sábado, 28 de junho de 2008

O empalamento da índia

O aumento da violência tem sido uma coisa tão impressionante, mas não deixa de me surpreender. Primeiro o menino João Hélio é arrastado pelas ruas do Rio de Janeiro, depois a menina Isabella é jogada pelo próprio pai da janela do seu apartamento, e agora esta semana, uma inidiazinha deficiente e de apenas 16 anos, é nada mais nada menos do que empalada, empalada (!) num centro federal de saúde indígena. O que tudo isso tem em comum? Que todos estes crimes, além de bárbaros, brutais e completamente desnecessários, são cometidos contra as pessoas mais indefesas, crianças de 7 e 6 anos, e agora uma india de 16 anos, deficiente e de 1,35m.
De onde se origina esta mentalidade? Da perda do significado da vida, especialmente das mais frágeis. Ontem, eu fiquei realmente comovido, inclusive porque não vejo em mim mesmo, a felicidade de uma idosa de 74 anos, com mal de Alzheimer. Por que feliz? Porque amada e cuidada pelas próprias filhas. Ela disse uma frase que me comoveu muiuto: "eu adoro viver!"
Essa perda do significado da vida - a mais urgente das questões - é a marca terrível da nossa época, onde o niilismo domina e a violência se generaliza. A violência é um protesto contra a falta de esperança, dominam a apatia, o conformismo e a raiva, degeneram as relações humanas, os mais fracos são vilipendiados, destroçados, escarnecidos, esquartejados, empalados! O desejo de Nietzsche já é realidade!
Só uma "cultura da vida" pode frear tudo isso. A vida é o maior milagre que existe: a biologia não tem uma definição para a vida, porque esta é um milagre. Cada um de nós é um milagre, é irredutível a qualquer conceituação. Ninguém aqui mereceu a vida, ela nos é dada, não a pedimos, e nem fazemos esforço nenhum para que o nosso coração continue a bater. Cada um é fruto de um amor poderosíssimo que nos chamou do nada à existência, e nos mantém, instante após instante.
A perda desta consciência é que gera a banalização. A vida, a vida é um milagre! Deve ser cuidada e protegida, venerada, amada! Só esta percepção fazendo-se mentalidade comum é que vai gerar a paz. A paz vem do amor à vida, não de tratados e armistícios: as relações internacionais estão aí para nos ensinar isto, tampouco de passeatas, protestos e conscientizações. A paz vem de um conhecimento, de uma inteligência: que a vida é um milagre que nos é doado de graça, e que dele não podemos dispor da forma que bem entendemos, sob o risco de vermos de forma cada vez mais cotidiana, infelizmente, os mais indefesos, como esta pobre índia, empalada esta semana. Como já disse antes: todo aquele que defende a eutanásia, o aborto e a pesquisa com as células-tronco embrionárias, ou seja, a cultura da morte, colaborou para a morte desta índia, de mais uma pessoa indefesa.

sexta-feira, 27 de junho de 2008

A ingenuidade do liberalismo

O liberalismo, enquanto doutrina, política, econômica, filosófica ou cultural, é de uma ingenuidade impressionante. As origens do liberalismo remontam ao século XII, quando surgiu um movimento na Europa, denominado humanismo. O humanismo significa a retirada do primado de Deus na sociedade. Como isso aconteceu?
Há 2000 anos, Roma era a maior cidade do mundo, tinha 1 milhão de habitantes, talvez proporcionalmente equivalesse a Tóquio, que hoje conta com 36 milhões de habitantes(!) Roma era a sede do poder, uma cidade corrompida, dominada pela corrupção moral (era a cidade das messalinas) e da corrupção política, talvez como Octavio Ianni se refere a Nova Iorque hoje "lá, os loucos foram soltos".
Fugindo de Roma, muitas pessoas ocuparam os extensos locais desertos que existiam dentro de um império relativamente vazio (o mundo inteiro tinha menos de 250 milhões de habitantes, menos que os Estados Unidos, sozinhos hoje). Quando Roma cai, tomada de assalto e implodindo sob si mesma, no ano 476, muitas pessoas migram para esses locais extensos, entre outras coisas, pedindo trabalho para poder viver e fugindo dos saques dos bárbaros.
O cristianismo e a Igreja, que milagrosamente mantiveram-se de pé tinham mudado a concepção de trabalho. O trabalho não era mais algo indigno, reservado aos escravos, mas "participação no trabalho de Deus", "co-criação do mundo com Deus". Desaparece a escravidão, pois todos acham-se dignos do trabalho. Em seu lugar, surge a servidão, quando um homem, grato a outro, por este ter-lhe dado trabalho e terras, põe-se a seu serviço, antes de mais nada, com gratidão. Os mosteiros são criados no século VI com São Bento repetindo o mote "reza e trabalha". A civilização assim é reerguida nos séculos seguintes. Desaparecem o aborto, o infanticídio e a eutanásia, comuns no Império Romano. Surgem, em torno das Igrejas e dos mosteiros, as primeiras escolas, hospitais, leprosários e orfanatos, e por fim, as bibliotecas e as universidades.
A civilização atinge o ápice porque o homem começa a ser valorizado, em cada instante da sua vida, desde a concepção até o final, cada atividade tem sentido e significado dentro do todo.
A ruptura se dá no século XII quando o homem começa a esquecer-se de onde veio tudo isso. Começa a esquecer que todo esse progresso veio da relação com Deus, conscientemente reconhecida e vivida. O humanismo é esse otimismo ingênuo nas forças do próprio homem. As "forças do próprio homem" chegaram ao ápice no Império Romano, que desmoronou sob si mesmo, humilhantemente no ano de 476 d.C.
A Igreja, com seu realismo extremo afirma exatamente isso: que o homem tem "uma ferida", uma incapacidade de responder a si mesmo, de construir o mundo tal como deseja (o objetivo do Império era levar a paz e a civilização ao mundo inteiro, tanto que as mensagens do imperador eram chamadas de evangelho- boas notícias).
O otimismo humanista está mais vivo do que nunca hoje. Deu origem ao Renascimento e ao Protestantismo no século XVI, ao racionalismo no século XVII, à Ilustração e ao liberalismo no século XVIII e ao cientismo no século XIX, chegando ao niilismo nos séculos XX e XXI.
Eu acho as análises de Marx e da escola de Frankfurt, dos críticos, geniais. É uma ingenuidade ser liberal, quem tem percepção de que o homem é uma "tragédia" não pode ser liberal. O liberalismo estilhaçou todos os vínculos e lealdades que os homens tinham-lhe prometendo a emancipação, que significa bem-estar: deu-lhe duas guerras mundiais, escravidão mundial, 170 milhões de mortos, o nazi-fascismo, os campos de concentração...
Existe um liberalismo de matriz cristã que se aproxima do anarquismo. É uma afirmação até o fim da liberdade humana, dado que o homem (até Sartre o reconheceu) é condenado a ser livre, mas é um liberalismo prudente. O cristianismo sempre foi prudente porque conhece o homem, sabe que este é uma tragédia e um naufrágio, sabe do que do homem não pode vir nada de bom, é um liberalismo "realista", eu diria. Por isso, afirmou a liberdade humana, mas cercada por vínculos que a constrangeriam a não ultrapassar certos limites, a liberdade seria "carregada" pela teia social.
Isso, hoje, foi rompido. A modernidade tentou construir novas solidariedades, sem sucessos. A pós-modernidade vem nos fazer chegar à "era dos indivíduos atomizados", onde cada um só conta com "si mesmo", como diz Lyotard, um si mesmo que é muito pouco. O fracasso da modernidade, o fracasso do prometeísmo pode ser o prenúncio da mais abjeta barbárie que já se teve notícia. Tudo isso em virtude da ingenuidade dos liberais!

O avanço das drogas

O Jornal Nacional divulgou ontem que o consumo de drogas aumentou, e muito no Brasil. Não me é estranho que isso aconteça no governo do PT, um partido, que pelo menos culturalmente se diz "de esquerda".
O aumento do consumo das drogas nos revela muitas coisas. Não só que uma ideologia terrível - o niilismo - está se espalhando, mas que a sua conseqüência está também acontecendo: a esperança está desaparecendo da vida das pessoas.
Costumo dizer que vivemos na época mais terrível da História. E isso não é peça de retórica. Vivemos numa época de ídolos. Ou de "ideologias", que vem da mesma raiz. Que é o ídolo? Ídolo é tudo que pretende - sem ser - a explicação total da vida - e por isso não mantém as suas promessas.
Vivemos sob o peso de duas ideologias gêmeas e igualmente nefastas - o liberalismo e o socialismo. Nenhuma das duas cumpriu as suas promessas. Apesar de terem aumentado o bem-estar significativamente, diminuíram a liberdade do homem, escravizando-o da forma mais abjeta ao poder. O liberalismo destruiu em nome da "emancipação" todos os vínculos, e o comunismo, em nome da "igualdade" toda a ética e dignidade humana.
O homem da aurora do século XXI sofre com "o cadáver inchado de Prometeu" porque urge um sentido que lhe negam: tudo se reduz a nada, a vazio. A "transvaloração" de todos os valores, a guerra a tudo que é antigo, reduz o homem a nada e a escravo dos poderosos. O triunfo das ideologias - diz Carrel - consagra a ruína da civilização.
O fascínio das drogas vem do escapismo. Não se quer um mundo sem sentido, que não significa nada. O pior de tudo é que vemos se formar uma ideologia - que jactancia-se de progressismo - para legitimar e justificar o uso das drogas como a plenitude da liberdade, quando na verdade é a mais abjeta escravidão.
Devemos nos perguntar: o que é a liberdade? Certamente não é a que a ideologia liberal (que engendrou o nazismo - diga-se de passagem, Bauman vem nos socorrer em Modernidade e Holocausto) veio nos trazer. É a liberdade das drogas? Estamos num circuito-fechado como disse Florestan Fernandes? A sabedoria do Cranberries vem em nosso auxílio, com Dolores eu posso dizer em relação às drogas:


"To all those people doin' lines
Don't do it, don't do it
Inject your soul with liberty
It's free, it's free.
(...)
Salvation, salvation
Salvation is free"


O escapismo que se busca (na verdade o sentido, o significado) existe e como diz a sábia Dolores "é grátis!"

quinta-feira, 26 de junho de 2008

O inferno dos vivos


O Inferno de Dante, Paul Gustave Doré (1832-1883)

"O inferno dos vivos não é algo que será; se existe, é aquele que já está aqui, o inferno no qual vivemos todos os dias, que formamos estando juntos. Existem duas maneiras de não sofrê-lo. A primeira é fácil para a maioria das pessoas: aceitar o inferno e tornar-se parte deste até o ponto de deixar de percebê-lo. A segunda é arriscada e exige atenção e aprendizagem contínuas: tentar saber reconhecer quem e o que, no meio do inferno, não é inferno, e preservá-lo, e abrir-lhe espaço". Ítalo Calvino em As Cidades Invisíveis, p. 150

sexta-feira, 20 de junho de 2008

Canto noturno de um pastor errante da Ásia



Canto noturno de um pastor errante da Ásia, de Giacomo Leopardi

[...] Mas tu, sozinha, eterna peregrina,
Que tão pensativa és, talvez entendas
Este viver terreno,
O sofrer nosso, o suspirar, que seja;
Que seja este morrer, este supremo
Descorar do semblante,
E da terra sumir, fugir do aceno
Da habitual, amante companhia,
E decerto compreendes
O segredo das coisas, vês o fruto
Da manhã e da noite,
Do tácito, infinito andar do tempo.
Sabes, por certo, a qual doce amor seu
Sorri a primavera,
A que, o estio é útil, a quem serve
O inverno e a sua neve.
Mil coisas sabes tu, e mil descobres,
Que estão ocultas ao pastor simplório.
Amiúde, ao te ver
Muda assim sobre campos que, desertos,
Lá na distância com o céu confinam;
Ou então a viajar
Comigo e meu rebanho tão de perto;
E quando olho a amplidão, de estrelas cheia,
Penso e digo comigo:
Por que tanta candeia?
Por que estes ares infinitos, este
Infinito profundo, sereno, esta
Imensa solidão? E eu, que sou eu?
[...]

quinta-feira, 19 de junho de 2008

Chuva de sapos

Quando um protestante vem nos dizer "Jesus te ama", "salva", "liberta", a coisa que primeiro vem à mente, é: "salvação, de quê?" "Libertação, do quê?" Se for somente do inferno eterno, se não levar minha vida em consideração, não me interessa. O que o ser humano mais deseja? Sentido. O que mais o aterroriza? O nada. Toda a distração, banalidade e cinismo de nossas vidas cotidianas vem do não olhar para isso. Viktor Frankl, sobrevivente de um campo de concentração nazista e fundador da logoterapia, disse que "o homem aguenta qualquer coisa, menos a falta de sentido". O que mata o homem é o non sense, o absurdo, que ele tenta remediar com o vazio, o fútil, o kitsch, o banal e o efêmero. O que significa a salvação para a vida do homem? Significa a restituição do sentido, antes de mais nada, o reconhecimento da existência de um sentido por trás do aparente caos e acaso da vida. A vida pode ser vivida e enfrentada porque tem um sentido. A fé introduz antes de mais nada, um dinamismo. É um fator de vida, de civilização: posso construir, a começar pela minha personalidade, porque a realidade tem um sentido. Não é absurda, e não vai ser destruída pela irrupção do nada. A fé é a coisa mais subversiva que pode existir porque vence a morte "por dentro". A derrota do nada é a fé: construo minha vida porque reconheço que o seu fim não é o túmulo, a morte ou o nada, mas o mistério que nos chamou à vida, e nos "rodeia", por todos os lados. Essa é a grande contribuição da fé cristã, hoje, infelizmente reduzida a ética e a moralismo, como se não fosse uma proposta a todos de algo diverso e melhor para as suas vidas. Essa é a luta, que Cristo veio introduzir na História, e a Igreja continua, incessantemente, como uma tocha, iluminando a História, há 2000 anos ininterruptos. A fé não é algo subjetivo, é objetivíssima: é reconhecer isso dentro da realidade. Eu me tornei cristão - lembro-me hoje! - olhando para o sorriso de uma colega minha de cursinho, depois vendo a alegria de um padre que eu conheci. Eu me perguntava: "De onde vem essa alegria? Essa sensatez? Essa racionalidade? Essa paixão pela realidade, pela liberdade do homem, esse amor pela vida? Eu quero isso para mim, essa luz..." Reconhecer isso dentro da realidade é a fé, não tem nada a ver com subjetivismo! Eu fico impressionado com pessoas que tripudiam da fé cristã; isso é sinal mais do que arrogância ou de ignorância mesmo: é sinal de imbecilidade. Em Para além do bem e do mal, no parágrafo 46, Nietzsche disse que a mentalidade moderna é tão obtusa que nem sequer entende as palavras cristãs, ou seja, a maioria dos "críticos" do cristianismo nem sabe do que se trata e saem por aí, dele tripudiando: imbecilidade crônica, talvez. Eu adoro o filme Magnolia (1999)! Gosto de Magnolia por causa de sua humanidade, ele mostra o que é o homem: exigência de sentido, e que um imprevisto é a única esperança. Em Magnolia, num determinado momento, cai uma chuva de sapos - que é uma das dez pragas lançadas sobre o Egito -, eu acho esta cena um clássico do cinema mundial, porque é uma reação genial ao absurdo que é a nossa época: tempo de destruição do humano, no qual "a alma do homem se afoga e ninguém nem sequer nota", como afirma a belíssima poesia clandestina soviética. A chuva de sapos é como o acontecimento de Cristo, um imprevisto, que é como diz Kafka, "é a salvação, que um belo dia, vem!", transcendendo todas as nossas medidas.

quinta-feira, 12 de junho de 2008

Um outro mundo é possível

As notícias que me chegam na televisão são terríveis. Nesta semana fiquei sabendo da agressão cometida a dois cães, um em Brasília, e outro no sul do Brasil, se não me engano. O primeiro foi agredido por um jovem de dezoito anos que brigou com a namorada e se vingou no cão dela, batendo-lhe de tall forma até lhe quebrar duas patas, uma dianteira e outra traseira. O cão foi operado e adotado por uma menina de sete anos, que promete cuidar bem dele. Vendo o cãozinho brincar com a menina, fiquei pensando que tipo de pessoa é capaz de cometer semelhante crueldade. O outro caso foi bem menos feliz. Alguns meninos amarraram uma cadela de rua grávida no carro e a arrastaram pela rua, matando a ela e seus filhotes. Eu fiquei chocado e indignado. De onde vem toda essa violência, que é gratuita? Não dá para apelar ao velho mote da esquerda apelando à pobreza ou até à necessidade da violência, porque em nenhum destes casos isto se justifica.
O fato é que estamos nos tornando uma sociedade da violência. O ódio vem sendo pregado como a salvação e o motor para a construção de um mundo novo. Eu fiquei impressionado pela seqüência de violências perpretadas pela Via Campesina e pelo MST por todo o Brasil: o pior de tudo é que isso se justifica em nome do bom, do belo e do que há de melhor... sem falar na maior de todas as violências, que é a violência contra os mais indefesos: os não-nascidos, os embriões destruídos nas pesquisas com células-tronco embrionárias e os fetos abortados, imolados no altar do deus bem-estar, qual novo Holocausto (sempre que eu penso no aborto eu lembro do massacre de Cartago, quando 300 crianças foram queimadas vivas numa pira em honra do deus Moloc, em nome de um bem-estar... e Cartago foi riscada do mapa anos depois...)
O ódio nunca vai resolver os problemas do mundo. O que eu vejo, depois de oito anos que reunião global para a "contestação transnacional" foi que pouca coisa de fato foi construída de concreto como alternativa, a não ser se a destruição do humano é tida como construção. O aborto é a maior de todas as violências, e é exatamente a sua legitimação, que provocou a morte daquela cadela no sul do Brasil e o aborto de seus filhotes. Não entendo como alguém pode se comover com isso, e não se comover com o Holocausto que está sendo perpretado em nosso país em nome do bom, do belo e do que há de melhor...
A violência avança em nosso país, e as causas não são econômicas, porque a economia melhora, os salários aumentam, a desigualdade social diminui, mas a violência cresce dia após dia: crianças, prostitutas e cães são arrastados pelas ruas amarrados em carros, crianças são jogadas pelas janelas dos apartamentos pelos seus pais... coisas absurdas apenas há pouco tempo atrás...
A perda do significado e do valor da pessoa humana é a grande responsável por tudo isso. Se o homem é fruto somente do seu entorno, do material biológico de seu pai e sua mãe, em suma, da matéria, da cultura... então o poder tem todo o domínio sobre ele, e está aberto caminho para a escravidão mundial: hoje os embriões e os fetos são eliminados em nome do bom, do belo e do que há de melhor... quem garante que amanhã não serei eu ou você? Em nome do que o homem poderá ser defendido contra a violência que alcançou o seu nível magno no Holocausto nazista, mas ainda pode superá-lo?
No encontro do papa com os jovens em Colônia na Alemanha, em 2005, o mesmo slogan do Fórum Social Mundial estava estendido: "um outro mundo é possível". A Igreja, esta amizade iniciada há 2000 anos é o outro mundo possível. É o outro mundo neste mundo, eu experimento isso, eu creio porque eu vejo, a Igreja é realmente um mistério de amor, amizade: eis a novidade sempre fresca e viva, que não envelhece. O que se apresentou como "novo" em ódio a esta amizade nada mais é do que o retrocesso ao velho, "retrocesso de 2000 anos", diria Raymond Aron. O mais engraçado é que muitos negam ou se escandalizam com esta afirmação sem dela fazer a mínima experiência que seja. Só a Igreja defende o homem, porque só ela o afirma tal como ele é: "exigência de sentido ou significado", ou numa fórmula mais antiga: "um nada capaz de Deus".
A única forma de "conter" a violência é amar, é construir com a própria vida, espaços de amizade e de gratuidade, onde a amizade triunfe sobre o domínio e o amor triunfe do poder. Isto ergueu uma civilização! Construir esta amizade com a própria vida é o único caminho para um mundo de paz e de vida, como disse o Senhor Jesus: "felizes os pacíficos, porque serão chamados filhos de Deus".

quinta-feira, 5 de junho de 2008

Despedaçados

Ontem pela manhã fui levar um amigo que trabalha em Roma e passou a semana em Salvador à Catedral Basílica no Terreiro de Jesus, depois fui ao museu que fica logo atrás da "nave" (a principal parte) da Igreja. Fiquei impressionado com a mentalidade que se exprimia numa das salas, porque era de uma perfeição impressionante. Eu fiquei verdadeiramente chocado, essa é a palavra, com a distância da qual eu mesmo estou daquela mentalidade. O que me impressionou foi a riqueza de detalhes, a perfeição no mínimo desenho, que só é possível a quem tem a consciência do todo, um Jesus crucificado que parece real... eu pensei: "só quem tem uma forte experiência com o Senhor Jesus faz uma coisa dessas, não se faz por encomenda, ou por estética". Indo à Catedral foi que eu percebi a dimensão do niilismo no qual estamos vivendo, e que nem eu mesmo dele estou livre. A nossa mentalidade é despedaçada, esquizofrênica, falta o sentido do todo, o sentido da vida, da realidade... o niilismo é realmente a praga desta época, sem dúvida, a mais terrível da História, época de avanços magníficos na técnica e na ciência, mas ao mesmo tempo, uma época na qual o sentido da vida, que é como disse Camus, "a mais urgente das questões", a mais primordial necessidade, é terrivelmente negligenciado. Nunca houve época como esta! O buraco negro do niilismo e do nada, ameaça engolir a todos: por isso triunfa a esquizofrenia, a depressão, a loucura... ainda bem que existe uma realidade concreta, que nos faz lembrar que não estamos determinados pelo despedaçamento e que existe uma possibilidade muito concreta de viver a vida cem vezes mais, de modo inteiro, sem renegar e nem esquecer nada!

terça-feira, 3 de junho de 2008

Uma longa luta

Eu acredito que exista algo que chamamos vulgarmente de verdade. Verdade pode ser traduzida como objetividade. A verdade não é uma abstração qualquer ou uma teoria total acerca do mundo, a verdade é aquilo que eu tenho na minha frente. Afirmar a verdade não significa defender uma crença, qualquer que ela seja, mas defender a realidade que se me apresenta, seja ela qual for.
Atualmente, influenciadas principalmente pelo que se chamou de sociologia do conhecimento, muitas pessoas afirmam que não há verdade. Este é o absurdo mais completo que se possa imaginar, pois afirmar que não há verdade equivale a dizer que não há realidade.
A sociologia do conhecimento junto com o construtivismo afirmam que "a realidade é socialmente co-constituída". O problema é que a realidade (humana) é construída sobre algo, ela não se ergue no vácuo, sempre é construída a partir de uma base material (mesmo a dita "realidade virtual" não se ergue no vazio e a partir do nada). Afirmar isso significa que o homem não é criador, mas somente construtor: constrói coisas novas a partir daquilo que já existe. E por isso o passado é fundamental.
Hoje se afirma que não há realidade, não há objetividade. O espaço se abre para uma palavra da moda: a experimentação. Pode-se experimentar de tudo, porque não há uma realidade objetiva a se respeitar. É exatamente isso que se prega hoje, que se dê vazão a todo subjetivismo porque não há objetividade nenhuma.
Onde está o erro desta posição? Que o homem não existia, existe e depois não existirá, portanto depende. Depende daquilo que existia antes dele, que ele encontra no impacto com a realidade que lhe é oferecida. A realidade na qual ele emergiu é maior que ele, e é objetiva: não se move a rogos. O grande prejudicado no surto do experimentalismo pós-moderno é o próprio homem, desfigurado em sua natureza, em nome de uma afirmação ideológica do subjetivismo. Este subjetivismo irracional, porque não se apóia em evidências razoáveis é aquilo que vulgarmente chamaríamos de mentira, negação de tudo, desespero ou niilismo.
Em relação à dita realidade maior, temos duas possibilidades: ou ela é simplesmente absurda, ou tem algum sentido, mesmo que eu não saiba imediatamente qual é, ou chama ao nada- como se prega hoje- ou é um convite ao infinito.
Eu gosto muito do clip do Cranberries I can't be with you http://www.youtube.com/watch?v=VpClJU6pKXo&feature=related, que mostra exatamente uma luta que se desenrola há 2000 anos, entre a Mulher e o Dragão, como diz o Apocalipse, ou entre a Igreja (aquela que nos chama a viver intensamente o real, sem renegar nem esquecer nada), e a Mentira (o Diabo) que quer a todo custo nos fazer esquecer da realidade. Podemos ainda afirmar que esta é uma luta entre a esperança e o niilismo! No clip, é impressionante ver a Mulher caminhando com a tocha (que é o próprio Cristo, a Luz que ilumina todo homem) iluminando este mundo de trevas, solidão e desespero, há 2000 anos... O que se passa no clip foi inspirado neste trecho do Apocalipse (Ap 11,19; 12, 1-6.13-17) abaixo:

"Abriu-se o templo de Deus no céu e apareceu, no seu templo, a arca do seu testamento. Houve relâmpagos, vozes, trovões, terremotos e forte saraiva. Apareceu em seguida um grande sinal no céu: uma Mulher revestida do sol, a lua debaixo dos seus pés e na cabeça uma coroa de doze estrelas. Estava grávida e gritava de dores, sentindo as angústias de dar à luz. Depois apareceu outro sinal no céu: um grande Dragão vermelho, com sete cabeças e dez chifres, e nas cabeças sete coroas. Varria com sua cauda uma terça parte das estrelas do céu, e as atirou à terra. Esse Dragão deteve-se diante da Mulher que estava para dar à luz, a fim de que, quando ela desse à luz, lhe devorasse o filho. Ela deu à luz um Filho, um menino, aquele que deve reger todas as nações pagãs com cetro de ferro. Mas seu Filho foi arrebatado para junto de Deus e do seu trono. A Mulher fugiu então para o deserto, onde Deus lhe tinha preparado um retiro para aí ser sustentada por mil duzentos e sessenta dias. (...) O Dragão, vendo que fora precipitado na terra, perseguiu a Mulher que dera à luz o Menino. Mas à Mulher foram dadas duas asas de grande águia, a fim de voar para o deserto, para o lugar de seu retiro, onde é alimentada por um tempo, dois tempos e a metade de um tempo, fora do alcance da cabeça da Serpente. A Serpente vomitou contra a Mulher um rio de água, para fazê-la submergir. A terra, porém, acudiu à Mulher, abrindo a boca para engolir o rio que o Dragão vomitara. Este, então, se irritou contra a Mulher e foi fazer guerra ao resto de sua descendência, aos que guardam os mandamentos de Deus e têm o testemunho de Jesus."