quinta-feira, 31 de julho de 2008

Amanhã

Para amanhã, o arcebispo de Salvador, o cardeal Dom Geraldo Majella pediu que fosse um dia dedicado à paz. É claro que passetas e coisas do gênero não vão resolver muita coisa, mas o que ele pede nos ajuda a nos conscientizarmos de um fato evidente que é o aumento da violência generalizada em nossa sociedade. A violência é o tecido das nossas relações. As redes de laços sociais desvanece, a amizade desaparece, o amor em muitos esfria, todos só buscam afirmar a si mesmos, contra tudo e contra todos. Esse chamado de atenção vale para lembrarmo-nos de que esta situação não existia desde sempre, e que algo mudou e provoca essa situção. O quê? O orgulho, a vaidade, o não estar nem aí para o outro... quem se importa com o outro? Hoje eu vi uma senhora na Vitória (ela mora no Lobato e pede esmolas na Vitória e na Graça) que estava com boa parte do corpo queimada, falei com ela, dei o que uma parte do que eu tinha e rezei uma Ave-Maria à Nossa Senhora pra cuidar dela, mas ao mesmo tempo eu me dou conta que eu sozinho sou incapaz de resolver os problemas do mundo, mas o meu desejo de justiça não consegue se conformar diante disso. Outro dia, vi um colega do LABMUNDO, muito provocado com o fato de alguém ter sido assassinado perto de onde ele mora a machadadas...
Meu desejo é que o dia de amanhã sirva pra provocar nossas consciências, um mundo de paz não é impossível, mas a paz só é possível com a justiça, e para nós, cristãos, a vantagem é que a justiça se fez amor, ou seja, perdão e abraço: um minuto de silêncio e uma prece para quem tem fé, pela paz e pela vida, o maior de todos os valores!

quinta-feira, 24 de julho de 2008

Um pouco de Einstein

“O que nos empurra então a elaborar teoria após teoria? Por que, realmente, formulamos teorias? A resposta à segunda pergunta é simples: porque amamos ‘compreender’, ou seja, reduzir os fenômenos por meio do procedimento lógico a algo de já conhecido ou (manifestamente) evidente.

(...)

A emoção mais bonita e profunda que podemos experimentar é o senso do Mistério. Aqui está a semente de qualquer arte, de qualquer verdadeira ciência. O homem para o qual não é mais familiar o sentimento do Mistério, que perdeu a faculdade de se maravilhar e humilhar perante a criação, é como um homem morto.

(...)

Quem não admite o mistério insondável não pode nem ser um cientista”.

Albert Einstein

sexta-feira, 18 de julho de 2008

O caso Dantas e a polícia: o que têm em comum?

Muita gente, certamente a esmagadora maioria não consegue nem de longe enxergar o que existe de comum entre o caso Daniel Dantas - de prostituição com o poder há quase duas décadas e as recentes - e já inúmeras mortes - envolvendo policiais, ora estes matando, ora estes morrendo.
O que estes dois casos aparentemente tão opostos nos revelam?
Ao invés de ficarmos nos indignando numa potência elevada ao infinito no sofá em frente à TV ou na cadeira em frente ao computador a cada notícia - já cotidianas - de mortes e corrupção, vale a pena se perguntar o que significa tudo isso.
Ora, tudo isso ou significa alguma coisa ou é absurdo. Se é absurdo, eu sou um débil mental porque estou pensando nisso. Se tem um sentido, eu desejo saber qual é.
Penso que estes fatos nos revelam algo que nossa intuição já revela: não temos um país, uma nação. Somos um arremedo de povo, de país, o Brasil, em suma, nos seus 508 anos ainda está para nascer. Mas estão querendo abortar o Brasil, bem antes dele nascer.
Como assim, abortar o Brasil, cara pálida? O neoliberalismo e a esquerda pós-1968 estão destruindo o Brasil, porque, em nome da "emancipação", da falsa liberdade estão destruindo os laços sociais, que constroem um país. Quem quiser vá em A Democracia na América, de Alexis Tocqueville, e veja como nasceu os Estados Unidos: rede de laços sociais, que hoje são chamados pejorativamente de "comunitarismo".
O sujeito, agora apenas indivíduo, é lançado no mundo somente com o si mesmo, que como diz o filósofo Lyotard, "é muito pouco". O mercado e o Estado estão destruindo os chamados "corpos intermediários da sociedade" (como a família, as associações, a Igreja) para tornar o indivíduo vulnerável às drogas, à depressão e à banalização da sexualidade, escravizando-o ao poder, seja ele o Mercado ou o Estado.
Essa destruição do Brasil, destruição do humano, tem resultado numa guerra civil - de números absolutos igual à guerra no Iraque - e à ideologia do "salve-se-quem-puder" e do "caiu na rede é peixe" , das quais Daniel Dantas e Salvatore Cacciola são os epifenômenos mais recentes.
De nada adianta se lamentar ou indignar-se, e nem mesmo protestar. Nem o Mercado nem o Estado têm o mínimo interesse em acabar com a situação, dado que eles são os maiores beneficiários de tudo isso. Por isso, a "direita" ficar em guerra com a "esquerda" e vice-versa é a maior baboseira. O único remédio é mesmo o amor. Em que sentido? Não como pollyanisse ou coisas do gênero. O que é o amor? O amor é a afirmação da realidade, é o dom de si para o bem do outro. Esta porra aqui (o Brasil) só vai ter jeito quando começarmos a amá-lo. Só podemos "consertar" alguma coisa se a amarmos primeiro. A única esperança de um drogado é que alguém o ame, a única esperança de salvar alguém da depressão ou da morte é amá-la. Não tem jeito: por sorte ou azar, nascemos no Brasil, e, das duas, uma: ou o amamos e consertamos, ou o odiaremos e isto aqui se transformará na ante-sala do Inferno. É como se aqui fosse uma cidade arrasada por um furacão: é preciso reconstrui-la, mas é preciso amá-la, afirmar o Brasil, até o fim!

segunda-feira, 14 de julho de 2008

Delírio da direita

O delírio é uma das coisas mais impressionantes ao qual o ser humano está submetido. E isso vai desde o pessoal da França que não quer comprar o novo CD de Carla Bruni porque ela está casada com Sarkozy até as recentes opiniões que tenho ouvido acerca da lei seca. A mais estapafúrdia de todas foi sem dúvidas a que li há pouco. Nesta manhã, li um artigo do sr. Olavo de Carvalho que enviaram para mim associando a implementação da Lei Seca à diminuição da felicidade no Brasil. Eu nunca vi mais nada mais estapafúrdio que essa argumentação porque, dado que o sr. Olavo é contra Lula, o PT e a esquerda, na falta de uma boa argumentação contra essa lei, me vem com uma tal pesquisa da National Science Foundation sobre felicidade, que é algo, digamos impreciso para medir (medir a felicidade é demais, não é? É o ápice da modernidade), para justificar a sua posição contrária.
O problema do sr. Olavo é, da mesma forma que para a maioria das pessoas de esquerda, de realismo. Assim como a esquerda débil-mental pensa que "tudo o que é de esquerda, porque é de esquerda é bom", até mesmo Osama bin Laden por ter se insurgido contra o imperialismo americano; para Olavo, tudo o que vem da esquerda, incluso do governo do PT, é necessariamente ruim.
Outro delírio que vejo as pessoas falando é no tal controle da liberdade ou do "saber escolher". Ora, desde que eu me entendo por gente, vejo nas propagandas, "se beber não dirija", "se dirigir não beba". E isso nunca funcionou! Muita gente bebe muito e provoca por volta de 40 mil mortes no trânsito ao ano, e uma das razões é justamente o altíssimo índice de bebida associado à direção.
Penso que devemos olhar para os fatos. A ideologia, ou a Dama Idéia, como a preferia chamar o poeta Bruno Tolentino, é como uma névoa que encobre a realidade. E o que os fatos têm mostrado? Que o índice de acidentes e mortes no trânsito já reduziu muito no Brasil em pouquíssimos dias, numa média de reução de 55% e 27%, respectivamente.
Diante disso, que se há de pensar? Que a lei é boa, oras! Alguns dizem que exagerou na dose, mas no Brasil, o simples fato da existência de uma lei dessas é para se comemorar.
Infelizmente, vejo alguns dizerem que esta lei "agride a liberdade" e trata os brasileiros como "incapazes de decidir". Além do valor fundamental ser a vida e não a liberdade a qualquer custo, isto é uma mentira descarada! A lei não proíbe ninguém de fazer o que quiser consigo mesmo, nem de beber até cair morto (desde que não dirija), mas a lei vem justamente ordenar o convívio social, onde não é justo que pessoas inocentes paguem com a vida pela irresponsabilidade alheia.
Dizer que isto limita a liberdade, torna as pessoas mais infelizes, é uma estratégia de controle e seus côngeneres, nada mais é do que puro delírio da direita. A vida é o valor fundamental, e uma lei que venha para defendê-la, e evitar por volta de 10 mil mortes por ano no Brasil, é muito bem-vinda!

terça-feira, 8 de julho de 2008

Polícia, drogas, violência e mais uma criança morta

Nesta semana, mais uma criança (de quase 4 anos) morreu vítima de um tiroteio no Rio de Janeiro, no qual o carro onde estava sua mãe e seu irmão de nove meses foi metralhado pela polícia com nada menos que 16 tiros.
De onde vem essa violência?
Não adianta relacionar a violência com a simples pobreza, porque esta vem sendo erradicada no Brasil, aos poucos, mas vem. Programas como o Bolsa Família erradicaram a miséria absoluta, o Brasil vem crescendo, o desemprego caindo, a estabilidade econômica e política é uma conquista do povo brasileiro.
Então, de onde vem esta violência toda que estamos vivendo?
Penso que é um amplo conjunto de fatores, entre os mais importantes, dois:
O primeiro é a desagregação contínua das redes de laços sociais ao longo dos anos, provocados entre outras coisas pela conjunção entre o neoliberalismo (a loucura com método- à qual dedicarei um post em breve)que promove o individualismo e as teses da esquerda new left pós-1968, que em nome da "libertação" promove o rompimento de todos os vínculos da pessoa, deixando como conseqüência mais nefasta a solidão e a vulnerabilidade.
O segundo é o avanço das drogas. Sem esperança neste mundo, a única possibilidade ao indivíduo solitário e vulnerável é o escapismo proporcionado pelas drogas (alimentado pelos mitos de transgressão, rebeldia e outras coisas que a acompanham).
A droga, entre outras coisas acompanhada pelo seu glamour, organiza um imenso mercado clandestino do qual se serve para penetrar em todas as camadas sociais. Para sobreviver o tráfico compra os policiais (cujo baixo salário e leniência do governo facilitam), políticos, empresários. POucos ganham e muitos morrem, não só vítimas da droga, como vítimas dos assassinatos que dela decorrem , direta ou indiretamente. Os meninos que se envolvem com o tráfico mal chegam aos 25 anos, e mais de cinqüenta mil pessoas são assassinadas no Brasil, e boa parte deste número está relacionado com o tráfico.
Uma das bibliotecárias da minha faculdade passou vários anos morando em Portugal, e eu perguntei porque ela voltou. Ela disse que uma das razões era a droga, "estava demais (...) na França é muito pior".
Onde a pobreza cresce, cresce a droga, onde cresce o ódio à realidade, cresce a droga. Nietzsche, que era viciado em haxixe, em A Gaia Ciência, escreveu: "esse pendor para o belo, para o verdadeiro, para o real [que ele encontrava nele mesmo], como o odeio!", ao passo que a filósofa espanhola Maria Zambrano escreveu "o nexo com o real é o que nos dá força e nos sustenta". O que nos falta é justamente a esperança. Cresce a droga porque Lula decepcionou! Cresce a droga porque aumenta o desespero!
Esta é uma espiral infernal que se retroalimenta: a droga alimenta a violência, e a violência re-alimenta a drogas, em círculos infernais cada vez maiores. O que pode barrar tudo isso? Cranberries nos diz:

"To all those people doin' lines
Don't do it, don't do it
Inject your soul with liberty
It's free, it's free.
(...)
Salvation, salvation
Salvation is free"


Só a liberdade, fruto de um abraço, de algo que aconteça na realidade e nos surpreenda, que suscite uma esperança verdadeira que não decepcione. A verdadeira libertação é grátis, é um imprevisto que encontramos em nosso caminho, e daí torna-se possível construir um outro mundo, pacífico, onde possamos viver em paz, a partir do reconhecimento da positividade inexorável do real, como afirmou Machado de Assis, em Memórias Póstumas de Brás Cubas: "verdadeiramente, o único mal é não nascer!". Só o amor ao real, suscitado por uma esperança viva, pode deter a droga e a violência, o horror e a morte, tão presentes nesta primeira década do século XXI.

sexta-feira, 4 de julho de 2008

Ingrid Betancourt

Ingrid Betancourt é libertada! Enquanto isto acontece, as mentes niilistas podem se perguntar: "e daí? Isso é só mais uma jogada midiática!" Não acredito que mídia e nem ninguém (e hoje, cada vez menos as crianças) é inocente, ninguém ama a liberdade e muito menos a própria Ingrid, que nem sequer conhecem. Então, por que uma festa pela sua liberdade?
Em primeiro lugar, além do fato da libertação de uma pessoa inocentes de condições absolutamente desumanas, a libertação de Ingrid é um passo simbólico (e não só) decisivo na guerra contra o terror que começou na aurora desta década, no pós-11 de setembro de 2001.
Eu mesmo vi, em tempo real,, a queda das Torres Gêmeas, na qual mais de 3000 pessoas inocentes morreram, desencadeando entre outras coisas no futuro a absurda guerra contra o Iraque.
A coisa que mais me chocou neste atentado foi ver algumas pessoas comemorando o ataque, porque era atingido o coração do império, ou então minimizá-lo dizendo: "quantas pessoas morrem de fome todos os dias, ou quantas pessoas os EUA mataram, e blá-blá-blás..."
Pois é: agora escuto a mesma coisa em relação aos terroristas: ouvi gente defendendo as FARC e até se chocando (!) com a minha postura.
Fiquei muito feliz com a declaração de Ingrid defendendo Uribe ontem: "Os colombianos elegeram uribe, não as FARC". A libertação desta mulher é a vitória do Estado de direito sobre o terror, da democracia contra o crime, da liberdade contra a tirania.
Para quem acha que esta é uma mera ação midiática, é necessário frisar alguns detalhes:
1º Esta não é uma ação isolada. Além da libertação da secretária de Ingrid no início mediada inclusive por Hugo Chávez, o governo colombiano matou os números 1 e 2 das FARC, além de provocar a deserção de mais de 2000 integrantes da milícia por meio de indultos.
2º Esta operação começou há 1 ano e meio (fevereiro de 2007), ou seja sem a participação dos pop Sarkozy e Chávez.
3º Os EUA há um bom tempo têm despejado US$ 5 bilhões para destruir a guerrilha
4º Uribe foi reeleito e tem 84% de aprovação. Ninguém consegue isso se não fizer um bom trabalho. Tenho uma amiga que passou um ano na Colômbia e ela disse que a violência diminuiu muito.
Numa época de aumento de consumo da droga no mundo e no Brasil, de crescente perda de poder do Estado aos narcotraficantes, o fortíssimo enfraquecimento das FARC é uma notícia para se comemorar, com champagne, inclusive. A derrota das FARC é esperança para a América Latina e para o mundo inteiro, nesta década marcada pela ascensão do terrorismo!
As pessoas que comemoraram a liberdade são aquelas que acreditam na melhora de vida e na luta por isto sim, mas respeitando a legalidade e a democracia, são aquelas que não justificam os meios pelos fins, que acham que não é legítimo matar alguns em nome de um hipotético futuro melhor para todos, que não acreditam nas idolátricas promessas do socialismo e congêneres, são aqueles que se dão conta de que sempre teremos um mundo injusto, mas que podemos melhorá-lo sempre e que a democracia, a razão e a liberdade estão a nosso favor, e não contra nós: a isso sim, brindamos, democracia e liberdade, porque um mundo sem terror é possível, e mais que isso, necessário, para que vivamos em paz e floresça o desenvolvimento.