quarta-feira, 27 de junho de 2007

Bruno Tolentino

Fonte: http://veja.abril.com.br/blogs/reinaldo/

Bruno Tolentino

Morreu hoje de manhã, aos 66 anos, no Hospital Emílio Ribas, em São Paulo, o poeta Bruno Tolentino. Pior para todos nós. Pior para o Brasil. Anteontem, lembrei aqui uma das muitas falsetas que a impostura lhe aprontou: em 1994, ele desancou uma tradução de um poema de Hart Crane feita por Augusto de Campos. Em resposta, fizeram um abaixo-assinado. Até a Gal Costa e a Marilena Chaui assinaram. Não convidaram o Chacrinha porque ele já havia morrido. Falarei mais de Bruno ao longo do dia e da importância de sua obra. Havia muito, desde a morte de Mário Faustino (1962), de quem era amigo, era um poeta solitário, vivendo de e em muitos exílios, sem ninguém que pudesse com ele emular, nem mesmo ombrear.Há exatamente um ano, num 27 de junho como este, Bruno lançou aquela que é, no que respeita à produção poética, a sua maior obra: A Imitação do Amanhecer, um conjunto de 537 sonetos alexandrinos, que podem ser lidos individualmente. No conjunto, formam uma narrativa, um romance. Bruno me convidou para um bate-papo na livraria Fnac: também em prosa, era douto, divertido, original. Posso estar enganado, mas acho que os jornais não registraram uma linha. Ou o fizeram com tal discrição, que é impossível lembrar. Ele fora banido também da academia. Bruno podia ser um pouco humilhante — e até intimidador às vezes — em várias línguas. Menos para quem era capaz de ser generoso consigo mesmo para aprender. E então ele era de uma gentileza extrema.Eu era seu amigo. Trabalhamos juntos. Ele sempre teve comigo uma lhaneza que talvez eu nem merecesse. Num tom entre amistoso e galhofeiro, chamava-me, às vezes, como a outros mais jovens do que ele, “filhinho”. Vivi dias felizes tendo-o como colega de redação nas revistas BRAVO! e República. Em tudo, um homem invulgar. Era a única pessoa que eu permitia postar-se ao lado do micro enquanto eu escrevia um texto. Com olhos de uma agilidade infantil, antecipava-se, às vezes, às palavras. E lá vinha: “Filhinho, por que a gente (sic) não escreve tal coisa?”. A gente? Bruno vivia dentro de muitos textos. Eles eram de todos e de ninguém.Estou triste, devastado por sua morte, com a sensação, comum nesses casos, mas incomum quando se trata de Bruno Tolentino, de que eu poderia ter aprendido ainda mais, de que talvez eu tenha falado demais e ouvido de menos. Bruno era genial, contraditório, fabuloso, no sentido mesmo da palavra. Sou, como sabem, aborrecidamente lógico, o que vale para os amigos, que acatam o defeito, e para os inimigos, que, às vezes, se enfurecem. Muitas vezes, eu o flagrei no que, para mim, era uma contradição inelutável. Apontava-a, como é do meu temperamento: “Não, não, filhinho, você não entendeu”. E a sua resposta saía então da literatura, da sua cultura imensa, de uma certa realidade mágica onde vivia o poeta Bruno Tolentino. Eu, terreno demais, dava-me então por vencido.Bruno fez um bem enorme à literatura e a seus amigos e, no pouco de mal que pode ter praticado, não atingiu ninguém, a não ser a si mesmo. E até isso era parte de sua obra. Foi, a meu ver, o último representante de um país que poderia ter sido. E que não foi e não será porque a política — também as políticas culturais — se amesquinha no populismo rasteiro, na apologia da ignorância, da pequenez. Bruno, ao lado de Faustino, morto tantos anos antes, tinha sede do épico.O velório está sendo realizado no Cemitério Santíssimo Sacramento — Av. Dr. Arnaldo, 1.200, em São Paulo. Seu corpo será enterrado amanhã, às 9h. Os que vão morrer o saúdam, Bruno Tolentino.
Por Reinaldo Azevedo 15:38 comentários (10)

quarta-feira, 13 de junho de 2007

A pior e a melhor invenção do mundo


A pior invenção:


O cartão de crédito


A melhor:


O cartão de débito

Etapas do parentesco ideológico ou fisiológico

A seguinte postagem é do blog http://vejaonline.abril.com.br/notitia/servlet/newstorm.ns.presentation.NavigationServlet?publicationCode=1&pageCode=1290

A SANTA PACIÊNCIA

Etapas do parentesco ideológico ou fisiológico 05:34




Charles Robert Darwin por Werner Horvath, óleo sobre tela 70x50 cm.


1. Na América Latina discute-se o socialismo do coronel Hugo Chavez.


2. Na França discute-se a evolução do Partido Socialista para social-democracia.


3. Alhures discute-se qual é o sentido da social-democracia.

quarta-feira, 6 de junho de 2007

A novidade de Bento 16


O papa Bento 16


É verdade que o meu mestrado tem me consumido muito tempo e energia, e tenho deixado meu blog um pouco desativado, mas agora pretendo voltar a postar sempre. A minha própria experiência de ida a São Paulo para ver este grande homem do nosso tempo, o papa Bento 16, estará aqui em breve. Por ora, deixo esta reportagem provocativa, sobre a novidade que este homem que é o Vigário de Jesus na Terra, supostamente retrógrado e reacionário carrega, a despeito de todo poder midiático, que quer fazer, no dizer do filósofo Olavo de Carvalho, um verdadeiro "genocídio cultural do cristianismo". A matéria segue abaixo.

São Paulo, sexta-feira, 18 de maio de 2007- pag. 3


A novidade de Bento 16


por FRANCISCO BORBA RIBEIRO NETO
A condenação do aborto e a defesa da vida foram temas pouco citados pelo papa. Por que reduzir o seu discurso a questões de moral sexual? BENTO 16 tem sido lido a partir de um dualismo que vê na igreja, após o Concílio Vaticano 2º, apenas a contraposição entre progressistas, abertos à modernidade e à mudança, e conservadores, reativos à mudança e fechados à modernidade. Porém, seria mais adequado pensar em duas tendências que buscam a mudança em oposição a uma terceira, realmente reacionária. As duas tendências que preconizam a mudança surgiram da idéia, básica no Vaticano 2º, de que a igreja, ao se atualizar ("aggiornamento"), deveria também retornar a suas fontes originais. Alguns valorizaram mais a imagem da adaptação aos tempos, criando um pensamento que tendia a moldar o catolicismo às várias correntes e tendências da modernidade. Outros valorizaram mais o retorno às raízes, das quais o cristianismo se distanciara, trabalhando numa linha crítica, discutindo os desencantos do homem atual diante da modernidade. Atualização e crítica estão presentes nas duas tendências, mas ênfases diferentes levaram a atitudes diversas. Bento 16 e a maioria dos movimentos e novas comunidades eclesiais se alinham na segunda tendência, mas isso não quer dizer uma identificação ao tradicionalismo pré-conciliar. O retorno às raízes e a crítica à cultura moderna se distinguem do tradicionalismo por recusar o formalismo e identificar o catolicismo a uma experiência pessoal. Por isso, esses movimentos se tornaram, entre os católicos, a parcela mais dinâmica e a que mais cresce nas cidades. Variados e atuantes nos ambientes leigos, adequaram-se a uma sociedade plural e desvincularam- se do peso da instituição. Nasceram a partir de uma intuição -o carisma, geralmente associado a um fundador-, e seguir esse carisma gera uma conversão pessoal, criando o ímpeto e a seriedade típica dos novos conversos entre pessoas de tradição católica. A expansão dos movimentos (em certo aspecto também as comunidades eclesiais de base formam movimentos) permite entender por que Bento 16 não se preocupa com a questão quantidade X qualidade. Já há, a seu ver, realidades eclesiais que crescem em quantidade e qualidade, e seu papel é fortalecê-las na fé. Esse fortalecimento não se baseia numa insistência moralista ou na condenação reacionária ao mundo moderno. Fiel a Santo Agostinho, o papa trabalha a partir "do coração do homem que anseia por Deus". No caminho catequético de Bento 16, o discurso no Pacaembu não é uma afirmação da moral sexual conservadora, mas a retomada do tema da busca por um sentido pleno para a vida. Ao falar a jovens em Colônia (onde os comparou a reis magos peregrinos em busca da construção de um novo mundo) e São Paulo (onde os comparou ao jovem rico que pergunta pela vida plena), orienta seu discurso como resposta a essa busca. A moralidade é instrumento, e não objetivo ou êxito. Também os pobres estão em busca desse sentido. A dureza da vida não elimina essa necessidade, pelo contrário, torna-a mais aguda. Por isso, a ação pastoral deve se orientar em torno da resposta a ela também aí. Porém, sua pregação se volta ininterruptamente ao amor vivido como doação ao próximo e que se torna compromisso social, pois o testemunho do amor seria a ponte entre Deus e o homem e dos homens entre si. Bento 16 deu um vigoroso apoio ao trabalho social da igreja latino-americana. Mas o referencial para esse trabalho passa a ser a doutrina social da igreja, que cresceu no confronto com as modernas democracias pluralistas, e não a mediação marxista, que orientou a Teologia da Libertação no contexto das ditaduras latino-americanas. A mudança não é um sinal dos tempos: acompanha a passagem que vem ocorrendo de um discurso de transformação social, com sentido revolucionário, para outro, de inclusão social, com sentido reformista. A "defesa da vida" e a condenação do aborto foram temas pouco citados pelo papa. Mas esse pouco desencadeou uma intensa reação contrária. Por quê? E por que essa insistência dos críticos em reduzir o seu discurso a questões de moral sexual? A igreja é vista, entre nós, como a fonte das repressões. Mas o caráter repressivo está nas várias sociedades, não é invenção de uma religião. O catolicismo atual tem caminhado no sentido da valorização plena da sexualidade. Ao mesmo tempo, as pessoas tendem a considerar intromissão no Estado laico a condenação do aborto, mas apóiam que a igreja condene, a partir das mesmas bases morais, um Estado que pratique tortura. Nossa sociedade tem dificuldade para estabelecer o lugar da ética (e da ética religiosa) na vida pública. Superar essa dificuldade é condição para o "sadio laicismo" defendido por Bento 16. Principalmente, é condição para um diálogo em torno das questões essenciais: será que só nos realizamos no amor que é doação ao outro? Será possível, como diz o papa, que a energia primeira, da qual surgiu o Big Bang, se revele como amor por nós?

FRANCISCO BORBA RIBEIRO NETO, sociólogo e biólogo, é coordenador de projetos do Núcleo Fé e Cultura da PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo).

A volta da família careta

A seguinte postagem está no site http://veja.abril.com.br/060607/ponto_de_vista.shtml

Ponto de vista: Lya Luft

A volta da família careta

"Perdoem-me os pais que se queixam de que os filhos são um fardo, de que faltam tempo, dinheiro, paciência. Receio que o fardo, o obstáculo e o estorvo a um crescimento saudável dos filhos sejam eles"
Foi tão grande e variado o número de e-mails, telefonemas e abordagens pessoais que recebi depois de escrever que família deveria ser careta, que resolvi voltar ao assunto, para alegria dos que gostaram e náusea dos que não concordaram ou não entenderam (ai da unanimidade, mãe dos medíocres). Atenção: na minha coluna não usei "careta" como quadrado, estreito, alienado, fiscalizador e moralista, mas humano, aberto, atento, cuidadoso. Obviamente empreguei esse esse termo de propósito, para enfatizar o que desejava.
Houve quem dissesse que minha posição naquele artigo é politicamente conservadora demais. Pensei em responder que minha opinião sobre família nada tem a ver com postura política, eu que me considero um animal apolítico no sentido de partido ou de conceitos superados, como "a esquerda é inteligente e boa, a direita é grossa e arrogante". Mas, na verdade, tudo o que fazemos, até a forma como nos vestimos e moramos, é altamente político, no sentido amplo de interesse no justo e no bom, e coerência com isso.
E assim, sem me pensar de direita ou de esquerda, por ser interessada na minha comunidade, no meu país, no outro em geral, em tudo o que faço e escrevo (também na ficção), mostro que sou pelos desvalidos. Não apenas no sentido econômico, mas emocional e psíquico: os sem auto-estima, sem amor, sem sentido de vida, sem esperança e sem projetos.
O que tem isso a ver com minha idéia de família? Tem a ver, porque é nela que tudo começa, embora não seja restrito a ela. Pois muito se confunde família frouxa (o que significa sem atenção), descuidada (o que significa sem amor), desorganizada (o que significa aflição estéril) com o politicamente correto. Diga-se de passagem que acho o politicamente correto burro e fascista.
Voltando à família: acredito profundamente que ter filho é ser responsável, que educar filho é observar, apoiar, dar colo de mãe e ombro de pai, quando preciso. E é também deixar aquele ser humano crescer e desabrochar. Não solto, não desorientado e desamparado, mas amado com verdade e sensatez. Respeitado e cuidado, num equilíbrio amoroso dessas duas coisas. Vão me perguntar o que é esse equilíbrio, e terei de responder que cada um sabe o que é, ou sabe qual é seu equilíbrio possível. Quem não souber que não tenha filhos.
Também me perguntaram se nunca se justifica revirar gavetas e mexer em bolsos de adolescentes. Eventualmente, quando há suspeita séria de perigos como drogas, a relação familiar pode virar um campo de graves conflitos, e muita coisa antes impensável passa a se justificar. Deixar inteiramente à vontade um filho com problema de drogas é trágica omissão.
Assim como não considero bons pais ou mães os cobradores ou policialescos, também não acho que os do tipo "amiguinho" sejam muito bons pais. Repito: pais que não sabem onde estão seus filhos de 12 ou 14 anos, que nunca se interessaram pelo que acontece nas festinhas (mesmo infantis), que não conhecem nomes de amigos ou da família com quem seus filhos passam fins de semana (não me refiro a nomes importantes, mas a seres humanos confiáveis), que nada sabem de sua vida escolar, estão sendo tragicamente irresponsáveis. Pais que não arranjam tempo para estar com os filhos, para saber deles, para conversar com eles... não tenham filhos. Pois, na hora da angústia, não são os amiguinhos que vão orientá-los e ampará-los, mas o pai e a mãe – se tiverem cacife. O que inclui risco, perplexidade, medo, consciência de não sermos infalíveis nem onipotentes. Perdoem-me os pais que se queixam (são tantos!) de que os filhos são um fardo, de que falta tempo, falta dinheiro, falta paciência e falta entendimento do que se passa – receio que o fardo, o obstáculo e o estorvo a um crescimento saudável dos filhos sejam eles.
Mães que se orgulham de vestir a roupeta da filha adolescente, de freqüentar os mesmos lugares e até de conquistar os colegas delas são patéticas. Pais que se consideram parceiros apenas porque bancam os garotões, idem. Nada melhor do que uma casa onde se escutam risadas e se curte estar junto, onde reina a liberdade possível. Nada pior do que a falta de uma autoridade amorosa e firme.
O tema é controverso, mas o bom senso, meio fora de moda, é mais importante do que livros e revistas com receitas de como criar filho (como agarrar seu homem, como enlouquecer sua amante...). É no velhíssimo instinto, na observação atenta e na escuta interessada que resta a esperança. Se não podemos evitar desgraças – porque não somos deuses –, é possível preparar melhor esses que amamos para enfrentar seus naturais conflitos, fazendo melhores escolhas vida afora.

Lya Luft é escritora