sábado, 31 de maio de 2008

Maria Rainha do Universo


A Panaghia (lê-se pá-ná-iá) "Toda Santa", a Rainha do Universo

sexta-feira, 30 de maio de 2008

A obscenidade da morte

Antes de mais nada, afirmo que a partir deste, meus posts mudarão de "final". A interlocução com os leitores é fundamental, e não se escreve para si, mas para um público. Como disse André Petry em Veja, "o que é tornado público, público é, e pertence ao público". Pois bem: dito isso, desejo escrever sobre um tema que há muito me provoca: a obscenidade da morte. Na contemporaneidade, existe uma inversão profunda entre eros e tanathos, entre o sexo e a morte. Desde há muito, se se dá conta das relações inexoráveis entre o sexo e a morte, tanto que para os franceses, "orgasmo" se diz "la petite mort" (a pequena morte). O fenômeno que aconteceu foi uma "inversão da obscenidade". Há quarenta anos, morrer era uma realidade conhecida, sabida e até esperada por todos como a única certeza da vida, enquanto que o sexo era algo vivido às escondidas como pertencente ao puro domínio. Hoje esse quadro inverteu-se: o sexo publicizou-se em absoluto, a tal ponto que uma amiga me disse essa semana que testemunhou uma colega de classe fazer sexo com o namorado em plena praça de alimentação do Shopping Barra. Mas da velhice e da morte inexorável ninguém fala!
Por que não se fala mais do envelhecimento mais hoje? Eu sempre fico impressionado com isso! Velhice é sinônimo de sabedoria! Eu sempre gostei de estar "ao pé do ouvido" dos meus avós para aprender deles a vida, e sou grato de ter várias pessoas na família e até amigos na faixa dos sessenta e setenta anos!
A presença dos velhos nos lembra duas coisas: primeiro que nós mesmos envelheceremos um dia, e que a morte é uma realidade presente! Por mais que a expectativa de vida tenha crescido de forma fantástica e a medicina tenha evoluído muito, a morte existe e chegará um dia!
A realidade da morte é algo fantástico no sentido de que nos obriga a pensar na vida. Sem a morte, certamente viveríamos na banalidade mais absoluta, infinita. Seria o inferno eterno, cansaríamos de nós mesmos em pouquíssimo tempo.
Mas por que a realidade da morte é tão negada hoje?
Por uma simples razão: porque a vida é negada, não pensa-se mais na vida, como disse Camus "a mais urgente das questões", e a morte vem nos lembrar que toda luta por poder, especialmente, reduzir-se-á a , "tudo será nada", dirá Sartre.
A morte torna-se obscena porque a vida torna-se sem sentido. É a ausência de sentido e significado na vida que torna a realidade da morte tão angustiante e negada!
Mas a exigência de sentido continua. O homem é como aquelas árvores de outono no hemisfério Norte que fica com os galhos todos voltados para o alto, é como um grito, é exigência de sentido. É essa exigência de sentido e significado que nos move, mesmo de forma inconsciente, essa busca de uma felicidade verdadeira, que dure, que permaneça, que exista, esse é o verdadeiro motor do homem, e ele não aceita que a morte venha e destrua tudo, tornando a realidade, como afirma Sartre, "absurda", e "quanto melhor, pior", porque vai acabar. O nosso coração tem verdadeiro horror ao nada, e é por isso que a morte é algo tão obsceno em nossos dias.
Numa sociedade que relativiza tudo, que não olha a realidade (porque a verdade não é um conceito abstrato, mas a realidade que eu tenho na minha frente), na qual a decisão sobre a vida humana é colocada na mão de 11 juízes do Supremo Tribunal Federal, nada tem sentido, nem a morte, nem a vida. É terrível a nossa época: somos carregados de exigências, de justiça, de paz, de liberdade, de felicidade, de amor... que estão fadadas ao nada, ou existe a possibilidade destas exigências serem satisfeitas? Existe a possibilidade delas não serem destruídas pela morte nem pelo niilismo?
Cristo ressuscitado é a vitória sobre o nada! Desde a sua ressurreição na manhã da Páscoa, este fato disputa palmo a palmo o terreno com a noite. Desde a manhã da Páscoa, não mais a morte é a senhora, mas Jesus é que é o Senhor, vitorioso sobre a morte e sobre o nada: eu experimento isso em minha vida! É o esquecimento deste fato que faz com que o nada volte a triunfar, a vida perca o sentido e o significado, a depressão avance e a velhice e a morte se tornem cada vez mais obscenas!

segunda-feira, 26 de maio de 2008

A redução política

Guerreiro Ramos, grande sociólogo baiano escreveu um livro intitulado a "redução sociológica". Em homenagem, pois, eu cunho este, a "redução política", que é uma espécie de "continuação" do post anterior. Que vem a ser, a redução política? A redução de tudo ao poder. Foucault mesmo disse: "tudo é poder, tudo está imbuído das relações de poder". O grande problema de Foucault é que ele não nos dá alternativa: se tudo é poder, somos todos escravos, necessariamente. E a "saída" foucaultiana, de que "a nova sociedade virá da experimentação com drogas e com novas técnicas sexuais" é patética, isso nada mais é do que o revival da antiga sociedade pagã que conheceu seu fim pelo avanço do cristianismo. Para mim, a redução política é notável em pessoas que se decepcionaram com a esquerda, como eu mesmo. A primeira característica disso é a perda do senso crítico. Crítica, em grego, se diz "crisis" que significa peneirar. A primeira coisa que aparece é um senso acrítico de divinização da direita e satanização da esquerda. Isso, definitivamente, não é verdade! O mundo deve muito à esquerda, não se pode satanizá-la a torto e a direito. O próprio papa João Paulo II, um dos que contribuiu para a queda do comunismo, no seu livro Memória e Identidade, afirmou que o comunismo teve seu lado bom, em especial no chamado de atenção para a justiça.
A esquerda é idealista, ela parte do desejo de implantar o paraíso na Terra à força, mas isso em muitos casos parte do desejo ardente de justiça em muitos. A força da esquerda muitas vezes não é instigada por ideologia, ou por lavagem cerebral, mas pelo estado de injustiça no qual o mundo está e no ceticismo em relação ao que o Mistério pode fazer para resolver os problemas do mundo; pensa-se "já que Ele nada faz, tomemos em nossa mão essa tarefa". O que a experiência histórica mostra é que esse desejo de jusiça originário necessariamente se corrompe, e não é à toa que os países comunistas foram ditaduras sanguinolentas e que ceifaram a vida de 105 milhões de pessoas. O ideal (a justiça) se corrompeu em tortura, prisões, campos de concentração (os gulags), fome e morte...
E por isso o capitalismo é melhor? A "direita" individualista, egoísta e indiferente é maravilhosa? É preciso aqui muito realismo! A injustiça e a escravidão não existem no dito "mundo livre" da propaganda ocidental? Não são comercializados imoralmente embriões humanos, mulheres, órgãos e corpos humanos? No nosso "mundo livre" a ideologia não é veiculada calculadamente por meio da grande mídia? De uma certa forma não existe uma escravidão subliminar onde milhões são imolados no altar do deus mercado? Onde milhões de vidas são "refugadas" por não poderem produzir? Não é o nosso "mundo livre" que propaga o aborto, a eutanásia, a esterilização em massa, a destruição de embriões em nome da evolução da ciência (nazismo puro!)?
Diante desse quadro, se Foucault estiver certo, a única alternativa é o niilismo, o nada. E a atitude mais razoável é o suicídio. Ou a loucura! Não é à toa que Nietzsche enlouqueceu em 1888 (morreu adorando uma mula e assinando em suas cartas: "O Crucificado"). E Foucault era obstinado pela morte (além de tentar suicídio várias vezes, freqüentava as saunas de San Francisco em plena época na qual a AIDS era considerada a "peste gay" e matava em menos de um ano).
O anti-poder só pode ser o amor. Essa alternativa está no mundo há 2000 anos com o maior revolucionário que o mundo já conheceu. Diante das injustiças do mundo, já da sua época, não mandou destronar César ou destruir o Império, mas a que "cada um amasse ao outro como a si mesmo". Rapidamente, o grupo dos seus amigos se espalhou pelo Império inteiro, com o anúncio de que "Deus é amor", e de que há esperança neste mundo, apesar de todo mal. O Império os perseguiu e matou durante mais de três séculos, mas caiu de podre. Ruiu sobre o seu próprio mal. O último imperador pagão de Roma disse no final do século IV: "Tu venceste, ó galileu!". Menos de cem anos, o Império Romano se transformaria em arqueologia, enquanto que o galileu e seus amigos são uma presença que até hoje, séculos depois, atravessa e desafia a história, como a única novidade neste mundo dominado pelo egoísmo, pela indiferença e pela arrogância, oriundos, antes de tudo, pela redução de tudo, ao poder.

sexta-feira, 16 de maio de 2008

16 de maio, 7 anos atrás...

Há 7 anos se passaram alguns acontecimentos do qual eu tomei parte e que ajudaram a moldar minha percepção do real e da política. para quem não lembra, há sete anos estávamos vivendo sob o escândalo no qual ACM violou o painel do Senado e sabia que Heloísa helena votou contra a cassação de Luiz Estêvão. Pois bem: no dia 16 de maio a oposição baiana organizou uma mega-passeata pela cassação da ACM, e eu como todo jovem "escolarizado", estava da janela do meu apartamento com uma bandeira vermelha exigindo a cassação de ACM, pensando estar participando de um "ato cívico" para "expurgar o mal" (leia-se ACM) do poder na Bahia. Eu mesmo quase fui vítima da violência que aconteceu naquele dia, inesquecível, para mim. Alguns dias depois, fui ao Farol da Barra, onde a neta de Dorival Caymmi estava cantando e gritando "Um-dois-três-a-cê-eme no xadrez..." Depois um membro do PC do B declamou uma poesia. O que me marcou mais foi esta poesia. Nunca em toda a minha vida percebi tamanho ódio em tão pouco tempo. Ali começou ainda que de forma imperceptível a minha decepção com o comunismo, que hoje considero a maior falácia da História, responsável direto pela morte de 105 milhões e pelo sofrimento e escravidão de inumeráveis pessoas. Como uma doutrina que se fundamenta no ódio pode resultar em alguma coisa boa? Aquele momento para foi fundamental para mim. Muitos fatos, após a eleição de Lula, e tantos outros acontecimentos em minha vida foram fundamentais para confirmar a impressão primeira: o comunismo e afins é mal, escravidão, retrocesso de 2000 anos, diria o sociólogo Raymond Aron.
Mas aí, pode-se objetar: será que não há alternativas? Se o comunismo é mal, devemos nos conformar com mal que continua? O pensamento binário nos atrapalha exatamente aqui: quem disse que o capitalismo é bem? Quem disse que só temos estas duas alternativas? Quem disse que só podemos escolher entre o egoísmo e a escravidão? Entre a liberdade indiferente e o controle escravizante? Eu penso sim que existe uma alternativa, concreta e verdadeira. Para entendê-la, é preciso antes de mais nada, retirar as imagens que temos acerca desta alternativa, as nuvens que a obnubilam, que a escurecem. Esta alternativa tem um nome muito concreto, conhecido: chama-se amor. A alternativa ao mal que há no mundo é o amor. O amor é a única e verdadeira revolução, porque o homem é incapaz de amar. O amor é o dom de si para o bem do outro. Por isso, esta é a revolução mais recôndita, mais profunda e mais eficaz, está no mundo há 2000 anos, desde que um homem disse "amem-se uns aos outros como eu amei vocês!" Esta é a frase mais revolucionária da História! Para mim, tornou-se concreta, pouquíssimo tempo (dois meses) depois de ouvir aquela poesia repleta de ódio, encontrando a comunidade cristã, uma amizade verdadeira, que atravessa 2000 anos, e que é a única esperança para esse mundo em ruínas, marcado pelo terrorismo, pela destruição de embriões em nome do avanço da ciência, pelo aborto, por pais que jogam as filhas pelas janelas de seus apartamentos...

sexta-feira, 9 de maio de 2008

Admirável Mundo Novo

"Um estado totalitário realmente eficaz seria aquele em que o executivo todo-poderoso constituído de chefes políticos e de um exército de administradores, controlassem uma população de escravos que não precisassem ser forçados, porque teriam amor à servidão. Fazê-los amá-la é a tarefa atribuída, nos atuais estados totalitários, aos ministérios da propaganda, editores de jornais e professores. (...) O amor da servidão não se pode estabelecer senão como resultado de uma revolução profunda e pessoal nas mentes e corpos humanos. (...) Com a restrição da liberdade política e econômica, em compensação, tende a crescer a liberdade sexual. E o ditador (...) fará tudo para encorajar essa liberdade. Em conjunto com a liberdade de sonhar acordado sob a influência de drogas, o cinema e o rádio ajudarão a reconciliar os vassalos com a servidão que é o seu destino. (...) Na verdade, a menos que escolhamos a descentralização e o emprego da ciência aplicada não como o fim cujos meios seriam os seres humanos, mas como meios para produzir uma competição de indivíduos livres, temos apenas duas alternativas de que nos podemos valer: certo número de totalitarismos nacionais e militarizados, tendo como raiz o terror da bomba atômica e como conseqüência a destruição da civilização (ou, se a guerra for limitada, a perpetução do militarismo); ou então um totalitarismo supranacional, proveniente do caos social resultante do rápido progresso tecnológico em geral e da revolução atômica em particular, e desenvolvendo-se debaixo da necessidade da eficiência e estabilidade como a tirania- bem-estar da Utopia. É só pagar e escolher." Aldous Huxley, no prefácio de Admirável Mundo Novo, 1946.

segunda-feira, 5 de maio de 2008

A eterna novidade do mundo

Há alguns dias desejo escrever algo sobre o fascínio causado por Marx ou sobre o equívoco de Nietzsche (de que o cristianismo é contra a vida, é exatamente o contrário). Mas sinto-me impelido a escrever este post devido à minha ida a LDM (livraria da UFBA) e visto a entrevista que Ignacio Ramonet (do Le Monde Diplomatique- jornal de esquerda francês) fez a Fidel Castro. Neste livro continham fotos desde 1896 até os dias hodiernos acerca da luta de Cuba pela sua liberdade. Dei uma olhada nas fotos, das lutas e das vitórias, e do encontro de Fidel com outros líderes do mundo, como Nelson Mandela. É tão bonito quanto triste... digam-me uma novidade. A História do homem é pautada pela guerra, desde a guerra do Peloponeso, de Atenas contra Esparta, do Egito contra a Núbia, de Israel contra os povos cananeus, dos persas contra os babilônios à Mahabarata indiana e à guerra dos romanos contra os bárbaros... e por aí vai, a História é uma carnificina só... se nos atentarmos somente a isso, poderemos cair numa postura niilista como Nietzsche que ainda justicava coisas como essa, em nome da "evolução do homem". Até mesmo Kant na Paz Perpétua defende a guerra como algo natural e necessário. É claro que não se quer aqui deslegitimar todas as guerras- talvez somente a absurda guerra contra o Iraque... mas isso é o comum da humanidade...
Mas de repente aparece uma novidade! No meio de toda essa sangüinolência Fernando Pessoa, depois da 1ª Guerra Mundial, a guerra mais mortífera e bárbara de toda a História até aquela época pôde dizer: "sinto-me nascido a cada instante para a eterna novidade do mundo". Como ele pôde dizer isso? Porque antes, muito antes, alguém disse isto:

"Que vosso amor não seja fingido. Aborrecei o mal, apegai-vos solidamente ao bem. Amai-vos mutuamente com afeição terna e fraternal. Adiantai-vos em honrar uns aos outros. Não relaxeis o vosso zelo. Sede fervorosos de espírito. Servi ao Senhor. Sede alegres na esperança, pacientes na tribulação e perseverantes na oração. Socorrei às necessidades dos fiéis. Esmerai-vos na prática da hospitalidade. Abençoai os que vos perseguem; abençoai-os, e não os praguejeis. Alegrai-vos com os que se alegram; chorai com os que choram. Vivei em boa harmonia uns com os outros. Não vos deixeis levar pelo gosto das grandezas; afeiçoai-vos com as coisa modestas. Não sejais sábios aos vossos próprios olhos. Não pagueis a ninguém o mal com o mal. Aplicai-vos a fazer o bem diante de todos os homens. Se for possível, quanto depender de vós, vivei em paz com todos os homens. Não vos vingueis uns aos outros, caríssimos, mas deixai agir a ira de Deus, porque está escrito: A mim a vingança; a mim exercer a justiça, diz o Senhor (Dt 32,35). Se o teu inimigo tiver fome, dá-lhe de comer; se tiver sede, dá-lhe de beber. Procedendo assim, amontoarás carvões em brasa sobre a sua cabeça (Pr 25,21s). Não te deixes vencer pelo mal, mas triunfa do mal com o bem." (cf. Rm 12, 9-21)

Até hoje, eu nunca encontrei tamanha novidade e tamanha necessidade de revolução interior. Hoje, Charles Morgan diz no seu Ensaio sobre a singularidade da mente:

"Muitos homens se deixam convencer pelo desespero de não haver remédio contra a violência do mundo presente, exceto a fuga ou a destruição. Mas há outro remédio que está ao alcance de qualquer, da mãe, do sábio, do marinheiro, do camponês, dos jovens e dos velhos. O remédio é esta concentração do espírito ativo, que o pensamento humano conservou através de tantas tiranias, e que o preserva ainda. Essa concentração espiritual a que Jesus chamou a pureza do coração, e que é o gênio do amor, da ciência e da fé. Assemelha-se a um rio faiscante, indomável e inflexível como o zelo dos santos. Chamam aos santos de fanáticos, e realmente eles não permitem que ninguém os desvie dos seus objetivos. Mas é no caos da política que através deles chegamos à ventura e ao milagre: - de ser um homem."

Quem carrega essa certeza para o mundo hoje é o papa! Pra mim, isso é cada vez mais claro! Só ele leva a novidade do amor e da paz, para o mundo dilacerado pelas guerrass eternas (sobre o caso Isabella, o infanticídio é uma prática comum onde o cristianismo não chegou) e pelo ódio mundo (especialmente hoje no nosso mundo de guetos- da mesma forma como era há 2000 anos, o mundo sob o império Romano, dividdo em inúmeros guetos, mantido unido pela força). Quem quer maior semelhança?
A escolha está, entre a novidade e a mesmice, entre o niilismo nietzscheano e a eterna novidade do mundo de Pessoa.