sexta-feira, 10 de julho de 2009

A força da caridade


Giorgio Vittadini

Entrevista realizada por Davide Perillo com Giorgio Vittadini, quarta-feira, 8 de julho de 2009, publicada em Tracce.it.

O vínculo incindível com a verdade. O anúncio de Cristo como “primeiro fator de desenvolvimento”. E ainda a subsidiariedade, o mercado, a liberdade... Assim, Giorgio Vittadini lê para Tracce a nova Encíclica de Bento XVI

A espera foi longa: dois abundantes anos, desde aquele 2007 quando se começou a falar da “próxima encíclica social de Bento XVI” (deveria ter saído para comemorar os 40 anos da Populorum progressio, de Paulo VI). Aí, no vai-e-vem dos esboços, estourou a crise global. E, então, a necessidade de corrigir, aprofundar, rever. Resultado: o texto foi assinado no dia 29 de junho, festa dos Santos Pedro e Paulo, e saiu uma semana depois.
Espera concluída, portanto. Inicia-se a leitura. Densa, visto que se trata de 79 parágrafos nos quais se move livremente do trabalho à finança, das organizações internacionais para o desenvolvimento, passando pela técnica, pelo consumo, o ambiente... “Mas, o primeiro dado que impressiona é um outro”, disse Giorgio Vittadini, presidente da Fundação para a Subsidiariedade: “o vínculo com a primeira encíclica deste Pontífice, a Deus caritas est. Também ali, se olharmos bem, se falava da caridade ligando-a com a verdade. Aqui, o Papa faz a mesma coisa desde o princípio do texto”.


Podemos dizer que a Encíclica afirma que o problema social e dos relacionamentos entre os homens é, antes de mais nada, uma questão ontológica, não ética... um problema de conhecimento. O que você pensa disso?
Definindo a caridade como verdade, o Papa elimina da caridade toda possível redução de tipo moralista. Neste sentido, é verdade, a liga exatamente ao conhecimento. Vem-me à mente um velho cartaz dos anos 80 que retomava uma intervenção de João Paulo II: “A verdade é a força da paz”. É isso! Fundar a caridade sobre a verdade quer dizer reportá-la ao aspecto próprio das virtudes teologais: fé, esperança e caridade. Enquanto que, muitas vezes, a palavra “caridade” pode ser percebida de modo redutivo.

“Sem verdade, a caridade escorrega em sentimentalismo”, disse o Papa...
Pois é. Aqui, pelo contrário, se fala de amor, mas como amor ao destino do homem. E ele está ligado ao aspecto ontológico e de conhecimento. O conhecimento como ponto de partida do amor, do desenvolvimento. Segundo penso, é muito importante: deste modo, no clima de confusão em que vivemos – e no qual estes valores foram, muitas vezes, desligados de uma experiência humana e histórica – tudo é reportado a uma objetividade.

E a uma afirmação potente: “O anúncio de Cristo é o primeiro e principal fator de desenvolvimento”.
Porque é Cristo que realiza o destino do homem. Este é um tema que emerge praticamente em toda a Encíclica. O Papa fala disso já no início, quando retoma a Populorum progressio e a revê de um modo não redutivo. Bento XVI sublinha que Paulo VI apresentava de modo claro a relação entre o anúncio de Cristo, a pessoa e a sociedade. Mas fala disso também na sequência do texto, quando várias vezes afirma que a Igreja é o verdadeiro ponto de referência para o progresso do homem. De fato, ao colocar o tema da caridade na verdade ele afirma que “em Cristo a caridade na verdade se torna o Rosto da Sua Pessoa” e que a Igreja custodia esta concepção da realidade. O Papa fala da doutrina social, mas lembra que mesmo ela nasce do acontecimento cristão.

Fala também do desenvolvimento como “vocação” e não apenas como “incremento do ter”. Por quê?
Ele explica assim: “No desígnio de Deus, cada homem é chamado a um desenvolvimento, porque cada vida é vocação”. Nas páginas da Encíclica existe um contraponto contínuo sobre o fato de que o desenvolvimento do homem tem que ver com o “sentido do seu caminhar na história”. Pense, por exemplo, em como ele fala de pobreza, no início do quinto capítulo: ele a coloca em relação com a falta de sentido, porque nasce da “solidão” e da “renúncia ao amor de Deus”. É como se o Papa enfrentasse continuamente o fato de que qualquer problema social não é tratado de modo completo e equilibrado se se prescinde do relacionamento com Deus. Fator importantíssimo, sobretudo se pensamos em como o tema “evangelização e promoção humana” foi tratado ao longo dos anos, mesmo nos ambientes eclesiásticos, como se fosse dois aspectos distintos. “Não basta a caridade, é preciso a justiça”. Quantas vezes escutamos essas coisas? Como se a caridade pudesse ser injusta e a justiça fosse algo que o homem pudesse fazer por si mesmo!

Não lhe parece notável a atualidade de Paulo VI?
Sim. Mas impressiona também que Bento XVI leia exatamente a Populorum progressio, que foi uma das encíclicas mais forçadas na interpretação. Se a Humanae vitae, outra famosa encíclica de Montini, foi lida como fechamento, a Populorum progressio foi interpretada como concessão ao mundo. Mas, pelo contrário, o Papa a relê na sua acepção verdadeira: a tentativa de mostrar como a fé em Deus e a experiência cristã são os fatores mais determinantes para o desenvolvimento integral do homem.

Mas, é impressionante também a atualidade daquela intuição de dom Giussani, de 1976. “Evangelização e promoção humana” era o título do simpósio da Igreja italiana daquele ano, todo baseado na distinção. Dom Giussani àquele “e” quis colocar um acento: anunciar Cristo é promover o humano...
Olha, lendo a Encíclica não pude deixar de pensar, em várias momentos, no tríptico O eu, o poder e as obras, o livro de dom Giussani. É o radicar-se do eu dotado de um desejo de verdade, justiça e beleza que funda uma ação social. E, de fato, mais à frente, a Encíclica fala literalmente de “obra”. Não confinando-a a um aspecto marginal da vida econômica e social, o Terceiro Setor visto como algo ao lado do liberalismo e do comunismo. É o mercado que, para Bento XVI, deve ser marcado pela gratuidade, por empresas nas quais o proveito é um instrumento, mas o objetivo é maior.

A expressão exata é “obras que tragam impresso o espírito do dom”...
Exatamente. Portanto, se fala de obras que nascem da experiência cristã, de associações empreendedoras que nascem com este objetivo. Aqui, se lê o mercado, e mesmo a vida econômica, como algo que não se deixa levar pelas ideologias opostas, mas como um instrumento de algo maior. “Não se trata apenas do terceiro setor”, diz no parágrafo 46, “mas de uma nova, ampla realidade composta que envolva o privado e o público e não exclui o proveito, mas o considera como instrumento para realizar finalidades humanas e sociais”. E, em seguida: “parece que a distinção até agora usada entre empresas com objetivo de proveito (profit) e organizações não objetivadas ao proveito (non profit) não seja mais adequada para entender a realidade, nem para orientar eficazmente o futuro”. É como se relesse a história econômica, não apenas a italiana mas a européia, desde 1850 até hoje: o movimento católico, o movimento operário, o desenvolvimento de uma empresa operativa, movida pelo desejo de melhorar as condições de vida do homem.

E o que emerge dessa releitura?
Nós, católicos, tivemos por anos um complexo de inferioridade. Existia a ideia de que a sociedade é aquilo que é, com as suas leis, e nós devemos dar-lhe os valores éticos e nos ocuparmos dos pobres. Ponto final! Bem, o Papa rebate esta posição. E mostra que o mercado é algo de muito mais complexo e variado do que aquele monte de coisas abstratas descrito por certos jornalistas. Assim, ele lê também a crise financeira, não apenas como o êxito de mecanismos errados, mas como o êxito da ação de homens que se moveram com uma humanidade reduzida. Um dos exemplos mais graves disso é a crise de confiança recíproca que foi ampliada com crise financeira. A crise de confiança não é uma crise que nasce de mecanismos econômicos, mas nasce da crise do homem em relação com outros homens. Neste sentido, o verdadeiro tema da Encíclica é o sujeito humano que está por trás da atividade econômica e a determina.

É por isso que o outro fio condutor do texto é a liberdade? É uma palavra que aparece 38 vezes...
Porque o Papa convida a superar uma concepção de economia ligada a mecanismos nos quais o homem não diz respeito. Se olharmos para o debate posterior à crise, em alguns jornais, se verá como a vias de escape não previam uma autocrítica a respeito da concepção de homem que guia a atividade econômica. Parece que é necessário apenas consertar as máquinas que se desgastaram... e, porém, tudo estraga de novo. Quem, como o Papa, se pergunta quem seja e o que deseja o homem que guia a economia, mostra, por isso mesmo, uma visão absolutamente inovadora da economia e da sociedade, que coloca no centro a responsabilidade do indivíduo e das agregações, dos grupos intermédios, nos quais se colocam juntos a outros homens, em nome de ideais comuns. De fato, não é por acaso, a outra palavra da Encíclica é “subsidiariedade”. Bento XVI fala dela sempre como de um método ligado à responsabilidade: “a subsidiariedade é uma ajuda à pessoa através da autonomia dos grupos intermédios”. Quer dizer que é o instrumento que permite que o eu, nos grupos intermédios, possa desenvolver as suas potencialidades. A subsidiariedade “favorece a liberdade e a participação enquanto assumir de responsabilidade”.

Como você lê essa definição?
De maneira dinâmica. Digamos que a subsidiariedade põe as condições pelas quais a pessoa se torna capaz de desenvolver toda a sua capacidade criativa, e através dos grupos intermédios aos quais pertence, se torna capaz de dar respostas às necessidades da sociedade. Do eu à obra. O desejo se torna obra, construção de uma resposta orgânica às necessidades. É uma concepção de homem e uma experiência em ato que sustenta a definição de subsidiariedade.

E, aqui, voltamos ao conceito inicial de desenvolvimento como “vocação”...
Mas, a coisa bonita é que o Papa o diz tanto no nível do eu, como das obras e da globalização mesma. E esta é uma tese muito audaz, sobretudo se a pensarmos em nível internacional. Os vários G8 e similiares nos fizeram ficar habituados com o fato de que o mundo vai para frente graças aos vértices de chefes de Estado. Estamos, nesse sentido, nas antípodas da subsidiariedade. O Papa, pelo contrário, diz que mesmo uma autoridade mundial deverá “ater-se coerentemente aos princípios de subsidiariedade e de solidariedade”. Pense no que quer dizer, por exemplo, para uma União Européia, sufocada pelo estatalismo, pelos interesses nacionais, pelas burocracias...

O Papa liga a subsidiariedade à solidariedade. Por que ele insiste tanto em sublinhar isso?
Antes de mais nada devemos pensar que, no mundo, não existe a universalidade do welfare como na Europa. O mundo americano, por exemplo, não o concebe mais assim. E também a Europa, na medida em que perdeu o escopo dos sistemas de welfare que é o serviço à pessoa, acaba frequentemente defendendo um Estado entendido como única garantia do bem da pessoa e uma iniciativa privada sem ideais, como única expressão da liberdade. Sublinhar o nexo entre solidariedade e subsidiariedade quer dizer que o primeiro modo para defender e ajudar a desenvolver o eu e o povo significa favorecer o nascimento e o crescimento de realidade que, exatamente por serem movidas por critérios ideais, lutam pelo bem comum e para responder às necessidades dos mais pobres e mais necessitados. Deste ponto de vista, a solidariedade que se conjuga com a subsidiariedade encontra sua raiz naquela caridade entendida como “dom de si comovido”, segundo a definição de dom Giussani.

Paradoxalmente, neste sentido, não existe nada de mais subsidiário do que a própria Igreja: nasce e vive intencionalmente para permitir ao eu encontrar a resposta à sua necessidade.
De fato, em um certo momento, “estranhamente” para uma encíclica social, existe um parágrafo inteiro sobre a libertas Ecclesiae e sobre a liberdade religiosa. Porque, se não existe um sujeito que sublinha a ideia do eu único e irrepetível, do valor da pessoa (mais do que nas suas expressões operativas, na sua concepção), eu não posso construir uma realidade que seja subsidiária. Diferentemente daquilo que dizem os seus opositores, a Igreja tem como objetivo a educação para o senso religioso da pessoa, para o seu relacionamento com o Mistério e, portanto, para o crescimento da sua liberdade. Neste sentido, é interessante como, na Encíclica, se afirma que somente um homem que viva integralmente este relacionamento com o Mistério pode, de verdade, defender a vida, o ambiente, usar de modo equilibrado as técnicas. Deste ponto de vista, se repropõe, de modo original, uma velha doutrina católica da qual falamos muito nesses anos: onde não há liberdade para a Igreja não pode haver liberdade pessoal e social.

É por isso que aparece também muito frequentemente a palavra “educação”?
Certo. Não é por acaso que a educação é pensada em seu nexo estreito com a subsidiariedade. Se é verdade que o problema é permitir o desenvolvimento do eu, o desejo deve ser educado. E não é educado apenas do ponto de vista funcional, não é educado também só porque digo “dou-lhes a possibilidade de gerir as escolas e fazer hospitais”. É educado ao belo, é educado ao verdadeiro, é educado à caridade na verdade. É educado a abrir-se, porque, como dizia Romano Guardini (e dom Giussani repetia o mesmo), “tudo se torna acontecimento no âmbito da experiência de um grande amor”. Então, ele se torna capaz de construir, de colocar-se junto aos outros, de se empenhar e se sacrificar pelo bem comum.

Enquanto que, sem esta dimensão, tudo se torna confuso: “Sem Deus, o homem não sabe para onde ir”, conclui o Papa.
E se poderia ainda acrescentar, parafraseando um famoso filme, que “Deus tem necessidade dos homens”. É um desafio aberto a cada um de nós, no concreto de todos os dias.


* Traduzido por Paulo R. A. Pacheco.

quarta-feira, 1 de julho de 2009

Para quem quer ir à guerra


Nossa Senhora do Rosário. Andaluzia (Espanha)

Um amigo me escreveu hoje me contando acerca de mais uma pequena batalha que houve em sua casa. Uma batalha pela clareza, pela luz, pela verdade. Uma batalha contra o relativismo, enfim, contra o mal, contra a confusão que paira em nosso meio. Mas, se alguém vier me perguntar o que é a vida, eu logo respondo: "é uma guerra". A vida não é outra coisa senão uma guerra, uma guerra pela vida, pelo bem, pela verdade. Por isso, Jesus diz no Evangelho que veio trazer a espada, e não a paz, porque a vida é guerra: uma guerra pelo bem e pela vida, pela verdade. Uma guerra para a qual para assumir é preciso ter coragem. É covardia fugir da vida, mas também é estupidez viver sem as "armas" necessárias para tanto.

Uma das maiores armas que possam existir e que a tradição cristã, tão esquecida por nós ocidentais, aponta, é o Rosário da Virgem Maria (também carinhosamente conhecido como "terço" por nós, brasileiros).

O Rosário, tal como o conhecemos, em sua origem, foi uma oração de batalhas. Não foi uma oração originalmente de "velhas", como muita gente erroneamente pensa hoje. É uma oração viril, e da virilidade. O Rosário, tal como nós o conhecemos, nasceu na militar Espanha, que formou-se como país na famosa Guerra da Reconquista, que durou de 732 a 1492, quando os muçulmanos foram definitivamente expulsos da Europa. É preciso ser muito homem para rezar o Rosário e guerrear neste mundo com ele. Porque o Rosário é um dos maiores instrumentos de contemplação que a tradição cristã possui. Ele nada mais é do que o compêndio, a síntese do Evangelho, como nos diz o Papa João Paulo II na belíssima Carta Apostólica Rosarium Virginis Mariae (O Rosário da Virgem Maria), de 2002.

O Rosário é para ser recitado em ritmo de marcha, pois é uma oração de guerra. Todos os santos, desde o século XVI, até hoje, sem exceção, a recitaram. O próprio Papa João Paulo II dizia que o Rosário era a sua oração predileta. Pois então: quem quiser um conselho para enfrentar a própria vida e todos os seus desafios com coragem, fortaleza e tenacidade, não deixe de pegar o Rosário em suas mãos. Pois São Paulo fala que devemos enfrentar a vida com "a armadura de Deus". E São Luís Maria Grignon de Montfort (1673-1716) compara o Rosário com nada menos que a funda com a qual o pequeno Davi destruiu ao gigante Golias (cf. 1 Sm 17, 40-54). Cada "Ave-Maria" é como que uma pedrada lançada contra o "Golias" que visa destruir a nossa vida e ao mundo inteiro: esta mentalidade relativista.

Cada "Ave-Maria" é a afirmação da Encarnação do Verbo, de que Deus se fez homem, nasceu de uma mulher como diz São Paulo (cf. Gl 4,4) e está presente. A Ave-Maria abre uma fenda na mentalidade relativista, porque Maria é a maior inimiga dessa mentalidade para a qual tudo caminha para o nada, para a destruição, para o absurdo e o non sense. A recitação meditativa da Ave-Maria é o maior inimigo que o relativismo possa encontrar.

Por fim, segue abaixo o que o Beato Bártolo Longo (1841-1926), que construiu o famoso Santuário de Nossa Senhora do Rosário de Pompeia, em 1887, falou a respeito do Rosário:

"Ó Rosário bendito de Maria, doce cadeia que nos prende a Deus, vínculo de amor que nos une aos Anjos, torre de salvação contra os assaltos do inferno, porto seguro no naufrágio geral, não te deixaremos nunca mais. Serás o nosso conforto na hora da agonia. Seja para ti o último beijo da vida que se apaga. E a última palavra dos nossos lábios há-de ser o vosso nome suave, ó Rainha do Rosário de Pompeia, ó nossa Mãe querida, ó Refúgio dos pecadores, ó Soberana consoladora dos tristes. Sede bendita em todo o lado, hoje e sempre, na terra e no céu".