segunda-feira, 27 de agosto de 2012

O avanço do Brasil

Lula e Dilma no lançamento do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), em 2009

Eu estava me dando conta, esses dias, de como o nosso País avançou, em todos os indicadores econômicos e sociais, nessas últimas duas décadas. É impressionante observar como o País avançou, perceber todo o desenvolvimento que vem acontecendo paulatinamente, desde os anos 1990, e que nós não damos conta.  Em tempos de mensalão, nos quais é fácil desacreditar da política, no qual tudo é nivelado por baixo e jogado no mesmo lugar-comum, é urgente reconhecer toda a positividade que vem acontecendo nos últimos vinte anos na sociedade brasileira.

A sociedade brasileira vive um momento ímpar, malgrado todas as notícias ruins envolvendo a políticas que os jornais fazem circular ao infinito. É fato que a economia, e com ela a sociedade, vive um contínuo e persistente desenvolvimento desde há quase vinte anos, durante os quais se alterou bastante o perfil da economia nacional. Todo esse mérito se deve, sem dúvida, a uma sucessão de bons governos, desde o Governo Itamar (que implantou o real e a estabilidade), passando pelos Governos FHC, Lula e agora Dilma; e sem dúvida, devido à democratização do País, e à consolidação das suas instituições, aliada ainda à globalização econômico-financeira que inseriu definitivamente o Brasil no circuito da economia mundial. 

Um bom exemplo do resultado de tudo isso é a política de valorização contínua do salário-mínimo, aliada, sem dúvida, ao fenômeno da globalização e da estabilidade macroeconômica. Graças a ela, por exemplo, já é possível a uma empregada doméstica mensalista ter em sua casa banda larga, TV por assinatura, viajar de avião e ainda levar um cão na bagagem, coisa inimaginável vinte anos atrás. É evidente que as decisões tomadas, e o rumo assumido pelo País estão na direção correta.

Escrevo essas poucas linhas porque a maioria das pessoas critica o País, não têm orgulho da Nação, mas se voltarmos o nosso olhar para poucos anos atrás, veremos que o Brasil vem trilhando o caminho certo. E isso nada tem a ver com correntes partidárias ou político-ideológicas, mas com a crescente institucionalização do País, e com o amadurecimento do povo brasileiro, refletindo já elementos saudáveis em qualquer democracia do mundo, como a alternância de poder, o pluralismo politico e o debate, pois é do debate que vive a política.

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

O jornal e o livro


por Machado de Assis

Publicado originalmente no Correio Mercantil, Rio de Janeiro, 10 e 12/01/1859.
AO SR. MANUEL ANTONIO DE ALMEIDA
O espírito humano, como o heliotrópio, olha sempre de face um sol que o atrai, e para o qual ele caminha sem cessar: — é a perfectibilidade.
A evidência deste princípio, ou antes deste fato, foi claramente demonstrada num livro de ouro, que tornou-se o Evangelho de uma religião. Serei eu, derradeiro dos levitas da nova arca, que me aba­lance a falar sobre tão debatido e profundo assunto?
Seria loucura tentá-lo. De resto, eu manifestei a minha profissão de fé nuns versos singelos, mas não frios de entusiasmo, nascidos de uma discussão. Mas então tratava-se do progresso na sua expres­são genérica. Desta vez limito-me a traçar algumas idéias sobre uma especialidade, um sintoma do adiantamento moral da humanidade.
Sou dos menos inteligentes adeptos da nova crença, mas tenho consciência que dos de mais profunda convicção. Sou filho deste século, em cujas veias ferve o licor da esperança. Minhas tendências, minhas aspirações, são as aspirações e as tendências da mocidade; e a mocidade é o fogo, a confiança, o futuro, o progresso. A nós, guebrosmodernos do fogo intelectual, na expressão de Lamartine, não importa este ou aquele brado de descrença e desânimo: as sedi­ções só se realizam contra os princípios, nunca contra as variedades.
Não há contradizê-lo. Por qualquer face que se olhe o espírito humano descobre-se a reflexão viva de um sol ignoto. Tem-se reco­nhecido que há homens para quem a evidência das teorias é uma quimera; felizmente temos a evidência dos fatos, diante da qual os São Tomés do século têm de curvar a cabeça.
É a época das regenerações. A Revolução Francesa, o estrondo maior dos tempos europeus, na bela expressão do poeta de Jocelynfoi o passo da humanidade para entrar neste século. O pórtico era gigantesco, e era necessário um passo de gigante para entrá-lo. Ora, esta explosão do pensamento humano concentrado na rainha da Europa não é um sintoma de progresso? O que era a Revolução Francesa senão a idéia que se fazia república, o espírito humano que tomava a toga democrática pelas mãos do povo mais democrá­tico do mundo? Se o pensamento se fazia liberal é que tomava a sua verdadeira face. A humanidade, antes de tudo, é republicana.
Tudo se regenera: tudo toma uma nova face. O jornal é um sintoma, um exemplo desta regeneração. A humanidade, como o vulcão, rebenta uma nova cratera quando mais fogo lhe ferve no centro. A literatura tinha acaso nos moldes conhecidos em que preenchesse o fim do pensamento humano? Não; nenhum era vasto como o jornal, nenhum liberal, nenhum democrático, como ele. Foi a nova cratera do vulcão.
Tratemos do jornal, esta alavanca que Arquimedes pedia para abalar o mundo, e que o espírito humano, este Arquimedes de todos os séculos, encontrou.
O jornal matará o livro? O livro absorverá o jornal?
A humanidade desde os primeiros tempos tem caminhado em busca de um meio de propagar e perpetuar a idéia. Uma pedra convenientemente levantada era o símbolo representativo de um pensamento. A geração que nascia vinha ali contemplar a idéia da geração aniquilada.
Este meio, mais ou menos aperfeiçoado, não preenchia as exigências do pensamento humano. Era uma fórmula estreita, muda, limitada. Não havia outro. Mas as tendências progressivas da humanidade não se acomodavam com os exemplares primitivos dos seus livros de pedra. De perfeição em perfeição nasceu a arte. A arquitetura vinha transformar em preceito, em ordem, o que eram então partos grotescos da fantasia dos povos. O Egito na aurora da arquitetura deu-lhe a solidez e a simplicidade nas formas severas da coluna e da pirâmide. Parece que este povo ilustre queria fazer eterna a idéia no monumento, como o homem na múmia.
O meio, pois, de propagar e perpetuar a idéia era uma arte. Não farei a história dessa arte, que, passando pelo crisol das civilizações antigas, enriquecida pelo gênio da Grécia e de Roma, chegou ao seu apogeu na Idade Média e cristalizou a idéia humana na catedral. A catedral é mais que uma fórmula arquitetônica, é a síntese do espírito e das tendências daquela época. A influência da Igreja sobre os povos lia-se nessas epopéias de pedra; a arte por sua vez acompanhava o tempo e produzia com seus arrojos de águia as obras-primas do santuário.
A catedral é a chave de ouro que fecha a vida de séculos da arquitetura antiga; foi a sua última expressão, o seu derradeiro crepúsculo, mas uma expressão eloqüente, mas um crepúsculo palpitante de luz.
Era, porém, preciso um gigante para fazer morrer outro gigante. Que novo parto do engenho humano veio nulificar uma arte que reinara por séculos? Evidentemente era mister uma revolução para apear a realeza de um sistema; mas essa revolução devia ser a expressão de um outro sistema de incontestável legitimidade. Era chegada a imprensa, era chegado o livro.
O que era a imprensa? Era o fogo do céu que um novo Prometeu roubara, e que vinha animar a estátua de longos anos. Era a faísca elétrica da inteligência que vinha unir a raça aniquilada à geração vivente por um meio melhor, indestrutível, móbil, mais eloqüente, mais vivo, mais próprio a penetrar arraiais de imortalidade.
O que era o livro? Era a fórmula da nova idéia, do novo sistema. O edifício, manifestando uma idéia, não passava de uma coisa local, estreita. O vivo procurava-o para ler a idéia do morto; o livro, pelo contrário, vem trazer à raça existente o pensamento da raça aniquilada. O progresso aqui é evidente.
A revolução foi completa. O universo sentiu um imenso abalo pelo impulso de uma dupla causa: uma idéia que caía e outra que se levantava. Com a onipotência das grandes invenções, a imprensa atraía todas as vistas e todas as inteligências convergiam para ela. Era um crepúsculo que unia a aurora e o ocaso de dois grandes sóis. Mas a aurora é a mocidade, a seiva, a esperança; devia ofuscar o sol que descambava. É o que temia aquele arcediago da catedral parisiense, tão bem delineado pelo poeta das Contemplações.
Com efeito! a imprensa era mais que uma descoberta maravilhosa, era uma redenção. A humanidade galgava assim o Himalaia dos séculos, e via na idéia que alvorecia uma arca poderosa e mais capaz de conter o pensamento humano.
A imprensa devorou, pois, a arquitetura. Era o leão devorando o sol, como na epopéia do nosso Homero.
Não procurarei historiar o desenvolvimento desta arte-rei, desenvolvimento asselado em cada época por um progresso. Sabe-se a que ponto esta aperfeiçoada, e não se pode calcular a que ponto chegará ainda.
Mas restabeleçamos a questão. A humanidade perdia a arquitetura, mas ganhava a imprensa; perdia o edifício, mas ganhava o livro. O livro era um progresso; preenchia as condições do pensamento humano? Decerto; mas faltava ainda alguma coisa; não era ainda a tribuna comum, aberta à família universal, aparecendo sempre com o sol e sendo como ele o centro de um sistema planetário. A forma que correspondia a estas necessidades, a mesa popular para a distribuição do pão eucarístico da publicidade, é propriedade do espírito moderno: é o jornal.
O jornal é a verdadeira forma da república do pensamento. É a locomotiva intelectual em viagem para mundos desconhecidos, é a literatura comum, universal, altamente democrática, reproduzida todos os dias, levando em si a frescura das idéias e o fogo das convicções.
O jornal apareceu, trazendo em si o gérmen de uma revolução. Essa revolução não é só literária, é também social, é econômica, porque é um movimento da humanidade abalando todas as suas eminências, a reação do espírito humano sobre as fórmulas existentes do mundo literário, do mundo econômico e do mundo social.
Quem poderá marcar todas as conseqüências desta revolução?
Completa-se a emancipação da inteligência e começa a dos povos. O direito da força, o direito da autoridade bastarda consubstanciada nas individualidades dinásticas vai cair. Os reis já não têm púrpura, envolvem-se nas constituições. As constituições são os tratados de paz celebrados entre a potência popular e a potência monárquica.
Não é uma aurora de felicidade que se entreabre no horizonte? A idéia de Deus encarnada há séculos na humanidade apareceu enfim à luz. Os que receavam um aborto podem erguer a fronte desassombrada: concluiu-se o pacto maravilhoso.
Ao século XIX cabe sem dúvida a glória de ter aperfeiçoado e desenvolvido esta grandiosa epopéia da vida íntima dos povos, sempre palpitante de idéias. É uma produção toda sua. Depois das idéias que emiti em ligeiros traços é tempo de desenvolver a questão proposta: — O livro absorverá o jornal? o jornal devorará o livro?
II
A lei eterna, a faculdade radical do espírito humano, é o movimento. Quanto maior for esse movimento mais ele preenche o seu fim, mais se aproxima desses pólos dourados que ele busca há séculos. O livro é um sintoma de movimento? Decerto. Mas estará esse movimento no grau do movimento da imprensa-jornal? Repugno afirmá-lo.
O jornal, literatura quotidiana, no dito de um publicista contemporâneo, é reprodução diária do espírito do povo, o espelho comum de todos os fatos e de todos os talentos, onde se reflete, não a idéia de, um homem, mas a idéia popular, esta fração da idéia humana.
O livro não está decerto nestas condições; — há aí alguma coisa de limitado e de estreito se o colocarmos em face do jornal. Depois, o espírito humano tem necessidade de discussão, porque a discussão é — movimento. Ora, o livro não se presta a essa necessidade, como o jornal. A discussão pela imprensa-jornal anima-se e toma fogo pela presteza e reprodução diária desta locomoção intelectual. A discussão pelo livro esfria pela morosidade, e esfriando decai, porque a discussão vive pelo fogo. O panfleto não vale um artigo de fundo.
Isto posto, o jornal é mais que um livro, isto é, está mais nas condições do espírito humano. Nulifica-o como o livro nulificará a página de pedra? Não repugno admiti-lo.
Já disse que a humanidade, em busca de uma forma mais conforme aos seus instintos, descobriu o jornal.
O jornal, invenção moderna, mas não da época que passa, deve contudo ao nosso século o seu desenvolvimento; daí a sua influência. Não cabe aqui discutir ou demonstrar a razão por que há mais tempo não atingira ele a esse grau de desenvolvimento; seria um estudo da época, uma análise de palácios e de claustros.
As tendências progressivas do espírito humano não deixam supor que ele passasse de uma forma superior a uma forma inferior.
Demonstrada a superioridade do jornal pela teoria e pelo fato, isto é, pelas aparições de perfectibilidade da idéia humana e pela legitimidade da própria essência do jornal, parece clara a possibili­dade de aniquilamento do livro em face do jornal. Mas estará bem definida a superioridade do jornal?
Disse acima que o jornal era a reação do espírito humano sobre as fórmulas existentes do mundo social, do mundo literário e do mundo econômico. Do mundo literário parece-me ter demonstrado as vantagens que não existem no livro. Do mundo social já o disse. Uma forma de literatura que se apresenta aos talentos como uma tribuna universal é o nivelamento das classes sociais, é a democracia prática pela inteligência. Ora, isto não é evidentemente um progresso?
Quanto ao mundo econômico, não é menos fácil de demonstrar. Este século é, como dizem, o século do dinheiro e da indústria. Tendências mais ou menos ideais clamam em belos hexâmetros contra as aspirações de uma parte da sociedade e parecem prescrever os princípios da economia social. Eu mesmo manifestei algumas idéias muito metafísicas e vaporosas em um artigo publicado há tempos.
Mas, pondo de parte a arte plástica dessas produções contra o século, acha-se no fundo pouco razoáveis. A indústria e o comércio não são simples fórmulas de uma classe; são os elos que prendem as nações, isto é, que unem a humanidade para o cumprimento de sua missão. São a fonte da riqueza dos povos, e predispõem mais ou menos sua importância política no equilíbrio político da humanidade.
O comércio estabelece a troca do gênero pelo dinheiro. Ora, o dinheiro é um resultado da civilização, uma aristocracia, não bastarda, mas legitimada pelo trabalho ou pelo suor vazado nas lucubrações industriais. O sistema primitivo da indústria colocava o homem na alternativa de adquirir uma fazenda para operar a compra de outra, ou o entregava às intempéries do tempo se ele pretendia especular com as suas produções agrícolas. O novo sistema estabelece um valor, estabelece a moeda, e para adquiri-la o homem só tem necessidade de seu braço.
O crédito assenta a sua base sobre esta engenhosa produção do espírito humano. Ora, indústria manufatora ou indústria-crédito, o século conta a indústria como uma das suas grandes potências: tirai-a aos Estados Unidos e vereis desmoronar-se o colosso do norte.
O que é o crédito? A idéia econômica consubstanciada numa fórmula altamente industrial. E o que é a idéia econômica senão uma face, uma transformação da idéia humana? É parte da humanidade; aniquilai-a, — ela deixa de ser um todo.
O jornal, operando uma lenta revolução no globo, desenvolve esta indústria monetária, que é a confiança, a riqueza e os melhoramentos. O crédito tem também a sua parte no jornalismo, onde se discutem todas as questões, todos os problemas da época, debaixo da ação da idéia sempre nova, sempre palpitante. O desenvolvi­mento do crédito quer o desenvolvimento do jornalismo, porque o jornalismo não é senão um grande banco intelectual, grande monetização da idéia, como diz um escritor moderno.
Ora, parece claro que, se este grande molde do pensamento cor­responde à idéia econômica como à idéia social e literária, — é a forma que convém mais que nenhuma outra ao espírito humano.
É ou não claro o que acabo de apresentar? Parece-me que sim. O jornal, abalando o globo, fazendo uma revolução na ordem social, tem ainda a vantagem de dar uma posição ao homem de letras; por­que ele diz ao talento: "Trabalha! vive pela idéia e cumpres a lei da criação!" Seria melhor a existência parasita dos tempos passados, em que a consciência sangrava quando o talento comprava uma refeição por um soneto?
Não! graças a Deus! Esse mau uso caiu com o dogma junto do absolutismo. O jornal é a liberdade, é o povo, é a consciência, é a esperança, é o trabalho, é a civilização. Tudo se liberta; só o talento ficaria servo?
Não faltará quem lance o nome de utopista. O que acabo, porém, de dizer me parece racional. Mas não confundam a minha idéia. Admitido o aniquilamento do livro pelo jornal, esse aniquilamento não pode ser total. Seria loucura admiti-lo. Destruída a arquitetura, quem evita que à fundação dos monumentos modernos presida este ou aquele axioma d'arte, e que esta ou aquela ordem trace e levante a coluna, o capitel ou zimbório? Mas o que é real é que a arqui­tetura não é hoje uma arte influente, e que do clarão com que inun­dava os tempos e os povos caiu num crepúsculo perpétuo.
Não é um capricho de imaginação, não é uma aberração do espírito, que faz levantar este grito de regeneração humana. São as circunstâncias, são as tendências dos povos, são os horizontes rasgados neste céu de séculos, que implantam pela inspiração esta verdade no espírito. É a profecia dos fatos.
Quem enxergasse na minha idéia uma idolatria pelo jornal teria concebido uma convicção parva. Se argumento assim, se procuro demonstrar a possibilidade do aniquilamento do livro diante do jornal, é porque o jornal é uma expressão, é um sintoma de democracia; e a democracia é o povo, é a humanidade. Desaparecendo as fronteiras sociais, a humanidade realiza o derradeiro passo, para entrar o pórtico da felicidade, essa terra de promissão.
Tanto melhor! este desenvolvimento da imprensa-jornal é um sintoma, é uma aurora dessa época de ouro. O talento sobe à tribuna comum; a indústria eleva-se à altura de instituição; e o titão popular, sacudindo por toda a parte os princípios inveterados das fórmulas governativas, talha com a espada da razão o manto dos dogmas no­vos. É a luz de uma aurora fecunda que se derrama pelo horizonte. Preparar a humanidade para saudar o sol que vai nascer, — eis a obra das civilizações modernas.
IN: Obra Completa, Machado de Assis, Rio de Janeiro: Nova Aguilar, V.III, 1994.

Em tempos de política

Uma das coisas mais impressionantes que já li sobre sobre Política foi no Antigo Testamento, no Primeiro Livro de Samuel. Após a libertação da escravidão no Egito e do estabelecimento em Canaã, o povo hebreu, após a morte de seus dois grandes líderes, Moisés e Josué, era governado de forma auto-gestionária, pelos chamados juízes (os juízes foram os grandes responsáveis pela fixação do povo hebreu em Canaã, e se tornaram personagens célebres como Gideão, que derrotou os madianitas e Sansão, que matou três mil filisteus).

Apesar dos juízes serem grandes líderes, sua liderança era carismática e baseava-se na inspiração, no exemplo. Não existia a ideia de uma instituição que unificasse as doze tribos e todos os clãs que formavam o povo hebreu. O povo era governado pela Lei que recebeu de Moisés. Esta Lei estava codificada no que hoje chamamos de Pentateuco - os cinco grandes livros da Lei, especialmente no Êxodo, no Levítico e no Deuteronômio - , e por meio desta Lei, os clãs se auto-governavam de forma autônoma, sendo esse auto-governo mediado por grandes sábios, que faziam a interpretação da Lei e a aplicação aos casos concretos, os juízes.

O último grande juiz de Israel foi Samuel. Uma das coisas mais impressionantes em todo o Antigo Testamento é ver o povo pedir a Samuel que lhes sagrasse um rei usando como argumento o fato de que "todos os povos vizinhos tinham um rei", e que por conta disso, eles também queriam ter um rei. O que impressiona é que este povo fugiu justamente da instituição da realeza (a concentração do poder numa figura única), pois fugiram do Faraó do Egito. E além de tudo mais, a instituição dos reis era, na maior parte dos casos, a fonte e a origem da opressão (expressa pelo chamado modo de produção asiático, no qual todos os súditos eram virtualmente escravos do soberano, que em muitos casos, apresentava-se a si próprio como a encarnação do divino, do Mistério, como o próprio Faraó, que se auto-intitulava "Deus"). O povo de Israel era contrário a tudo isso, era uma subversão absoluta, já que o Mistério era concebido, pelos hebreus como o Santo, ou seja, o Totalmente Outro, e que não se identificava de forma alguma com algum poder constituído pelos homens.

O trecho abaixo mostra como surge no povo de Israel o desejo de um rei, o desejo de uma unidade política. Segue o trecho, o mais pode ser lido no Primeiro Livro de Samuel.

"E sucedeu que, tendo Samuel envelhecido, constituiu a seus filhos por juízes sobre Israel.
E o nome do seu filho primogênito era Joel, e o nome do seu segundo, Abia; e foram juízes em Berseba.
Porém seus filhos não andaram pelos caminhos dele, antes se inclinaram à avareza, e aceitaram suborno, e perverteram o direito.
Então todos os anciãos de Israel se congregaram, e vieram a Samuel, a Ramá,
E disseram-lhe: Eis que já estás velho, e teus filhos não andam pelos teus caminhos; constitui-nos, pois, agora um rei sobre nós, para que ele nos julgue, como o têm todas as nações."

(1 Samuel 8:1-5)

Dessa forma, atendendo aos pedidos dos anciãos, dos líderes dos clãs do povo, Saul foi constituído por Samuel o primeiro rei de Israel e foi o responsável pela consolidação de sua unificação política, preparando o caminho para os grandes reinados de Davi e de Salomão (que construiu o Templo, que tornou-se símbolo da nação, mais tarde). A coisa que impressiona é observar o povo abrindo mão de sua autogestão, de sua liberdade, de sua autonomia, em virtude da unidade política, por meio da força e da institucionalização, usando como justificativa o que hoje chamaríamos de benchmarking (a imitação das melhores práticas), dado que a maior parte dos povos se organizava politicamente dessa forma mais unificada (como as clássicas cidades-Estado). Porém, a História mostrou que esse modelo político não funcionou muito em Israel. O reinado foi uma instituição trágica para o povo hebreu. Em algumas dezenas de anos, a nação se dividiu em duas, sendo que uma delas foi completamente destruída, e a outra se viu escravizada novamente em Babilônia, vítima do mesmo modelo político operado no Egito, o modo de produção asiático. Israel só readquiriu soberania sobre sua terra em 1948, há 64 anos, após o holocausto prepetrado por Hitler.