quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

Hugo Chávez e a verdade do homem



Fiquei muito impressionado quando assisti o pronunciamento do presidente Hugo Chávez anunciando à nação venezuelana sobre a gravidade da sua doença e da possibilidade de ter um sucessor, seja por morte ou pela incapacidade de governar. Me marcou muito tanto a sua postura, quanto o fato de a certo ponto ele beijar o crucifixo.

Isso me provocou muito, porque há alguns anos atrás, quando mudou a Constituição, Chávez criou um mecanismo de reeleição infinita, e disse que "para o bem da revolução bolivariana, para o bem do socialismo do século XXI" (seja lá o que isso venha a significar), ele ficaria no poder até 2031. A situação agora é muito diferente, e para além das metanarrativas, vem agora à tona a verdade do homem, o seu destino, e quem é o verdadeiro Senhor da História. Chávez tem o grande mérito da dignidade nesta etapa dramática da sua vida.

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Tragédia americana



Estamos num deserto. Tiros são disparados contra crianças inocentes numa cidade americana, 28 pessoas morrem. Por alguns instantes somos tirados de nosso torpor habitual, até voltarmos a ele novamente. Me surpreende que alguém atribua o acontecido a um "maluco", como se a simples loucura pudesse explicar o fato. A loucura poderia ser uma explicação se este fato fosse isolado, mas chacinas em escolas americanas perpetradas por jovens têm sido uma constante nos últimos anos, o que é sinal de uma coisa mais do que o mero acaso da loucura.

Buscar explicações a nível sociológico como fez Michael Moore, no filme Tiros em Columbine, no qual ele atribui essa violência à excessiva exposição dos americanos à propaganda sobre armas não basta. A meu ver, a única explicação para esta tragédia é uma explicação a nível civilizacional. Nossa crise é uma crise de civilização. É a nossa civilização ocidental que está em crise, é o sujeito humano gerado por esta civilização que está em crise.

Nós damos por óbvio o valor da dignidade humana hoje, mas o primeiro povo no qual a pessoa humana passou a ter um valor foi o povo hebreu. É comovente ler a Sagrada Escritura e perceber que nela não existe nem um resquício dos sacrifícios humanos cruentos, presentes em todas as civilizações pagãs. Pelo contrário, a Bíblia começa com o Anjo de Deus parando Abraão que iria sacrificar o seu filho em imolação a Deus. Em seu lugar, é sacrificada uma ovelha. Todo o Antigo Testamento é uma condenação contínua do homicídio, do infanticídio e dos sacrifícios humanos. Inúmeras vezes, Deus se lamenta porque parte do Seu povo ainda vai oferecer seus filhos queimados em sacrifício ao deus Moloc. A plenitude dessa valorização do humano acontece em Cristo, e hoje, a vida humana em si mesma é reconhecida como sagrada, inviolável, inalienável em si mesma, única, irrepetível. Esta é uma conquista da nossa civilização.

Tal como as invasões bárbaras que foram acontecendo sucessivamente em meio à fragilização contínua do Império que garantia a continuidade da civilização, vemos hoje a todos os lados, o ataque à nossa civilização. A evidência maior disso é o ódio generalizado contra o papa Bento XVI. O ódio ao papa nada mais é do que o ódio a Cristo, pois o papa não faz alusão a outra coisa que não seja o próprio Jesus de Nazaré e a tudo o que veio dele.

O rapaz que deu os tiros em Newtown, Connecticut não é apenas um louco, é alguém para o qual a vida não vale nada, não significa nada, nem a vida dele, nem a de sua mãe, e muito menos a vida daquelas crianças e de suas famílias. É o niilismo nu e cru, em ato, pois esta é a consequência mais lógica desta postura diante da realidade. "O coração do Inferno é feito de gelo", dizia Dante (Inferno, XXXIV). A única possibilidade de fazer frente a isso é o nosso coração que clama diante de um fato como esses. Se o coração se rebela, é porque está vivo e ainda há esperança. Há muito mais entre o céu e a terra do que nos promete o nosso niilismo pós-moderno.

Temos de defender, no meio de toda esta crise, a nação americana, porque hoje é a nação americana que carrega a civilização ocidental. A nação americana, apesar de toda propaganda contra ela é boa, dissemina ainda hoje, a ideia do valor da dignidade da pessoa humana, em meio ao niilismo que vem da Europa. O filósofo francês Alexis de Tocqueville, nobre na França pós-queda da Bastilha, foi em viagem no século XIX à América entender como lá acontecia a democracia (enquanto a França se degladiava em lutas intestinas intermináveis). Chegou à seguinte conclusão:

"Procurei a chave para a grandeza da América nos seus portos ..., nos seus campos férteis e florestas sem fim, nas suas minas ricas e vasto comércio mundial, no seu sistema de ensino público e instituições de ensino. Busquei-o no seu Congresso democrático e na sua Constituição incomparável. Não foi antes de eu ter ido às igrejas da América e ouvido os seus púlpitos inflamados com a justiça que eu entendi o segredo do seu gênio e poder. A América é grande, porque a América é boa, e se a América alguma vez deixar de ser boa, a América deixará de ser grande."