segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

O empenho e o penhor
















Uma das lembranças mais dolorosas que tenho na vida é do tempo que eu tinha de acordar para ir às aulas de Estatística na UFBA, que começavam às sete horas, e que eu, na maior parte das vezes, chegava às nove. Lembro-me como hoje da minha total ausência de forças para levantar e ir, da minha total falta de motivação. Isso já faz muito tempo, oito anos para ser mais exato, mas essa situação sempre me suscitou a pergunta acerca da palavra "empenho": para que se empenhar? 

Dei-me conta, há alguns minutos, fazendo palavras-cruzadas, que a palavra "empenho" vem da mesma raiz da palavra "penhor". O penhor é uma forma tradicional de empréstimo no qual se dá um bem como garantia, geralmente avaliado em ouro, para ser resgatado futuramente, mediante a devolução com juros do dinheiro emprestado. E eu fiquei muito impressionado me dando conta exatamente: só é possível se empenhar em algo se você reconhece uma promessa dentro. O empenho verdadeiro, para não ser um ativismo histérico ou o disfarce de uma hiperatividade neurótica, só pode nascer da percepção da promessa, do penhor que é a realidade. O trabalho sempre nasce da esperança.

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Reality Show: A Produção da Banalidade













por Ricardo Fonseca

Nas ruas de nossa cidade, a multidão se move sobre largas calçadas, sob edifícios altos como nunca vistos. Numa inquietação surda e dolorosa, busca o sabor do dia presente. Sedenta de fortes excitações, lota os cinemas, os bares, os estádios. Atualmente, os reality shows brilham como a estrela guia de nossas vidas tupiniquins. Programas como Big Brother proliferam e ganham novas edições, atraindo cada vez mais a audiência, o que faz a alegria dos meios de comunicação e consagra a derrocada humana através da banalidade.
Um certo poder cultural, antes que político, ataca o homem, nivelando por baixo seus desejos de verdade e de justiça, de felicidade. Exaltam-se certos valores morais e sociais segundo as modas do momento e nega-se a possibilidade de realização da pessoa na sua verdade e no seu destino. Nega-se, de fato, a possibilidade de um destino último e pleno ao qual tende o desejo humano.
No achatamento do "desejo" em tantos desejos imediatos, determinados pela máquina do consumo, reside o desnorteamento dos jovens e o cinismo dos adultos. Assim, o poder da comunicação se torna instrumento para a indução cruel de determinados desejos e para a supressão de outros. Entre estes o desejo do absoluto, da justiça, da solidariedade. (...)
Quando o "eu" não é escravo, é capaz de encontrar outras experiências e de ser criador de um justo clima de democracia. A atenção à verdade do eu cria um movimento entre os homens desejosos de mudar a sociedade e as suas estruturas, para torná-la digna morada para todos (segundo a verdadeira imagem da pessoa humana).

Este reencontro com o seu verdadeiro eu é o cristianismo: um encontro com uma humanidade excepcional, excepcional na medida em que corresponde de maneira única - como só é possível a Deus - às esperas e aos desejos do coração. Diferentemente do que hoje nos é dado na televisão meus amigos, esta é uma realidade diversa e melhor que vem ao nosso encontro para que a grandeza chegue, se Deus quiser, como um belo dia.

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

A novilíngua orwelliana e a perseguição a Bento XVI





















George Orwell

Uma das coisas mais descaradas, mais estapafúrdias, mais criminosas e delinquentes que eu vi nos últimos meses, mais difamatórias, mentirosas, mesquinhas e um total serviço à desinformação, ao emburrecimento, à ideologização e à inutilidade foi a notícia, amplamente divulgada na mídia e viralizada quase ao infinito pelo Twitter, foi a imensa polemização da suposta declaração do papa de que o casamento gay seria uma "ameaça ao futuro da humanidade". Eu fiquei muito impressionado com a suposta frase, e especialmente em relação à desinformação e ao ódio desenfreado contra o Papa e contra a Igreja. No fundo, este é um ódio do poder contra quem, em plena pós-modernidade relativista, ousa chamar a nossa atenção não para si próprio (pois sabe muito bem que vai ser odiado sem razão por afirmar certas coisas), mas para o nosso próprio coração, que é sede inexorável de verdade e justiça, de beleza e liberdade. Contra um mundo que se delicia no pastiche e no repeteco pós-moderno do velho travestido de novo, Bento XVI ousa chamar a atenção para aquilo que não envelhece nunca. E paga o preço por isso, marginalizado, em pleno mal-estar da pós-modernidade.

Pois bem: indignado com a situação, e depois que eu li as cínicas declarações, inclusive de muitas "celebridades" no Twitter, e crendo, como nos ensina o Estado de Direito, que todos nós somos inocentes até que se prove o contrário (e não o contrário como nos ensinam os mestres da suspeita, Marx, Nietzsche e Freud, de que todos são culpados até que se prove o contrário, e que a realidade não é o que aparenta ser, inaugurando a cultura da suspeita e do medo em relação ao real e à vida), fui então à fonte: o que, afinal, disse o Papa? (pois eu pensei: o Papa não é tão leviano a ponto de dizer que o casamento gay ameaça o futuro da humanidade, pelo simples fato da maioria esmagadora da população ser heterossexual). Lido o texto (muito bom, por sinal), eis que surge a declaração do Papa:

"as políticas que atentam contra a família ameaçam a dignidade humana e o próprio futuro da humanidade."

Ei-la a frase acima, foi exatamente o que o Papa disse. Depois de estudar análise do discurso, Michel Foucault, o não-dito e outras coisas mais (como fiz para a minha dissertação de mestrado), posso dizer que é uma interpolação gigantesca dizer que o Papa falou que "o casamento gay é uma ameaça à humanidade".

Todo esse fuzuê com uma declaração que simplesmente inexistiu (porque cada um que teve ou tem uma família, para negar a afirmação do Papa, tem de ir contra a própria experiência, ao negar a importância fundamental do próprio pai e da própria mãe para o desenvolvimento de suas próprias vidas) me lembra o que George Orwell já profetizou há algumas décadas sobre a "novilíngua":  o poder que dominaria a sociedade começaria inventando uma nova língua, uma nova linguagem, mudando a forma das pessoas falarem e pensarem, impedindo as pessoas de pensarem e agirem por si próprias. O poder, invisível e difuso nestes tempos pós-modernos, líquido, mas onipresente, é como um Panóptico que a todos controla, do alto da sua Torre de Vigia. Uma meia-dúzia de agências de notícias, financiadas pelos grandes trustes que controlam as comunicações no mundo inteiro "criam" e divulgam notícias, espalhando-as pelo mundo afora. Para muitos, não existe a "verdade". A "verdade" é algo inatingível, o que existe é a minha versão dos fatos, a minha opinião, a minha posição. Em relação a Bahia e Vitória, Corínthians e São Paulo, até que dá um pensamento assim, mas isso não coaduna quando se trata da estrutura da realidade e da linguagem do ser. A novilíngua parte do princípio de que não existe verdade, só discurso. E é muito interessante que Michel Foucault, filósofo que estudou o poder nos anos 60 intercambiava as palavras "discurso" e "poder". "Quem controla o discurso controla o poder", diz Foucault.

Hoje, a guerra é travada pelo controle do discurso, dentro do discurso. O discurso é o palco da guerra no século XXI, e por isso o hipertexto é uma grande trincheira de batalha.  "Verdade" é a coisa que menos importa neste momento de mal-estar. Mas a verdade é como uma rocha. A sua característica é a sua durabilidade; ela permanece apesar de todas as intempéries que a atingem. Qualquer um para negar Bento XVI tem de negar a própria experiência que fez na vida, de ser gerado por uma mulher, e criado por um pai e uma mãe. Isto é um fato,  porque a verdade existe e se faz transparente na experiência, não sei a razão para tanto ódio disseminado. O Papa não atacou os gays, somente defendeu a família, defendeu a si mesmo e a cada um de nós. Mas quem prega o ódio ao Papa não ama nem os gays, nem as famílias, nem a si mesmos, não ama ninguém, só ama o poder e quer a todo custo controlar as mentes e os corações e estabelecer sob os próprios pés um rebanho de criados dóceis, que trocaram a sua liberdade pelo pão e circo da pós-modernidade.