quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Maria e o Natal


Martinho Lutero (1483-1546)

Por Martinho Lutero

“Deus não recebeu sua divindade de Maria; todavia, não segue que seja conseqüentemente errado afirmar que Deus foi carregado por Maria, que Deus é filho de Maria, e que Maria é a Mãe de Deus. Ela é a Mãe verdadeira de Deus, a portadora de Deus. Maria amamentou o próprio Deus; ele foi embalado para dormir por ela, foi alimentado por ela, etc. Para o Deus e para o Homem, uma só pessoa, um só filho, um só Jesus, e não dois Cristos. Mesmo que tenha duas naturezas.” (Martinho Lutero, “Nos Conselhos e na Igreja”, em 1539)

“Não pode haver nenhuma dúvida que a Virgem Maria está no céu. Como isso aconteceu, nós não sabemos. E já que o Espírito Santo não nos revelou nada sobre isso, não podemos fazer disso um artigo de fé. É suficiente sabermos que ela vive em Cristo [...] Maria é a mulher mais elevada e a pedra preciosa mais nobre no Cristianismo depois de Cristo. Ela é a nobreza, a sabedoria e a santidade personificadas. Nós não poderemos jamais honrá-la o bastante. Contudo, a honra e os louvores devem ser dados de tal forma que não ferem a Cristo nem às Escrituras.” (Martinho Lutero, Sermão na Festa da Visitação em 1537.)

“Devemos honrar Maria como ela mesma desejou e expressou no Magnificat. Louvou a Deus por suas obras. Como, então, podemos nós exaltá-la? A honra verdadeira de Maria é a honra a Deus, louvor à graça de Deus. Maria não é nada para si mesma, mas para a causa de Cristo. Maria não deseja com isso que nós a contemplemos, mas, através dela, Deus.” (Martinho Lutero, Explicação do Magnificat, em 1521.)

“É a consolação e a bondade superabundante de Deus, o homem pode exultar por tal tesouro: Maria é sua verdadeira mãe, Jesus é seu irmão, Deus é seu Pai.” (Martinho Lutero, Sermão de Natal de 1522.)

“Maria é a Mãe de Jesus e a Mãe de todos nós, embora fosse só Cristo quem repousou no colo dela… Se ele é nosso, deveríamos estar na situação dele; lá onde ele está, nós também devemos estar e tudo aquilo que ele tem deveria ser nosso. Portanto, a mãe dele também é nossa mãe..” (Martinho Lutero, Sermão de Natal de 1529.)

“Cristo era o único filho de Maria. Das entranhas de Maria, nenhuma criança além dEle. Os ‘irmãos’ significam realmente ‘primos’ aqui: a Sagrada Escritura e os judeus sempre chamaram os primos de ‘irmãos’.” (Martinho Lutero, Sermões sobre João 1-4, 1534-39)

"Ela nos ensina como devemos amar e louvar a Deus, com alma despojada e de modo verdadeiramente conveniente, sem procurar nele o nosso interesse. Ora, ama e louva a Deus com o coração simples e como convém a quem o louva simplesmente porque é bom. Aqueles que amam com coração impuro e corrompido, aqueles que, de maneira semelhante à dos exploradores, procuram em Deus o seu interesse, não amam e não louvam a sua pura bondade, mas pensam em Si mesmos e só consideram quanto Deus é bom para eles mesmos. A religiosidade verdadeira, portanto, é louvor a Deus incondicionado e desinteressado. Maria não se orgulha da sua dignidade nem da sua indignidade, mas unicamente da consideração divina, que é tão superabundante de bondade e de graça que Deus olhou para uma serva assim tão insignificante e quis considerá-la com tanta magnificência e tanta honra. Ela não exaltou nem a virgindade nem a humildade, mas unicamente o olhar divino repleto de graça". (p.561 do Livro de Martinho Lutero,‘Maria Mãe dos Homens’).

"Ao observar aquilo que se realiza nela, nós podemos contemplar o estilo habitua de Deus. Enquanto os homens são atraídos pelas coisas grandes, Deus olha para baixo, para tirar de um nada, daquilo que é ínfimo, desprezado, mísero e morto, algo de precioso, digno de honra, feliz e vivo". (p.547 do Livro de Martinho Lutero,‘Maria Mãe dos Homens’).

"A Mãe de Jesus, portanto, aparece em Lutero como o puro reflexo do olhar divino. Ela não atrai a nossa atenção sobre si, mas leva-nos a olhar para Deus. Maria não quer ser um ídolo; não é Ela que faz, é Deus que faz todas as coisas. Deve ser invocada para que Deus, por meio da vontade dela, faça aquilo que pedimos". (pp.574-575 do Livro de Martinho Lutero ‘Maria Mãe dos Homens).

A cruz, a árvore da vida


Cruz árvore da vida e Cristo novo Adão. Lioba Munz, Alemanha, 1980

"Cristo foi pregado na cruz de modo a resumir nela, em si, o universo" Santo Irineu

"A Verdade é a Cruz" Luigi Giussani

No Cemitério Campo Santo, onde fui para o enterro da tia de uma amiga minha em novembro, vi a cruz representada como a árvore da vida. Eu fiquei tão emocionado que mal consegui reprimir as lágrimas no meio do cemitério. Porque vivemos numa cultura que nega o sofrimento, que foge dele, que o transforma em non sense, em absurdo e em nada. Mas para nós, cristãos, o sofrimento - a Cruz - é simplesmente o caminho de maturidade, de perfeição, de vida. "Na Cruz, está a vida", diz a Imitação de Cristo. Desde então quis escrever alguma coisa sobre a Cruz, mas sempre fiquei adiando justamente por me sentir incapaz disso. Mas hoje eu achei este belo texto do PIME (Pontifício Instituto para as Missões Estrangeiras), ao qual pertence um grande amigo, o padre Ignazio Lastrico. Segue abaixo o texto.


Na escrita chinesa, desde tempos remotos até hoje, a Cruz forma um sinal-chave para indicar as idéias de ENCONTRO-AMIZADE-RELACIONAMENTO-HARMONIA-CONCÓRDIA-PRESENÇA-PROXIMIDADE-O OUTRO-O IRMÃO-UNIÃO-LIGAÇÃO-SOCORRER O PRÓXIMO-CONSONÂNCIA-RIMA.

Em chinês, a Cruz indica ainda a idéia de UNIVERSALIDADE e PLENITUDE: INTEIRO-PERFEITO-COMPLETO-EXTREMO-LARGO-MIL-TODOS-INFINITO-PERFEIÇÃO. Expressa o SUPERLATIVO: EXTREMAMENTE BONITO-MIL MARAVILHAS-ETERNIDADE SEMPRE.

Os hebreus, à semelhança dos chineses, carregavam esse sinal com toda a força do símbolo: VIZINHANÇA-AMIZADE-SIMPATIA-TOTALIDADE-FARTURA-PERFEIÇÃO. No alfabeto hebreu a CRUZ (TAU) é a última letra. Para o hebreu significa também: TERMO-CHEGADA-META FINAL-ASSINATURA. A CRUZ (TAU) é usada para representar o NÚMERO 400, isto é, a SUPERABUNDÂNCIA. O número 4 é a expressão dos quatro cantos da terra, da universalidade, da RIQUEZA. O 400 é pois o SUPERLATIVO DE UM SUPERLATIVO, a FARTURA INFINITA.

Na matemática, a cruz assumiu desde os babilônios, o sentido de MULTIPLICAÇÃO e SOMA.
No Cristianismo, é o símbolo da REDENÇÃO UNIVERSAL, da RECONCILIAÇÃO e da PAZ (Ef. 2, 14-17 e CL.1, 19-20). É a VITÓRIA DA VIDA. Um HOMEM-DEUS (Jesus) esteve ali de BRAÇOS ABERTOS, num gesto de reconciliação e confraternização.

Homem-Deus uniu em si os DOIS EXTREMOS, como as traves em que esteve pregado. A CRUZ lembra a MORTE, o NADA, o MUNDO PRESENTE (trave HORIZONTAL). Mas também aponta para CIMA, para a ETERNIDADE, para a RESSURREIÇÃO (trave VERTICAL), Ali "tudo está consumado".

Não queremos dizer que o cristão, colocando a cruz em cima de um túmulo, tivesse consciência de toda a riqueza deste sinal. Dizemos apenas que este sinal carregou sempre em si em todas as civilizações antigas, um conteúdo simbólico extraordinário, como se fosse uma PROFECIA DA REDENÇÃO UNIVERSAL, presente em todas as culturas. Num túmulo raso e simples, a cruz enterrada no chão aponta para o nada e aponta para o além.

A âncora, muitas vezes, foi um símbolo dissimulado da cruz.

A forma de cruz atua, também, como um gesto de bênção. O sinal da cruz, usado pelos cristãos em vários ritos como ao entrar na igreja, ao iniciar um trabalho ou no início das refeições, o coloca juntamente com o seu Redentor e, diviniza, plenifica e dá o verdadeiro sentido ao gesto que vai começar, não em seu próprio nome mas em nome d'Aquele que habita no cristão e na comunidade.

A CRUZ É O SÍMBOLO QUE REASSUME, EM SI, TODO O MISTÉRIO DA REDENÇÃO

Para a Bíblia, a Cruz é a ÁRVORE DA VIDA, o centro do Paraíso Terrestre, que por sua vez representa o centro do mundo. Porém, no Paraíso Terrestre não havia só a Árvore da Vida, mas também, uma outra árvore não menos importante: a Árvore da Ciência do Bem e do Mal.

A relação entre as duas árvores não é bem clara, mas a aproximidade dessas, simbolicamente unidas, é tal que se pode pensar sempre nas duas.

Qual é a realidade desta ligação? Dualidade de dois termos opostos para as Árvores da Ciência do Bem e do Mal e Unidade, a Árvore da Vida no eixo do Mundo. A dupla natureza da Árvore do Bem e do Mal aparece a Adão somente no momento da "queda" e, só então, Adão conhece o Bem e o Mal. Depois do Pecado, Adão é distanciado do Centro e assim, o homem desde aquele momento perdeu o sentido da Eternidade e da Unidade: iniciou a angústia.

A Cruz de Cristo ocupa, agora, o lugar central próprio da Árvore da Vida e o mesmo se pode dizer da Cruz colocada entre o sol e a lua, como se vê na maior parte das obras antigas. Portanto, verdadeiramente a Cruz do Cristo é o eixo do mundo.

É da Árvore da Vida no Paraíso Terrestre (segundo o Gênesis e o Apocalipse), dos seus pés, que brotam os quatro rios em direção dos quatro pontos cardeais, desenhando sobre a superfície da Terra a Cruz. É do lado aberto do Cristo na Cruz que jorra sangue e água, nova fonte de vida, imagem da graça e do Espírito Santo. Os dois aspectos da Cruz, dolorosa e gloriosa, formam o centro simbólico para onde convergem os olhares e a atenção dos fiéis.

AS CRUZES NO CRISTIANISMO

A Cruz, na Antiguidade Pré-Cristã, como princípio geométrico, é plena de significado cósmico, metafísico e mágico. O hieróglifo egípcio de cruz suástica significa saúde e vida eterna.

O TAU dos semitas e dos gregos significa saúde, plenitude. Cruzes eram colocadas nos timbres, nas colinas, nas estelas babilônicas. Em cruz se interceptavam as duas principais vias das cidades romanas, a decumena e o cardo.

As mais antigas representações cristãs da Cruz não foram apenas cruzes, mas símbolos da Cruz: Moisés que abre os braços (no rito da Missa, o sacerdote quando abre os braços); a "serpente de bronze" no deserto, segundo o livro dos Números...

A forma de cruz mais antiga do Cristianismo nos vem da época da perseguição de Nero e é um grafismo encontrado recentemente no PAEDAGOGICUM Imperial sobre o monte Palatino, com a inscrição "Alexamenos ora ao seu deus". É uma forte crítica de um aluno pagão ao seu colega cristão. A figura tem corpo humano e cabeça de burro.

Nas catacumbas romanas igualmente temos a figura da orante, o navio com a árvore e a vela, a ancora da feliz chegada. No Oriente, a Cruz era simples, com 4 braços iguais ou inscrita num círculo glorioso, como na Síria e na Frigia, e mais tarde também no Ocidente, nas belíssimas cruzes de pedra irlandesas.

A Cruz escatológica, símbolo do Juízo Final e sinal de Vitória, é muito anterior a Constantino, mas aparece somente depois do triunfo político do Cristianismo.

A Cruz está presente nas plantas das primeiras basílicas em forma de TAU, nos Batistérios e nas igrejas com planta central.

Nas absides das primeiras igrejas romanas, em mosaico, aparece a cruz dourada cravada de pedras preciosas e postas sobre um monte ou sobre um trono de onde jorram os quatro rios da vida.

A Cruz Triunfal está presente em uma série de imagens de incomparável beleza em Ravena, no Mausoléu de Galla Placidia e em Santo Apolinário em Classe. Exprimem Ressurreição!

O culto da Cruz

O culto da Cruz se inicia com a descoberta do madeiro da Cruz pela imperatriz Santa Helena, mãe de Constantino, sempre aconselhada espiritualmente por São Macário de Jerusalém. As relíquias da Cruz se difundiram em todo o mundo e deste culto originaram-se os belíssimos relicários do século 5 e 6. Muitas vezes nos sarcófagos paleocristãos, estão cenas da paixão, porém sem a crucifixão.

Raramente representada antes do século 5, os dois primeiros grandes exemplos são do Portal de madeira da Basílica de Santa Sabina em Roma e de um pequeno cofre de marfim que está no Britsh Museum de Londres.

A primeira representação importante e verdadeira, agora do Crucifixo, encontramos em Santa Maria Antiqua em Roma. O Cristo sobre a Cruz está vivo, com grandes olhos bem abertos e vestido como sacerdote.

Antes de tudo é Deus. O crucifixo com Cristo morto, olhos fechados, aparece só depois do século 9.A liturgia da Cruz é sobretudo uma liturgia de Glória. A cruz sempre foi nobre troféu, dourado: é o estandarte do Rei, o cetro com o qual o Salvador triunfou.

Hoje, após o Concílio Vaticano II, se insiste nas "cruzes processionais" levadas até o Altar e não grandes crucifixos nas paredes.Na sexta feira santa, se acompanhava a procissão de adoração da Cruz com cânticos de Triunfo.

Do século 12 em diante, se perde o sentido da glorificação e se prende ao sofrimento de Cristo. Inicia-se assim o "dolorismo" de São Bernardo, cheio de devocionismos para com a humanidade do Cristo.

Porém, o sofrimento aceito é já a segurança da glória e fonte de alegria. Daqui prá frente, todos os crucifixos refletirão espiritualidades individualistas, tanto para os católicos como para jansenistas, luteranos...

Os crucifixos, após o século 17, atingem tão somente o centro nervoso humano e o Mistério da Cruz desaparece do seu centro, isto é, o Mistério Pascal. Refletem o desespero do "abandono na cruz" ou a angústia da morte.

Neste século 20, os movimentos litúrgicos que prepararam o Concílio, com o desejo de volta às fontes, nos apresentaram o Cristo Glorioso na Cruz, muito embora o Cristo ensangüentado e de mau gosto pareceu predominar, não pelo reflexo da pobreza e sofrimento de um povo, mas por ignorância, dada a pouca cultura religiosa desse final de século.

Hoje, é atual e necessário testemunhar a Ressurreição de Cristo com a Cruz Gloriosa. Sem dúvida, a verdadeira Cruz que nos vem do Mistério Pascal contribui dando luz, paz, alegria à humanidade angustiada: Ela se insere na nossa vida com a atração irresistível proclamada por João no seu Evangelho "quando serei levantado, atrairei todos a mim" e com a visão cósmica de Teilhard de Chardin "eu vejo a vossa carne, Senhor, prolongar-se no universo inteiro..."

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Marxismo e cristianismo


O Apóstolo Paulo, escrevendo as epístolas

Minha priomeira forte oposição ao marxismo é porque este declara-se ateu, pondo a religião como ópio do povo, e apresentando o homem como "construindo-se a sim mesmo por meio do trabalho" (o contrário da fé cristã).

Veja o que Lenin diz: “O marxismo é o materialismo. Por este título ele é tão implacavelmente hostil à religião, quanto o materialismo dos enciclopedistas do século XVIII ou o materialismo de Feuerbach. (...) Devemos combater a religião. Isto é o a-b-c de todo o materialismo e, portanto, do marxismo. (...) Nossa propaganda compreende necessariamente a do ateísmo”.

Lenin assim se manifestou também, em 1905: “A religião é uma espécie de má vodka espiritual no qual os escravos do Capital afogam seu ser humano e suas reivindicações para com uma existência ainda pouco digna do homem”.

Deste ponto de vista, compreende-se que o marxismo como pensamento é completamente incompatível com o cristianismo ou mesmo com o reconhecimento do Mistério criador.

Enquanto isso, o Apóstolo Paulo disse, no Areópago de Atenas, o centro mundial da cultura naquela época:

"Paulo, em pé no meio do Areópago, disse: Homens de Atenas, em tudo vos vejo muitíssimo religiosos. Percorrendo a cidade e considerando os monumentos do vosso culto, encontrei também um altar com esta inscrição: A um Deus desconhecido. O que adorais sem o conhecer, eu vo-lo anuncio! O Deus, que fez o mundo e tudo o que nele há, é o Senhor do céu e da terra, e não habita em templos feitos por mãos humanas. Nem é servido por mãos de homens, como se necessitasse de alguma coisa, porque é ele quem dá a todos a vida, a respiração e todas as coisas. Ele fez nascer de um só homem todo o gênero humano, para que habitasse sobre toda a face da terra. Fixou aos povos os tempos e os limites da sua habitação. Tudo isso para que procurem a Deus e se esforcem por encontrá-lo como que às apalpadelas, pois na verdade ele não está longe de cada um de nós. Porque é nele que temos a vida, o movimento e o ser, como até alguns dos vossos poetas disseram: Nós somos também de sua raça... Se, pois, somos da raça de Deus, não devemos pensar que a divindade é semelhante ao ouro, à prata ou à pedra lavrada por arte e gênio dos homens. Deus, porém, não levando em conta os tempos da ignorância, convida agora a todos os homens de todos os lugares a se arrependerem. Porquanto fixou o dia em que há de julgar o mundo com justiça, pelo ministério de um homem que para isso destinou. Para todos deu como garantia disso o fato de tê-lo ressuscitado dentre os mortos." (Atos 17, 22-31)

Sobre o que é o homem, veja o que diz Marx:

"Um ser se considera independente somente quando é dono de si, e é dono de si somente quando é devedor a si mesmo da própria existência. Um homem que vive da graça alheia considera-se como um ser dependente. Mas eu vivo completamente da graça alheia quando sou devedor para com o outro, não somente do sustento de minha vida, mas também quando este, além disso, criou a minha vida, é a fonte da minha vida; e a minha vida tem necessariamente um tal fundamento fora de si, quando não é a minha própria criação (...) Sendo que para o homem socialista toda a assim chamada história do mundo nada mais é se não a geração do homem por meio do trabalho humano, nada mais que o porvir da natureza do homem, ele tem a prova evidente, irresistível, do seu nascimento através de si mesmo, do processo de sua origem" (MARX, 1968, Manuscritos econômico-filosóficos, pp.122-125).

Isto vai de encontro ao que diz a Revelação, em Gênesis 1, 27-29:

"Deus criou o homem à sua imagem; criou-o à imagem de Deus, criou o homem e a mulher. Deus os abençoou: Frutificai, disse ele, e multiplicai-vos, enchei a terra e submetei-a. Dominai sobre os peixes do mar, sobre as aves dos céus e sobre todos os animais que se arrastam sobre a terra. Deus disse: Eis que eu vos dou toda a erva que dá semente sobre a terra, e todas as árvores frutíferas que contêm em si mesmas a sua semente, para que vos sirvam de alimento".

E também em Gênesis 2, 7:

"O Senhor Deus formou, pois, o homem do barro da terra, e inspirou-lhe nas narinas um sopro de vida e o homem se tornou um ser vivente".

Para a Revelação o homem é criado por Deus e dependente dEle, ou retomando São Paulo "porque é nele que temos a vida, o movimento e o ser" (Atos 17, 28).

A oposição entre marxismo e cristianismo não é apenas ideológica ou uma mera questão de opiniões, ela é ontológica. Ambos são radical e profundamente antípodas um do outro, como tentei mostrar.