quinta-feira, 27 de novembro de 2008

Match Point: versão pós-moderna de Crime e Castigo


Scarlett Johnansson e Woody Allen

Em 2006, ouvi Bruno Tolentino dizer que Match Point, de Woody Allen(EUA, 2005) era um bom filme que estava passando no cinema. Por diversas razões, acabei não vendo o filme na época, e, como estava passando na Globo, acabei vendo ontem.
Match Point é um filme cult, cabeça, intelectual. Portanto, a primeira coisa que subverte é a lógica hollywoodiana de filme de entretenimento. Match Point não é um filme que agrada à primeira vista - a trama se desenvolve de forma lenta no princípio do filme e o filme, em si, só se revela no final.
Match Point é a versão woodyalleniana de Crime e Castigo (1866, Dostoiévski). Uma versão triste, diga-se de passagem. Triste porque é uma versão pós-cristã de Crime e Castigo.
Para começar, mostra um jovem que vem da catolicíssima Irlanda (até pouco tempo atrás) para a pós-moderníssima e ateíssima Londres (Londres é a capital da pós-modernidade, a cidade mais globalizada e menos cristã da Europa). Ao contrário do protagonista de Crime e Castigo, o protagonista de Match Point se dá bem: começa ensinando tênis numa família rica, torna-se amigo do filho do patriarca, namora e casa com a irmã deste, logo conseguindo posição de destaque na empresa do sogro. Ou seja, se dá bem, ao contrário de Raskolnikov de Crime e Castigo, que permanece pobre e miserável.
O inesperado - nos dois casos, o do romance e o do filme - vem em forma de mulher. Em Crime e Castigo, a prostituta apresenta ao assassino o caminho do Evangelho. Em Match Point - no qual a fé é assunto do qual não se fala - aquela que foi a sua cunhada é o "imprevisto" que subverte a sua meta de chegar ao topo: envolve-se num caso com ela, até que ela engravida, e ele, para não perder a sua conquista, mata-a e em paralelo com Crime e Castigo mata a vizinha.
Como no romance de Dostoiévski, o assassino rouba as jóias da velha vizinha e joga no Tâmisa, e o delegado - como no romance - descobre por dedução quem foi o assassino, que é salvo pela coincidência - propositalmente patética - de um drogado ter sido preso com o anel da velha, o que inocentou o assassino que, longe de arrepender, voltou para a sua mulher e a sua nova família rica.
Match Point é uma versão pós-moderna e triste de Crime e Castigo. E Woody Allen é a versão pós-moderna e pós-cristã de Dostoiévski. Quando vi Match Point, me perguntei: "por que Chris não se arrependeu? Por que simplesmente deu o "Match Point" e simplesmente venceu (aparentemente)"? A resposta que entendi foi a seguinte: faltou o povo; e além disso, o Fato não é mais perceptível. Raskolnikov arrependeu-se por encontrar Sonia, a prostituta "pura", que lhe falou do Evangelho, de arrependimento e de perdão, e que disse que estaria com ele onde quer que ele estivesse, e que era necessário confessar o crime e aceitar o castigo, para renascer e tornar-se homem. Na sociedade pós-moderna, não há mais "povo". Só há o "si mesmo", como afirma o filósofo Jean-François Lyotard na sua obra clássica A condição pós-moderna (1979). Ninguém se dá mais a ninguém, e ninguém ama mais ninguém, todas as relações são fruto de interesse e cálculo. Todo mundo só pensa em andar na sua própria highway solitária em busca do sucesso e do "se dar bem" a qualquer custo. Na época do niilismo mais profundo, este drama que acontece na cidade que melhor o representa - Londres - demonstra o que é a sociedade hodierna: o reino do nada, onde tudo se reduz a pura dança sobre o vazio, como bem profetizou Nietzsche, onde todos são guiados não por uma presença amorosa, mas somente pelo instinto e pelo poder. Exatamente como era há 2000 anos atrás, antes do anúncio do Evangelho.

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

A confissão de Picasso


Pablo Picasso

"Na arte, o povo não procura mais consolação e exaltação, mas os refinados, os ricos, os ociosos, os destiladores de quintessências buscam o que é novo, estranho, extravagante, escandaloso. E eu mesmo, desde o cubismo e além dele, eu contentei esses mestres e esses críticos com todas as bizarrices mutáveis que me passaram pela cabeça, e quanto menos eles me compreendiam, mais eles me admiravam.

A força de me divertir com todas essas brincadeiras, com todos esses quebra-cabeças, enigmas,e arabescos, eu fiquei célebre, e muito rapidamente. E a celebridade para um pintor significa vendas, lucros, fortuna,riqueza. E hoje, como o senhor sabe, eu sou famoso, eu sou rico. Mas, quando estou sozinho comigo mesmo, não tenha a coragem de me considerar um artista no sentido antigo e grande da palavra.

Giotto, Ticiano, Rembrandt e Goya foram garndes pintores : eu sou apenas um divertidor do público que compreendeu o seu tempo eexplorou o melhor que pôde a imbecilidade, a vaidade, a avidez de seus contemporâneos. É uma amarga confissão a minha, mais dolorosa do que ela parece. Mas, ela tem o mérito de ser sincera"

(Pablo Picasso, carta a Giovanni Papini, publicada em 1952. Citada in "Découvertes" n°90, 1972, editorial "Picasso pintado por si mesmo." Citado in "Cahiers de Chiré" n°4, 1989, p.354)

domingo, 16 de novembro de 2008

Pensamentos Ridículos

Escrevo esse post pensando na música do Cranberries, Ridiculous Thoughts, e inspirado na quarta-feira, onde fui debatedor no V SepAdm. Ali eu entendi o que são os pensamentos ridículos.
Pensamento ridículo é todo pensamento descolado da realidade, porque quando isso acontece, eu me torno prisioneiro da minha mente, eu me torno prisioneiro de mim mesmo. O cristianismo tem um nome muito preciso a isso. É o que a tradição cristã chama de "inferno".
Inferno é um grande não à vida, ao ser, às coisas, ou seja, à realidade, ao outro. O Inferno é a suprema alienação. Porque o homem não existe per-si (em outras palavras, não é Deus), o homem existe como uma relação, uma relação que lhe é vital, constitutiva. A realidade é para nós como o ventre da mãe para o feto, vital, constitutiva. Isso é tão verdadeiro que os santos chamavam os que negam a Deus como "escravos constrangidos de Deus", porque eu dependo de uma realidade, que é feita por um Outro. Eu não me dou a minha mãe, por exemplo. Sou constrangido a ser filho dela. Não posso não ser mais filho de minha mãe, isto é algo de definitivo, de eterno, para o qual não há mais escolha.
Para ter clareza dessas coisas, a grande e única coisa pedida é olhar a realidade. Nós somos salvos somente pela realidade e dentro da realidade. Por isso que S. Paulo dizia que a realidade é Cristo (Cf. Cl 1,17). O Mistério é a suprema realidade, como "R" maiúsculo.
Infelizmente, o que vi num dos artigos do SepAdm sobre a diversidade foi um monte de blá-blá-blás sem observação da realidade. O cientista Alexis Carrel dizia que muito raciocínio e pouca observação conduz ao erro, muita observação e pouco raciocínio conduz à verdade. Porque a verdade é uma evidência, é um fato na História, diz o Papa. A Bíblia é ainda mais simples, no Antigo Testamento diz: "A verdade é!", no Novo ela fala: "A verdade é a realidade!" Ou seja, são as coisas! É aquilo que existe, e que está na nossa frente, e à qual todos podem ter acesso! O cristianismo é o grande anúncio disto, ou como eu gosto de dizer, é a democratização do Mistério, e é uma educação do espírito a estar diante da realidade tal como ela é. O contrário disso é o que chamamos de pecado, sendo que o maior de todos é o orgulho!
A pessoa que falava em diversidade repetia visivelmente um monte de fórmulas esquemáticas, no meu entender vazias, porque não comparava o que dizia com as aspirações profundas do próprio coração - amor, beleza, bondade, justiça, paz, liberdade, felicidade.
Eu não gosto da palavra tolerância. Porque eu não quero tolerar ninguém, eu não quero suportar! Eu quero conviver, eu quero amar, quero ser amigo daqueles que eu encontrar no caminho da minha vida! Porque não me corresponde me justapôr às pessoas, como se fôssemos meros tijolos do edifício social, somos pessoas com exigência de Infinito! E a grande novidade da fé cristã é que o Infinito se fez homem, encarnou-se, é um homem que come e bebe! E por isso, ligou-se de modo indestrutível a todo e qualquer homem, que graças a isso é sinal e presença do Infinito! Cada pessoa que eu encontro é uma estrada para o Infinito! Como posso apenas me justapôr àqueles que são a estrada que o Infinito, que o Mistério me dá para chegar até Ele? Apenas me justapôr é muito pouco para mim, porque eu desejo o infinito!
O contrário da tolerância é o amor, e amor não é uma coisa romântica, implica muita dor e sacrifício! Sacrifício pelo próprio mal e erros, principalmente; mas também sacrifício pelas incompreensões alheias, para os quais a mera justaposição é a coisa mais cômoda!
Nós estamos diante do fio da navalha. A tolerância anda colada com o niilismo e é a ante-sala da barbárie e da guerra. A convivência, a amizade anda junto com a esperança, e é ante-sala da paz e da civilização!
Mas quem vai nos educar a isso? A realidade! O primeiro passo é explodir a prisão dos próprios pensamentos "ridículos", e adentrar o fascinante mundo do real!

terça-feira, 11 de novembro de 2008

A suprema exigência

Da minha viagem ao Recife me impressionaram várias coisas: a beleza da Veneza brasileira (que de fato ela é!), especialmente a Igreja de Nossa Senhora da Boa Viagem. Mas o que mais me impressionou foi o albergue que eu fiquei, chamado de "Piratas da Praia". Nesse albergue, pelas paredes, e nos livros que tinha lá, em cadernos, sempre se falava em "felicidade". Era evidente que todos buscavam a felicidade, que é de fato, a suprema exigência humana.
E por que fui ao Recife? E por que - se Deus quiser - vou à Nova York em fevereiro? Por que fiz o que fiz e faço o que faço? É porque quero ser feliz! Eu sou exigência de felicidade, o meu coração bate, o meu sangue ferve por dentro das minhas veias exigindo a felicidade. E felicidade quer dizer infinito, porque eu sou exigência do Infinito. Que sou eu? Um nada que exige o infinito. Só isto já é a suprema prova que este infinito existe, como bem o reconheceu Shakespeare em Macbeth (ato V, cena 4): "um mundo sem Deus é uma fábula (uma mentira completa) contada por um idiota (irrazoável, pois sem Deus as "contas" do universo não batem) num acesso de raiva (ou seja, é pura violência)".


A Ressurreição: a resposta do Infinito à suprema exigência humana

Acabo de voltar do Hospital Aliança. Uma grande amiga minha, Silvana, está com a mãe na UTI em estado gravíssimo, no limiar da morte. Ali eu entendi o que é a Ressurreição. É impressionante enxergar o olhar e o rosto de Silvana. Há alguma coisa ali - naquela ante-sala de UTI - que é diferente do normal, uma paz, uma serenidade, e até uma alegria. Lá torna-se visível algo não apenas meramente humano, que possibilita isto: este "Algo" dentro de "algo" é o próprio Infinito. É o Infinito que se faz presente.
Na França, o Papa disse em setembro que a verdade é um fato dentro da História. Maria Zambrano disse que a verdade é o alimento da vida! A verdade que é este fato é Jesus! E Jesus ressuscitou na manhã da Páscoa, destruindo a morte, isto é, a finitude, para sempre! Jesus ressuscitou para dizer que nada do que somos se perderá! É isso que se chama "salvação". Sem a Ressurreição, resta-nos sermos engolidos pela voragem inexorável do nada! Mas não! Jesus ressuscitou! Silvana me deu testemunho disso hoje, 11 de novembro! É a realidade que grita: Ele está vivo!

sábado, 1 de novembro de 2008

A Rebelde


Maria

"Dela será dito:
todo homem ali nasceu
e foi o Altíssimo que a firmou
(...)
tanto os príncipes como os filhos
todos têm sua morada em ti" (Sl 87, 5.7)

Em hebraico seu nome significa "Rebelião" ou "A Rebelde", em grego "A Senhora da Luz". Os trechos em negrito bem exemplificam a rebelião, a tensão, a luta que ela veio introduzir no mundo, a nossa amada rebelde.

"E Maria disse:
Minha alma glorifica ao Senhor,
meu espírito exulta de alegria
em Deus, meu Salvador,
porque olhou para a humildade da sua serva.
Por isto, desde agora,
me proclamarão bem-aventurada todas as gerações,
porque realizou em mim maravilhas
aquele que é poderoso e cujo nome é Santo.
Sua misericórdia se estende,
de geração em geração,
sobre os que o temem.
Manifestou o poder do seu braço:
desconcertou os corações dos soberbos.
Derrubou do trono os poderosos
e exaltou os humildes.
Saciou de bens os indigentes
e despediu de mãos vazias os ricos.

Acolheu a Israel, seu servo, lembrado da sua misericórdia,
conforme prometera a nossos pais,
em favor de Abraão e sua posteridade, para sempre."
Lc 1,46-55)