sexta-feira, 27 de agosto de 2010

As eleições e a verificação da fé






















Serra e Dilma

Acordo hoje e lendo os jornais recebo duas notícias tristes, vindas da Bahia. A primeira é a provável reeleição de Jacques Wagner já no primeiro turno. Doi ver o que este sujeito fez com Salvador, a cidade que eu amo, e ainda ser reeleito no primeiro turno. Doi ver ainda, que Dilma Rousseff neste estado tem 60% das intenções de voto. Doi demais ver o PT ganhar desse jeito...

Há alguns dias na capital baiana, ouvi um amigo me dizer que "se Dilma ganhasse, ele iria se mudar para os Estados Unidos". Fiquei tão provocado que eu fui confrontar com um amigo meu, que me disse que esta não era a posição justa, porque "a batalha está aqui". Outro ainda nos convocou a usar as redes sociais (seguindo o Papa), para atingir aqueles que mais estão conectados nela: os jovens.

Eu penso que a batalha está justamente entre os jovens. Há uma semana eu fui dar aulas de interpretação de texto a jovens do Jardim Canaã, bairro construído pela Associação dos Trabalhadores Sem Terra de São Paulo (ATST). Além de impressionar por ser um bairro, e não uma favela (para quem trabalhou dois anos em invasões de nossa amada Salvador, isso é impressionante!), fiquei impressionado com o que encontrei lá, no meio de adolescentes de 14 anos: um verdadeiro campo de batalha, e o detalhe, mesmo em bairros da ATST: todos são pró-Dilma, odeiam Serra, leem Eclipse e Amanhecer, seguem Obama no Twitter e ouvem a Lady Gaga, Beyoncé e Rihanna, as novas divas pop do momento (ainda bem que ninguém ouve Justin Bieber, senão eu ia me dar um tiro!).

Eu só pensava: como me "trasladar" para Atlanta, se o verdadeiro campo de batalha está aqui, no meio de nós, os nossos jovens sendo assaltados por esses novos bárbaros, que os enchem de drogas, lixo cultural, excitam o prazer sexual até a loucura, e promovem a "diversidade sexual" e coisas do gênero? (A Lady Gaga é tão cínica que diz assim: "estou aqui graças à comunidade gay, aos meus 'pequenos monstros' (sic!), meu objetivo é injetar a cultura gay na cultura global!"). Se isso não é um campo de batalha, meus amigos, o que é? Eu só sei que eu não quero me refugiar nos Estados Unidos, embora também não queira ir ao Irã, mas quero ser como Ulisses, que junto com Dante, mergulha no Inferno, atravessa as "colunas de Hércules", na certeza que a Virgem gloriosa está conosco e nos espera nesta batalha. Porque Maria é a grande, é a terrível adversária do niilismo, do Inferno. É a ela que eu devo a minha vida, é com ela que eu adentro no Inferno que é vomitado sobre estes jovens...

E o que tem Dilma Rousseff no meio dessa confusão toda? Como princesa dos bárbaros, como "nova Lilith" (embora numa versão muito menos interessante, aqui a Angelina Jolie, de "Salt" cabe muito mais), ela defende todas estas bandeiras, direta ou indiretamente. Sua eleição significa o avanço da barbárie, a derrota do humano.

Isso não quer dizer que seus adversários sejam boa coisa... Não! A situação, olhada por este ângulo é terrível, é uma exaustão do humano generalizada. Olavo de Carvalho elogiou Índio da Costa dizendo que "ainda restava testosterona no Brasil". Este senhor, da Virgínia, talvez não saiba o que está dizendo. Serra não é das pessoas que mais me agradam. Sua cara de Homer não é das mais bonitas. E é evidente o dessaranjo total da sua campanha, a proliferação de inúmernos "judas", o desprezo total pelo Brasil, a desfaçatez, a inércia, a pilantragem com a qual estes senhores deixam o Brasil ser assaltado por esta quadrilha que é o PT. Por que eles fazem isso? Porque têm uma pobreza humana incrível, não amam nada, a não ser suas contas bancárias, são burgueses, não dariam um dedo mínimo por qualquer coisa, quanto mais a vida!

O Brasil acabou!, diz esse amigo que quer se trasladar para Atlanta, na Georgia! Eu concordo!

Mas como consertar, reformar, reconstruir o Brasil?

Chesterton em Ortodoxia nos dá a receita: "Ame!", "ame e faça o que você quiser", diz Santo Agostinho. Brasil: deixe-o... ou o ame! Poderíamos inverter assim o slogan da ditadura! Podemos deixar o Brasil, é verdade, mas existe outra opção mais correspondente: podemos amá-lo! Podemos amar o Brasil! O Brasil está assim por falta de amor, amor ao nosso país! Pode parecer pieguice, mas quantos hinos do Brasil conhecemos, quantas bandeiras do nosso país vemos hasteadas na rua? Muita gente pode dizer: "mas o Brasil não presta!" Mas o Brasil somos nós todos, não é uma entidade abstrata, sobreposta a nós. O Brasil somos nós. Chesterton diz assim: "para consertar qualquer coisa, qualquer pessoa, a primeira coisa a fazer é amá-la! Ame o seu quintal, e em breve você terá o quintal mais bonito do mundo!"

Mas só pode amar quem já foi amado, quem se deixa ser objeto de um olhar amoroso sobre si mesmo. Portanto, a provável eleição de Dilma não pede que deixemos o nosso país, mas que o amemos. Mas só podemos amar o Brasil ou qualquer outra coisa ou pessoa, se aceitarmos um olhar amoroso sobre nós. Não são teorias sociológicas que vão consertar nosso país, mas a nossa conversão. Converter-se significa aceitar sobre si mesmo este olhar amoroso, parar de debater-se sobre si mesmo e aceitar o olhar de Cristo, que nos rasga de alto a baixo. Quem se deixa atingir dessa forma por esse olhar, ama. Quem ama, constroi. Constroi a semente do país do futuro. Marcos Zerbini é assim. Nossa esperança é que esse olhar, afinal de contas existe, porque Cristo ressuscitou!

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

O massacre do México e a globalização pós-moderna
















Luís Fredy Lala Pomavilla

Na já célebre encíclica Caritas in Veritate, o Papa Bento XVI afirmou categoricamente que a globalização nos tornou vizinhos, mas não nos tornou irmãos. Assisto com horror o massacre de 72 imigrantes no México, na fronteira com os Estados Unidos. O mesmo Papa condenou Sarkozy pelo tratamento dado aos ciganos. Sem contar a terrível lei de imigração aprovada há algumas semanas no Arizona, que pode, entre outras coisas, separar famílias inteiras.

Não estou aqui defendendo imigração ilegal nem romantizando imigrantes. Eu mesmo já fui hostilizado por imigrantes nos Estados Unidos e até expulso de um albergue por um imigrante, que era o gerente do mesmo. Sei muito bem que não há uma linha divisória entre os do lado "do bem" e os "do mal", mas a chacina, o massacre, o extermínio de 72 pessoas desta forma, inclusive de um jovem de apenas 18 anos, é algo que não pode me deixar em paz (que sobreviveu, apesar dos ferimentos).

A responsável por tudo isso é uma globalização pós-moderna e relativista que tem como resultado o chamado "comunitarismo", onde grupos que se julgam vitimizados por esta globalização se isolam (como os protestantes puritanos, por exemplo), e tentam fazer frente para conter o avanço globalizatório. Quando tais tendências se cristalizam na política, temos o exemplo da xenofobia e da extrema-direita em ação.

O relativismo jamais gera comunhão. A única realidade que pode gerar comunhão é a verdade. O relativismo só gera discussões intermináveis que não frutificam em nada. Quem quiser ter uma ideia clara disso é um só ir um campus de ciências sociais de qualquer universidade pública brasileira: muito blá-blá-blá para nada; só justaposição e construção de guetos e muros, pois, já dizia um certo filósofo caro a essas pessoas "o inferno são os outros" [ou melhor, as outras opiniões diferentes das minhas].

A única saída é se vencemos a doxa, a mera opinião - dizia Bruno Tolentino - e chegarmos na episteme, no conhecimento, na verdade. Se tenho um amigo cuja mãe tem uma doença grave, e eu leio no jornal que foi descoberta a cura para esta doença, qual a posição mais justa? Guardar a notícia só para mim ou comunicá-la a ele? Aqui, a verdade (logos) se torna comunicação (dia-logos), e surge a amizade, e dela, a sociedade, a convivência pacífica.

Só reconhecendo a verdade podemos falar em paz. Não é construindo muros nem leis anti-imigratórias. Só a verdade de mim mesmo permite abraçar a verdade do outro. A vida se torna amizade. Porque amizade não é outra coisa senão verter a própria experiência na experiência do outro. É o caminho para a verdadeira paz.

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Porque eu voto em Marcos Zerbini





































Cleuza e Marcos

Cada dia que passa, eu me dou conta que a renovação da política no Brasil não passa por discussões acerca de Dilma, Serra ou Marina, dos projetos de A, B ou C, mas a partir de um fato que acontece agora, bem no coração de São Paulo, que é o movimento em torno de Cleuza e  Marcos Zerbini. Oriundos das lutas sociais, mas sempre afinados com a realidade, Marcos e Cleuza são pessoas que, a partir das necessidades reais das pessoas, e do seu encontro com o Cristo vivo presente na Igreja, particularmente no carisma de Comunhão e Libertação, estão literalmente, redefinindo, revolucionando "por dentro", como é bem típico dos cristãos (ser fermento no meio da massa), a política no Brasil e em toda a América Latina.

Dom Giussani disse que a política é a forma mais complexa da cultura, porque é justamente na política, por meio das lutas pelo poder que se expressa uma cultura que já está presente na sociedade. Quando vemos temas anti-cristãos serem defendidos e aprovados ao redor do mundo, como as leis pró-aborto, pró-eutanásia e os casamentos homossexuais, isso somente revela que na verdade, estas posições já estão presentes na cultura e naqueles que determinam a mentalidade dominante, isto é, os intelectuais, os jornalistas e os professores.

A Associação dos Trabalhadores Sem Terra de São Paulo é uma realidade fascinante não somente pelos números de suas conquistas, expressos em 100 mil pessoas com acesso a moradias, espalhadas em mais de vinte áreas na cidade de São Paulo, ou dos 70 mil estudantes que estão tendo a possibilidade de estudar graças aos convênios da Associação (sob o nome de Educar para a Vida) com dezessete das principais faculdades particulares de São Paulo. A Associação segue na prática o que a Igreja e Dom Giussani sempre afirmaram: que devemos partir das necessidades reais, concretas das pessoas, como a moradia, a faculdade e o emprego (a Associação tem um convênio também com a agência de emprego Allis), e daí partir para evidenciar que a moradia, a faculdade, o emprego não bastam para satisfazer às reais exigências humanas, de sentido, beleza e significado. Isto significa partir das "necessidades" à "Necessidade" real que temos, inclusive para levantar e poder viver, para esperar alguma coisa da vida e da realidade.

Toda a obra que se reúne em torno de Marcos e Cleuza é uma luz que tende a crescer no meio das trevas da política brasileira e latino-americana. Julián Carrón, responsável mundial do Movimento Comunhão e Libertação falou assim:"nós somos muito hábeis para analisar as trevas quando na verdade basta acender um isqueiro para dissipá-la". A Associação é esse isqueiro aceso no coração da maior cidade do Brasil e na segunda maior da América Latina (perdendo somente para a Cidade do México, que, tendo 32 milhões de habitantes é a segunda maior do mundo).

A amizade entre Marcos, Cleuza e o padre Aldo, que tem obras em Assunção e uma história de muito sofrimento tem dado frutos, especialmente o relacionamento do padre Aldo com o vice-presidente do Paraguai, Federico Franco, que politicamente, é inimigo do presidente Fernando Lugo. Eu mesmo me surpreendi quando li que Federico Franco foi à clínica do padre Aldo rezar as Laudes (como faz sempre) pelo presidente do Paraguai, e lhe deu inclusive um Rosário para ele rezar pela sua cura. É impressionante como aqui entra uma outra medida, totalmente nova e não-habitual, não o mero e cínico cálculo político, e nem o moralismo mais feroz daquelas pessoas que se acham melhores que as outras porque acham que nunca fizeram grandes erros na vida. É impressionante perceber que já existe em ato, crescendo lentamente, uma semente nova e boa na política latino-americana.

Eu estou muito contente, porque está acontecendo um milagre na América Latina, em torno do padre Aldo, de Marcos e Cleuza, que está envolvendo toda a América Latina como um redemoinho, e diante do qual eu percebo todo o meu nada, e como eu devo me curvar a essa enorme evidência. A política renasce na América Latina, renasce porque existem homens que se converteram, reconhecem que Jesus está vivo mesmo, não é um conto da carochinha, e por isso, cada homem e mulher têm um valor infinito, porque todo homem e toda mulher é desejo do Ressuscitado. É isso que nos impele à missão, a fazer uma política de modo diferente, em favor do povo e do bem comum. Eu voto em Marcos Zerbini porque ele é um homem que diz que daria a vida pelos seus melhores amigos, que não está em campanha em favor de um projeto pessoal de poder, mas está em defesa de um povo, que está no olho do furacão de uma obra que muda a cara de São Paulo, que se arrisca numa amizade com o padre Aldo que está trazendo esperança para toda a América Latina. Dizer "sim" a Marcos é dizer "sim" ao que Cristo faz, porque essa amizade dele com o padre Aldo é a resposta do Mistério aos dramas pelos quais passa a América Latina, e uma fonte, sem dúvidas, de um bem infinito, que o tempo vai tratar de tornar cada vez mais evidente, mudando, na medida da nossa liberdade, a nossa política, e a nossa vida.

sábado, 14 de agosto de 2010

"A Origem" - Inception

Marion Cottilard

Quem é o pós-moderno? Sinteticamente, eu poderia dizer assim: é aquele que está em guerra com a realidade. Quem quiser deixar de ser pós-moderno, vencer a pós-modernidade, a primeira coisa que deve fazer é acertar contas com a realidade. Muitas vezes, a gente brinca, mas a guerra contra a realidade avança a passos largos, e nós nem sequer nos damos conta, porque estamos quase que completamente imersos nela.

Para as pessoas deste nosso tempo, a realidade já não é algo bom que nos atrai, pelo contrário, é uma inimiga que nos dá medo! Temos medo de tudo, um medo difuso e confuso, um medo de viver, porque para nós, além do fato de percebermos a realidade ser inimiga, percebemos a vida como absurda, vazia e sem-sentido!

Um dos filmes que retratam isso é "A Origem" (na verdade "Inception" - Início, na tradução literal), estrelado por Leonardo di Caprio, homem que guarda seus afetos em pesadelos (representada por sua mulher morta, que atende pelo nome de "Mal"). A ideia principal do filme  é a de que é possível manipular o inconsciente do ser humano a partir de uma muito bem elaborada técnica que introduz uma ideia em qualquer pessoa a partir de seu sonho. Isto é tecnicamente o que é a realidade para a pós-modernidade: um mero conjunto de textos e intertextos, como afirma o filósofo Jacques Derrida, que podemos alternar, desconstruir e construir a nosso bel-prazer sem pagar nada por isso.

A Origem é uma crítica sutil e severa às ideologias e as ilusões nossas de cada dia. Porque as ideologias, durante muito tempo, mobilizaram e fizeram convergir as energias de muitas pessoas em vista de um ideal comum, de paz, e de bem. Com o passar do tempo, todas as ideologias falharam, uma a uma. Ruíram. Agora estamos numa época sem ideologias, sem utopias, e portanto, sem ideais. Um tempo apático. Gélido. Mórbido. Frio. Desesperado. Cínico. Violento. Porque para todos, a realidade seria então, inimiga, suscitando desejos em nós que não consegue realizar, nos obrigando, para viver a achatar este nosso desejo em banalidade ou cinismo. A coisa mais inteligente a fazer seria ser estúpido, se distraindo continuamente, ou se refugiando em ilusões.

Hoje, os jovens já não sabem mais responder à pergunta: "Para que eu vivo?" Tudo ao nosso redor é banalidade, e cinismo, e não é difícil, diante de todo este quadro, ser pessimista, como o brilhante, agudo e perspicaz filósofo polonês Zygmunt Bauman. Só se você encontra uma novidade dentro do caos pós-moderno é que pode haver alguma esperança. por isso que no filme Inception é impressionante a figura do totem: um pequeno objeto que te garante se você está na realidade mesmo ou em um sonho. O totem representa a ligação com o real por meio das coisas e também o fato de que, para viver minimamente de forma digna, é preciso romper a incerteza pós-moderna, e ser certo de pelo menos algumas grandes coisas na vida. O totem é o nexo com o real. Essas poucas grandes coisas podem ser a nossa salvação, o nosso nexo com a realidade, que é provado pelo fato de trabalharmos. O trabalho é a prova de que estamos empenhados na realidade, porque os alienados, os loucos, aqueles que estão separados do nexo com o real, não conseguem trabalhar, não conseguem construir. André Malraux dizia que ninguém hoje quer se empenhar com nada, porque de tudo se sabe a mentira, nós que não sabemos o que é a verdade. E, neste mundo povoado de gente que busca ilusões, é possível ainda se fazer a pergunta: o que é a verdade? É possível ainda deixar emergir essa profunda exigência do nosso coração neste período relativista, caótico, instável, inseguro, e solitário?

A verdade, a única que derrota "por dentro" a pós-modernidade niilista que tem como porta-estandarte de si mesma a Lady Gaga é que eu fui e sou amado. Esta é a verdade. Encontro, dentro da realidade, desta loucura imensa, um olhar que me ama e me abraça do jeito que eu sou, que aposta em mim. Mais ainda: encontro espaços onde esta é a lógica que domina, onde existem pessoas que vivem assim: amando-se umas às outras. Esta é a verdade, não somente porque existe objetivamente, mas porque corresponde aos desejos mais profundos do coração.

Para vencer esta nossa época, e emergir acima da ruína, certo de algumas grandes coisas na vida, só existe um método: aceitar esse olhar amoroso, usar da própria vida para mudar o mundo, torná-lo melhor, mais humano, mais habitável, fazer com que cresçam estes espaços onde existem verdadeiras amizades, humanidade genuína, onde se reconhece que "a coisa mais importante da vida é um amigo", que não é necessário se refugiar em ilusões, porque a realidade não é inimiga, e que existe aquilo que o nosso coração deseja em sua profundidade. Inception é um alerta e um grito muito inteligente, um grito pela realidade. Mas só é possível viver assim quem foi atingido por um olhar amoroso, quem fez um encontro com uma humanidade nova e correspondente ao próprio coração. Esta é a grande novidade neste mundo frio, de trevas e confusão, e que derrota a pós-modernidade, a partir de dentro dela mesma!

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

O polvo profeta, a violência desenfreada... e nós























Polvo Paul "adivinha" vitória da Espanha

por Marco Montrasi


Depois do polvo profeta, da Jabulani e das vuvuzelas, depois da eliminação do Brasil e do fim dos feriados e das festas entre amigos, a Espanha é campeã da Copa e nós caímos de novo na real (ou quase) com o drama da vida e os vários fatos violentos acontecidos recentemente. “Quase” porque a TV tem o poder de achatar tudo e torná-lo plano como a sua tela. Lemos os detalhes nas reportagens e esperamos ansiosos o telejornal para saber o que aconteceu mas, no fundo no fundo, queremos saber o quê? Acabamos sempre vivendo as coisas superficialmente: rimos e fazemos piada no caso do polvo, ficamos horrorizados no caso do goleiro e da advogada paulista, mas também disso fazemos piadas, e logo depois, ao mudar de canal, continuamos iguais, nada muda em nós.

Não podemos sempre mudar o canal, precisamos que aconteça algo que nos permita parar, pensar, aprofundar, olhar o que acontece fora e dentro de nós. É preciso despertar esse desejo de ser feliz que todos temos, que parece que seja impossível que se realize.

Dizia o grande poeta Eliot nos Coros de A Rocha: “Deserto e vazio. Deserto e vazio. E trevas sobre a face do abismo. A Igreja deserdou a humanidade ou foi por ela deserdada? Quando a Igreja não for mais considerada, ou sequer contestada, e houveram os homens esquecido Todos os deuses, exceto a Usura, a Luxúria e o Poder.”

Deserto e vazio: parece uma profecia dos nossos tempos.

Mas a Igreja, feita também de pecado e fragilidade, carrega algo maior do que a sua humanidade: é Cristo Ressuscitado, essa Presença a qual é possível sempre recorrer, como nos testemunha o Papa incessantemente.

“Para isso, é preciso voltar a anunciar com vigor e alegria o acontecimento da morte e ressurreição de Cristo, coração do cristianismo, fulcro e sustentáculo da nossa fé, alavanca poderosa das nossas certezas, vento impetuoso que varre qualquer medo e indecisão, qualquer dúvida e cálculo humano” (Homilia de Bento XVI na Praça Terreiro do Paço de Lisboa, 11 de maio).

Esse é o grito de esperança que o Papa dirige a todos nós. Estamos diante de uma escolha: ou ficar indiferentes a tudo, ou começar a procurar quem, dentro do drama cotidiano, está vivendo algo mais e melhor.

Existem pessoas e realidades que testemunham que é possível não sucumbir ao cinismo e ao ceticismo, que quando encontra uma Presença que lhe dê sentido, a vida adquire gosto e que, quando pessoas se reúnem para viver isso, um pedaço de mundo muda e se torna mais humano.

terça-feira, 3 de agosto de 2010

A suprema novidade da História

Esses dias estou muito impactado com o fato de que Lula declarou que pedir clemência para a iraniana Sakhined seria uma "avacalhação", pois seria "se meter nos assuntos internos de um país soberano". Lula depois voltou atrás em sua posição, não por clemência, mas por meros cálculos políticos (em virtude do desastre causado pela declaração à sua imagem internacional). Ontem eu estava me dando conta, com uma clareza crua como nunca antes, depois de ver um vídeo de uma mulher sendo apedrejada ao vivo no Twitter @felippe_ramos, qual é em verdade a suprema novidade da História, em contraposição à barbárie de Lula e Ahmadinejad. A imagem fala por si. Cada qual tire suas próprias conclusões.

Maria Madalena e Jesus Cristo

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Que os mutantes se divirtam!



Lula e Ahmadinejad

Estamos, certamente, na época mais terrível da História, no que diz respeito à humanidade. Olhamos para o lado, e vemos, pouco a pouco, a humanidade erodir. Pelo menos dois fatos me chocaram muito nestes últimos dias: um foi uma mãe que matou seus oito filhos recém-nascidos, e outra foi uma declaração do nosso amável presidente Lula, quando lhe pediram para interceder pela vida da iraniana Sakined, condendada à morte por apedrejamento, em virtude de "adultério". Lula disse que não iria interceder em assuntos internos de outros países porque isto seria uma "avacalhação" (li hoje que Lula mudou de ideia e ofereceu asilo no Brasil à mulher condenada), declaração semelhante a que deu se refrindo aos presos politicos de Cuba comparando-os com os criminosos comuns do Brasil. Se observarmos ao redor, vemos pouco a pouco, um declínio do humano, a perda progressiva da esperança, e o aumento contínuo dos seus sinais característicos (a ansiedade, o pânico e a depressão), tudo se encaminhando para um cinismo cada vez mais insuportável de viver, no qual as pessoas não esperam mais nada e simplesmente empurram a vida com a barriga, "dançando sobre o nada", como Nietzsche já profetizou há mais de cem anos, ao som da Lady Gaga, vindo diretamente da Nova Roma (Nova York), a atual capital do mundo (literalmente, porque Nova York é a sede da ONU). Se no meio desta confusão toda, deste inferno, a gente não enxerga nada, não vislumbra a mínima aurora, e se temos a desgraça de sermos pessoas inteligentes (porque a maior desgraça na pós-modernidade é você ser inteligente, ser idiota é uma coisa maravilhosa nesta época), lentamente escorregamos para um desepero terrível, que pode ser o niilismo soft dos vampiros eclipsianos, ou o niilismo violento da Lady Gaga, que eu considero uma das pessoas mais inteligentes - e cínicas - do momento. Vejam o que ela diz na entrevista à revista Rolling Stones, explicando a razão da sua excentricidade:

"Hoje é necessário quase dar um truque para fazer as pessoas escutarem alguma coisa inteligente [porque] a música é uma mentira. A arte é uma mentira. Você precisa contar uma mentira tão maravilhosa que os seus fãs a transformam em verdade”.

Por incrível que isto possa parecer, ler certas declarações me faz ter saudades de Hegel, que falando sobre a beleza (ou seja, da arte), na virada dos séculos XVIII e XIX dizia que "a Beleza é a manifestação da Ideia", ou ainda que "a Beleza é o Todo no fragmento". A comparação de Hegel (que não é nenhum cristão exemplar, dado que junto com Kant e Marx foi uma das pessoas que mais contribuíram para fazer desaparecer a fé no mundo) com a Lady Gaga mostra exatamente que estamos na época das invasões bárbaras. Lula, Ahmadinejad, Raul Castro, Kim Jong-Il... que são estas pessoas senão os novos bárbaros que veem por aí, quais novos cavaleiros do Apocalispse, espalhando, quais novos Átilas, a morte e a destruição por onde quer que passem, em nome "do bom, do belo e do que há de melhor", como já aludia Olga Benario?

Por conta de tudo isso, nesta época terrível, uma das coisas que eu sempre gostei de fazer foi discutir, especialmente sobre aquilo que, na minha experiência vejo como verdadeiro e decisivo, e desejo que o outro também encontrei.  Porque eu encontrei uma novidade que desafia tudo isso. No fundo, a origem de todas as minhas discussões foi o que já vi muito observando o "grande mestre Jedai" (leia-se Ricardo Fonseca), somado ao fato de que eu já passei um tempo (há muitos anos, graças a Deus) dormindo sem querer acordar, e acordando já querendo dormir. É horrível. No fundo, somente discuto por isso: porque eu desejo (como sou pretensioso!) de que as pessoas vivam melhor! Porque, na minha vida, encontrei algo que tem a grande pretensão de estar "acima da ruína", que desafia ao mesmo tempo Hegel e sua filha mais nova, a Lady Gaga.

Mas além de tudo isso, com o passar dos anos, a vida, aos poucos, veio me ensinando de que, muito mais do que discutir, para conseguir tal intento, é mais efetivo simplesmente viver, porque muita gente simplesmente chegou a um nível de cinismo que não vale mais a pena perder tempo com elas. Por isso, aos poucos, tenho deixado de discutir. Somente discuto com quem vejo que tem inteligência. Uma vez um amigo me viu discutindo com uma certa figura, que hoje é meu amigo, e me falou "ele é inteligente!" Eu respondi na hora: "Você acha que eu ia perder meu tempo com gente idiota?" Porque hoje, o que mais falta nas universidades brasileiras é justamente isso: pessoas inteligentes. Temos somente repetidores da ideologias, papagaios que se deixam doutrinar por seu pseudo-mestres ideológicos, pessoas que não comparam o que leem com as exigências mais profundas do seu coração: verdade, justiça, beleza e amor. Na universidade, o que mais existe são as pessoas que repetem o que leram, muitas vezes sem pensar, sem raciocinar, e muitas vezes se achando o máximo porque conseguiram a proeza de lerem 500 páginas em uma semana.  Estas são as mesmas pessoas que se chocam com a mulher francesa que matou oito filhos recém-nascidos, e ao mesmo tempo querem a ferro e fogo impor ao Brasil o mais abominável de todos os crimes, porque é cometido contra o ser mais indefeso que existe (a criança não-nascida): o aborto. Uma vez, há uns dois anos, neste blog, eu disse que a defesa do aborto era um atentado à inteligência. Na verdade, é um atentado à razão, porque é um atentado à vida, e a razão é a vida. Toda a equação cósmica converge para a existência da vida (isso me veio à mente observando uma cadela hiperativa ontem à tarde, na casa de um amigo), especialmente para a existência da vida humana inteligente, que se pergunta pelo significado.

Uma vez o poeta Bruno Tolentino disse: "que os mutantes se divirtam, eu estou esperando a Parusia". Como o meu coração é um grande grito, o que quero mesmo neste mundo é construir! Que os mutantes se divirtam, que os mortos enterrem seus mortos, eu quero é construir! E o que é eu quero viver é o mesmo que viveram os monges da Idade Média, que enquanto o mundo ao seu redor afundava nas trevas mais abjetas da barbárie, eles começaram a construir usando tudo o que tinham ao seu redor. O que talvez todos consideravam lixo, eles usavam para construir, sabendo que Cristo ressuscitado "faz novas todas as coisas". Pode fazer nova inclusive a Lady Gaga. Porque, como disse uma amiga minha "Cristo também quer ser pós-moderno!" Porque na Cruz ele já destruiu a pós-modernidade e a renovou!