que está em crise, é o sujeito humano gerado por esta civilização que está em crise.

Nós damos por óbvio o valor da dignidade humana hoje, mas o primeiro povo no qual a pessoa humana passou a ter um valor foi o povo hebreu. É comovente ler a Sagrada Escritura e perceber que nela não existe nem um resquício dos sacrifícios humanos cruentos, presentes em todas as civilizações pagãs. Pelo contrário, a Bíblia começa com o Anjo de Deus parando Abraão que iria sacrificar o seu filho em imolação a Deus. Em seu lugar, é sacrificada uma ovelha. Todo o Antigo Testamento é uma condenação contínua do homicídio, do infanticídio e dos sacrifícios humanos. Inúmeras vezes, Deus se lamenta porque parte do Seu povo ainda vai oferecer seus filhos queimados em sacrifício ao deus Moloc. A plenitude dessa valorização do humano acontece em Cristo, e hoje, a vida humana em si mesma é reconhecida como sagrada, inviolável, inalienável em si mesma, única, irrepetível. Esta é uma conquista da nossa civilização.

Tal como as invasões bárbaras que foram acontecendo sucessivamente em meio à fragilização contínua do Império que garantia a continuidade da civilização, vemos hoje a todos os lados, o ataque à nossa civilização. A evidência maior disso é o ódio generalizado contra o papa Bento XVI. O ódio ao papa nada mais é do que o ódio a Cristo, pois o papa não faz alusão a outra coisa que não seja o próprio Jesus de Nazaré e a tudo o que veio dele.

O rapaz que deu os tiros em Newtown, Connecticut não é apenas um louco, é alguém para o qual a vida não vale nada, não significa nada, nem a vida dele, nem a de sua mãe, e muito menos a vida daquelas crianças e de suas famílias. É o niilismo nu e cru, em ato, pois esta é a consequência mais lógica desta postura diante da realidade. "O coração do Inferno é feito de gelo", dizia Dante (Inferno, XXXIV). A única possibilidade de fazer frente a isso é o nosso coração que clama diante de um fato como esses. Se o coração se rebela, é porque está vivo e ainda há esperança. Há muito mais entre o céu e a terra do que nos promete o nosso niilismo pós-moderno.

Temos de defender, no meio de toda esta crise, a nação americana, porque hoje é a nação americana que carrega a civilização ocidental. A nação americana, apesar de toda propaganda contra ela é boa, dissemina ainda hoje, a ideia do valor da dignidade da pessoa humana, em meio ao niilismo que vem da Europa. O filósofo francês Alexis de Tocqueville, nobre na França pós-queda da Bastilha, foi em viagem no século XIX à América entender como lá acontecia a democracia (enquanto a França se degladiava em lutas intestinas intermináveis). Chegou à seguinte conclusão:

"Procurei a chave para a grandeza da América nos seus portos ..., nos seus campos férteis e florestas sem fim, nas suas minas ricas e vasto comércio mundial, no seu sistema de ensino público e instituições de ensino. Busquei-o no seu Congresso democrático e na sua Constituição incomparável. Não foi antes de eu ter ido às igrejas da América e ouvido os seus púlpitos inflamados com a justiça que eu entendi o segredo do seu gênio e poder. A América é grande, porque a América é boa, e se a América alguma vez deixar de ser boa, a América deixará de ser grande."

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

O desafio do Milênio

File:Frans Hals - Portret van René Descartes.jpg
René Descartes, o pai da Modernidade

Ao convocar o Ano da Fé, o Papa Ratzinger entra numa verdadeira batalha gnoseológica contra uma cultura que vem se assentando há cinco séculos, pelo menos. O marco dessa cultura é o Discurso do Método, de René Descartes, onde o autor propõe o princípio da dúvida sistemática como ponto de partida. Já que não é possível ter certeza a priori sobre as coisas, então devemos partir do princípio da dúvida sistemática para construirmos então as nossas certezas.

Todo esse movimento cartesiano foi uma busca da emancipação do homem da Igreja, o homem deveria "aprender a pensar por si mesmo", chegar à "maioridade". Tudo o que nós chamamos de "modernidade" foi a longa luta que o homem desenvolveu, ao longo de cinco séculos para libertar-se da tutela do Papa e da Bíblia.

A tragédia da nossa época é que filosofias como essas deixaram os círculos filosóficos e chegaram ao senso comum do povo, das pessoas. Ou seja, vivemos imersos numa cultura segundo a qual não é possível chegar a ter certezas e a maior evidência disso é a incerteza nos relacionamentos. Uma incerteza que gera a fragmentação e a liquidez pós-moderna, segundo a qual é impossível chegar a certezas.

No ínterim dessa cultura que hoje é hegemônica, o Papa lança o "Ano da Fé", e faz o desafio a todos sobre a certeza, e como chegar verdadeiramente a um conhecimento. A mim a coisa que mais me marca no acontecimento cristão é perceber a quantidade de pessoas que deram (e continuam dando) a vida por causa desse acontecimento. Me marca o tipo de certeza que essas pessoas têm acerca da realidade e do que aconteceu com elas.

Vivemos numa época em que para muitos a fé é uma palhaçada, uma superstição, ou um consolo para aguentar as durezas da vida. O Papa lança o desafio afirmando o contrário: a fé na verdade é um método de conhecimento, um método que se apoia numa testemunha. Apoiar-se na testemunha não é como pensou "Descartes" estar sob uma tutela, ou como pensou Kant, estar ainda na menoridade, mas é na verdade, tornar-se adulto, pois um homem torna-se adulto não por seus próprios esforços, mas apoiado no testemunho de outros homens adultos de que a vida vale a pena ser vivida. A crise atual de tanta gente é essa: faltam testemunhas que testemunhem a positividade da vida, de que esta é grande, bela e de que vale a pena ser vivida. Apoiar-se na testemunha é apoiar-me com todo o meu eu, inteligência e afeto, pois preciso reconhecer que a testemunha é digna de confiança. Isso não é estar sob tutela ou na menoridade, mas é humildade, a humildade que nasce da verdade, é reconhecer-se anão nas costas de gigantes, e sobre estas costas olhar a vastidão da realidade, do mundo e da História.


sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Nossa Senhora, a Aparecida






















Uma das graças maiores que tive na vida foi o fato de ter ido ao Santuário de Aparecida. O Padre Quevedo, famoso por desbaratar pseudomilagres, especialmente por meio da parapsicologia, da qual é autoridade mundial, já havia falado que Aparecida é um lugar divino, ou seja, um lugar onde realmente houve uma manifestação do Mistério, do numinoso ali.

Vi isso com os meus próprios olhos quando lá estive, há dois anos, na solenidade de comemoração dos 293 anos da aparição de Maria no Rio Parnaíba, em 1717. É um espetáculo esplêndido, numa época cética e pós-cristã ver romeiros caminhantes há dias nas estradas, uma multidão inumerável de pessoas agradecendo, ex-votos; é impressionante ver a evidência da presença de Maria, de suas graças e de suas bondades. Faço minha a pergunta que os Anjos, olhando uns para os outros, se fazem:

"Quem é essa?" (Ct 6,10)

Aparecida é um dos tantos títulos de Nossa Senhora ligado ao tema da escravidão, como o título de Nossa Senhora das Mercês. Impressiona ver que numa colônia marcada pela escravidão, Nossa Senhora aparece enegrecida, envolvida numa rede de pescadores, que estavam desesperados porque não estavam achando peixes para levar para um fidalgo que estava hospedado nas paragens de Garatinguetá. Impressiona ver a pequenez da imagem e o abraço que faz a todo o Brasil, todo o povo acorrendo. Em Aparecida se vê a ternura de Deus e a preferência que Ele tem pelo povo brasileiro. Sempre me marcou saber que  quando Pedro Álvares Cabral chegou ao Brasil consagrou esta terra à Nossa Senhora da Esperança (a imagem de Nossa Senhora da Esperança é muito bonita: Nossa Senhora carrega Jesus no colo e ele brinca com o Espírito Santo, que está em forma de pomba). Desde sempre o nosso país é o país do futuro.

Devo minha fé à Nossa Senhora. Há mais de quinze anos, quando minha avó estava para morrer, vi o quanto nós somos limitados. Minha mãe tinha viajado, e eu me pus diante de uma imagem de Nossa Senhora Aparecida a pedir. E ali eu me dei conta de que não tinha fé, de que não conhecia Deus. E ter me dado conta de que eu não tinha fé, de que eu não conhecia Deus me marcou muito. Depois, uma série de perguntas e de encontros me fizeram encontrar a Igreja e a fé. Lembro-me que diante da imagem de Aparecida, eu pedi, sem fé, a vida da minha avó, mas Nossa Senhora me deu mais: me deu a fé, e deu a mim a vida eterna, a vida que minha avó já tinha, por ter fé. E este ano fui novamente agradecer. Pedi para conhecer e amar cada vez mais a Senhora Aparecida, a Rainha do Universo e dos corações. Escrevo essas coisas, confiando no que ela diz de si mesma, que aqueles que a tornam conhecida terão a vida eterna (Eclo 24,31). São muitas as coisas que eu teria a contar, tão grande é a preferência e a bondade da Rainha do Universo por mim. O dia de hoje me enche de gratidão.

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

A política, a forma mais complexa da cultura
















Cão "anarquista" Loukanikos "protesta" em Atenas contra crise na Europa

Em tempos de eleições e de festa da democracia, a coisa mais impressionante a se perceber é como a política é algo que mexe com o profundo de nós, com nossas estranhas, com as nossas paixões. Impressionante perceber como a política mobiliza, como depositamos nossas esperanças, ou culpamos nossas frustrações, nossas raivas, na política. Hoje a Folha publicou uma matéria sobre "o fator canino" como elemento humanizador da eleição em São Paulo. Também o "cão anarquista" Loukanikos faz sucesso na Grécia pondo uma certa graça ao caráter dramático da crise que por lá se desenvolve. Mas também isto é política. A política é múltipla e variada, sutil e melindrosa, multifacetada, é tudo isso e muito mais porque a política nada mais é do que a forma mais complexa da cultura. É a nossa cultura, pós-industrial, pós-moderna, pós-cristã, que se manisfesta nas eleições e nos protestos globalizados contra o domínio do capital sobre o mundo.

A política acaba se tornando uma confusão muito grande porque reflete a confusão que é a nossa sociedade na segunda década do século XXI. Vou dar um exemplo: eu, como católico, deveria seguir abstratamente como critério o seguinte na escolha política: antes de mais nada, a libertas ekklesia, ou seja, a liberdade da Igreja. Em segundo lugar, a dignidade da pessoa humana, e por fim, o princípio da subsidiariedade.






















Lula e Bento XVI assinam a Concordata entre o Brasil e a Santa Sé

Se formos atentar abstratamente para a libertas ekklesia, o político que mais se aproxima disso é o ex-presidente Lula, porque assinou a concordata histórica com a Santa Sé, que por anos, o ex-presidente FHC, declaradamente ateu, se recusou a assinar. Por outro lado, vimos ações e grupelhos no mesmo Governo Lula, que atentaram drasticamente contra a dignidade da pessoa humana e contra a vida (a coisa mais impressionante foi a Lei nº 11.105/2005, a famosa "Lei de Biossegurança", que a princípio deveria reger o uso dos transgênicos no Brasil, mas na verdade, foi usada como cortina de fumaça para se lançar, no seu artigo 5º, a permissão para o uso "terapêutico" da células-tronco).

A subsidiariedade é o princípio jurídico positivado pelo Papa Pio XI na encíclica Quadragesimo Anno, em 1931, e assumido pelos juristas no decorrer do século XX, segundo o qual, uma instituição com uma jurisdição superior não deveria realizar aquilo que uma instância hierarquicamente inferior teria perfeitas condições de realizar. Em síntese, é a afirmação de uma maior autonomia, de um maior empoderamento a entidades mais próximas do cidadão, mais afeitas ao local, num tempo onde erigem-se organizações transnacionais e globais, como as Organizações das Nações Unidas. Um exemplo muito prático da aplicação do princípio da subsidiariedade é a Constituição da União Europeia, na busca pela preservação da autonomia de cada nação, no caminho da unificação econômica e política do continente. Textualmente, lemos assim no artigo 5º do Tratado da Comunidade Europeia:

"A Comunidade atuará nos limites das atribuições que lhe são conferidas e dos objetivos que lhe são cometidos pelos do presentes Tratado. Nos domínios que não sejam das suas atribuições exclusivas, a Comunidade intervém apenas, de acordo com o princípio da subsidiariedade, se e na medida em que os objetivos da ação encarada não possam ser suficientemente realizados pelos Estados-Membros, e possam pois, devido à dimensão ou aos efeitos da ação prevista, ser melhor alcançados ao nível comunitário".

(Os grifos são meus). 

O Estado brasileiro ainda está muito longe da subsidiariedade, basta ir na Constituição de 1988 e verificar as competências da União, dos Estados e dos Municípios, para perceber a imensa centralização de competências que existem para o governo federal, no Brasil. Se o governo federal não consegue repartir entre os outros entes da federação brasileira as suas competências, pensar numa plena repartição com a sociedade civil ainda é falar numa quimera.

Pois bem, diante de um quadro desses, com esses critérios explanados pela Santa Mãe Igreja, como se posicionar? Em nível geral, abstrato, temos estes três critérios, mas analisando os casos concretos, os políticos que efetivamente temos como candidatos e que disputam as eleições, vemos que nenhum deles se enquadra nestes três critérios. Então, como se posicionar? Como escolher? Aqui emerge toda a dramaticidade, mas também toda a possibilidade da política como arte, da política como a arte de negociar. Em primeiro lugar, faz-se necessário arriscar. E também, não apostar todas as fichas em uma única figura, dado que num cenário de confusão tão grande, toda a tentativa humana não passa de uma tentativa irônica. Enfim, é preciso estar aberto às correções que a realidade faz a si própria. O poeta Bruno Tolentino dizia que o nosso problema é querer corrigir o real a tapas, esquecendo que a realidade se corrige a si mesma. Dessa forma, a gente pode construir, pois a nossa esperança, pode verdadeiramente, estar na picareta com a qual nos empenhamos na rocha do instante, sempre de olho no ideal.

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

Em busca da política











Batalha de Seattle, 30 de novembro de 1999.
O marco da globalização da política.

O aproximar-se de mais uma eleição impõe a todos voltar novamente o olhar para a política, para os debates acalorados, para a cidade repleta de propaganda eleitoral, pelos palpites sobre quem vai ganhar ou não a eleição; mas se nos arriscamos a ir além do que diz as efemérides dos jornais, e conversar seriamente com as pessoas e perguntar o que elas acham verdadeiramente da política, perceberemos que para a maioria delas a política é uma coisa que aparentemente nada tem a ver com a própria vida, sendo encarada como uma atividade suja, praticada por pessoas sem caráter, e que na verdade, só querem se locupletar às custas do dinheiro público. É difícil perceber o nexo entre a própria vida cotidiana e a atividade política.
Mas será mesmo que isso tudo é verdade? Será que a política realmente não tem nada a ver com a vida? De onde surge essa percepção?

A palavra política vem do grego polis que significa cidade. Como na Grécia Antiga, as cidades eram independentes umas das outras, ou seja, eram na verdade cidades-Estado, a ideia de política, portanto, se identifica, muito mais do que com o conceito moderno de cidade, na verdade com a ideia atual de Estado, ou ainda, de nação, ou melhor, povo. E podemos concluir, portanto, que a alienação que sentimos com relação à política nada mais é do que a reverberação da alienação que sentimos quanto ao pertencer a algo maior do que nós mesmos e nossas preocupações.

A política é algo que parece que nada tem a ver com a nossa vida porque é fraca a nossa consciência de que pertencemos a algo maior do que nós mesmos, ou seja, é fraca a nossa percepção de que formamos verdadeiramente um povo e uma nação, de que compartilhamos um território, valores, cultura e história, e de que somos responsáveis conjuntamente por esse mesmo território e esse mesmo povo, e por seu destino comum.

Nos dias hodiernos, a palavra cidadão parece algo vago e etéreo, algo que está suspenso no ar, presente somente em retóricas inflamadas e demagógicas, mas que também não diz respeito à vida. Se olharmos novamente a História, cidadão, assim como polis, está ligado à ideia de cidade-Estado, ou seja, de povo organizado e governado, território, cultura e história comum; ou seja, cidadão está ligado à ideia de pertença: se o cidadão era aquele que pertencia a uma cidade, analogamente, podemos hoje dizer cidadão é aquele que pertence a um povo.

Podemos nos ajudar a reavivar nossa autoconsciência política na medida em que crescer em nós a consciência dessa pertença, e, portanto, a nossa corresponsabilidade. Iremos repensar os critérios com os quais nos movemos na vida, com a consciência de que os nossos atos cotidianos, bons ou maus, influenciam na vida de todos os que pertencem a uma mesma comunidade, vamos perceber então, que política é na verdade, uma atividade do dia-a-dia, e que se revela nas opções práticas que fazemos todos os dias, inclusive nas mais cotidianas, como fazer bem o próprio trabalho, não emporcalhar as ruas, ou ainda fazer a coleta seletiva. Em cada ação destas, revelamos a quem pertencemos como autoconsciência, a nós mesmos somente, ou a algo maior.

Buscar a política, então, é buscar essa autoconsciência, é esse é um trabalho que vai além do horizonte das eleições. Buscar a política é buscar a nossa própria história, nossas raízes, aquilo que nos aconteceu e que nos marca como povo e como nação, buscar a política, a polis compreendida dessa forma é buscar quem somos e a quem pertencemos, e a que responsabilidade esse pertencer nos chama.

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

O avanço do Brasil

Lula e Dilma no lançamento do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), em 2009

Eu estava me dando conta, esses dias, de como o nosso País avançou, em todos os indicadores econômicos e sociais, nessas últimas duas décadas. É impressionante observar como o País avançou, perceber todo o desenvolvimento que vem acontecendo paulatinamente, desde os anos 1990, e que nós não damos conta.  Em tempos de mensalão, nos quais é fácil desacreditar da política, no qual tudo é nivelado por baixo e jogado no mesmo lugar-comum, é urgente reconhecer toda a positividade que vem acontecendo nos últimos vinte anos na sociedade brasileira.

A sociedade brasileira vive um momento ímpar, malgrado todas as notícias ruins envolvendo a políticas que os jornais fazem circular ao infinito. É fato que a economia, e com ela a sociedade, vive um contínuo e persistente desenvolvimento desde há quase vinte anos, durante os quais se alterou bastante o perfil da economia nacional. Todo esse mérito se deve, sem dúvida, a uma sucessão de bons governos, desde o Governo Itamar (que implantou o real e a estabilidade), passando pelos Governos FHC, Lula e agora Dilma; e sem dúvida, devido à democratização do País, e à consolidação das suas instituições, aliada ainda à globalização econômico-financeira que inseriu definitivamente o Brasil no circuito da economia mundial. 

Um bom exemplo do resultado de tudo isso é a política de valorização contínua do salário-mínimo, aliada, sem dúvida, ao fenômeno da globalização e da estabilidade macroeconômica. Graças a ela, por exemplo, já é possível a uma empregada doméstica mensalista ter em sua casa banda larga, TV por assinatura, viajar de avião e ainda levar um cão na bagagem, coisa inimaginável vinte anos atrás. É evidente que as decisões tomadas, e o rumo assumido pelo País estão na direção correta.

Escrevo essas poucas linhas porque a maioria das pessoas critica o País, não têm orgulho da Nação, mas se voltarmos o nosso olhar para poucos anos atrás, veremos que o Brasil vem trilhando o caminho certo. E isso nada tem a ver com correntes partidárias ou político-ideológicas, mas com a crescente institucionalização do País, e com o amadurecimento do povo brasileiro, refletindo já elementos saudáveis em qualquer democracia do mundo, como a alternância de poder, o pluralismo politico e o debate, pois é do debate que vive a política.

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

O jornal e o livro


por Machado de Assis

Publicado originalmente no Correio Mercantil, Rio de Janeiro, 10 e 12/01/1859.
AO SR. MANUEL ANTONIO DE ALMEIDA
O espírito humano, como o heliotrópio, olha sempre de face um sol que o atrai, e para o qual ele caminha sem cessar: — é a perfectibilidade.
A evidência deste princípio, ou antes deste fato, foi claramente demonstrada num livro de ouro, que tornou-se o Evangelho de uma religião. Serei eu, derradeiro dos levitas da nova arca, que me aba­lance a falar sobre tão debatido e profundo assunto?
Seria loucura tentá-lo. De resto, eu manifestei a minha profissão de fé nuns versos singelos, mas não frios de entusiasmo, nascidos de uma discussão. Mas então tratava-se do progresso na sua expres­são genérica. Desta vez limito-me a traçar algumas idéias sobre uma especialidade, um sintoma do adiantamento moral da humanidade.
Sou dos menos inteligentes adeptos da nova crença, mas tenho consciência que dos de mais profunda convicção. Sou filho deste século, em cujas veias ferve o licor da esperança. Minhas tendências, minhas aspirações, são as aspirações e as tendências da mocidade; e a mocidade é o fogo, a confiança, o futuro, o progresso. A nós, guebrosmodernos do fogo intelectual, na expressão de Lamartine, não importa este ou aquele brado de descrença e desânimo: as sedi­ções só se realizam contra os princípios, nunca contra as variedades.
Não há contradizê-lo. Por qualquer face que se olhe o espírito humano descobre-se a reflexão viva de um sol ignoto. Tem-se reco­nhecido que há homens para quem a evidência das teorias é uma quimera; felizmente temos a evidência dos fatos, diante da qual os São Tomés do século têm de curvar a cabeça.
É a época das regenerações. A Revolução Francesa, o estrondo maior dos tempos europeus, na bela expressão do poeta de Jocelynfoi o passo da humanidade para entrar neste século. O pórtico era gigantesco, e era necessário um passo de gigante para entrá-lo. Ora, esta explosão do pensamento humano concentrado na rainha da Europa não é um sintoma de progresso? O que era a Revolução Francesa senão a idéia que se fazia república, o espírito humano que tomava a toga democrática pelas mãos do povo mais democrá­tico do mundo? Se o pensamento se fazia liberal é que tomava a sua verdadeira face. A humanidade, antes de tudo, é republicana.
Tudo se regenera: tudo toma uma nova face. O jornal é um sintoma, um exemplo desta regeneração. A humanidade, como o vulcão, rebenta uma nova cratera quando mais fogo lhe ferve no centro. A literatura tinha acaso nos moldes conhecidos em que preenchesse o fim do pensamento humano? Não; nenhum era vasto como o jornal, nenhum liberal, nenhum democrático, como ele. Foi a nova cratera do vulcão.
Tratemos do jornal, esta alavanca que Arquimedes pedia para abalar o mundo, e que o espírito humano, este Arquimedes de todos os séculos, encontrou.
O jornal matará o livro? O livro absorverá o jornal?
A humanidade desde os primeiros tempos tem caminhado em busca de um meio de propagar e perpetuar a idéia. Uma pedra convenientemente levantada era o símbolo representativo de um pensamento. A geração que nascia vinha ali contemplar a idéia da geração aniquilada.
Este meio, mais ou menos aperfeiçoado, não preenchia as exigências do pensamento humano. Era uma fórmula estreita, muda, limitada. Não havia outro. Mas as tendências progressivas da humanidade não se acomodavam com os exemplares primitivos dos seus livros de pedra. De perfeição em perfeição nasceu a arte. A arquitetura vinha transformar em preceito, em ordem, o que eram então partos grotescos da fantasia dos povos. O Egito na aurora da arquitetura deu-lhe a solidez e a simplicidade nas formas severas da coluna e da pirâmide. Parece que este povo ilustre queria fazer eterna a idéia no monumento, como o homem na múmia.
O meio, pois, de propagar e perpetuar a idéia era uma arte. Não farei a história dessa arte, que, passando pelo crisol das civilizações antigas, enriquecida pelo gênio da Grécia e de Roma, chegou ao seu apogeu na Idade Média e cristalizou a idéia humana na catedral. A catedral é mais que uma fórmula arquitetônica, é a síntese do espírito e das tendências daquela época. A influência da Igreja sobre os povos lia-se nessas epopéias de pedra; a arte por sua vez acompanhava o tempo e produzia com seus arrojos de águia as obras-primas do santuário.
A catedral é a chave de ouro que fecha a vida de séculos da arquitetura antiga; foi a sua última expressão, o seu derradeiro crepúsculo, mas uma expressão eloqüente, mas um crepúsculo palpitante de luz.
Era, porém, preciso um gigante para fazer morrer outro gigante. Que novo parto do engenho humano veio nulificar uma arte que reinara por séculos? Evidentemente era mister uma revolução para apear a realeza de um sistema; mas essa revolução devia ser a expressão de um outro sistema de incontestável legitimidade. Era chegada a imprensa, era chegado o livro.
O que era a imprensa? Era o fogo do céu que um novo Prometeu roubara, e que vinha animar a estátua de longos anos. Era a faísca elétrica da inteligência que vinha unir a raça aniquilada à geração vivente por um meio melhor, indestrutível, móbil, mais eloqüente, mais vivo, mais próprio a penetrar arraiais de imortalidade.
O que era o livro? Era a fórmula da nova idéia, do novo sistema. O edifício, manifestando uma idéia, não passava de uma coisa local, estreita. O vivo procurava-o para ler a idéia do morto; o livro, pelo contrário, vem trazer à raça existente o pensamento da raça aniquilada. O progresso aqui é evidente.
A revolução foi completa. O universo sentiu um imenso abalo pelo impulso de uma dupla causa: uma idéia que caía e outra que se levantava. Com a onipotência das grandes invenções, a imprensa atraía todas as vistas e todas as inteligências convergiam para ela. Era um crepúsculo que unia a aurora e o ocaso de dois grandes sóis. Mas a aurora é a mocidade, a seiva, a esperança; devia ofuscar o sol que descambava. É o que temia aquele arcediago da catedral parisiense, tão bem delineado pelo poeta das Contemplações.
Com efeito! a imprensa era mais que uma descoberta maravilhosa, era uma redenção. A humanidade galgava assim o Himalaia dos séculos, e via na idéia que alvorecia uma arca poderosa e mais capaz de conter o pensamento humano.
A imprensa devorou, pois, a arquitetura. Era o leão devorando o sol, como na epopéia do nosso Homero.
Não procurarei historiar o desenvolvimento desta arte-rei, desenvolvimento asselado em cada época por um progresso. Sabe-se a que ponto esta aperfeiçoada, e não se pode calcular a que ponto chegará ainda.
Mas restabeleçamos a questão. A humanidade perdia a arquitetura, mas ganhava a imprensa; perdia o edifício, mas ganhava o livro. O livro era um progresso; preenchia as condições do pensamento humano? Decerto; mas faltava ainda alguma coisa; não era ainda a tribuna comum, aberta à família universal, aparecendo sempre com o sol e sendo como ele o centro de um sistema planetário. A forma que correspondia a estas necessidades, a mesa popular para a distribuição do pão eucarístico da publicidade, é propriedade do espírito moderno: é o jornal.
O jornal é a verdadeira forma da república do pensamento. É a locomotiva intelectual em viagem para mundos desconhecidos, é a literatura comum, universal, altamente democrática, reproduzida todos os dias, levando em si a frescura das idéias e o fogo das convicções.
O jornal apareceu, trazendo em si o gérmen de uma revolução. Essa revolução não é só literária, é também social, é econômica, porque é um movimento da humanidade abalando todas as suas eminências, a reação do espírito humano sobre as fórmulas existentes do mundo literário, do mundo econômico e do mundo social.
Quem poderá marcar todas as conseqüências desta revolução?
Completa-se a emancipação da inteligência e começa a dos povos. O direito da força, o direito da autoridade bastarda consubstanciada nas individualidades dinásticas vai cair. Os reis já não têm púrpura, envolvem-se nas constituições. As constituições são os tratados de paz celebrados entre a potência popular e a potência monárquica.
Não é uma aurora de felicidade que se entreabre no horizonte? A idéia de Deus encarnada há séculos na humanidade apareceu enfim à luz. Os que receavam um aborto podem erguer a fronte desassombrada: concluiu-se o pacto maravilhoso.
Ao século XIX cabe sem dúvida a glória de ter aperfeiçoado e desenvolvido esta grandiosa epopéia da vida íntima dos povos, sempre palpitante de idéias. É uma produção toda sua. Depois das idéias que emiti em ligeiros traços é tempo de desenvolver a questão proposta: — O livro absorverá o jornal? o jornal devorará o livro?
II
A lei eterna, a faculdade radical do espírito humano, é o movimento. Quanto maior for esse movimento mais ele preenche o seu fim, mais se aproxima desses pólos dourados que ele busca há séculos. O livro é um sintoma de movimento? Decerto. Mas estará esse movimento no grau do movimento da imprensa-jornal? Repugno afirmá-lo.
O jornal, literatura quotidiana, no dito de um publicista contemporâneo, é reprodução diária do espírito do povo, o espelho comum de todos os fatos e de todos os talentos, onde se reflete, não a idéia de, um homem, mas a idéia popular, esta fração da idéia humana.
O livro não está decerto nestas condições; — há aí alguma coisa de limitado e de estreito se o colocarmos em face do jornal. Depois, o espírito humano tem necessidade de discussão, porque a discussão é — movimento. Ora, o livro não se presta a essa necessidade, como o jornal. A discussão pela imprensa-jornal anima-se e toma fogo pela presteza e reprodução diária desta locomoção intelectual. A discussão pelo livro esfria pela morosidade, e esfriando decai, porque a discussão vive pelo fogo. O panfleto não vale um artigo de fundo.
Isto posto, o jornal é mais que um livro, isto é, está mais nas condições do espírito humano. Nulifica-o como o livro nulificará a página de pedra? Não repugno admiti-lo.
Já disse que a humanidade, em busca de uma forma mais conforme aos seus instintos, descobriu o jornal.
O jornal, invenção moderna, mas não da época que passa, deve contudo ao nosso século o seu desenvolvimento; daí a sua influência. Não cabe aqui discutir ou demonstrar a razão por que há mais tempo não atingira ele a esse grau de desenvolvimento; seria um estudo da época, uma análise de palácios e de claustros.
As tendências progressivas do espírito humano não deixam supor que ele passasse de uma forma superior a uma forma inferior.
Demonstrada a superioridade do jornal pela teoria e pelo fato, isto é, pelas aparições de perfectibilidade da idéia humana e pela legitimidade da própria essência do jornal, parece clara a possibili­dade de aniquilamento do livro em face do jornal. Mas estará bem definida a superioridade do jornal?
Disse acima que o jornal era a reação do espírito humano sobre as fórmulas existentes do mundo social, do mundo literário e do mundo econômico. Do mundo literário parece-me ter demonstrado as vantagens que não existem no livro. Do mundo social já o disse. Uma forma de literatura que se apresenta aos talentos como uma tribuna universal é o nivelamento das classes sociais, é a democracia prática pela inteligência. Ora, isto não é evidentemente um progresso?
Quanto ao mundo econômico, não é menos fácil de demonstrar. Este século é, como dizem, o século do dinheiro e da indústria. Tendências mais ou menos ideais clamam em belos hexâmetros contra as aspirações de uma parte da sociedade e parecem prescrever os princípios da economia social. Eu mesmo manifestei algumas idéias muito metafísicas e vaporosas em um artigo publicado há tempos.
Mas, pondo de parte a arte plástica dessas produções contra o século, acha-se no fundo pouco razoáveis. A indústria e o comércio não são simples fórmulas de uma classe; são os elos que prendem as nações, isto é, que unem a humanidade para o cumprimento de sua missão. São a fonte da riqueza dos povos, e predispõem mais ou menos sua importância política no equilíbrio político da humanidade.
O comércio estabelece a troca do gênero pelo dinheiro. Ora, o dinheiro é um resultado da civilização, uma aristocracia, não bastarda, mas legitimada pelo trabalho ou pelo suor vazado nas lucubrações industriais. O sistema primitivo da indústria colocava o homem na alternativa de adquirir uma fazenda para operar a compra de outra, ou o entregava às intempéries do tempo se ele pretendia especular com as suas produções agrícolas. O novo sistema estabelece um valor, estabelece a moeda, e para adquiri-la o homem só tem necessidade de seu braço.
O crédito assenta a sua base sobre esta engenhosa produção do espírito humano. Ora, indústria manufatora ou indústria-crédito, o século conta a indústria como uma das suas grandes potências: tirai-a aos Estados Unidos e vereis desmoronar-se o colosso do norte.
O que é o crédito? A idéia econômica consubstanciada numa fórmula altamente industrial. E o que é a idéia econômica senão uma face, uma transformação da idéia humana? É parte da humanidade; aniquilai-a, — ela deixa de ser um todo.
O jornal, operando uma lenta revolução no globo, desenvolve esta indústria monetária, que é a confiança, a riqueza e os melhoramentos. O crédito tem também a sua parte no jornalismo, onde se discutem todas as questões, todos os problemas da época, debaixo da ação da idéia sempre nova, sempre palpitante. O desenvolvi­mento do crédito quer o desenvolvimento do jornalismo, porque o jornalismo não é senão um grande banco intelectual, grande monetização da idéia, como diz um escritor moderno.
Ora, parece claro que, se este grande molde do pensamento cor­responde à idéia econômica como à idéia social e literária, — é a forma que convém mais que nenhuma outra ao espírito humano.
É ou não claro o que acabo de apresentar? Parece-me que sim. O jornal, abalando o globo, fazendo uma revolução na ordem social, tem ainda a vantagem de dar uma posição ao homem de letras; por­que ele diz ao talento: "Trabalha! vive pela idéia e cumpres a lei da criação!" Seria melhor a existência parasita dos tempos passados, em que a consciência sangrava quando o talento comprava uma refeição por um soneto?
Não! graças a Deus! Esse mau uso caiu com o dogma junto do absolutismo. O jornal é a liberdade, é o povo, é a consciência, é a esperança, é o trabalho, é a civilização. Tudo se liberta; só o talento ficaria servo?
Não faltará quem lance o nome de utopista. O que acabo, porém, de dizer me parece racional. Mas não confundam a minha idéia. Admitido o aniquilamento do livro pelo jornal, esse aniquilamento não pode ser total. Seria loucura admiti-lo. Destruída a arquitetura, quem evita que à fundação dos monumentos modernos presida este ou aquele axioma d'arte, e que esta ou aquela ordem trace e levante a coluna, o capitel ou zimbório? Mas o que é real é que a arqui­tetura não é hoje uma arte influente, e que do clarão com que inun­dava os tempos e os povos caiu num crepúsculo perpétuo.
Não é um capricho de imaginação, não é uma aberração do espírito, que faz levantar este grito de regeneração humana. São as circunstâncias, são as tendências dos povos, são os horizontes rasgados neste céu de séculos, que implantam pela inspiração esta verdade no espírito. É a profecia dos fatos.
Quem enxergasse na minha idéia uma idolatria pelo jornal teria concebido uma convicção parva. Se argumento assim, se procuro demonstrar a possibilidade do aniquilamento do livro diante do jornal, é porque o jornal é uma expressão, é um sintoma de democracia; e a democracia é o povo, é a humanidade. Desaparecendo as fronteiras sociais, a humanidade realiza o derradeiro passo, para entrar o pórtico da felicidade, essa terra de promissão.
Tanto melhor! este desenvolvimento da imprensa-jornal é um sintoma, é uma aurora dessa época de ouro. O talento sobe à tribuna comum; a indústria eleva-se à altura de instituição; e o titão popular, sacudindo por toda a parte os princípios inveterados das fórmulas governativas, talha com a espada da razão o manto dos dogmas no­vos. É a luz de uma aurora fecunda que se derrama pelo horizonte. Preparar a humanidade para saudar o sol que vai nascer, — eis a obra das civilizações modernas.
IN: Obra Completa, Machado de Assis, Rio de Janeiro: Nova Aguilar, V.III, 1994.

Em tempos de política

Uma das coisas mais impressionantes que já li sobre sobre Política foi no Antigo Testamento, no Primeiro Livro de Samuel. Após a libertação da escravidão no Egito e do estabelecimento em Canaã, o povo hebreu, após a morte de seus dois grandes líderes, Moisés e Josué, era governado de forma auto-gestionária, pelos chamados juízes (os juízes foram os grandes responsáveis pela fixação do povo hebreu em Canaã, e se tornaram personagens célebres como Gideão, que derrotou os madianitas e Sansão, que matou três mil filisteus).

Apesar dos juízes serem grandes líderes, sua liderança era carismática e baseava-se na inspiração, no exemplo. Não existia a ideia de uma instituição que unificasse as doze tribos e todos os clãs que formavam o povo hebreu. O povo era governado pela Lei que recebeu de Moisés. Esta Lei estava codificada no que hoje chamamos de Pentateuco - os cinco grandes livros da Lei, especialmente no Êxodo, no Levítico e no Deuteronômio - , e por meio desta Lei, os clãs se auto-governavam de forma autônoma, sendo esse auto-governo mediado por grandes sábios, que faziam a interpretação da Lei e a aplicação aos casos concretos, os juízes.

O último grande juiz de Israel foi Samuel. Uma das coisas mais impressionantes em todo o Antigo Testamento é ver o povo pedir a Samuel que lhes sagrasse um rei usando como argumento o fato de que "todos os povos vizinhos tinham um rei", e que por conta disso, eles também queriam ter um rei. O que impressiona é que este povo fugiu justamente da instituição da realeza (a concentração do poder numa figura única), pois fugiram do Faraó do Egito. E além de tudo mais, a instituição dos reis era, na maior parte dos casos, a fonte e a origem da opressão (expressa pelo chamado modo de produção asiático, no qual todos os súditos eram virtualmente escravos do soberano, que em muitos casos, apresentava-se a si próprio como a encarnação do divino, do Mistério, como o próprio Faraó, que se auto-intitulava "Deus"). O povo de Israel era contrário a tudo isso, era uma subversão absoluta, já que o Mistério era concebido, pelos hebreus como o Santo, ou seja, o Totalmente Outro, e que não se identificava de forma alguma com algum poder constituído pelos homens.

O trecho abaixo mostra como surge no povo de Israel o desejo de um rei, o desejo de uma unidade política. Segue o trecho, o mais pode ser lido no Primeiro Livro de Samuel.

"E sucedeu que, tendo Samuel envelhecido, constituiu a seus filhos por juízes sobre Israel.
E o nome do seu filho primogênito era Joel, e o nome do seu segundo, Abia; e foram juízes em Berseba.
Porém seus filhos não andaram pelos caminhos dele, antes se inclinaram à avareza, e aceitaram suborno, e perverteram o direito.
Então todos os anciãos de Israel se congregaram, e vieram a Samuel, a Ramá,
E disseram-lhe: Eis que já estás velho, e teus filhos não andam pelos teus caminhos; constitui-nos, pois, agora um rei sobre nós, para que ele nos julgue, como o têm todas as nações."

(1 Samuel 8:1-5)

Dessa forma, atendendo aos pedidos dos anciãos, dos líderes dos clãs do povo, Saul foi constituído por Samuel o primeiro rei de Israel e foi o responsável pela consolidação de sua unificação política, preparando o caminho para os grandes reinados de Davi e de Salomão (que construiu o Templo, que tornou-se símbolo da nação, mais tarde). A coisa que impressiona é observar o povo abrindo mão de sua autogestão, de sua liberdade, de sua autonomia, em virtude da unidade política, por meio da força e da institucionalização, usando como justificativa o que hoje chamaríamos de benchmarking (a imitação das melhores práticas), dado que a maior parte dos povos se organizava politicamente dessa forma mais unificada (como as clássicas cidades-Estado). Porém, a História mostrou que esse modelo político não funcionou muito em Israel. O reinado foi uma instituição trágica para o povo hebreu. Em algumas dezenas de anos, a nação se dividiu em duas, sendo que uma delas foi completamente destruída, e a outra se viu escravizada novamente em Babilônia, vítima do mesmo modelo político operado no Egito, o modo de produção asiático. Israel só readquiriu soberania sobre sua terra em 1948, há 64 anos, após o holocausto prepetrado por Hitler.

quarta-feira, 13 de junho de 2012

A crise da Europa, crise do humano



















O que é a Europa?

A Europa é fruto de um sonho humano, o desejo da universalidade. Em nome desse desejo, entremeado a todas as paixões humanas, e a todas as sedes de poder e de domínio, se construiu a helenização do mundo, do ponto de vista cultural, e a formação do Império Romano, do ponto de vista político. O próprio imperador, quando conquistava uma terra nova, lá proclamava o "evangelho" (sim, "evangelho" é uma palavra grega que significa "boa notícia"). A "boa notícia" trazida pelo imperador era a paz, a "pax romana". Não é à toa que o imperador romano se proclamava o "salvador de todo o universo". Roma conseguiu unificar uma inumerável miríade de povos, culturas, raças e línguas, trazendo realmente a paz, porque todos os povos estavam subjugados e a unidade estava garantida pelo domínio do imperador. Todo esse império era mantido e regido pelo Direito. O encontro com o cristianismo veio tornar pleno esse desejo de universalidade, pois a razão grega aliada ao direito e à política romana vieram a realizar-se plenamente naquilo que ficou conhecido como "o cristianismo", ou "a Igreja". De fato, a Igreja levou a cabo assimilação da razão grega e do direito romano, e devemos confessar a nós mesmos, que toda a nossa filosofia e ciência, e também o nosso direito descendem diretamente do pensamento grego e da política romana. Como disse o papa Bento XVI, na Alemanha, em 2011, "desse tríplice encontro nasceu a Europa".

A Europa é um patrimônio da humanidade. Ela se aproxima do ideal de universalidade que desde tempos imemoriais habita a humanidade, desde que ela foi dispersa na Torre de Babel. As Nações Unidas, e toda a parafernália internacional, não passam de um arremedo daquilo que, aos longo dos tempos foi naturalmente se cristalizando, até formar a Europa.

Hoje, a Europa renega a si mesma. Tem uma crise de identidade. Não sabe mais quem é. Renega a razão, afirmando o relativismo e o consequente ceticismo, para o qual é impossível chegar a uma certeza. Se não é possível uma certeza sobre a vida, vence o niilismo, "a dança sobre o vazio", como já profetizava Nietzsche, cem anos atrás. A Europa renega o Direito, e hoje vê-se isso claramente no triunfo da ideologia de gênero, que nega a natureza, e consequentemente o Direito Natural, e também na ascensão dos chamados "novos direitos" (ou "direitos de quarta geração"), como o direito irrestrito ao aborto, à eutanásia, aos "same sex marriage", nos quais os desejos erigem-se em critérios normativos do ordenamento social, onde a "lógica" passa a ser o relativismo e a detenção do poder no momento. Mais do que tudo, a Europa renega o encontro com o cristianismo. Renega as raízes cristãs. Tem vergonha do cristianismo. Para a maioria dos europeus, vive-se completamente "sem Jesus depois de Jesus". O ateísmo domina, e a vida torna-se cada vez mais absurda e cínica, completamente sem sentido. O mundo torna-se, como também profetizou Shakespeare "uma fábula contada por um idiota num acesso de raiva".

A atual crise econômica é uma crise do humano, como já antecipava Bento XVI, uma crise antropológica. É o europeu que está em crise. Mais ainda, não é uma mera crise europeia, é uma crise ocidental, já bem apresentada na trilogia O Declínio do Império Americano, As Invasões Bárbaras e A Idade das Trevas (no Brasil,  "L'âge des Tenèbres" pessimamente traduzido como A Era da Inocência). Hoje fala-se em "crise de confiança". De fato, a Europa se firmou como uma sociedade da confiança. O outro homem não é o lobo do homem contra o qual é necessário erigir o Estado para nos defender, mas o outro é um ser dotado de razão, como descobriram os gregos, que vive numa sociedade política administrada segundo o Direito, como descobriram os romanos. E mais ainda: o outro é o próximo. O próximo debaixo do qual se esconde uma positividade, ainda que muitas vezes mascarada por uma série de circunstâncias que podem degradá-lo e desfigurá-lo. Com este próximo pode-se viver, fazer acordos (política), e tecer contratos (economia), que supõe-se deverão ser respeitados. 

Uma crise de confiança é uma crise de confiança em quem? Antes de mais nada no homem, mas além disso, configura-se uma crise de confiança na realidade, que se expressa de forma concreta como uma desconfiança e medo generalizado e difuso,  na economia e na política, e sobretudo nos relacionamentos. Não confiam-se mais nos políticos. Nada se espera mais do mercado. Os relacionamentos são cada vez mais líquidos. A salvação, quando ainda é esperada, projeta-se em ideologias, que na verdade não passam de miasmas coagulados, fantasmas sem nenhum fundamento na realidade. Exatamente como o dinheiro fictício que circula nas bolsas de valores do mundo, que não têm nenhum lastro no mundo real, dinheiro fundamentado em dívidas, podre na verdade. Uma vida assim é uma "vida a crédito", como dizia o filósofo polonês Zygmunt Bauman, onde os desejos são mercantilizados e a ideologia da dívida é a esperança de que certos bens materiais possam preencher o vazio infinito dos nossos desejos.

Tudo isso revela, na verdade, uma falência e um grande não. A realidade desmente todos os ideólogos que quiseram enjaulá-la em suas gaiolas de ferro, em seus bunkers irrespiráveis. Para onde olhar? Estamos no fio da navalha entre o niilismo mais abjeto e a verdadeira esperança. Um fato é um acontecimento irredutível, é um ponto de não-retorno, marca-nos de forma a que não mais possamos voltar ao que era antes, é uma verdadeira reação química, uma alquimia, de tal forma que os elementos se transmutaram de tal forma que não podem mais voltar a ser como eram antes. O sonho idílico do retorno à Antiguidade não marcada pelas "trevas" da Idade Média é impossível. Fomos marcados de tal forma pelo acontecimento cristão que se colou de tal forma às nossas entranhas, que por mais que nos esforcemos para viver "sem Jesus depois de Jesus", no fundo, no fundo, não o conseguiremos, porque estamos marcados. E essa é a nossa esperança. Um fato irredutível. A razão descoberta pelos gregos, o direito romano e o acontecimento cristão. Essa tríade marcou a humanidade, e marca ainda hoje. Voltar novamente o olhar, converter-nos para o que aconteceu e acontece ainda hoje, é a única esperança para a Europa, essa expressão maravilhosa do quão grande é o coração do homem.

sexta-feira, 20 de abril de 2012

A neomalvinização de Cristina






















Cristina Kirchner e Barack Obama

Ando lendo e acompanhando atentamente a situação na Argentina da presidenta Cristina Kirchner. Para além de todas as análises e nuances, é chocante este anúncio da reestatização da empresa YPC. Apesar de eu pensar que, nesta etapa da nossa história, o termo "empresa pública" seja uma contradição em termos, ainda mais em países que já iniciaram o trilho do desenvolvimento, como a Argentina, o capitalismo global tem as suas mazelas, mas ainda as tem mais o neo-populismo esquerdista que infesta o nosso continente. O que tem dado resultado de verdade, e que no Brasil podemos comprovar, é mesmo a democracia, a defesa das instituições, dos marcos regulatórios e o Estado de Direito. São estas bases que vão, paulatinamente, construir um país. Porque um país se constrói no dia-a-dia, no dia-a-dia das pessoas reais, concretas, de carne, osso, e dramas, de pessoas que pegam ônibus, enfrentam filas e pagam os impostos imbutidos. Não se constrói um país nem a História a golpes de retórica e nem de caneta. Muito menos com atos cênicos disfarçados de "propaganda política" e "defesa dos interesses nacionais".

A esquerda latino-americana estava meio "apagada" há alguns meses. Fidel, seu velho líder e mito histórico, está cada vez mais fraco, cada vez escreve menos no jornal El Granma, com seu irmão Raul fazendo reformas e caminhando cada vez mais em direção ao mercado (ou melhor, ao capitalismo de Estado de inspiração chinesa). Chávez enfrenta um câncer. O séquito de seus seguidores, Morales, Correa e Lugo estão também muito quietos; Lula também está afastado dos holofotes pelo tratamento de um câncer que lhe atingiu a laringe; já Dilma é "gerentona demais" para sobressair no cenário da histriônica esquerda latino-americana, na verdade está mais para uma esquerda à la Hillary Clinton, com todo o bojo que lhe advoga a aplicação da Teoria Feminista nas Relações Internacionais (que o diga as ascensões ao poder máximo da própria Dilma, de Cristina, Hillary, de Angela Merkel, e agora também o retorno de Condoleezza Rice - vulga Condi - na possível candidatura à vice-presidência dos Estados Unidos, somada à emergência da expressão "presidenta" no dicionário político contemporâneo). Cristina Kirchner, emerge, então, no ínterim deste cenário, promovendo uma verdadeira "neomalvinização da economia" (em referência aos trinta anos da guerras das Malvinas).

É mais fácil chamar a atenção da mídia promovendo bravatas e chocando a opinião internacional do que promovendo verdadeiras e necessárias reformas internas e arrumando a economia fragilizada por décadas de má administração. Tudo isso advogando o "nacionalismo". O "nacionalismo" (na verdade, neo-populismo) é a desculpa para tudo; Chávez emergindo como líder inspirador desta nova safra de líderes neo-populistas. A versão feminina de Hugo Chávez promove uma reestatização em seu país em nome dos "interesses nacionais da Argentina". Para o bem do próprio povo argentino, seria mais interessante que a presidenta aprendesse mais com a sua colega de gênero e vizinha geográfica, a presidenta Dilma Rousseff, do que com o coronel bolivariano. 

quinta-feira, 19 de abril de 2012

Você é um número

Extraído do livro Felicidade Clandestina, de Clarice Lispector

Clarice Lispector


Se você não tomar cuidado vira um número até para si mesmo. Porque a partir do instante em que você nasce classificam-no com um número. Sua identidade no Félix Pacheco é um número. O registro civil é um número. Seu título de eleitor é um número. Profissionalmente falando você também é. Para ser motorista, tem carteira com número, e chapa de carro. No Imposto de Renda, o contribuinte é identificado com um número. Seu prédio, seu telefone, seu número de apartamento - Tudo é número.
Se é dos que abrem crediário, para eles você também é um número. Se tem propriedades, também. Se é sócio de um clube tem um número. Se é imortal da Academia Brasileira de Letras tem número da cadeira.
É por isso que vou tomar aulas particulares de Matemática. Preciso saber das coisas. Ou aulas e Física. Não estou brincando: vou mesmo tomar aulas de Matemática, preciso saber alguma coisa sobre cálculo integral.
Se você é comerciante, seu alvará de Localização o classifica também.
Se é contribuinte de qualquer obra de beneficência também é solicitado por um número. Se faz viagem de passeio ou de turismo ou de negócio recebe um número. Para tomar um avião, dão-lhe um número. Se possui ações também recebe um, como acionista de uma companhia. É claro que você é um número no recenseamento. Se é católico recebe um número de batismo. No Registro civil ou religioso você é numerado. Se possui personalidade jurídica tem. E quando a gente morre, no jazigo, tem um número. E a certidão de óbito também.
Nós não somos ninguém? Protesto. Aliás é inútil o protesto. E vai ver meu protesto também é número.
A minha amiga contou que no Alto do Sertão de Pernambuco uma mulher estava com o filho doente, desidratado, foi ao Posto de Saúde. E recebeu a ficha com o número 10. Mas dentro do horário previsto pelo médico a criança não pode ser atendida porque só atenderam até o número 9. A criança morreu por causa de um número. Nós somos culpados.
Se há uma guerra, você é classificado por um número. Numa pulseira com placa metálica, se não me engano. Ou numa corrente de pescoço, metálica.
E Deus não é número.
[...]

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

O empenho e o penhor
















Uma das lembranças mais dolorosas que tenho na vida é do tempo que eu tinha de acordar para ir às aulas de Estatística na UFBA, que começavam às sete horas, e que eu, na maior parte das vezes, chegava às nove. Lembro-me como hoje da minha total ausência de forças para levantar e ir, da minha total falta de motivação. Isso já faz muito tempo, oito anos para ser mais exato, mas essa situação sempre me suscitou a pergunta acerca da palavra "empenho": para que se empenhar? 

Dei-me conta, há alguns minutos, fazendo palavras-cruzadas, que a palavra "empenho" vem da mesma raiz da palavra "penhor". O penhor é uma forma tradicional de empréstimo no qual se dá um bem como garantia, geralmente avaliado em ouro, para ser resgatado futuramente, mediante a devolução com juros do dinheiro emprestado. E eu fiquei muito impressionado me dando conta exatamente: só é possível se empenhar em algo se você reconhece uma promessa dentro. O empenho verdadeiro, para não ser um ativismo histérico ou o disfarce de uma hiperatividade neurótica, só pode nascer da percepção da promessa, do penhor que é a realidade. O trabalho sempre nasce da esperança.

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Reality Show: A Produção da Banalidade













por Ricardo Fonseca

Nas ruas de nossa cidade, a multidão se move sobre largas calçadas, sob edifícios altos como nunca vistos. Numa inquietação surda e dolorosa, busca o sabor do dia presente. Sedenta de fortes excitações, lota os cinemas, os bares, os estádios. Atualmente, os reality shows brilham como a estrela guia de nossas vidas tupiniquins. Programas como Big Brother proliferam e ganham novas edições, atraindo cada vez mais a audiência, o que faz a alegria dos meios de comunicação e consagra a derrocada humana através da banalidade.
Um certo poder cultural, antes que político, ataca o homem, nivelando por baixo seus desejos de verdade e de justiça, de felicidade. Exaltam-se certos valores morais e sociais segundo as modas do momento e nega-se a possibilidade de realização da pessoa na sua verdade e no seu destino. Nega-se, de fato, a possibilidade de um destino último e pleno ao qual tende o desejo humano.
No achatamento do "desejo" em tantos desejos imediatos, determinados pela máquina do consumo, reside o desnorteamento dos jovens e o cinismo dos adultos. Assim, o poder da comunicação se torna instrumento para a indução cruel de determinados desejos e para a supressão de outros. Entre estes o desejo do absoluto, da justiça, da solidariedade. (...)
Quando o "eu" não é escravo, é capaz de encontrar outras experiências e de ser criador de um justo clima de democracia. A atenção à verdade do eu cria um movimento entre os homens desejosos de mudar a sociedade e as suas estruturas, para torná-la digna morada para todos (segundo a verdadeira imagem da pessoa humana).

Este reencontro com o seu verdadeiro eu é o cristianismo: um encontro com uma humanidade excepcional, excepcional na medida em que corresponde de maneira única - como só é possível a Deus - às esperas e aos desejos do coração. Diferentemente do que hoje nos é dado na televisão meus amigos, esta é uma realidade diversa e melhor que vem ao nosso encontro para que a grandeza chegue, se Deus quiser, como um belo dia.

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

A novilíngua orwelliana e a perseguição a Bento XVI





















George Orwell

Uma das coisas mais descaradas, mais estapafúrdias, mais criminosas e delinquentes que eu vi nos últimos meses, mais difamatórias, mentirosas, mesquinhas e um total serviço à desinformação, ao emburrecimento, à ideologização e à inutilidade foi a notícia, amplamente divulgada na mídia e viralizada quase ao infinito pelo Twitter, foi a imensa polemização da suposta declaração do papa de que o casamento gay seria uma "ameaça ao futuro da humanidade". Eu fiquei muito impressionado com a suposta frase, e especialmente em relação à desinformação e ao ódio desenfreado contra o Papa e contra a Igreja. No fundo, este é um ódio do poder contra quem, em plena pós-modernidade relativista, ousa chamar a nossa atenção não para si próprio (pois sabe muito bem que vai ser odiado sem razão por afirmar certas coisas), mas para o nosso próprio coração, que é sede inexorável de verdade e justiça, de beleza e liberdade. Contra um mundo que se delicia no pastiche e no repeteco pós-moderno do velho travestido de novo, Bento XVI ousa chamar a atenção para aquilo que não envelhece nunca. E paga o preço por isso, marginalizado, em pleno mal-estar da pós-modernidade.

Pois bem: indignado com a situação, e depois que eu li as cínicas declarações, inclusive de muitas "celebridades" no Twitter, e crendo, como nos ensina o Estado de Direito, que todos nós somos inocentes até que se prove o contrário (e não o contrário como nos ensinam os mestres da suspeita, Marx, Nietzsche e Freud, de que todos são culpados até que se prove o contrário, e que a realidade não é o que aparenta ser, inaugurando a cultura da suspeita e do medo em relação ao real e à vida), fui então à fonte: o que, afinal, disse o Papa? (pois eu pensei: o Papa não é tão leviano a ponto de dizer que o casamento gay ameaça o futuro da humanidade, pelo simples fato da maioria esmagadora da população ser heterossexual). Lido o texto (muito bom, por sinal), eis que surge a declaração do Papa:

"as políticas que atentam contra a família ameaçam a dignidade humana e o próprio futuro da humanidade."

Ei-la a frase acima, foi exatamente o que o Papa disse. Depois de estudar análise do discurso, Michel Foucault, o não-dito e outras coisas mais (como fiz para a minha dissertação de mestrado), posso dizer que é uma interpolação gigantesca dizer que o Papa falou que "o casamento gay é uma ameaça à humanidade".

Todo esse fuzuê com uma declaração que simplesmente inexistiu (porque cada um que teve ou tem uma família, para negar a afirmação do Papa, tem de ir contra a própria experiência, ao negar a importância fundamental do próprio pai e da própria mãe para o desenvolvimento de suas próprias vidas) me lembra o que George Orwell já profetizou há algumas décadas sobre a "novilíngua":  o poder que dominaria a sociedade começaria inventando uma nova língua, uma nova linguagem, mudando a forma das pessoas falarem e pensarem, impedindo as pessoas de pensarem e agirem por si próprias. O poder, invisível e difuso nestes tempos pós-modernos, líquido, mas onipresente, é como um Panóptico que a todos controla, do alto da sua Torre de Vigia. Uma meia-dúzia de agências de notícias, financiadas pelos grandes trustes que controlam as comunicações no mundo inteiro "criam" e divulgam notícias, espalhando-as pelo mundo afora. Para muitos, não existe a "verdade". A "verdade" é algo inatingível, o que existe é a minha versão dos fatos, a minha opinião, a minha posição. Em relação a Bahia e Vitória, Corínthians e São Paulo, até que dá um pensamento assim, mas isso não coaduna quando se trata da estrutura da realidade e da linguagem do ser. A novilíngua parte do princípio de que não existe verdade, só discurso. E é muito interessante que Michel Foucault, filósofo que estudou o poder nos anos 60 intercambiava as palavras "discurso" e "poder". "Quem controla o discurso controla o poder", diz Foucault.

Hoje, a guerra é travada pelo controle do discurso, dentro do discurso. O discurso é o palco da guerra no século XXI, e por isso o hipertexto é uma grande trincheira de batalha.  "Verdade" é a coisa que menos importa neste momento de mal-estar. Mas a verdade é como uma rocha. A sua característica é a sua durabilidade; ela permanece apesar de todas as intempéries que a atingem. Qualquer um para negar Bento XVI tem de negar a própria experiência que fez na vida, de ser gerado por uma mulher, e criado por um pai e uma mãe. Isto é um fato,  porque a verdade existe e se faz transparente na experiência, não sei a razão para tanto ódio disseminado. O Papa não atacou os gays, somente defendeu a família, defendeu a si mesmo e a cada um de nós. Mas quem prega o ódio ao Papa não ama nem os gays, nem as famílias, nem a si mesmos, não ama ninguém, só ama o poder e quer a todo custo controlar as mentes e os corações e estabelecer sob os próprios pés um rebanho de criados dóceis, que trocaram a sua liberdade pelo pão e circo da pós-modernidade.